As Estações

5 Primavera — Capítulo Cinco: Emoções


Notas iniciais
A punição por terem soltado os ratos do laboratório biológico havia começado. Scott e Jack tinham como missão viajar até a casa de uma dócil senhora e atender os seus pedidos. Mas será que Scott teria cabeça para enfrentar as dificuldades que ainda viriam, depois de descobrir uma coisa que mudaria o resto dos seus dias? Você só vai descobrir isso se você ler até o final!

Era sexta-feira, uma hora da tarde. A aula já tinha acabado e eu estava aguardando Jackson na porta da escola. Esperava que ele não tivesse se esquecido da nossa punição. Me recusava a acreditar que estava sendo obrigado a fazer aquilo tudo por ter colaborado com um plano estúpido de Jack. Eu nunca pensei que seria otário, fui otário. Olhava no relógio a cada cinco minutos. Não tinha o visto na sala de aula, então provavelmente ele deve ter dormido até mais tarde. Isso não era motivo para se atrasar. Quanto mais cedo fôssemos realizar aquela tarefa, mais cedo voltaríamos. O céu estava nublado, e eu podia jurar que ouvi alguns trovões. Estava preocupado quanto à direção da escola. Afinal, estávamos sendo monitorados o tempo todo. Saberiam se nós fôssemos ou não, e isso me incomodava mais do que a pedra que estava dentro do meu sapato. Tirei meu casaco azul de dentro da mochila e o vesti. Procurei o meu guarda-chuva e não encontrei. DROGA. Eu sempre levava o guarda-chuva para todos os cantos, e justo hoje eu não tinha trago. Meus pés batiam no chão demonstrando impaciência. Eu já não aguentava mais esperar. O vento frio se chocava contra o meu corpo, bagunçando meu cabelo. A rua estava deserta, e o céu que mais cedo estava azul celeste agora estava cinzento. Bufei de raiva, virei de costas e saí em direção ao ponto de ônibus escolar. Eu ia pegar o ônibus e ir para a minha casa, ganharia bem mais. Após dar por volta de dez passos, eu ouvi algum tipo de música vindo atrás de mim. Me virei e lá estava ele, Jackson, dirigindo seu Porsche. Eu fiquei embriagado. Qual era o problema dele? Nós estávamos indo levar cesta básica a uma família carente, além de ajudá-los com a limpeza da casa. Eu achei que íamos de táxi, ônibus, cavalo, mas não naquele carro. Eu estava virado para a rua, e ele estacionou calmamente em minha frente. Eu conseguia ver pela janela o sorriso de cafajeste que ele carregava em seu rosto. Ele desceu do carro, fechou a porta e ficou escorado me observando.

— Vai entrar ou eu preciso abrir a porta pra você? — ele perguntou, tirando os óculos escuros que estavam suspensos sobre seu nariz.

Fechei a cara, entrei no carro e bati a porta com força. Jackson entrou logo em seguida. Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que ele criou coragem e disse:

— Olha me desculpe. Eu sei que me atrasei um pouco, mas eu posso expl... — ele estava falando, mas eu o interrompi.

— Só liga essa droga de carro e vamos acabar com isso — murmurei, sem tirar os olhos da janela.

Ele ligou o veículo e deu uma leve arrancada. Jackson me imitou, dizendo "só liga essa droga de carro". Ele fazia uma careta engraçada e mexia a mão como se fosse o bico de um pato. Eu quis socá-lo, mas ao mesmo tempo estava me divertindo. Me divertindo por dentro, porque por fora continuava com a mesma cara emburrada de antes. Eu não sabia em qual bairro estávamos, mas me lembro de ver muitas luzes pelo caminho. Passamos por vários locais cheios de prédios, até chegar em uma longa rodovia. Pingos grossos de chuva começaram a cair na metade do trajeto, e eu agradeci a Deus por não estar esticado na porta do colégio naquele momento. Quis agradecer a Jackson por ter aparecido, mas ele estava cantando The Kooks — Do You Wanna, e eu não quis atrapalhar. Era uma das minhas músicas preferidas, e ele estava conseguindo estragar com ela. De qualquer forma, a viagem ficou menos entediante. Me peguei cantando alguns versos junto com Jackson, que ainda estava usando óculos escuros. Ele devia saber que só se usa em dias de sol. O loiro gritava "Do you wanna? Do you wanna?" inúmeras vezes, e eu acabei entrando no seu ritmo. Estávamos os dois cantando como loucos dentro do carro, um rindo do outro. Foi realmente divertido. A partir daquele momento, eu estava disposto a suportar Jackson em qualquer situação, por mais difícil e chata que fosse.

Após muito tempo na estrada, chegamos à residência da suposta família carente. Jack desceu do carro primeiro, e me esperou na parte frontal de seu veículo. Desci logo em seguida, carregando minha mochila nas costas. Era uma luxuosa casa vitoriana pintada de vermelho e branco, com um jardim formado de lindas violetas. Um pé de ipê na entrada dava destaque ao céu acinzentado — já não chovia mais. Uma trilha de pedra criava um caminho até a entrada da casa. As janelas eram delicadamente esculpidas em madeira maciça. Um balanço enferrujado nos fundos e uma mesa de madeira ao lado de uma churrasqueira completavam a coleção da casa. Jackson ficou parado. Eu o olhei e ele levantou as mãos para o alto como se quisesse dizer "se vira, eu não tenho nada a ver com isso". Revirei os olhos e fui trilhando o caminho de pedras. Me surpreendi com Jackson vindo logo atrás de mim, olhei para ele e o esperei.

— Eu queria ser uma família carente se tivesse uma casa dessas — ele disse, me olhando com um sorriso que eu já conhecia muito bem.

Todos na cidade sabiam que a família Parker era extremamente rica, e eu tinha absoluta certeza de que a morada dele era o dobro daquela "humilde" casa vitoriana. Arqueei as sobrancelhas e continuei andando.

— Jack, você trouxe a cesta básica? — eu perguntei, sem parar de andar ou ao menos virar para trás.

— Você acha que quem mora em uma casona dessas precisa de cesta básica? — ele disse, gesticulando como se quisesse proteger a cesta de alguma coisa. — Vamos vendê-la por um preço justo, quem sabe conseguimos comprar uma casa igual essa.

Eu me virei para Jackson, e o olhei como se já estivesse cansado de suas provocações e piadinhas. Ele estava me encarando, e eu ouvi quando ele sibilou "o que é?".

— Eu preciso — uma voz fina e rouca ecoou logo atrás de mim.

Girei meu pescoço para ver quem era, e segundos depois Jackson já estava atrás de mim. Era uma senhora de cabelos lisos e tão brancos quanto o céu que nos cobria. Ela tinha uns aparelhos ligados a um cilindro de ar que estava no suspenso em sua mão direita. Olhei novamente para Jackson e sussurrei bem baixinho em seu ouvido:

— Você ainda quer vender a cesta básica?

A senhora estava nos servindo chá em xícaras perfeitamente polidas e limpas. O sofá vermelho vinho com dourado deixava a sala com um ar mais antigo, combinando com o carpete escuro e a lareira acesa. Ela não falava nada, e nós também não. Jackson segurava a cesta básica em seu colo, e eu o fitei com olhar de reprovação.

— Onde posso colocá-la? — ele perguntou à senhorinha, sem tirar os olhos raivosos de mim.

Ela apontou para um corredor comprido onde eu pude ver uma luz brilhando lá no fim, com certeza era a cozinha. Jack se retirou dali, carregando aquela sexta de 12Kg nos braços como se fosse uma pena. Foi naquele momento em que eu percebi como ele era forte. Voltei a minha atenção para a senhora, sorrindo para ela dessa vez. Engoli seco. O único barulho que se escutava agora era o crepitar das chamas que devoravam pouco a pouco a madeira da lareira. Eu precisava fazer algo.

— Bom, aqui diz que a senhora precisava de consertos na casa, assim como uma boa arrumação nos móveis — eu disse, olhando na pequena lista de afazeres que Cairo havia me entregado. — Mas como eu posso ver, sua casa está totalmente impecável.

A senhora ficou calada e apenas assentiu com a cabeça. Jackson voltava da cozinha, e escutou quando eu fazia outra pergunta a senhora.

— Você pode me dizer o seu nome?

— Hera — ela respondeu, tossindo logo depois.

Jackson parou no meio do caminho e arqueou as sobrancelhas. Não acreditou que ela havia falado. Ele não acreditava que ela havia falando comigo, e não com ele. O loiro se sentou no sofá ao meu lado, pegou uma xícara de chá e tomou um pouco.

— É um lindo nome, dona Hera — falei alto, caso ela tivesse algum problema de audição. — Eu sou Scott e esse é meu amigo Jackson, nós estamos aqui para ajudá-la. Seja lá no que for preciso.

A senhora se levantou da poltrona onde estava, e veio andando na minha direção. Seu pijama rosa com flores amarelas sacudiam a cada passo que ela dava. Dona Hera se sentou entre mim e Jackson, escorou a cabeça em meu peito, colocou os pés sobre o colo de Jack e começou a chorar. Eu estava atônito. O que estava acontecendo? Por que aquela senhora estava chorando? Jackson me olhava com a mesma cara de surpresa. Eu não sei o motivo, mas acolhi aquela senhora em meus braços e deixei com que ela molhasse minha camisa com suas lágrimas. Jackson estava com os braços cruzados, e não conseguiu olhar para a cena que acontecia poucos centímetros dele.

— Tem algo que a senhora queira me contar? — eu perguntei outra vez, na esperança de que ela talvez me dissesse algo. — Pode confiar em mim, eu estou aqui para ajudar.

Jackson tirou os pés da senhora de cima de seu colo e se retirou da sala, murmurando alguma coisa. Abriu a porta dos fundos e saiu quintal afora.

— Dona Hera, pode me cont... — ela me interrompeu.

— Eu fui casada por cinquenta e cinco anos. Eu... Nós estávamos sem dinheiro. O nosso sonho era morar em uma casa vitoriana. Usamos algumas economias e compramos esta casa...

Assim que dona Hera terminou de me contar, eu estava me sentindo horrível. Lágrimas rolavam em meu rosto e eu não sabia o que fazer. Fiquei atordoado, e simplesmente peguei o meu celular, saí para fora e tentei chamar uma ambulância, mas ela me impediu. Fui até os fundos da casa e encontrei Jackson sentado no velho balanço. Ele estava com as mãos entre as pernas, paradas.

— Já podemos ir embora, Jack — sugeri, estendendo-lhe a mão. Ele não disse nada, segurou em minha mão e se levantou. Andou até o carro sozinho, me deixando ali.

Já estava entrando no carro quando Hera me chamou. Voltei correndo até a porta da sua casa, e ela me entregou um baú, dizendo que eu só poderia abrir em um dia que fosse decisivo em minha vida. Essa foi a última coisa que eu a ouvi dizer antes de ir embora. Entrei no carro e coloquei o tal baú dentro da minha mochila. Eu estava deixando para trás rios de lágrimas, mas também o meu orgulho e meu egoísmo.

Não dissemos nada a viagem inteira, Jackson olhava atentamente para a estrada e eu para os meus próprios pés. Eu estava péssimo, e não fazia ideia de como ele se sentia. Eram dez horas da noite, eu estava cochilando no banco do passageiro e Jack ainda dirigia com calma e atenção. Foi quando um estouro fez o carro girar na pista, não chegando a capotar. Eu acordei na hora, perguntando a Jack o motivo de estarmos atravessados na rodovia. Ele não me disse nada, desceu do carro correndo. Voltou minutos depois, com uma expressão nada animadora.

— O pneu furou, Scott.

Estávamos os dois lá, escorados no carro. Eu havia ajudado Jack a empurrar o Porsche para o canto da estrada, assim não teria perigo de algum carro acertá-lo. Eu tinha esquecido o guarda-chuva e Jack não tinha trago o step, uma diferença e tanto. Tinha ligado para o guincho meia hora atrás, e estávamos lá esperando, quando Jack decidiu se manifestar.

— O que aconteceu naquela sala? — ele indagou. Estava escorado na parte frontal do veículo, com capuz preto na cabeça e as mãos no bolso da blusa de frio.

— Do que você está falando? — perguntei, tentando desviar o assunto. Eu também estava com frio, mas tinha esquecido meu casaco azul na casa da dona Hera.

— Scott, por favor. Não banque o bobo comigo — ele se virou para mim quando disse isso e eu pude ver que a luz do luar os seus olhos ficavam ainda mais brilhantes.

Me aproximei de Jack devagar, dando passos calmos e lentos. Me escorei no seu carro, mantendo minha cabeça abaixada. Fechei os olhos e contei tudo. Contei sobre o que Hera tinha me falado. Lembro-me até agora de suas doces e tristes palavras.

"Eu fui casada por cinquenta e cinco anos... Eu... Nós estávamos sem dinheiro... Nosso sonho era morar em uma casa vitoriana... Usamos algumas economias e compramos esta casa... Era a nossa última economia. Meu marido, Philip, tinha câncer de pele. Eu disse que aquele dinheiro era para pagar o nosso tratamento, mas ele não quis, e eu também não. Preferimos gastar o nosso último centavo realizando um sonho, do que passar a vida inteira vivendo as custas de remédios que nos fazem esquecer até do próprio nome. Hoje faz dois dias que ele morreu, aqui mesmo, nessa casa. E esse cilindro de ar que estou usando só vai durar até o fim dessa madrugada. Eu poderia ir comprar todos os cilindros de ar do mundo, mas de nada adiantaria, pois eu morri no momento em que Philip deixou de existir."

Tinha terminado de contar e estava chorando novamente, mas dessa vez eu tinha alguém para me consolar. Eu estava abraçando Jack com tanta força que era quase impossível de se respirar. Ele não se movia, estava assustado e demorou algum tempo para me envolver com seus braços. Eu o apertava, e chorava em seu peito. Jack não disse nada e eu não vi nenhuma lágrima rolando em seu rosto. Ele apenas retribuía o abraço com a mesma intensidade.

O guincho havia chegado, e eu fui no banco de trás do Porsche, Jack estava na frente, do lado do passageiro. Me deitei no assento do carro e não demorei para adormecer. Naquela mesma noite, eu sonhei com Jackson Parker.

Notas finais
Galera, esse capítulo foi um dos que eu mais gostei de escrever. Então, se vocês também gostarem, compartilhe com amigos, familiares, extraterrestres e etc. Não esqueçam de deixar seus comentários e sugestões. s222