Marcela nem sabia o que estava acontecendo, ela teve poucos momentos de lucidez entre o momento em que foi retirada dos escombros do carro, depois quando estava dentro da ambulância e depois quando chegou no hospital, mas ela sabia que algo horrível havia acontecido.
— o que foi que houve? — disse a técnica de enfermagem Sirlei que atendia no pronto-socorro para onde os dois havia sido levados.
— um magnata da cidade e, parece que a filha dele, sofreram um acidente de carro – respondeu a colega – aquela tal de Cláudio Andrade dos imóveis sabe?
Sirlei ficou atônita e deixou a colega falando sozinha e foi em direção ao local onde estavam sendo realizado o atendimento e medo imediato que havia tomado conta de seu corpo se concretizou, ela viu Marcela em uma maca sendo atendida e o pai, já sem vida, na outra.
— meu Deus, foi aquela desgraçada – disse Sirlei, que foi completamente ignorada pelos colegas que estavam socorrendo a menina e tentando reanimar o pai – qual é o quadro? — ela perguntou para um colega, colocando a mão sobre o ombro do enfermeiro socorrista.
— a garota não está tão mal, o air-bag funcionou e ela estava com o cinto, mas o pai estava sem o cinto e foi projetado pra fora do carro, Se conseguirem trazer esse cara de volta é porque ele é imortal – respondeu o colega.
Sirlei ficou apavorada, ela tinha certeza que Beatriz tinha algo a ver com aquele acidente, e pelo tempo que ficou naquela casa, ela sabia muito bem do que Beatriz era capaz e sabia também que Beatriz não deixaria Marcela sair disso viva, então nesse exato momento ela começou a bolar um plano para salvar Marcela. Devido a seu passado com a família, principalmente com Patrícia, ela sentia-se obrigada a salvar a menina.
Do outro lado da cidade, Beatriz recebeu a notícia do acidente, e ao telefone, fingiu estar desolada, porém seu tom mudou completamente quando o policial disse que uma das pessoas havia sido resgatada com vida, porém não sabia dizer qual das duas, então no mesmo momento ela chamou o motorista e pediu que a levasse para o hospital. Quando chegou lá, na porta havia vários repórteres, dentre os quais ela passou direto, sem dizer nada, mas chorando e fazendo questão que todos vissem suas lágrimas.
Depois de reconhecer o corpo do marido, Beatriz surtou.
— como assim eu não posso ver minha filha? — seus gritos ecoavam pelo hall de entrada do hospital – uma tragédia dessas acontece, eu acabo de reconhecer o corpo sem vida do meu marido e vocês querem me impedir de ver a minha filha que eu amo tanto?
— mas senhora, a senhora tem que entender que ela está na UTI e por não ser parente de sangue, não podemos deixar que a senhora vá atá lá – tentava, calmamente, fazer Beatriz entender.
— mas isso é absurdo, só porque não temos o mesmo sangue, mas eu criei ela, tenho ela como minha filha! — gritava Beatriz, transtornada.
Sirlei ouviu os gritos e ficou olhando, escondida, o show de Beatriz e ficou com raiva, queria pegá-la pelos cabelos e esbofeteá-la ali mesmo, porém achou mais prudente ficar escondida por hora.
Beatriz, mesmo com o escândalo que armou e foi para casa, mas ficaria atenta e ligava para o hospital a cada 15 minutos atrás de informações sobre o estado de saúde da garota e durante a madrugada, Sirlei teve a ideia que salvaria a vida de Marina.
Sirlei chamou um táxi, colocou uma roupa preta em Marcela e uma roupa que dificultaria a sua própria identificação e saiu com ela pela porta dos fundos, esquivando-se o máximo possível das câmeras de segurança, mas ela sabia que seria vista em alguma, porém isso não a preocupava nem por um segundo. Ela tinha uma quantia boa em dinheiro que a permitiria fugir dali com a pequena Marcela e começar uma nova vida com ela.
***
— como assim ela foi sequestrada? — Beatriz gritava tão alto que parecia que as paredes do saguão do hospital cairiam a qualquer momento – como diabos uma criança é levada de dentro de um hospital por um estranho e vocês me dizem isso com essa tranquilidade? Contratem ótimos advogados, pois eu vou arrancar até os rebocos das paredes de vocês na justiça, a minha filha, seus desgraçados, vocês vão me pagar!
Beatriz saiu em direção ao carro, deixando as pessoas no saguão falando sozinhos e foi para casa. Quando ela chegou, ela deu um grito tão estridente de felicidade que seus próprios ouvidos se incomodaram com ele, ela estava tomada pela total e completa felicidade, para ela o cenário era perfeito: Seu marido havia morrido, sua enteada havia sido sequestrada e a pequena fortuna da família estava toda em suas mãos e isso seria a sua porta de entrada para a alta sociedade, onde arrumaria um marido ainda mais rico para que construísse a vida perfeita com que tanto sonhava.
Com o passar dos anos, Beatriz começou a frequentar cada vez mais a alta sociedade porto-alegrense e conheceu Renato Delaôr, o dono de um grande escritório de advocacia na cidade e a relação dos dois foi estreitando-se cada vez mais a ponto de tornar-se íntima, então Beatriz e Renato começaram se namorar, porém não era só ganância, com Renato Beatriz havia se envolvido emocionalmente também, além de gostar de todo o dinheiro que ele tinha.
Ela também contratou um investigador particular para tentar descobrir o paradeiro de Marcela, porém depois de cinco anos sem informações, ela desistiu dar buscas, convenceu-se de que Marcela não era mais um problema seu, porém esse foi o maior erro de sua vida.
2016.
— mas minha menininha, é perigoso demais, você conhece aquela mulher! Nós podemos passar o resto da vida aqui seguras, não precisamos mais correr riscos nas mãos daquela mulher – dizia Sirlei, tentando fazer com que Marcela percebesse que estava embarcando em uma viagem sem volta.
— de que adianta eu continuar vivendo se toda noite eu coloco minha cabeça no travesseiro e não consigo dormir sabendo que aquela desgraçada está impune? — Marcela terminava de colocar algumas coisas dentro da mala. Seu avião que saía da Bolívia, onde ela vivia agora com Sirlei com rumo ao Brasil saia em algumas horas.
— mas quem tem que ficar sem dormir é ela minha pequena, ela é a bandida dessa história, você é a vítima!
— chega mãe, eu não aguento mais! Enquanto eu não ver essa desgraçada na cadeia, eu não vou descansar!
Marcela estava decidida, ela tinha todo o plano traçado em sua cabeça para fazer justiça. Marcela Andrade, agora sob a identidade de Mariana de Almeida estava indo rumo ao Brasil para destruir Beatriz Delaôr, a mulher que destruiu sua família.
Fale com o autor