A jarra de suco surgiu repentina como era de costume. Com a mão enluvada Joanne tomou a borda do recipiente para si, despejando o líquido lilás em uma pequenina taça de metal. Um murmuro despretensioso deixou-lhe os lábios, ela sentia-se ligeiramente cansada devido a viagem. Acabara atrasando-se em seu percurso a Kings Cross, o despertador que geralmente a acordava falhara possivelmente pela a falta de carga nas pilhas. Sua mãe, a bióloga Coerence, teria trocado as benditas, mas ela se encontrava em Berlim, como a palestrante principal de um congresso esporádico, o qual Jô não se preocupou em gravar o nome. Estava furiosa por ter que ficar sozinha em casa, uma grandiosa cabana que se alocava em uma região remota e distante da Grã-Bretanha. Se ao menos Dante estivesse presente ela poderia ter acordado na hora certa, porém o pai da garota vivia fora de casa devido sua vida como Auror.

Em um balançar de face ela afastou os pensamentos, tentando atentar-se no ambiente que lhe cercava. Culpar os outros de nada adiantaria, apenas reforçava a sua fragilidade em assumir uma falha, menor que ela fosse. Joanne sabia que deveria aprender com isso e tentar ao menos mudar as trilhas de sua persona, porém era difícil, complicado. A jovem da Grifinória encaminhava-se ao seu 6° Ano e ainda lamentava pelas ocasiões em que não conseguia chefiar as notas de sua turma.

Um velho amigo de madeixas douradas e sorriso frouxo tendia a caçoar da mesma por este aspecto, levando-a constantemente a loucura. O seu nome era André Barto e ele pertencia a Sonserina, não que isto fosse um empecilho para Jô, porém os olhares alheios viam a relação destes como algo exótico ou peculiar, uma linha fora da curva. Para a garota era apenas uma amizade como às outras, bela e cheia de discussões que terminavam em brincadeiras. Com o olhar atento ela buscava a presença do rapaz no extremo oeste do salão, ele não estava ao alcance de sua vista, mas deveria estar ali, escondido em meio os grupinhos esmeraldinos que se espalhavam pela a mesa da serpente.

Deixando a busca do amigo de lado ela trouxe a taça novamente a boca, saboreando o suco de amora. Risos e gargalhadas circundavam a jovem de madeixas cacheadas, ora ou outra ela era abordada por algum colega de turma ou crianças que pertenciam a anos anteriores. Timothée Jout, um garoto de 13 anos que pertencia a Lufa-Lufa, lhe contou brevemente como havia sido o seu período de férias, revelando os afins de sua viagem a um racho nos arredores de Durmstrang. Ele era um individuo ligeiramente retraído, mas que diante de Joanne conseguia abrir-se com uma surpreendente facilidade. Ela havia conhecido o mesmo no passado, durante o Natal. Ambos optaram por ficar em Hogwarts e acabaram dividindo longas noites na biblioteca, trocando histórias e risadas.

Quando este retornou para sua mesa Jô olhou para sua esquerda, notando finalmente a presença de Margareth, uma garota do 5° Ano que ostentava mechas sombrias e olhos estranhamente dourados. Jô adorava contempla-la como uma pintura, notando as nuances que seus orbes exalavam. Pouco conversavam de fato, ela não chegava a considera-la uma amiga, porém era sempre bom trocar alguns dizeres com a morena, que em suma exalava uma entonação calma e serena.

— Hey – falou Jô, apoiando o braço esquerdo na mesa – Conseguiu aproveitar as férias?

Com uma belíssima casualidade ela virou-se para Joanne, com resquícios de chocolate na beirada de seus lábios.

— Uhum, viajamos para o Brasil – respondeu ela, limpando a sujeira com a manga de sua vestimenta – E você, ficou o tempo todo na cabana ou chegaram a fazer algo desta vez?

A surpresa surgiu repentina na face da jovem, ela havia se esquecido que comentara com Margareth sobre a sua casa no ano passado.

— Te dou três galeões de ouro se adivinhar – falou ela, retomando a fala após uma pausa brincalhona – Fiquei na cabana, basicamente lento e estudando. Meus pais por sua vez não pararam em casa, minha mãe embarcou numa jornada de autodescobrimento, despejando palestras por toda a Grã-Bretanha. E meu pai está atolado com casos no trabalho, a última vez que conversamos ele disse que isso é estranho, que a frequências de crimes é incomum.

— Entendo – replicou Margareth, criando em seu interior uma dúvida que viria a desabrochar futuramente – Ele é um Auror, certo?

— Uhum, sim – confirmou Jô, buscando com a destra um pedaço de bolo de morango numa enorme bandeja – Atualmente ele está chefiando o comitê de Casos Extraordinários, creio que seja algo a se comemorar.

— Imagino que sim – respondeu a morena, despedindo-se de Joanne com um aceno, voltando sua atenção para um jovem de mechas castanhas que havia tocado o seu ombro. Jô não o conhecia, mas pela proximidade de ambos e suas feições evoluídas, ele também deveria estar no 5° Ano.

Com uma expressão vaga ela voltou-se para o prato diante de si, o bolo mordiscado espalhava migalhas pela a superfície de porcelana. Por alguns segundos ela ficou ali, quieta em meio às gargalhadas que percorriam sua mesa. Ela apreciava estes momentos de quietude, de colocar-se em uma cúpula enquanto os sons do “exterior” ressoavam a sua volta, como os ruídos de uma chuva tardia que insista em tocar as janelas de uma casa. Poucas coisas conseguiam tira-la deste transe e ela sempre se sentia ligeiramente atordoada, como se tivesse sido acordada de um breve cochilo.

Um bocejo deixou-lhe a boca, pairando através das taças e guloseimas que se estendiam na superfície de madeira. Os orbes esmeraldinos fixaram no extremo norte do recinto, na mesa do comitê acadêmico. A Diretora Eva estava extremamente sorridente para a ocasião, sua vestimenta lilás realçava o rubro de seus fios. Ela conversava com um homem de madeixas escuras, o descontraído Professor de Transfiguração, Ethan Seafret. O mesmo estava na escola desde o dia em que Jô ingressara, já Eva adentrava em seu segundo ano de comando. E no ver de Joanne conseguia realizar um formidável trabalho, implementando gradativamente praticas que subjugavam o pensamento arcaico que a escola insistia em carregar.

Hogwarts era apenas um reflexo do mundo exterior, que era regido por indivíduos de índoles questionáveis, com raras exceções como o Ministro Graymor. Ele ocupava o cargo há sete anos, buscando à sua forma mudanças no regimento da comunidade bruxa. Desde então ele conseguira uma aproximação notável com os Nascidos-Trouxas, incluindo-os de maneira proveitosa no cenário mágico. Evidentemente esta política acabou atraindo a desaprovação de alguns membros do Conselho Bruxo, um parlamento que o acompanha no discorrer de suas ações.

O posto de um Ministro poderia ser comparado com um malabarista, ele tinha que tomar as decisões corretas em momentos oportunos, atentando-se nas chamas que poderiam queima-lo a qualquer instante. Os membros tradicionalistas do Conselho eram labaredas vingativas que ficavam a espreita, no aguardo para proclamarem um líder de seu gosto.

Pouco se comentava que a maioria dos integrantes do partido tradicionalista eram familiares de “Puros” e até mesmo seguidores de Mortimer que haviam sido perdoados pelas antigas gestões. As pessoas tendiam a esquecer com facilidade alguns feitos, colocando-os sobre uma coberta que dificilmente seria erguida devido à comodidade da população.

Ela não havia dito a Margareth, mas Dante estava investigando um caso misterioso quanto à aparição de um renomado Puro, conhecido pelos assassinatos de inúmeros Trouxas e Nascidos-Trouxas. Vislumbres de sua presença foram relatos em pequeninos vilarejos da Grã-Bretanha, levando Dante a uma viagem para os mesmos. Diziam os rumores que ele escondia-se nas residências de seus antigos colegas, que “surpreendentemente” possuíam “cadeiras cativas” e posições de prestigio no Ministério.

A informação evidentemente era confidencial, mas o pai sempre confiara na filha com alguns afins de sua profissão. Ela gostava de escuta-los, agiam como um choque de realidade, mantendo na jovem a noção de que o mundo não era um mar de flores como tendiam a pinta-lo. Essa verdade era preciosa e logo viria a calhar, para o bem ou para o mau.

...

A recepção estendeu-se por algumas horas, gradativamente as vozes iam se esgotando e os ânimos eram confinados novamente nos interiores dos alunos, que a esta altura ansiavam apenas por uma boa noite de sono. Da mesa principal, no palanque norte, os diretores das casas levantaram-se e caminharam para suas respectivas mesas. A responsável pela Grifinória era Olivia Almar, ela ostentava fios castanhos e orbes de coloração âmbar, era deveras jovem para o seu posto, circundando na casa dos 30. Sem delongas ela percorreu toda a extensão do recinto anunciando a retirada, evidenciando em seu tom de voz o porquê de ter sido confiada ao cargo mesmo carregando a juventude em suas feições.

Joanne ergueu-se despretensiosamente do banco, mesclando-se com cuidado no mar de alunos que deixavam o salão. O empurra-empurra era inevitável, os pés de Jô que estavam cobertos por um par de incômodos calçados eram constantemente “cumprimentados” com pisadas, despertando na garota uma expressão de desagrado e uma latente vontade de sacar sua varinha, azarando o próximo bendito que ousasse pisotear seus dedos.

Felizmente não foi preciso chegar a este ponto, pois assim que deixaram o recinto os acadêmicos se dispersaram e rumaram para direções divergentes. Os alojamentos eram espalhados pelo o castelo, enchendo-o de vida em seus cantos mais remotos. O dormitório da Grifinória jazia na torre oeste, o seu único acesso era pelo o 7° Andar. Uma caminhada deveras cansativa no ver de Jô, que nestes instantes se contentaria com as masmorras da Sonserina.

Em meio o mediano montante de alunos rubros ela seguiu Olivia pelas escadas. No percurso a garota deparou-se com alguns rostos familiares, tais como Lívia Devanour e Olivier Cardan, alunos franceses do 6° Ano. Ambos despertavam uma empatia tremenda de Joanne, que desde o começo de sua jornada em Hogwarts havia tomado os mesmos como queridos amigos.

Imersa em dizeres casuais ela aproximou-se destes, encaminhando-se com uma bem-vinda distração até o longínquo dormitório. Eles conversavam sobre as maravilhas da França, ressaltando ora ou outra o quanto sentiam saudades da gélida e receptiva escola. Jô conseguia entender tal sentimento, a cada semana que passava na cabana ou em alguma rara excursão em família, ela ansiava vigorosamente pelo o seu retorno a Hogwarts. Em seu interior ela suspeitava que futuramente fosse se tornar uma professora da instituição, alojando-se no local de vez. Em qual matéria ela não sabia dizer, porém era de conhecimento comum o seu talento em Defesa Contra as Artes das Trevas.

...

Os minutos trafegaram como folhas à brisa de uma tarde e logo ela se viu em seu velho dormitório. Suas colegas dialogavam despretensiosamente enquanto aprontavam-se para a cama. Lívia ficava na parte de cima de seu beliche e já se enfiara em um pijama de coloração rosada com detalhes azuis. Joanne considerava-se discreta diante do desfile de vestimentas que se espalhavam pelo o cômodo, trajando uma simplória calça de moletom cinza e uma regata azul surrada, com a estampa de um grifo no centro. Os cachos despencavam livres até os ombros.

— Temos qual aula pela manhã? – perguntou Lívia, saltando para a cama.

— Hum... – murmurou a jovem, buscando nos confins de sua mente o horário que pegara com um amigo na viagem de trem – Creio que teremos Poções. Mortinguer deve ter passado as férias elaborando formas de ferrar com a gente. Já irei reservar a biblioteca para o restante do período letivo – brincou ela, despertando um riso contido da amiga.

— Desde que o Dre não exploda o laboratório como no ano passado, será uma conquista – com a destra Lívia puxou o cobertor até a cintura, os fios sombrios que a mesma possuía alongavam-se até a mesma altura – Você o viu? Não consegui nenhum vislumbre daquele sorriso bobo.

Joanne manteve-se em silêncio por alguns segundos, procurando por uma razão do sumiço de André. Ele tendia a procura-la em King's Cross, porém ela não chegou a vê-lo em nenhum momento da chegada e recepção.

— Pois é, também não o vi – comentou ela, virando-se para a parede escarlate. Os ruídos diminuíam gradativamente – Hey, vou capotar. Bons sonhos.

— Bons sonhos – respondeu a morena, mantendo os orbes celestes abertos. Eles miravam uma macha no teto, sua forma se assemelhava a de um lobo.