As Estações
1 Primavera — Capítulo Um: O estranho
Notas iniciais

É a primeira vez, em muito tempo, que eu acordo às 6h da manhã. Estava empolgado para o meu primeiro dia de aula, afinal, eu esperei as férias inteiras para isso. Eu conseguia ver pela janela do meu quarto a neve derretida dando lugar à grama verde e fresca. Me arrastei até o banheiro e tomei uma ducha quente e rápida, como de costume. Terminei o banho e coloquei um roupão, penteei meu cabelo mas ele insistia em continuar bagunçado, tudo bem, eu ficava mais bonito daquele jeito. Desci os degraus da velha escada de madeira, que anos antes, eram cobertos pelo carpete vermelho que minha mãe tanto gostava. Olhei para a mesa do café e respirei fundo. Se meus pais estivessem vivos, com certeza estariam me esperando na mesa com néctar de goiaba, bacon frito, torradas e ovos. Tudo isso para me deixar ainda mais animado com a nova fase que se iniciava em minha vida. Mas eles não estavam. E além de refrigerante, pizza adormecida e comida congelada, a única coisa que eu tinha era a vontade imensa de voltar para a cama, e me sufocar entre as cobertas. Terminei minha refeição com rapidez, e ao ver que já tinham se passado vinte minutos desde que me levantei, subi as escadas novamente e me arrumei o mais rápido possível. Queria chegar cedo no colégio, queria ser o primeiro a entrar por aqueles portões. Não sei se era o medo de ter que enfrentar os olhares curiosos das pessoas quando os corredores já estivessem cheios, ou medo de desistir de tudo e voltar para a minha vida comum de sempre: Trabalhar no Laurence Grill aos sábados e jogar videogame à noite. Mas eu não podia desistir, não mesmo. Era o meu sonho que estava em jogo. Afinal, por qual motivo eu me mudei para a Laurence High School? Sempre que me faço essa pergunta, a resposta aparece em minha mente dois segundos depois. Natação. Esse era o motivo. A minha escola anterior não tinha mais suporte para os atletas de natação, então garantiu com que nós recebêssemos uma bolsa de estudo na renomada escola de mimados, como eu costumo chamá-la.
Já são 7h50min. Estou parado em frente à porta, pensando se realmente devo abri-la ou se devo voltar para a minha cama. Repetia para mim mesmo coisas como "Não é tão difícil assim" "Você sempre foi amigo de todos" "Vamos, Scott". Então eu abri a porta e apertei meus olhos, tentando não ficar cego diante daquele branco ofuscante da neve. Dei alguns passos ligeiros, voltando de costas para trancar a porta. A neve recobria todos os telhados e pesava sobre os ramos das amoreiras mirradas que margeavam a minha rua. Fui andando até o ponto do ônibus escolar, que já estava cheio de nerds com seus celulares de última geração, falando algo sobre uma ninfa assassina que estava assombrando uma família desabrigada. Uau, que otários. Pensei comigo mesmo. O inverno tinha passado, e era possível enxergar os primeiros indícios da primavera nas ruelas do Brooklyn. Olhei para o chão de relance e vi que minhas botas estavam atoladas na neve. Limpei-as minutos depois, quando o grande automóvel amarelo se aproximava.
Era um saco. Todos aqueles adolescentes gritando dentro do ônibus como se fossem os donos do mundo. Eu me juntaria a eles, caso não estivesse usando minha jaqueta de couro preta — me sentia importante demais usando aquilo para me juntar com baderneiros — e meus óculos escuros. Ainda que eu fosse surdo eu conseguiria ouvir a gritaria que aqueles jovens faziam. Dei graças a Deus quando o ônibus parou e, finalmente, pude sair daquele inferno. Olhei para o alto e respirei fundo, tentando identificar onde era a entrada daquele grande prédio de cinco andares. A escola era imensa, como o campus de uma faculdade. À minha esquerda, havia uma grande torre branca com listras vermelhas — no fim daquele dia eu descobriria que na verdade, aquilo se tratava de um farol. Já à minha direita, uma área arborizada e completamente verde. Tão verde que eu senti como se o inverno tivesse chegado ao fim e pulado direto para o verão. Pessoas andavam para lá e para cá, conversando entre si. Pensei em seguir alguns alunos, mas eles estavam indo em direções completamente diferentes. Uns iam para a comprida torre, alguns para o espaço arborizado, outros simplesmente davam meia volta e iam embora. Eu segui em frente, indo em direção ao estacionamento da escola que ficava logo em frente a uma porta de vidro enorme. Avistei a entrada do colégio, e me dirigi até lá. Quero dizer, eu tentei ir até lá. Fui impedido por um Porsche vermelho escarlate que estacionava na vaga à minha frente. Fiquei imóvel por alguns segundos, esperando para ver quem era o dono daquele veículo. Um garoto loiro de óculos escuros, mochila nas costas e camisa branca saiu de dentro do automóvel. O carro era a única coisa que nos separava. Ele olhou para mim, e deu de costas, apertou um botão que fez com que o carro trancasse, adentrando a escola logo em seguida. Me afastei e o segui. Dei de cara com um corredor repleto de adolescentes sorridentes, e já tinha perdido de vista o garoto do Porsche vermelho. Entrei no meio de todas aquelas pessoas e saí em busca de algo que eu não sabia. Após dar muitas voltas, eu segui reto, virando dois corredores acima. Vi uma sala com porta de vidro. Acima dela havia uma placa com a palavra "Direção Geral".
Já faziam 50 minutos desde que eu havia entrado na direção, e Cairo, o diretor, tinha exigido que eu esperasse sentado. Até que não foi tão ruim assim ficar acomodado naquele longo sofá de couro, que eventualmente combinava com minha jaqueta. Em uma estante, havia as dezenas de troféus que a escola tinha conquistado, seja com esportes ou com as típicas competições de comida que aconteciam no verão. Levantei, deixando a mochila no chão. Me aproximei o suficiente para poder tocar as portas de vidro que guardavam as medalhas e afins. Procurei com o dedo indicador algum troféu de natação. Para minha alegria, eu achei. Cinco deles na verdade. Dois eram de prata e os outros de bronze. Estiquei minha mão para abrir uma das portinhas que abrigavam as taças, e para o meu infortúnio, o homem baixinho de barba mal feita apareceu. Era ele, Cairo.
— O que você está fazendo, Spott?— ele perguntou.
— É Scott. E não estou fazendo nada, senhor.— retruquei, mais rispidamente do que o pretendido. Ele segurava alguns papéis em sua mão, e usou como abanador.
— Pegue — sugeriu, entregando as folhas diretamente em minhas mãos. — É o número do seu armário e o da sua sala. As outras folhas são os seus horários, datas de provas e apostilas que deve comprar.
Assenti com a cabeça e peguei os documentos. Guardei a maioria dentro da mochila, deixando de fora somente os papéis em que informavam minha sala e meu armário. Me dirigi rapidamente até a porta.
— Ei, Spott! — ele gritou. — Sua barba... Ela está... Está muito, muito mal feita.
A única coisa que pensei foi "O que você tem a ver com isso?", mas não disse nada. Quero dizer, nada que tenha sido ofensivamente ofensivo. Abri a porta, e antes de me retirar dali, respondi:
— É Scott.
Os corredores já estavam vazios, afinal, o homem me fez esperar por quase uma hora. À essa altura todos já estavam em suas respectivas turmas e eu já havia perdido o primeiro horário. Andei por alguns minutos, deixando que meu “instinto” me guiasse pelos corredores. Subi a escada principal, perfeitamente decorada com as cores oficiais da escola: Branco e vermelho. Dei alguns passos de costas e, assim que me virei, comecei a correr pois já estava na sala "A 144". Estava preocupado com o horário, e por isso olhava no relógio a cada dez passos que dava. Estava perto, eu sabia que sim. Mentira, as placas me informavam que sim. Minha sala era “A133”, e agora eu me encontrava em frente a sala "A 135", então andei de costas e me virei bruscamente, batendo de frente com outra pessoa. Meus papéis caíram no chão, assim como eu. Olhei para cima e tudo o que eu vi foi um garoto de aparência atlética, com uma mochila nas costas, e um casaco do time de beisebol da escola cobrindo uma camisa branca. Era o garoto do Porsche vermelho, só que com uma cara mais amedrontadora. Me levantei sozinho, e o garoto não disse sequer uma palavra. Seja ela "Me desculpe, por favor" ou "Olha por onde você anda, seu otário", nada. Era completamente desconfortável vê-lo olhando para mim, esperando que eu dissesse alguma coisa. Podia sentir que ele queria que eu pedisse desculpas. Eu não era o errado ali, pelo menos não a meu ver. Decidi que precisava quebrar aquele gelo urgentemente. O homem retirou os óculos escuros, revelando seus olhos castanhos claros. Fiquei impressionado. Seus olhos tinham cor de bronze, da mesma cor que eu havia visto em um troféu na direção do colégio. Olhei meu papel e perguntei:
— Você sabe onde é a sala "A 133"? — não esperava uma resposta. Bom, esperava, mas não queria que ele me desse alguma informação. Só disse aquilo para ele entender que eu não pediria desculpas, e que se ele quisesse ir embora, era só ir. Pigarreei, e para minha surpresa, ele abriu sua boca.
— Você não sabe ler? — ele perguntou, apontando o dedo para a sala ao nosso lado, de um modo tão rude e mesquinho, que eu me imaginei quebrando o seu pescoço. De fato, era minha sala. Eu desejei que ele tivesse calado a maldita boca e simplesmente ido embora. Virei as costas e entrei na sala, sem ao menos dizer obrigado. Ele entrou logo atrás de mim.
"Nós somos aquilo que fazemos repetidamente. Excelência, então, não é um modo de agir, mas um hábito." Eu nunca achei que filosofia pudesse ser tão entediante, até conhecer o meu novo professor. Seu nome era Yogo Toqui, um coreano que prefere pensar do que comer. Eu sabia disso pelo fato dele ser extremamente magro e silencioso. Ele ficava enchendo a turma com seus slides chatos e frases entediantes. Ficou repetindo frases de grandes filósofos a aula inteira, e eu estava pedindo aos céus que um meteoro caísse e destruísse o nosso planeta. Era o último horário mas parecia o primeiro. Estava deitado na carteira, tentando dormir, quando ouvi meu nome. Não exatamente o meu nome, algo parecido com "Quem é Scott?", então eu me levantei da mesa com rapidez e olhei para o lado. Avistei a mochila do garoto que, horas antes, havia esbarrado em mim. Dei graças a Deus por ele não estar presente, mas o amaldiçoei por escolher justa a carteira que ficava ao meu lado.
— Scott sou eu — pigarreei, tentando parecer o mais natural possível. Todos olharam pra mim, como se eu fosse alguma espécie descoberta recentemente, um brinquedo novo, algo do tipo.
— Venha aqui e pegue seu crachá— disse o professor em um tom tão confortável quanto a roupa que eu usava naquele meio dia. Levantei e me dirigi até ele. Pegando o pequeno cartão e prendendo-o na camisa assim como todos os outros estudantes.
— Magnífico!— disse ele, levantando as mãos para o alto como se acabasse de dar uma oferenda aos deuses.
Yogo voltou a dar suas explicações, e para minha alegria, o sinal tocou minutos depois que eu me sentei. Recolhi minhas coisas, amarrei meus sapatos e me apressei em sair da sala, que agora só tinha o professor e alunas interessadas em aumentar suas notas semestrais. Ao sair pela porta, fui bloqueado pelo mesmo garoto de olhos bronze. O mesmo que tinha me derrubado no chão, e que tinha sido extremamente grosso comigo.
— Me desculpe por hoje cedo, eu estava nervoso. Perdi as chaves do carro do meu pai, e ele estava furioso comigo — ele disse, gesticulando com as mãos como se estivesse cansado, como se já tivesse dito aquilo para mim um milhão de vezes.— Eu sou Jackson, qual é o teu nome?— ele continuou.
Sorri, de uma forma hedionda, mas ainda assim era um sorriso. Ele era alguns centímetros mais alto que eu, mas isso não me intimidava. Aproximei-me do garoto, e ergui meu crachá perto o suficiente do seu rosto, para ele enxergar direitinho.
— Tem certeza que sou quem não sabe ler? — retruquei. O garoto não se mostrou ofendido, muito pelo contrário. Ele sorriu de uma forma empolgante, como se eu o tivesse desafiado a alguma coisa. Saí dali não só levando o silêncio do rapaz, como também o meu orgulho restaurado.
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