Notas iniciais
Mais um

26 – Réveillon


As garotas foram embora no dia vinte e três. Annabeth arrumou a mala às pressas naquela manhã, o apartamento de Greenwich virado de cabeça pra baixo por Thalia insistindo que "ninguém passa Natal em cima do fuso errado, Chase, isso é ilegal em pelo menos três estados americanos".


Percy soube por Luke, como sempre soube das coisas que envolviam Annabeth ultimamente — de segunda mão, tarde demais pra fazer qualquer coisa a respeito além de sentir o estômago revirar um pouco.


— Ela nem desceu do Uber — ele comentou, mais pra si mesmo do que pra qualquer outra pessoa, olhando pela janela panorâmica da cobertura o carro que levaria as três em direção a Heathrow.


Ninguém respondeu. Não havia resposta boa pra aquilo.


O Natal, Percy passou em Rotherhithe, como sempre. Lilian o arrastou pelo jardim mostrando os presentes um por um, Tyson insistiu em uma partida de vídeo game que se estendeu até tarde da noite, e Sally observou o filho com aquela atenção específica de mãe que nota exatamente quanto peso ele estava carregando por trás do sorriso de sempre.


— Você está mais quieto — ela comentou, na cozinha, enquanto lavavam a louça juntos depois do jantar.


— Estou cansado, só isso.


Sally não insistiu. Só assentiu devagar, do jeito de quem decide guardar a pergunta pra outra hora.


Foi também durante aquela semana de recesso que Percy aproveitou pra ir sozinho até Turner & Holt, perto de Sloane Square — uma loja discreta demais pra ter placa visível da rua, o tipo de lugar que sobrevivia inteiramente de indicação e discrição. A mulher atrás do balcão, elegante o suficiente pra deixar claro que aquele não era um estabelecimento pra qualquer um, ouviu a pergunta dele sobre encomendas recentes de lacres personalizados com aquele brasão específico e sorriu, educada, impenetrável.


— Nossos clientes têm direito à confidencialidade, Sr. Jackson. Receio que não posso ajudá-lo com isso.


Ele saiu de lá sem nome nenhum, só a certeza incômoda de que, se a mulher sabia seu sobrenome sem ele ter dito, era porque já esperava aquela visita havia algum tempo.


***


No dia trinta e um foi Luke quem insistiu na balada.


— Não vou passar réveillon vendo você suspirar pro celular a noite inteira, Jackson — ele decretou, já escolhendo a camisa no quarto de Percy sem pedir licença — Grover, ajuda aqui.


O lugar era em Shoreditch, um clube que Nico tinha recomendado antes de sumir pra Dublin, luzes roxas e uma fila que dava a volta no quarteirão. Percy vestiu uma camisa preta simples, jeans escuros, o casaco de couro que ele quase nunca usava, e por baixo de tudo aquilo carregava o mesmo peso de semanas.


A pista estava lotada, o ar quente e denso de perfume caro e bebida derramada. Luke e Grover se separaram dele rápido, cada um flertando com um grupo diferente perto do bar, o tipo de comportamento que Percy reconhecia de memória — porque, até poucos meses atrás, teria sido exatamente ele fazendo a mesma coisa.


Meia hora depois, Luke voltou com duas cervejas, uma pra cada um, e ficou observando Percy com uma curiosidade genuína.


— Cara, tem uma morena ali no bar te olhando há uns dez minutos e você nem virou a cabeça uma vez.


— Não tô a fim.


— Você. Não tá a fim — Luke repetiu, incrédulo, como se as palavras não fizessem sentido juntas — Percy Jackson, o cara que uma vez saiu com três garotas diferentes no mesmo dia e ainda assim reclamou que Londres era pequena demais. Não tá a fim.


— Tenho namorada, Luke.


— Isso não te impediu antes — Grover comentou, se aproximando a tempo de pegar o final da conversa, o tom mais de constatação do que de crítica — Sério, cara, isso é novo.


Luke deu um gole na cerveja, os olhos ainda em Percy com aquela expressão de quem estava juntando peças de um quebra-cabeça óbvio demais pra ser ignorado.


— É — ele disse, por fim, um sorriso de canto se formando — Parece que a loira fisgou nosso wingman.


— Seja seu próprio wingman. Hoje vou ficar na reserva.


Eles brindaram a cerveja e Luke não insistiu mais em tentar fazer Percy dormir numa cama quentinha na virada de ano.


Percy ficou olhando pra pista lotada, pro relógio do celular marcando quase meia-noite em Londres, fazendo as contas de cabeça pela terceira vez naquela noite — sete horas de diferença, o suficiente pra significar que, se ele mandasse a mensagem agora, ela chegaria em Nova York bem a tempo da virada de lá.


Esperou. Contou os minutos. Às sete da noite, horário de Nova York, ele digitou:


"Feliz 2027, Annabeth. Espero que esse ano te traga tudo que você almeja ser e ter."


Apertou enviar antes que pudesse se arrepender, guardou o celular no bolso, e voltou pra pista bem a tempo da contagem regressiva de Londres, os fogos explodindo lá fora visíveis pelas janelas altas do clube, todo mundo à sua volta se beijando, gritando, comemorando.


Ele checou o celular de novo só quando já estava na fila do táxi, o frio da madrugada cortando através do casaco de couro fino demais pra aquela estação.


Nenhuma resposta. Nem "recebido", nem "digitando", nada.


Guardou o celular e entrou no táxi superfaturado de fim de ano sem dizer uma palavra. Sequer felicitações ao motorista que nada tinha a ver com a sorte de Percy.


***


Balliol reabriu na segunda semana de janeiro, o frio de Oxford ainda mais cortante do que Percy lembrava, como se a cidade tivesse guardado rancor pessoal contra ele durante as férias.


Foi Crawford quem notou primeiro, parado no corredor perto do próprio escritório, os óculos escorregando pelo nariz enquanto examinava Percy de cima a baixo com um misto de surpresa e diversão.


— Meu Deus, Jackson. O que foi que aconteceu com você?


Percy tinha voltado diferente. A barba, que ele sempre mantinha por fazer mas nunca deixava crescer de verdade, agora cobria o queixo por completo, bem aparada, mas inegavelmente presente. O cabelo estava mais comprido do que jamais tinha ficado desde os tempos de skatista amador, a franja encaracolada pesada caindo quase até os olhos, que ele empurrava pro lado com um gesto automático a cada poucos minutos. Trocara os Janoski de sempre por mocassins cor de barro, o casaco de tweed substituído por um sobretudo longo preto que dava a ele um ar consideravelmente mais sério — quase severo — do que qualquer coisa que tivesse usado antes.


— Recesso de fim de ano — Percy respondeu, dando de ombros, ajeitando a cabeleira pela enésima vez.


— Recesso ou crise existencial? — Crawford ergueu uma sobrancelha, o tom ainda de brincadeira, mas os olhos claramente curiosos — Porque, meu jovem, isso aí parece mais uma declaração do que um corte de cabelo.


Percy não respondeu. Só ajustou a bolsa no ombro e seguiu andando pelo corredor gelado, sentindo, pela primeira vez em semanas, uma versão de si mesmo que ele ainda não tinha certeza se reconhecia — ou se queria reconhecer.