As Faces da Lua
4 As famílias e a menina raposa.
Notas iniciais
Eram 15h em ponto quando Pedro saiu da sala com sua mochila. Não estava sentindo-se confortável para continuar naquela sala, tendo uma aula de desenho técnico. Estava caminhando pelo corredor que ligava todas as alas desde a alfa, beta, gama até a ômega e etc. Distraído em seus pensamentos, não se deu conta que vinha alguém em sua direção até esbarrar contra ele.
— Eita, já percebi que o tempo está fechado aí em baixo. — Falou amigavelmente uma voz conhecida.
Quando Pedro se recompôs e olhou direito para o outro, percebeu que havia esbarrado com Tiago, o garoto que havia conhecido no dia anterior. Parecia fazer muito tempo desde que falara com ele pela última vez, no ponto do ônibus.
— Er, oi, Tiago. Desculpe, estava distraído. — Se desculpou, um tanto sem jeito.
— Relaxe, está tudo bem. Aliás, como você está? — Quis saber.
— Eu? Ah, estou bem. E você, como está?
— Bem. Soube o que aconteceu ontem. Sinto muito, sei que ela era importante para você. — Fez uma pausa, como se escolhesse a dedo a próxima palavra para usar. — A propósito, se precisar de algum lugar para ficar, eu moro sozinho. Tenho um quarto vago. Se você não importar em dormir no chão… — Falou sorrindo.
— Não precisa, estou bem. Já tenho onde ficar. A propósito, com tanta coisa acontecendo ainda me apareceu uma garota meio doidinha. Você sabe como elas são… — Riu lembrando-se de Marcela e da forma como pedira uma carona.
— Na verdade eu não sei. Sou gay. — Tiago olhou para o chão, tentando não ficar constrangido por não compartilhar a experiência.
— Ué, então deve saber como são os caras doidinhos. Não sabe? Vai dizer que não existem caras assim, aposto que existem aos montes. — Pedro cutucou o outro amigavelmente, para disfarçar a sua falta de educação.
— Claro que existem. — Riu. — Mas eu gosto de pessoas assim. Sabe, é como se vissem o mundo de uma forma diferente, e, tem coragem de fazer coisas que queremos mas temos receio pelo que pessoas como nós mesmos vão pensar. Acho que ficou confuso, mas é só minha opinião.
— É, ficou confuso. Explique melhor. — O jovem ergueu as sobrancelhas, realmente não entendia.
— Sabe, quando andamos pela rua, por exemplo, e vemos um cachorro ou gato fofo. Imediatamente nós vamos falar com o bichinho, independente de estar ou não com seus donos. Por que não fazer isso com as pessoas também? Foi o que eu quis dizer. Se você vir alguém bonito, vá lá, fale com ele. O não, você já tem. Vá em busca do sim. — Tiago fez um gesto engraçado com as mãos que lembrava o grito do Ipiranga.
— Certo, certo. — Riu. — Acho que consigo entender o que você quis dizer.
Tiago sorriu novamente e puxou o celular do bolso, verificando a hora. Em seguida, ajeitou a mochila nas costas e recolocou o celular no bolso.
— Queria conversar mais, Pedro, você é legal. Mas tenho de ir, meu ônibus passa em cinco minutos.
— Você não tem aula?
— Fomos liberados. — Deu de ombros. — Até depois.
Pedro ficou em silêncio observando o outro se afastar quando teve uma ideia. Ele mesmo não queria mais ver aula alguma naquele dia e muito menos voltar para aquela casa onde todos pareciam desconhecidos e distantes.
— Espere, Tiago. — Chamou, fazendo o outro se virar, já no meio da escadaria. — O que acha de irmos a praia, beber alguma coisa?
— Que? Você não teria aula agora? — Ergueu as sobrancelhas ao perguntar.
— Tenho. Mas não vou. — Riu.
— Posso considerar como um encontro? — Perguntou com um sorriso torto.
— Não. — Respondeu ao mesmo tempo que se aproximou dele, continuando a descer as escadas.
— É, eu imaginei.
Os dois riram e caminharam lentamente até o corolla preto, que estava estacionado em baixo de uma mangueira. Pedro deu a partida no carro e dirigiu em direção ao supermercado mais próximo, para comprar a bebida e alguns salgadinhos, depois, rumaria para a praia.
***
Eram 17h quando os dois puseram os pés na fria areia da praia. O sol começava a baixar, preparando-se para se pôr. Pedro havia estacionado o carro próximo a areia da praia, de forma que quando escurecesse, ligaria o farol para iluminar a orla. A praia estava semideserta, apenas algumas pessoas caminhavam de um lado para outro.
O jovem sentou-se, acompanhado de Tiago com várias sacolas, no chão. Logo em seguida pegou, de dentro de uma das sacolas, uma garrafa de vidro transparente, mostrando o conteúdo que estava dentro da garrafa, que também era transparente.
— Já bebeu cachaça? — Perguntou a Tiago.
— Uma vez. Faz tempo. Não gostei na época. — Sorriu, olhando para o mar.
— Ah, aposto que não era das boas. — Riu.
Pedro abriu a garrafa e deu um bom gole, de uns dois dedos, do líquido. Quando afastou a garrafa dos lábios, entregou-a a Tiago, que pareceu não ter certeza de querer beber, mas, terminou bebendo do mesmo jeito.
— Sabe, — Pedro começou, entre uma golada e outra. — a vida as vezes prega peças na gente. — Já haviam bebido uma garrafa e meia, e, o garoto começava a falar coisas um tanto sem sentido.
— É, eu sei. É complicado. Vou ligar os faróis, está ficando escuro. — Tiago levantou-se, um tanto cambaleante, e foi até o carro.
Pedro, aproveitando aquele meio tempo sozinho, olhou para a garrafa com o rótulo azul, em suas mãos, ainda pela metade. Logo em seguida, colocou-a em sua boca e começou a beber vorazmente. O líquido, que descia de forma ardente, parecia despertar algo dentro dele. Algo que ele não tinha lembranças de ter sentido antes. Era algo… Bom. Excitante. O jovem colocou a mão em sua intimidade e a apertou com determinada força, sentindo-a crescer e ficar cada vez mais rígida.
A garrafa estava começando a ficar vazia quando ele sentiu. Era um calor intenso que percorria seu corpo, como se houvesse bebido fogo líquido. Pedro largou a garrafa no chão, de qualquer jeito e se levantou, demasiadamente tonto, quase sem conseguir ficar em pé. Sua cabeça latejava e seu corpo vibrava com aquela nova sensação. O que estava acontecendo?!
— PEDRO! PEDRO, O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — Tiago gritou atrás de si.
O jovem olhou na direção em que a voz parecia vir. Seus instintos estavam aguçados. O cheiro do outro chegava até ele com facilidade e estava bom, não, não era essa a palavra… Estava… Delicioso.
— Calma, Pedro, você está me assustando. O que é tudo isso?!
Então ele saltou.
***
Estava quente. Tão quente que Pedro sentia como se seu corpo houvesse sido removido de uma frigideira. E aquele gosto… Ferrugem? Não… Sangue! Era gosto de sangue! O que havia acontecido? Onde Tiago estava? Será que eles tinham sofrido um acidente? O jovem não lembrava. A única coisa que tinha em mente eram alguns flashes.
Gole após gole… “...pedro, vou ligar os faróis...” … “PEDRO!”… calor, prazer… dor… agitação…
O que havia acontecido ao certo? Pedro abriu os olhos lentamente, esperando ver o sol alto em cima de seu corpo. Não foi o que viu. A noite estava escura e o céu estava estrelado, como uma pintura. A lua estava absurdamente linda e minguava em mais um ciclo. O calor do corpo do jovem já parecia se esvair mas sua cabeça ainda latejava o irritando.
— Acordou, bela adormecida? — Falou uma voz feminina, pouco atrás dele. Marcela.
— Marcela? O que está fazendo aqui? O que aconteceu? — Perguntou.
— Tem muita coisa que o Gustavo não contou, não é? — Ela riu. — Sempre assim. Com aquele mesmo papo de “tudo tem sua hora”. E deixa que a gente se foda.
Suspirou e deu um gole numa garrafa, uma das garrafas que Pedro havia comprado. Já passava da metade e ela não parecia bêbada.
— Cadê o Tiago? — Quis saber.
— Ali. — Ela apontou par o mar, onde Pedro pôde ver o amigo voltando do mar. Em seu braço tinha uma mancha vermelha, de onde saía um pouco de sangue.
— O que aconteceu? — Pedro perguntou, quando o outro chegou.
— O que aconteceu, Pedro? Vou contar. — Marcela quem respondeu.
— Mas você nem estava aqui. — Ele falou, revirando os olhos.
— Estive com você o dia inteiro, agora posso falar? — Ela esperou os dois se acomodarem e olharem para ela antes de começar. — Primeiro eu queria dizer que Tiago é corajoso, por sair com um cara como você e sortudo por continuar vivo. — Ela sorriu de canto, o semblante de Tiago não apresentava surpresa. — Bom, como sabem, no céu existem diversas constelações, e, a lua. O instituto e todos os que pertencem a ele, são filhos de famílias com sangue da lua.
— Como é? — Pedro perguntou, rindo.
— Pedro, deixe ela falar. — Tiago o censurou, amarrando a camisa no braço, onde um corte, não muito profundo, estava aberto.
— Obrigada. Bom, continuando. Existem quatro famílias: Crescente, Minguante, Nova e Cheia. Cada uma dessas famílias possui a sua própria característica e o sangue sagrado. Os protetores são as próprias estrelas, e, como sabemos, as estrelas não brilham para sempre, elas se apagam para renascerem como outras. É por isso que nossos protetores morrem.
— E os nossos pais, onde estão? — Pedro quis saber, agora interessado.
— Nossos pais viveram a milhares de anos atrás, quando a terra nem existia ainda. Não existia divisões entre a lua, apenas a cheia. As famílias começaram a brigar por partes dela e acabaram dividindo-a em quatro. Seus filhos acabaram sendo enviados para a terra, quando aconteceu o big bang. Nos adaptamos das mais diversas formas possíveis, desde os dragões até os humanos, que são os que dominam a terra hoje em dia.
— Então quer dizer que todos os seres humanos são filhos da lua? — Dessa vez foi Tiago quem perguntou.
— Não. Apenas imitamos a evolução humana, somos diferentes.
— Qual a sua família, então? — Pedro quis saber.
— Sou da família Minguante.
— O que isso significa?
— Posso desaparecer, ficar invisível. — Ela sorriu. — Entre outras coisas. Cada fase da lua tem particularidades. A lua cheia, por exemplo, é a famosa lua dos lycans.
— Como posso saber a que família eu pertenço? — Pedro perguntou.
— Bom, é algo que só a sua evolução pode revelar. Mas, pelo que vi, você tem traços de um lycan.
— Lycan?
— É, Pedro, Lobo. — Tiago respondeu.
Era muita loucura para um jovem só. Ele tinha uma espécie de lobo vivendo dentro dele?
— Então a lua cheia é a dos homens lobos, a minguante é dos invisíveis… E a nova e a crescente? — Novamente, Tiago perguntou.
— A lua nova é dos noturnos, que vivem como morcegos. A crescente é a dos que tem força, como leões. A lua minguante é a lua dos astutos, como as raposas. E a lua cheia é dos que possuem uma mistura de todos, os lobos.
— Então seria a família mais poderosa? — Pedro perguntou, curioso.
— Não necessariamente, mas, é considerada a família alfa. A crescente é a dos betas, a minguante dos gamas e a nova dos ômegas. É como a nossa sociedade sempre se organizou.
— Mas, e em caso de eclipse? — Tiago perguntou, chamando a atenção dos dois.
— Tem uma lenda que diz que nasceu apenas um descendente dessa família e ele teria a força das quatro famílias. Mas é apenas uma lenda.
— Então, fui eu quem feriu o Tiago? — Perguntou.
— Sim, Pedro. O instituto vai ajudá-lo a controlar essa força que tem dentro de você. As transformações são inevitáveis e confesso que as vezes eu peco no controle dos meus instintos de raposa, mas, tem de ser persistente.
— Não pedi para estar nesse mundo.
— Ninguém pediu, Pedro. Mas é um dom. Aceite-o. — Ela suspirou e sorriu amigavelmente para ele. — Tenho de ir. Está tarde. Te encontro lá…
Antes que o jovem pudesse agradecê-la por ter esclarecido algumas coisas ela sumiu. Então essa era a nova vida dele? Cheia de perigos e de surrealidade? Ele só queria ser um engenheiro comum, não queria ter de se esconder sempre que a lua aparecia no céu ou até mesmo deixar de beber. Suspirou entristecido.
— Tenho certeza que você vai aprender a lidar com isso, no momento certo. — Tiago falou e quando Pedro ergueu o rosto para observá-lo, ele sorriu. — Estarei do seu lado, Pedro. Vou te ajudar.
— Nem nos conhecemos direito. Por que me ajudaria? — Perguntou desconfiado.
— Está brincando?! Essa história daria um ótimo livro, acha mesmo que vou estragar tudo espalhando seu segredo ou fugindo como um franguinho?
Pedro riu e se levantou, ajudando o outro a fazer o mesmo.
— Vou te deixar em casa. Acho que é o mínimo que posso fazer depois de ter machucado seu braço.
— Machucado? Que nada, essas suas unhas não cortariam nem uma fatia de queijo direito.
Mesmo que pela curiosidade do garoto em saber no que toda aquela história os levaria, Pedro agradecia por telo ao seu lado. Não sabia o que poderia fazer se estivesse sozinho em meio a tanta loucura.
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