As Desventuras e Romances de Percabeth
78 27 – Papéis
Notas iniciais
27 – Papéis
A sala de música clássica de Balliol ficava isolada o suficiente do resto do prédio pra que, na maioria das tardes, ninguém a usasse fora do horário marcado. Percy sabia disso havia meses — era por isso que ia lá quando precisava de silêncio de verdade, o tipo que nem a cobertura em Chelsea, com o barulho constante de James ensaiando ou Luke discutindo com a TV, conseguia oferecer.
Sentou ao piano de cauda encostado na parede do fundo, o mesmo instrumento surrado que parecia ter sobrevivido a décadas de alunos desafinados, e ficou ali por um instante sem tocar nada, só olhando as teclas.
Não pensou muito antes de começar. Os dedos simplesmente lembraram sozinhos, do jeito que corpo lembra coisas que a cabeça já decidiu esquecer.
The Only Exception.
Ele tocou baixo, quase sussurrado, a voz saindo rouca das primeiras vezes que não usava havia meses. Não estava cantando pra ninguém. Só precisava tirar aquilo de dentro do peito antes que virasse outra coisa pior — a mesma sensação que o fizera pegar o Skate havia tantos anos, só que agora não tinha escada nem corrimão pra descontar a inquietação, só um piano velho e uma sala vazia.
Foi só quando terminou o refrão, os dedos ainda pousados nas últimas teclas, que ele ouviu o som baixinho de alguém prendendo a respiração perto da porta.
Annabeth estava parada no vão, um livro contra o peito como se tivesse esquecido completamente que carregava aquilo. A expressão dela não era de quem tinha acabado de chegar — era de quem já estava ali fazia tempo o bastante pra ter ouvido a música inteira.
Percy se levantou tão rápido que quase derrubou o banco.
— Há quanto tempo você está aí?
— O suficiente — ela respondeu, a voz mais fina do que o normal.
Nenhum dos dois disse mais nada por um segundo longo demais. Ele viu os olhos dela subirem devagar, examinando a barba, o cabelo mais comprido caindo sobre a testa, os wayferer entrelaçados na testa entre seus cabelos rebeldes e escuros.
— Você está... — ela começou, e não terminou a frase.
— Diferente. Eu sei. Já ouvi isso hoje.
— Eu ia dizer "bonito" — ela corrigiu, e pareceu se arrepender no mesmo instante em que a palavra saiu — Mas "diferente" também serve.
Percy sentiu o calor subir pelo rosto de um jeito que a barba não escondia tão bem quanto ele gostaria.
— Feliz ano novo, já que não te vi ainda — ele disse, tentando soar casual.
Alguma coisa cruzou o rosto dela — culpa, talvez, ou só o peso de uma mensagem não respondida ainda pairando no ar entre os dois.
— Feliz ano novo, Percy.
Ficaram ali mais um instante, o piano ainda vibrando de leve com o eco da última nota, até que ela ajeitou o livro contra o peito e murmurou algo sobre estar atrasada, e saiu antes que qualquer um dos dois arriscasse dizer a coisa errada.
***
O escritório de Crawford cheirava exatamente como sempre — couro velho e café — mas dessa vez havia uma pilha de pastas na mesa alta o suficiente pra fazer Percy suspirar só de olhar.
— Documentação da expedição — Crawford explicou, empurrando a pilha na direção dele — Autorizações, seguros de viagem, formulários de próximo parente, e uma pasta extra que o conselho decidiu que precisava, porque aparentemente um professor não pode mais levar alunos pro exterior sem assinar sua alma em triplicata.
— Maravilha.
— Também tenho isso — Crawford tirou um envelope separado, o tom mudando de leve, mais sério — Uma reclamação formal chegou ao conselho disciplinar. Favoritismo acadêmico, alegado contra você, envolvendo a Srtª Chase.
O estômago de Percy gelou, mas ele manteve o rosto o mais neutro possível.
— Formal como?
— Formal como em "vai haver uma audiência", Jackson — Crawford tirou os óculos, esfregando os olhos com cansaço genuíno — Não fui eu quem abriu isso, e Deus sabe que teria preferido enterrar a coisa numa gaveta se pudesse. Mas alguém no conselho insistiu em protocolo. Provavelmente na terceira semana de fevereiro, depois do retorno da comissão de ética.
— E o senhor acha isso justo?
— Acho isso uma perda de tempo abissal — Crawford respondeu, sem rodeios — Mas não é sobre o que eu acho, é sobre o que fica registrado. Vá assinando essa pilha aí enquanto conversamos, quero essas autorizações prontas até sexta.
Percy assentiu, sentindo o peso duplo daquilo — a audiência marcada, a pilha de papel na frente dele — e começou a assinar um formulário atrás do outro, quase mecanicamente, sem prestar atenção real ao conteúdo. Seguro de viagem. Autorização de próximo parente. Termo de responsabilidade.
No meio da pilha, por baixo de um formulário qualquer sobre vacinas, havia um envelope que não pertencia àquele maço — mais grosso, com um timbre diferente no topo, mas Percy só teve tempo de notar a cor antes que Crawford batesse na mesa, impaciente.
— Jackson. Sexta-feira. Concentre-se.
Ele empurrou o envelope de lado, sem abrir, prometendo a si mesmo que voltaria àquilo depois, e seguiu assinando o resto da pilha.
***
Por mais contrastante que fosse, devido à atual situação, a sessão de fotos que aconteceu na tarde seguinte, no salão principal de Balliol, teve um peso diferente com o fotógrafo contratado pelo departamento de captação de recursos.
Se Percy não estivesse na Inglaterra tempo suficiente diria que era puro sarcasmo britânico abrirem uma ausência disciplinar contra ele só pra depois marcarem uma sessão de fotos com a outra parte envolvida na acusação de favorecimento.
A mais confortável, por mais estranho que fosse, era Scarlet. Ela se limitou a observar os cliques com certo desdém e a fazer um ou outro comentário sarcástico sobre como os dois pareciam tão incomodados com aquela proximidade forçada que poderiam passar a impressão errada.
— Um pouco mais próximos, por favor. Precisamos que pareça... confortável. Autêntico. Vocês são a cara da expedição, afinal.
Percy e Annabeth se entreolharam por cima do ombro do fotógrafo, o mesmo pensamento evidente nos dois rostos: nada daquilo parecia remotamente autêntico.
— Mais um pouquinho — o fotógrafo insistiu, ajustando o ângulo — Sr. Jackson, talvez a mão no ombro dela? Algo que sugira orientação. Confiança.
Percy hesitou antes de pousar a mão no ombro de Annabeth, o tecido fino da blusa dela sob os dedos dele quente e ligeiramente suados. Ela ficou rígida por um segundo, depois relaxou visivelmente, numa performance tão boa que ele quase se convenceu também.
— Perfeito — o fotógrafo disparou uma sequência de cliques — Agora sorriam como se estivessem animados com a viagem.
Annabeth sorriu. Percy também. Nenhum dos dois sentia nada daquilo, e ainda assim as fotos, quando o fotógrafo mostrou a prévia na tela da câmera, pareciam genuinamente convincentes — dois professores-alunos entusiasmados, prontos pra semanas de escavação no Camboja lado a lado.
— Ótimo material — o fotógrafo declarou, satisfeito — Vamos usar isso no folheto de captação. Tenho certeza que vai render doações generosas.
Percy sentiu um nó estranho no estômago ao pensar nisso — pessoas doando dinheiro pra uma viagem baseada numa foto de uma dupla que, ele suspeitava cada vez mais, não seria bem aquilo que o folheto prometia.
A sessão de fotos tomou boa parte do período vespertino, os dois se revezando nas poses mais artificiais possíveis que o fotógrafo do departamento insistia em dizer que trariam mais recursos do que qualquer expedição que Oxford já viu.
Percy e Annabeth seguiram caminhos opostos quando finalmente foram liberados dos afazeres acadêmicos daquele dia. Scarlet vinha pendurada no braço do homem e não fez menção de se afastar quando Annabeth disse um “tchau” tímido e se foi andando pelo corredor da administração de Balliol.
Naquela noite Scarlet foi dormir na cobertura em Chelsea. O Porsche cortou o subúrbio de Londres até que a zona rural deu lugar aos prédios históricos da capital britânica.
Foi Luke quem deixou escapar, sem perceber a gravidade do que estava dizendo, durante o jantar no apartamento. Na mesa estavam todos os garotos da banda, além de Percy e Scarlet.
— A Thalia me contou, tipo, semanas atrás — Luke comentou, mastigando um sanduíche com total despreocupação — Sobre a Annabeth voltar pra NYU. Falou de boca cheia, tipo quem comenta o tempo. Achei que você já soubesse, já que é tipo... orientador dela, ou sei lá o termo certo.
Percy quase engasgou e tossiu tentando disfarçar o desespero repentino.
— Voltar como assim?
— Terminar o mestrado lá — Luke deu de ombros, sem notar a mudança na expressão de Percy — Ela mencionou pra Thalia quando elas estavam aqui, acho. Faz tempo. Não é segredo, cara, ela nunca escondeu que ia ser só um ano em Oxford.
— Ela nunca me disse isso.
— Sério? — Luke finalmente ergueu os olhos, percebendo tarde demais que tinha pisado em alguma coisa — Merda. Desculpa, cara, achei que fosse óbvio — ele tentou pedir desculpas pra Percy e Scarlet com o olhar.
Percy não respondeu. Ficou olhando pro prato, a comida esquecida, tentando entender como algo assim tinha circulado por semanas entre pessoas que ele considerava próximas sem nunca ter chegado até ele.
Depois do jantar Percy não demorou a convencer Scarlet a dormir cedo, ele só esperou ela cair no sono pra levantar da cama de fininho e sair saltitando do quarto.
Voltou pro escritório vazio de Crawford naquela noite, usando a chave reserva que o reitor lhe dera meses atrás pra emergências acadêmicas, e encontrou o envelope exatamente onde tinha deixado, ainda por baixo da pilha de formulários assinados.
Abriu com dedos que não estavam tão firmes quanto gostaria.
Era uma petição de transferência de histórico acadêmico — os créditos de Oxford precisando ser formalmente enviados pra validação em outra instituição antes do fim do ano letivo. O timbre no topo da página, roxo e branco, era inconfundível.
New York University.
A data de requisição estava marcada pro início de junho — logo depois do encerramento do semestre, antes mesmo de Percy embarcar pro Camboja.
Ele releu o documento três vezes, cada vez sentindo o mesmo vazio se abrir um pouco mais no peito, a mesma pergunta ecoando sem resposta.
Ela ia embora. De verdade, dessa vez, e por conta própria.
E ele tinha sido o último a saber.
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