As Estações

4 Primavera — Capítulo Quatro: Quebrando regras


Notas iniciais
Depois da briga com Luke, Scott se vê em uma situação complicada. Terá que se acostumar com uma decisão tomada por Nico, uma decisão não tão sábia e necessária. Enquanto isso, Jackson se aproxima ainda mais de Scott, e juntos, farão o inimaginável.

Já haviam se passado duas semanas desde o incidente com Luke e a mancha roxa ainda cercava o olho esquerdo do rapaz. Eu ainda podia ouvir as palavras firmes, claras e objetivas de Cairo. "Essa escola está formando homens, e não moleques!" ele repetia várias e várias vezes, enquanto batia com um livro de regras em cima da mesa da direção. Eu tentava não lembrar aquele dia. Queria simplesmente apagar da memória o rosto machucado de Nico, e seus olhos encharcados com lágrimas. Eu realmente queria, e como queria. Só de pensar que ele estava naquele estado quando eu o vi pela última vez, me dava vontade de chorar. Pensei que a pior parte seria ter que acatar a punição de Cairo: Ficar duas semanas sem aulas de natação, ou seja, sem chegar perto da piscina do colégio. Mas não era. A pior parte foi ter que vir para a escola e não ver o rosto sorridente de Nico. Ele se foi e eu nem pude dar um adeus. Eu estava sentindo a sua falta. Eu realmente estava. Estava no espaço mais verde da escola, em cima de uma típica mesa de piquenique, com os braços escorados para trás e os olhos fechados. Respirava fundo, sentindo o vento fresco do auge da primavera. O dia estava completamente claro, e o céu estava limpo. Eu ficaria feliz de ter Nico aqui comigo, mas a decisão de retirá-lo da escola não foi minha, nem do diretor, nem de seus pais, e sim, do próprio Nico. Foi um pouco egoísta da parte dele, mas eu não tinha mais nada a fazer. Ele não estava mais em NY. Algumas pessoas diziam que ele havia se mudado para Los Angeles com os pais, mas ninguém sabia ao certo. Do outro lado do campo, eu vi Jackson com seus amigos. Me perguntei se ele estava doente. Enquanto eu usava uma regata branca aberta dos lados, calça preta e chinelos, Jackson usava moletom, calça jeans e uma bota pequena. Eu estava fitando-o e ele não desviava o olhar, sinal de que também estava me encarando. Ele tinha uma pera em suas mãos, e a cada mordida que ele dava, um sorriso aparecia em seu rosto. Cheguei a pensar “Essa pera deve ter um gosto engraçado, para fazer ele sorrir tanto” mas foi um trocadilho ridículo. Quis fazer transplante de cérebro depois disso. Luke estava sentado ao canto, e Genevieve estava em seu colo. Eu conseguia ver a mancha roxa em seu rosto. No meu só tinha algumas cicatrizes pequenas. Eu o encarei, e ele virou o rosto. Acho que agora ele tem medo de mim. Devia estar fazendo uns 23 ºC, temperatura perfeita para nadar. Mas eu ainda estava sendo punido, então deixei a ideia pra lá.

Estávamos no espaço arborizado porque a direção tinha programado um passeio até um centro biológico. Todos estavam esperando do lado de fora da escola, muito ansiosos por sinal. Perdi as contas de quantas vezes peguei minha mochila achando que era o barulho do motor do ônibus, e era apenas alguns meninos do primeiro ano fazendo competição de arroto. "Otários", pensava. Estava quase cochilando na mesa quando uma garota de cabelos cacheados se aproximou de mim. Se apresentou como Luna e perguntou se podia se sentar comigo.

— Claro que sim, sem problemas — respondi, chegando para o lado para que ela se sentasse-se à mesa comigo.

— É Scott o seu nome, não é? — ela perguntou, colocando atrás da orelha uma mecha de cabelo que insistia em sair do lugar.

— Sim, como você sabe? — questionei assustado. Ainda não tinha feito um mês que eu havia entrado na escola.

— Todo mundo sabe — ela disse, balançando o pescoço como se dissesse "alô, acorda". — quero dizer, todo mundo que tenha ao menos um mínimo de popularidade no colégio.

Sorri ao ouvi-la, pela primeira vez eu me sentia feliz em ser conhecido. Por mais que minha “fama” tenha vindo através de uma briga idiota, eu estava satisfeito com aquilo.

— Poxa, obrigado — falei, colocando minha mochila nas costas. Estava claro que ela foi até mim com segundas intenções e não somente avisar que, de repente, eu fiquei popular, mas eu não quis incomodá-la. Então fiquei calado e esperei que ela se manifestasse novamente.

— Eu sou do jornal da escola, e gostaria de entrevistar você... — ela disse. Eu fiquei surpreso. Olhei para ela com cara de espanto e gratidão. Certa vez Nico tinha me dito que só pessoas importantes apareciam no jornal do colégio, que era distribuído em bairros próximos à escola. — Muitas pessoas estão apostando em você como o próximo presidente do grêmio, então...

— Opa, não. Informação falsa. O ônibus já chegou e eu tenho que ir agora... É... Luna? ISSO! Luna — afirmei, levantando da mesa com rapidez, deixando a garota sentada sozinha lá atrás. Segui até o ônibus e fiquei calado enquanto o professor dizia o nome das duplas. “Catrina e Langel, Bryan e Thomas, Luna e Ray, Jackson e Luke” etc. O professor disse todos os nomes, menos o meu, pois ainda não tinha na lista de chamada. “Não se preocupe, o seu par será Deus” foi o que ele disse. Estávamos todos entrando no ônibus. Jackson foi o penúltimo, e Luke ia entrar logo depois, mas eu passei na frente. Olhei para ele e vi que ele colocou a mão em sua própria boca. Saiu correndo e eu pude ouvir o barulho do seu vômito. Minutos depois o professor voltou com a informação de que, infelizmente, ele não participaria daquele passeio. Me colocou como substituto de Luke, fazendo dupla com Jackson.

Era uma cúpula de vidro enorme, com vários departamentos. Suas salas eram divididas em repartições. Uma delas ia ser usada pelos alunos da Laurence. Nela tinha um quadro negro fixado na parede, ao fundo. Flores trepadeiras saindo do teto davam um ar mais harmônico à sala cinzenta. Ela continha várias filas alinhadas com sete mesas cada uma. Em cima de cada mesa havia uma caixa de isopor, com vários acessórios de tortura do lado. Eu não sabia o que íamos fazer ali, mas já estava com medo. O professor sugeriu que seguíssemos para um corredor enorme, um aquário florestal, se posso assim dizer. Estávamos no meio de uma grande reserva botânica, com todos os tipos de plantas possíveis. Eu podia jurar que tinha visto uma cobra, mas Jackson disse que eu estava vendo coisas demais. O professor explicava cada espécie de planta existente naquele local, e os alunos o seguiam em duplas. Eu estava ao lado de Jackson, que com um movimento rápido me puxou para longe do alcance dos olhos do professor, me tirou do meio da multidão de alunos e me guiou pela mão.

— O que você está faz... — ele me interrompeu, fazendo um chiado com a boca e colocando o dedo nos meus lábios. Eu estava assustado.

— Fica caladinho — ele disse, segurou novamente minha mão e abriu uma porta metálica, revelando um quarto totalmente escuro.

Eu não conseguia enxergar nada. Piscava com força, e nada. Balançava a minha mão em frente o meu corpo e a única coisa que eu via eram leves movimentos, ou talvez nem isso. Alguém colocou as mãos na minha cintura e me agarrou por trás. Era Jackson, eu podia sentir o seu perfume forte. Me virei para abraçá-lo, mas ele já tinha me soltado. Fechei os olhos, e quando abri as luzes já estavam acesas. Pude ver que estava em uma espécie de laboratório. Vários compartimentos cheios de caixas de vidro, e dentro das caixas de vidro havia animais mortos. Jackson estava no fundo do local.

— O que é isso? — perguntei, soando mais como um "e daí?”.

— Não é isso que quero que veja, venha até aqui — ele disse, me chamando com os dedos.

Me aproximei um pouco, e vi que ele olhava fascinado para um canto que eu ainda não conseguia ver.

— Jackson, o que tem aí? — perguntei, parando no meio do caminho. Ele estava sorrindo maliciosamente, apontando para o canto mais escondido do aposento. Me aproximei o suficiente para tocá-lo.

— Olhe por si mesmo... — ele exclamou, puxando-me pela mão e envolvendo meu corpo com seu braço. Eu quase tive algum tipo de ataque por dois motivos: O jeito forte com que Jackson me apertava, e pelos inúmeros ratos brancos que estavam presos em gaiolas que iam do chão até o teto.

— Vamos dar o fora daqui agora — disse, me virando e dando alguns passos. Jackson me puxou de novo, dessa vez segurando detrás do meu pescoço. Me arrepiei.

— Vamos soltá-los primeiro.

O QUE?? EU TINHA ESCUTADO DIREITO? Jackson queria soltar os camundongos no meio daquelas dezenas de pessoas que andavam alegremente pelos corredores do instituto? Ele só podia estar maluco.

— Jackson, qual é o seu problema? — perguntei, o olhando como se ele tivesse algum tipo de doença contagiosa.

— Se você não quiser é só sair e contar para todo mundo o que eu estou planejando fazer — enquanto dizia, ele me encarava como se tivesse algum poder sobre mim.

Jackson achava a vida fácil demais, e isso me irritava tanto. Era um completo desleixado, não ligava pra nada e nem pra ninguém. Era essa a impressão que eu tinha dele.

— Não vou fazer isso, seu idiota — exclamei, tirando a mão dele do meu pescoço e empurrando-a contra o peitoral do mesmo.

— Então faz um favor pra mim, vá até a porta e fique vigiando para que ninguém apareça — ele sorriu de uma forma linda, como se fosse um anjo.

— Pegue só um... — concordei, largando-o e me dirigindo até a porta metálica.

Saí do local e observei, para ver se tinha alguém no corredor. Não tinha ninguém. Eu não sei por que tinha concordado com aquela ideia retardada de Jackson, talvez porque queria agradá-lo. Eu só esperava que ninguém visse aquele rato, ou teríamos sérios problemas. Abri a porta e adentrei o laboratório de costas, me certificando que não tinha realmente ninguém nos vigiando.

— Aí, Scott. Dá uma olhada — ele disse, com uma voz convidativa e perigosamente amigável.

Me virei e vi em suas mãos meia dúzia de ratos. Pior ainda, centenas de ratos brancos estavam passando pelos pés de Jackson vindo em minha direção, e ele continuava sorrindo como um psicopata. Ele tinha soltado todos os ratos, e eu queria fazê-lo comer um por um.

Os corredores do instituto estavam um caos. Garotas corriam para lá e para cá, gritando, pisando e até pulando. Genevieve estava pendurada em um filtro de água. Eu e Jackson já tínhamos saído da sala, e estávamos em uma parte mais alta, só vendo a desgraça dos outros. Eu estava seriamente preocupado, enquanto o outro só sabia rir. Riu tanto que caiu no chão, e precisou da minha ajuda para se levantar. Eu não sabia quando, e não sabia como, mas aquilo ia dar um problema muito grande, muito mesmo.

— Nico ia gostar de estar aqui — deixei escapar. Os risos de Jackson foram cessando, e ele ficou com uma feição séria e estressada.

— Será que você pode parar de falar desse garoto por pelo menos um dia? É só disso que você fala desde que ele foi embora — ele exclamou, quase gritando. Jackson tinha razão, eu não falava de outra coisa além das saudades que sentia de Nico. Então eu fiquei calado e aceitei a bronca dele.

Eu me deixei cair na brincadeira de Jackson quando o filtro em que Genevieve se segurava caiu, fazendo a loira despencar no chão coberto de ratos. Eu ri, ri tanto que dessa vez, Jackson precisou me ajudar a levantar do chão. Estávamos os dois, rindo feito otários. Jackson parou de rir e engoliu seco. Eu o olhei tentando entender o motivo. Vi que seus olhos estavam olhando diretamente para um pouco acima de meu ombro, e para minha infelicidade, Cairo e duas mulheres vestidas com roupas sociais, estavam parados bem ali atrás, nos observando. Todos com os braços cruzados. Jackson disse um “Oi” amistoso para Cairo, que pisou na cabeça de um rato que passava correndo pelo local.

Estávamos os dois sentados diante de Cairo e as duas mulheres de preto. Aquela sala minúscula tinha cheiro de erva cidreira com hortelã. Uma das mulheres apontou para Jackson e o chamou com o dedo. A outra olhou pra mim e me chamou logo em seguida. Nos exibiram um monitor, que repetidamente, mostrava por meio de uma gravação o momento exato em que Jackson abria todas as gaiolas e liberava os ratos. Ele parecia fascinado e orgulhoso com o trabalho feito.

— Essa parte foi a melhor. EU GRITEI: AVALANCHE DE RATOS — explicou Jackson, fazendo um movimento com as mãos como se estivesse chacoalhando algo.

— Oh... Avalanche de ratos... Muito bem, senhor Parker — disse Cairo, andando de um lado para o outro com as mãos para trás. — E você acha bonito?

— Como não achar? Olhe só para esses carinhas. Eles são as coisas mais fofas que eu já vi em anos! — disse Jackson, em um tom mais divertido que o normal.

Eu estava quase rindo, cheguei a deixar escapar algumas risadas que eram logo cessadas quando Cairo olhava para mim.

— Você sabe que vai ter consequências, não sabe? — disse o nosso diretor.

No fundo ele conhecia Jackson. Sabia que ele era o tipo de homem que não ligava pra nada, e estava pouco se lixando para as consequências.

— Sim, pode mandar. — ele disse, sentando-se na poltrona central da pequena sala onde estávamos, colocou as mãos atrás da cabeça e repousou uma perna sobre a outra.

— Para você e o senhor Dawson, os dias da "Equipe de Apoio" começarão mais cedo. Amanhã, para ser mais exato. Ou seja, você não participará dos jogos de beisebol até ajudar todas as famílias da lista proposta — Cairo tinha sido rígido ao tomar essa decisão. Jackson se sentou corretamente na cadeira, quase não acreditando no que tinha acabado de ouvir. Levantou-se e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas foi interrompido por Cairo. — E se reclamar, ficará fora do baile de inverno, e do campeonato intercolegial.

— Eu não ia reclamar, só quero pedir uma coisa... — disse o loiro, cabisbaixo, pela primeira vez. — Tire Scott dessa, ele não teve culpa.

Cairo deu uma risada tão alta, que ainda que eu estivesse do lado de fora da cúpula, eu o ouviria. Fiquei assustado, mas agi naturalmente.

— A partir do momento em que ele não nos avisou dos seus atos infantis, ele é culpado também. Já está decidido — Cairo se virou para mim e deu tapinhas nas minhas costas, sussurrando algo como "Boa sorte pra você, garoto".

O homem se retirou da sala Uma das moças se levantou e ficou parada na porta, esperando nós dois sairmos dali. Eu ainda estava encabulado, e só naquele momento eu percebi que as mulheres eram irmãs gêmeas, e que não tinham dito uma palavra sequer durante toda a conversa. Saímos de lá, e ela fechou a porta imediatamente. Jackson deu um sorriso preocupado. Eu podia ver o olhar de aflição em sua expressão.

— Veja pelo lado bom... — ele disse, colocando as mão dentro dos bolsos da calça — Pelo menos vamos passar seis horas por dia juntos — deu um suspiro pesado.

— Se esse é o lado bom, eu não quero nem ver o lado ruim — eu sorri, me aproximei de Jackson, dei dois tapinhas no rosto do loiro e me dirigi em direção à saída.

Notas finais
Gente, eu espero que vocês gostem. Eu tava sem ideias, mesmo com tudo anotado no caderno. Acho que se seguisse todos os tópicos que eu anotei, a história não duraria cinco capítulos. Recomendar não arranca pedaço, tá? Aceito sugestões, e obrigado à todos vocês que leram até aqui. s222