As Estações
3 Primavera — Capítulo Três: Reviravolta
Notas iniciais

A noite anterior tinha sido péssima. Fiquei pensando no que Lady Boo tinha dito, sobre Jackson estar procurando uma vaga no mesmo espaço que eu. Saí de casa cedo naquela manhã, e permaneci calado durante o trajeto até a escola. Cheguei no colégio e fui para sala de aula. Ainda estava com sono. E como não havia chegado ninguém da minha turma, coloquei minha mochila em cima da mesinha e deitei a cabeça nela, apagando rapidamente. Acordei, provavelmente dez minutos depois, com alguém cutucando meu ombro. Levantei meu rosto e vi que era Nico. Ele usava um suéter verde, e pela primeira vez, eu pude ver a cor dos seus olhos, que também eram verdes. Ele estava bonito, aliás, eu não conseguia saber se ele era realmente um garoto bonito ou se apenas estava arrumado. De qualquer forma, ele estava atraente naquela manhã. Olhei no relógio que ficava em cima da lousa, indicando exatas 7h10min da manhã. O professor não havia chegado ainda, e provavelmente não chegaria. Teríamos um horário vago, ótimo.
— Você tem um sono e tanto — disse Nico, dando um sorriso tão largo que covinhas apareceram em suas bochechas.
— Dormir, comer e ser sincero... — dei uma pausa para me ajeitar na mesa, passando os dedos entre meu topete desarrumado, que só ficou ainda mais bagunçado — é o que eu faço de melhor.
Puxei uma cadeira e me sentei ao lado do ruivo, que ficava falando e falando sobre suas experiências RPGistas, como se eu estivesse interessado. Para não magoá-lo, eu assentia com a cabeça e sorria de vez em quando. Era o melhor que eu podia fazer no momento. O tempo passava devagar, como se estivéssemos todos em uma cena, onde o filme roda em câmera lenta. Jackson estava deitado com a cabeça no colo de uma das garotas. Ela fazia carinho em seus cabelos. Ele olhava para mim, e eu poderia jurar que ele havia piscado algumas vezes. Eu sentia inveja daquela garota. Por mais que Jackson tenha sido um ogro comigo, eu sentia atração por ele. Sentia mas não queria admitir. Uma, duas, três... O ponteiro do relógio estava tão lento, que eu até achei que alguém tinha voltado as horas e parado o tempo. Nico já tinha se calado, agora ele estava falando ao telefone. Acenou com uma mão pedindo para eu o esperar, levantou-se dali e saiu da sala de aula com o aparelho grudado em sua orelha. Ótimo, meu único amigo havia me abandonado no meio daqueles mesquinhos irritantes. Depois de tentar dormir mais uma vez, me virei e vi Genevieve e Luke. Sabia o nome dos dois, pois o enorme retrato dourado na sala da direção deixava bem claro quem era o rei e a rainha do baile de inverno por cinco anos consecutivos. Ela me encarava com um sorriso amarelo, como uma típica garotinha forçando amizade. Revirei os olhos e me deitei na carteira de Nico. Alguns minutos se passaram, e eu ouvi a rainha do baile falando algo parecido com "achei que essa escola fosse para pessoas de porte, e não para derrotados", me virei para ela, que agora colocava suas unhas pintadas de vermelho escarlate na boca, tentando seduzir alguém. Só tentando mesmo. Suas amigas estavam rindo como hienas, todos estavam olhando para mim. Pensei em jogar a mesa na cabeça dela, mas eu era educado demais para fazer isso. Olhei para o local onde Jackson estava deitado, mas ele não estava mais lá. Me levantei da cadeira, andei calmamente até Genevieve. As risadas iam parando à medida que eu me aproximava da garota. Até que finalmente todos ficaram em silêncio, me observando novamente. Não com o mesmo olhar de antes, agora me observavam como se eu fosse um juiz prestes a dar uma sentença. Arqueei minhas sobrancelhas e proferi, calmamente:
— Se esta não é uma escola para derrotados, o que você está fazendo aqui?
Todos se calaram, inclusive as amigas de Genevieve, que agora mexiam em seus celulares para disfarçar. Parecia até que os mosquitos tinham parado para ouvir uma resposta dela, pois todo o barulho tinha cessado. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas desistiu logo em seguida. Acho que foi o suficiente. Me virei de costas, e voltei andando tranquilamente para o meu lugar. Conseguia ouvir Genevieve brigando com Luke, pedindo que ele a defendesse. Ele não disse nada, assim como nenhum outro aluno da classe. Eu tinha feito um pequeno estrago na reputação de rainha dela, e estava adorando isso.
Era aula de educação física, e por mais que eu amasse esporte, jogar queimada nunca foi a minha brincadeira preferida. Eu não gostava de nenhum esporte que envolvesse bolas, arcos, bastões, fitas, argolas, terra, entre outros. Meu time era composto por eu, Nico, Luna (uma garotinha de cabelos cacheados, bastante simpática), Brandon, Tyler e Hyler. Girei meu rosto para frente, tentando ver quem eu enfrentaria. Luke — o garoto metido a fortão, com um boné para trás e blusa do time de futebol americano do colégio, também conhecido como namorado de Genevieve -, Colton, Blaine e... Jackson? Acho que era ele. Estava de costas, mas eu o reconheci pelos mesmos cabelos loiros, e bom... Por outras coisas que eu havia reparado anteriormente. Ele se virou, e eu me peguei encarando o menino por alguns longos segundos.. Nico deu um tapinha em minhas costas, anunciando que o jogo já ia começar. "Tá, tá, eu já sei" pensei comigo mesmo. Beijei minhas mãos, e observei o time adversário novamente. Jackson estava sorrindo maliciosamente, como se já fosse o vencedor daquele jogo. E talvez fosse. O juiz me chamou no meio da quadra, assim como chamou Jackson. Nos encaramos como se fôssemos caçador e presa, no caso, eu era a presa. Ele tinha um olhar dominador, com o qual fazia eu me sentir inferior ou qualquer coisa parecida. O homem de boné perguntou se eu queria bola ou quadra, e eu escolhi a quadra. Os meus parceiros colocaram as mãos na cabeça em sinal de decepção, e eu me senti arrependido daquela decisão até os cinco segundos seguintes. O juiz apitou, e Jackson estava batendo a bola no chão como se fosse jogar basquete. Eu coloquei minhas mãos no joelho e sussurrei "Pode vir com tudo", sem um alvo em especial. Jackson cuspiu no chão, colocou uma perna pra trás e correu até o meio da quadra, mirando e acertando a bola no peito Tyler em um salto perfeito. O garoto despencou no chão, e eu não pude fazer nada além de rezar pela sua alma. Jackson tinha uma mão muito forte, isso era verdade. "É melhor você ter plano de saúde" gritou Luke, rindo do garoto que agora se contorcia de dor no chão. Nico pegou a bola que estava no chão, e mirou no traseiro de Colton, acertando-o em cheio. Ele não caiu no chão, mas ficou bastante enfurecido. Saiu da quadra com os punhos cerrados. O ruivo veio até mim e bateu em minhas mãos, beijou meu rosto com o calor do momento e gritou para todo o time “VAMOS LÁ”. Vi quando Jackson me olhou com uma cara feia, e eu achei engraçado. Fiz uma prece rápida, e me entreguei de verdade ao jogo. Desviei quando foi preciso, corri atrás de todas as bolas possíveis e acertei quase todos do time adversário. Todos, menos Jackson. Agora era só eu e ele. Jackson estava com a bola, apertando-a entre os dedos como se fosse um pedaço de carne. Ele havia tirado a camisa, e pingos de suor caíam de sua testa, assim como os que desciam da minha. Ele sorriu amargamente, e sibilou algo parecido com "Aí Scott, essa é pra você". Eu sabia que ele iria me acertar, ali e agora. Eu só não queria que fosse verdade, até pedi a Deus que me levasse. Jackson começou a correr, e eu continuava parado. Eu não sabia se estava paralisado de medo, ou hipnotizado pela maravilhosa vista que corria em minha direção. De qualquer forma, nada impediu que ele atingisse a bola com toda a força em minha têmpora. Tudo ficou escuro.
Estava deitado em um colchão fino sobre uma cama de ferro. Abri os olhos com calma, e tudo o que e pude ver era uma coisa: Jackson. Ele estava ali, sentado em uma poltrona preta que ficava a alguns metros cama onde eu estava. Eu tinha entendido tudo: Jackson acertou minha fonte com tanta força, que eu desmaiei. Só não consegui entender o motivo de ele estar ali, comigo. Mas seja lá o motivo, eu estava gostando daquilo. Gostei de saber que ele estava ali, me observando enquanto eu descansava. Ele ainda não vestia nenhuma camisa. Talvez porque tivesse acabado de sair do vestiário, ou só por vontade de mostrar seus músculos definidos. Eu não estava prestando muita atenção nisso, se bem que meus olhos não olhavam para outra direção. Ele percebeu que eu havia acordado e se levantou com calma. Deu alguns passos até mim, e a cada passo que ele dava, eu sentia como se o ar ficasse mais pesado. Ele colocou a mão em minha testa. Agora sim eu estava respirando tijolos.
— Está tudo bem? — ele perguntou, sorrindo como sempre. Eu pude perceber o sotaque alemão em sua voz, ainda que embolado. Vi que na verdade ele estava tirando o suor da minha testa com as mãos, limpando em sua bermuda logo em seguida.
— Minha cabeça ainda está no lugar — retruquei. Ele riu, e eu também.
Tentei me levantar, e com dificuldade, me sentei naquela cama barulhenta. Ele ainda estava em pé na minha frente. Eu estava sentindo uma coisa que nunca senti perto daquele garoto: Calor. Não sei se estava realmente quente, ou a visão do corpo de Jackson molhado estava me causando tal sensação. Pedi ajuda com os sapatos, e ele gentilmente os entregou para mim. Lavei meu rosto em uma pia, vesti minha blusa de frio, e peguei minha mochila que estava nos pés da cama. Ele também tinha colocado uma camiseta. Azul safira, a cor dos meus olhos.
— Meu nome é Scott, Jackson — falei, já em pé em frente à porta de saída. O garoto se aproximou de mim e girou a maçaneta, me mostrando o grande corredor, onde alunos passavam com furor.
— Eu sei disso — ele respondeu, escorando sua forte mão em meu ombro. Quase desmaiei de novo. Coloquei minha mão em cima da dele e me afastei um pouco. A mão grossa de Jackson desceu pelo meu ombro, acariciando meu braço. Fui diretamente ao assunto que estava me incomodando.
— Ontem eu te vi na sala de esportes... E você estava procurando uma vaga no time de natação... Por quê? — indaguei, engolindo seco a cada pausa que eu dava entre a frase. Ele me encarou por alguns segundos, e eu pude sentir seus olhos cor de avelã invadirem minha alma. Me arrepiei.
— Eu precisava de notas, e quanto mais esportes você faz, mais chances de conseguir um azul você tem — ele respondeu. Não era a resposta que eu passei a noite inteira imaginando, mas pelo menos esclareceu minha dúvida. Ele não tinha feito aquilo por mim, e agora eu sabia.
— Obrigado, Jackson.
— Me chame de Jack.
O dia letivo já tinha terminado e Jackson, ou melhor, Jack já havia se despedido de mim. Estava indo embora quando eu ouvi um alvoroço no corredor principal. Corri até lá e me deparei com a voz forte de Luke, dizendo algo parecido com "Da próxima vez que seu amiguinho fizer isso com a minha namorada, eu corto você em mil pedaços". Entrei no meio da multidão com dificuldade, e vi que o garoto que ele estava segurando pela gola da camisa, era o meu amigo, o meu companheiro, Nico. Luke levantou o punho ainda mais alto, planejando um soco perfeito. Eu conseguia ouvir os espirros contínuos de Nico, que nervoso, fechava os olhos em desespero. Foi então que eu decidi dar um fim naquilo.
— Por que você não diz isso diretamente para mim, Luke? — todas as pessoas em minha volta se afastaram, liberando espaço para eu chegar até o valentão. Agora eu pude ver que o nariz de Nico estava sangrando, e lágrimas desciam de seu rosto. Eu senti um nojo tão grande naquele momento, que repeti a mesma pergunta outra vez, me segurando para não quebrar a cara daquele garoto com um extintor de incêndio.
— Ora, pensei que estivesse morrido na aula de educação física — ele respondeu.
— Eu não morri na aula de educação física, Luke. Mas eu só vou te dizer uma coisa — dei uma pausa, tirando meu casaco jeans, jogando-o no chão logo em seguida — encoste outra vez em Nico, e eu amasso seu nariz plastificado com tanta força, que você terá que comprar um novo.
Os olhos de Luke se toldaram, pude ver sua feição mudar com rapidez. Algumas pessoas riram do meu comentário, outras ficaram apavoradas imaginando a situação. Ele se virou para Nico e bateu com a cabeça do garoto em um armário. Eu não aguentei, parti pra cima dele. Luke soltou Nico, que imediatamente pegou suas coisas jogadas no chão e saiu correndo pela porta da frente. O valentão veio correndo em minha direção com o punho armado. Com um urro, ele girou sua mão no ar com tanta força, que eu podia jurar que ouvi o corte do vento. Me abaixei nos últimos segundos, fazendo com que o soco do garoto acertasse em cheio um dos armários escolares, causando um barulho estridente. Me levantei no mesmo instante e desferi um soco tão forte, que o estudante foi parar do outro lado do corredor, com a mão em cima do olho. Não perdi tempo e fui em direção ao agressor, e lhe dei um chute entre as pernas, fazendo-o cair de joelhos diante de mim. Suas mãos agora seguravam suas partes íntimas, e sua cabeça estava abaixada. Adolescentes gritavam, alguns jogavam bolinhas de papel, e outros cobriam os olhos para não ver tamanha brutalidade. Eu ainda não estava satisfeito. Outro soco no rosto dele, e lá estava Luke no chão. Me deitei por cima do garoto, e o surrei com mais três ou quatro murros no rosto. Ele revidou. Se levantou do chão me carregando pela camisa, me pressionou contra a parede, dando várias joelhadas no meu estômago. Eu cuspi em seu rosto, e ele me jogou para longe, limpando o rosto logo em seguida. Eu caí em cima de alguém. Tentei acertar Luke com outro soco, mas uma pessoa segurou meu pulso. E essa pessoa era Cairo, o diretor.
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