As Estações

2 Primavera — Capítulo Dois: Um amigo


Notas iniciais
Depois de ter tido um primeiro encontro nada amigável com Jack, Scott tenta ao máximo se afastar de seu novo colega de classe. Mas, será que todos os esforços do garoto vão servir para alguma coisa? Jack deixará Scott em paz? O que acontecerá com os dois? Fique sabendo disso AGORA!

Era sempre muito frio quando levantava de manhã cedo para ir à escola. O clima na cidade era quase sempre baixo, mas eu não ligava. Era apaixonado pelo frio. Tinha que colocar o despertador sempre às cinco e meia da manhã para ter disposição de levantar às seis. Eu era um cara muito preguiçoso, principalmente nesse horário. Além disso, era totalmente desastrado. Devo ter tropeçado quatro ou cinco vezes enquanto cambaleava até o banheiro para tomar banho. A água? Sorte minha, estava quente. Os pingos estavam queimando minha pele pálida, mas eu gostava daquela tortura. Era a única tortura que eu gostava, para ser mais exato. Fiquei cerca de vinte minutos no banho, sem coragem de sair e ter que enfrentar a escola. Meu sonho era que o tempo milagrosamente acelerasse e eu tivesse terminado o ensino médio. Sorri ao me lembrar do que aconteceu no dia anterior, em como aquele garoto foi otário, e como eu pensei em uma resposta curta e grossa com tanta rapidez. Saí do banho com aquilo na cabeça. Frases como "Fala o que quer, ouve o que não quer" passavam pela minha mente freneticamente. Eu estava orgulhoso de mim mesmo. Saí de casa e peguei o ônibus mais cedo, enfrentando a mesma situação de antes: Adolescentes ricos, andando pra lá e pra cá, tagarelando e mostrando seus iPhone's para Deus e o mundo. Um até desafiou o outro, para saber qual dos pais era o mais rico. Venceu aquele que jogou o seu Smartphone no chão, e pisou em cima, quebrando-o em pedacinhos. Virei para trás e vi os destroços do aparelho, assim como vi engravatados rindo e parabenizando o esmagador de iPhone's. Para mim, aquela foi uma competição para saber qual dos pais era o mais burro.

A neve já tinha praticamente ido embora, e eu já não me preocupava com a total limpeza dos meus sapatos. Não até ver a senhora da limpeza me xingando em chinês, pelo fato de estar sujando todo o corredor de lama e neve. Tudo bem, não foi tão ruim assim. Até porque, quando cheguei à sala, meus sapatos estavam mais limpos do que nunca. Procurei meu assento, e organizei minhas coisas em cima da mesa. Olhei para o lado, procurando o garoto otário, mas a única pessoa que eu vi foi um garoto alto e ruivo. Ele tinha um rosto rosado, por isso eu não conseguia saber se ele estava com vergonha ou se tinha sardas demais, mas que ele era ruivo, disso eu tinha absoluta certeza.

— Ei, garoto — falei, puxando a manga do meu casaco cinza claro para cima do meu cotovelo — aquilo me deixava com mais músculos, me sentia um pouco mais atraente que o normal —, estendendo-o a minha mão lívida. O garoto assustou-se e se virou para mim com rapidez. Me olhou como se eu fosse um fantasma. Deu um espirro forte e limpou o nariz com a mão esquerda, a mesma mão que ele estendeu para tocar a minha...

— Me desculpe, eu sempre espirro quando fico nervoso — disse ele.

Sorri e retirei minha mão antes que ele pudesse tocá-la. Ele fez o mesmo, só que abaixou o braço como se estivesse em câmera lenta. Um homem alto usando uma boina cinza cheia de brilhos entrou pela porta da frente. Era o professor. Abri minha mochila e tirei o meu caderno, meus óculos de grau, uma régua e uma maçã. Era aula de química, e o professor explicava uma matéria que eu já tinha aprendido no segundo ano. A aula estava chata e eu queria bocejar, mas seria completamente deseducado da minha parte, então simplesmente recostei minha cabeça e virei para o lado. Como estava sentado na última fileira, a que se encostava à parede, eu conseguia ter uma noção de todas as pessoas da sala. As pessoas do fundo eram góticas e emo. Tinha também os indies, que estavam sempre calmos e desarrumados. Os nerds, que olhavam para o professor como se ele fosse o seu Deus. E tinha os otários da classe, aqueles que quando o professor pergunta "Estão me entendendo?", balançam a cabeça dizendo que sim, só para não correr o risco de serem questionados. Alguém bateu na porta. Por um momento eu desviei minha atenção, e vi quando o professor abriu a porta. Jackson e sua turma — Hyler, Bryan, Adam e Luke — adentraram a sala, sentando-se bem longe de mim. Eu estava encarando-o, e ele se virou para mim. Virei meu rosto imediatamente para que ele não me pegasse. Bom, acho que ele tinha percebido, pois quando eu me virei para olhá-lo mais uma vez, ele estava sorrindo de cabeça baixa. Sorri também.

— Eu sou o Nico — disse o garoto, me estendendo a outra mão. Aquela que não tinha tocado o nariz dele. Me recuperei de meu transe hipnótico e dei um leve bocejo.

— Eu sou Dawson — disse para ele, segurando e balançando a mão do rapaz. — Scott Dawson — Nico arrastou sua cadeira para o lado da minha, e juntos fizemos a tarefa proposta pelo docente. Ora ou outra eu olhava para Jackson, que estava sempre rindo com seus amigos.

Só fui perceber que tinha feito amizade com Nico quando vi que passamos a aula inteira rindo, assim como estávamos fazendo no intervalo. Ríamos dos garotos que levavam tapas das meninas, e das meninas que corriam atrás de garotos — elas literalmente corriam. Nos sentamos em duas das quatro cadeiras que ficavam em volta de uma das dezenas de mesas redondas do refeitório. As paredes de vidro mostravam a vista mais bonita que eu já tinha visto em anos: Rosas brotando da neve. Não exatamente da neve, do chão. Mas a neve continuava ali, mesmo que escassa. Minha vontade era de sair correndo, quebrar uma das janelas e pular no meio daquela mistura de gelo e flores. Nico interrompeu meu momento de reflexão para dizer que pegaria o lanche. Então ele se foi em direção ao inferno, digo, a fila da refeição. Me virei para trás e o vi pegando uma bandeja, voltei a olhar para frente e levei um susto. Jackson, o garoto otário, estava a alguns metros de mim. Apenas quatro mesas nos separavam. Ele estava com seus amigos, rindo, e o sorriso não saía de seu rosto quando ele olhava para mim. Eu o olhei com cara de "Perdeu alguma coisa aqui?". Peguei minhas coisas e fui para outra mesa. “Garoto louco”, pensei. Não tinha certeza se ele era realmente louco, até vê-lo do outro lado do refeitório, em cima de uma das mesas com cinco ou quatro amigos. Todos eles com suas roupas de beisebol sujas de terra. Estavam dançando? O que estavam fazendo? Jackson estava rindo, enquanto os outros faziam palhaçada. E eu, rindo ao perceber que quanto mais rica a pessoa é, mais otária ela fica. Meu momento de observação foi interrompido pela voz frágil e rápida de Nico.

— Você quer minha maçã? — ele indagou, se assentando e repousando seu tabuleiro na mesa. Entregou-me a fruta e começou a comer o que restava em sua bandeja. Era algum tipo de sanduíche natural, ou pão com alface, chame como quiser. Eu mordi um pedaço da maçã, enquanto ele falava coisas aleatórias sobre como ele era inútil por ter errado uma questão tão simples na prova de física. Eu não estava nem aí para as notas dele, eu só queria comer a porra da maçã.

— E então, você faz algum esporte? — perguntei a ele, tentando finalmente acabar com aquele assunto chato de fórmulas e mais fórmulas que ele não conseguia gravar em sua cabeça sardenta.

— Sim, eu jogo xadrez — ele respondeu, tomando um pouco daquele suco de caixinha barato com a boca ainda cheia de comida. Consegui ver quando ele abriu a boca para engolir um pedaço de alface que estava escapando.

— Uh... Oh... — eu disse, engolindo um pedaço de maçã muito grande, quase vomitei em cima da mesa. — É um ótimo esporte... Esporte... É...

Ele sorriu para mim, acenando a cabeça como se não tivesse percebido minha ironia. Pela primeira vez eu notei que detrás daquele garoto ruivo e desajeitado, havia um cara bacana e extrovertido. Eu já tinha decidido. Nico seria meu novo companheiro, querendo ele ou não.

A aula tinha acabado e eu não tinha visto Jackson na sala de aula nos dois últimos horários. Perguntei a Nico o motivo dos jogadores de beisebol não irem às aulas com frequência. Ele me disse que por serem atletas, todos tem uma ajuda nas notas no fim do semestre. Ao dizer isso, ele me lembrou de que eu precisava fazer minha inscrição para o time de natação do colégio. Me despedi do meu novo amigo com um abraço forçado porém amigável, e corri em direção ao local que meu crachá indicava. Administração de esportes, isso. Abri a porta e me deparei com uma senhora atrás de um balcão. Detrás dela havia dezenas, não, centenas de papéis arquivados em prateleiras de madeira. Se eu não soubesse onde estava, chutaria que era uma biblioteca pela decoração impecável. Parece que um artesão esculpiu com as próprias mãos as quinas e bordas das paredes. Estendi o dedo em uma altura não totalmente desesperadora, mas de um jeito que demonstrasse minha pressa. Pude ver pelo crachá dela, que o nome da senhora era Lady Boo — imediatamente imaginei Lady em clubes de strip tease, dançando em pole dance. Me arrependi de ter pensado nisso, acho que a imagem da senhora Boo chacoalhando os ombros enquanto dobrava o seu corpo para frente nunca sairá da minha cabeça, nunca —, e ela estava atendendo um garoto que deixava os fortes braços a mostra, pois usava somente uma regata branca e um casaco azul amarrado na cintura. Talvez ele tenha tentado combinar com os sapatos pretos e a mochila cinza, mas não deu totalmente certo.

— Eu preciso, não tem nenhuma vaga? — o ouvi perguntar..

— Não, infelizmente todas as vagas estão preenchidas — ela respondeu. Sua voz era tão bonita e delicada, que se eu fechasse os olhos, imaginaria uma morena com olhos castanhos claros e cílios longos. Felizmente, ou infelizmente, ela era completamente o contrário. Fora os seus cílios postiços, que eram realmente longos.

— Tudo bem, eu vou dar um jeito — ele disse. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, o homem se virou de uma só vez. E para minha surpresa, era Jackson. Ele me olhou com indiferença, e eu o olhei da mesma forma. Acho que ele estava nervoso de novo, então simplesmente o ignorei. Jackson passou por mim com força, quase levando meu ombro junto com ele, e se não fosse o meu ódio a primeira vista por aquele garoto, eu elogiaria o seu perfume. Ajeitei-me e fui até a simpática Lady Boo e me apressei em dizer:

— É... Eu sou Scott Dawson, e queria saber sobre minha vaga para natação. Eu sou novo na escola.

— Oh, sim! Claro. Vou pegar para você — ela se virou e subiu em um banquinho com uma facilidade que eu não tinha. O banco se movia de um lado para o outro, assim ela conseguia visualizar todas as pastas, em todas as prateleiras. Escolheu uma grande maleta transparente, e desceu do banco com um pouco de dificuldade. Colocou a mala em cima do balcão com força, jogando poeira no meu rosto. Sacudi uma das mãos para abanar a sujeira que pairava no ar. — Scott Dawson... Deixe-me ver... Hm... AQUI! ACHEI!

— Isso quer dizer que a vaga está mesmo reservada para mim? — indaguei, ainda abanando a poeira que insistia em entrar pelo meu nariz.

— Sim, querido. Tome esse papel, suas aulas começam semana que vem. — ela disse, sendo mais gentil com uma frase do que eu fui a minha vida toda.

Peguei o papel da mão enrugada de Lady Boo, e comecei a ler. Era uma cláusula que mostrava os direitos e deveres dos atletas da Laurence High School. Entre os direitos, tinha: Lanche totalmente grátis, casaco do colégio, direito a 3 recuperações a mais do que alunos comuns e etc. Os deveres eram poucos, mas o que me chamou mais atenção foi: Equipe de Apoio. Era um tipo de serviço que os atletas do colégio faziam, para mostrar que além de bons esportistas, também tinham um bom coração. Fiquei satisfeito com o que tinha conseguido, e sorri abertamente para Lady Boo, que sorriu de volta para mim. Guardei minha valiosa folha na mochila e antes de fechá-la, me virei para a agradável senhora e perguntei, assim, bem direto:

— Você pode me dizer o que Jackson estava procurando?

Ela me olhou com uma cara doce, mas ao mesmo tempo amarga. Como se por detrás dos seus olhos calmos e singelos, uma pessoa nervosa berrava para mim "Isso não é da sua conta, idiota", por um segundo me arrependi de ter perguntado aquilo. Me arrependi mesmo. Mas, mais uma vez, Lady Boo se mostrou paciente, e apenas disse:

— O senhor Parker queria uma vaga no time de natação.

Notas finais
Segundo capítulo. Inicialmente eu pensei em postar dois capítulos por dia, mas acabei me lembrando que não tenho essa disponibilidade todos os dias, então provavelmente será apenas um capítulo por dia. Agradeço a todos que estão lendo, amo vocês!! s2