A chuva insistia em cair desde o principio da manhã. Quando o carro de Dante atravessou o portão central da enorme propriedade os feixes solares despediam-se do solo lamacento, desaparecendo no horizonte. O limpador do para-brisa movia-se freneticamente da esquerda para a direita, expurgando as gotas que se acumulavam na superfície de vidro. Resquícios de sujeira eram evidentes no tal, maculavam-no como uma fotografia envelhecida que havia sido guardada no porão. A visita do homem também se tratava de assuntos envelhecidos, que poucos ousavam em tocar. Apenas ele tivera a audácia de rumar até a mansão da família Mortensen, membros da elite bruxa e curiosamente Puros que receberam o perdão do Ministério no passado.

O local era de uma magnitude surpreendente, uma trilha asfaltada e cercada por árvores guiava o automóvel em direção ao pátio dianteiro. Uma fonte ocupava o centro deste, a oeste era perceptível outra trilha que provavelmente o levaria para as inúmeras extensões da propriedade. Sua curiosidade pulsou por um instante, sendo deixada de lado assim que ele estacionou perante a escadaria. Um indivíduo truculento e de vestimenta volumosa o aguardava no primeiro degrau, um chapéu pequenino ocupava a sua cabeça, deveria ser uma espécie de chofer.

— Boa noite – disse Dante ao descer do carro. Ele trazia consigo uma bolsa de couro com uma única correia, que pendia de seu ombro direito – Sou Dante J. Ronan, tenho uma visita marcada com o Senhor Louis.

O homem o analisou em silêncio, desconsiderando as gotas que o atingiam ininterruptamente. Ele ostentava uma cicatriz em sua bochecha esquerda, era profunda e certamente deveria ter lhe causado uma tremenda dor, talvez ainda causasse.

— Oh, sim – respondeu ele, encaminhando-se até o visitante a fim de pegar a chave do carro. Dante depositou a mesma na destra do desconhecido e subiu no primeiro degrau – Bata três vezes na porta, eles estão a sua espera.

O Auror acenou em entendimento e continuou sua subida. Olhou sobre o ombro despretensiosamente, observando o carro afastar-se em direção a trilha oeste que havia contemplado em sua chegada.

Os degraus da escadaria eram sombrios e exalavam entalhes em sua estrutura, que aparentemente demarcavam o decorrer de uma história, uma batalha. Ao menos era isto que Dante compreendia, reconhecendo nos desenhos formas humanoides que portavam em suas mãos varinhas, apontando-as para seres desformes e grotescos, que deveriam simbolizar os monstros daquele conto.

As famílias burguesas do Mundo Mágico eram repletas de mistérios, regadas ao ocultismo e cercadas pelo o protecionismo da comunidade. Seus feitos, bons ou ruins, eram ora exaltados, ora desconsiderados e colocados embaixo do tapete. Os Mortensen em sua trajetória exalavam controversas, circundando pela a linha tênue de bondade e maldade. Entendia-se que o rumo da família era ditado pelo o seu mandante, que alternava-se constantemente. Atualmente o regente era Louis Mortensen, um homem a beira da velhice que carregava em si os fantasmas do passado.

Por alguns segundos Dante parou diante da porta, os orbes castanhos miravam o “nada” em busca de respostas, de um rumo. A investigação perdurava há um bom tempo, ele já visitara diversas casas, desde mansões como esta à casebres humildes. Todas visitas, apesar de pouco significativas, haviam lhe traçado uma linha até o presente. Mantendo-o em uma camada de desorientação quanto o motivo das ações de seu alvo.

Aquele maldito era bom em esconder os seus rastros, certamente contava com o auxilio de outros. E algo lhe dizia em seu interior, que talvez atrás daquela bendita porta ele fosse encontrar as resoluções que tanto aguardava.

A destra enluvada tomou pose da aldrava, chocando-a três vezes contra a superfície de madeira. O objeto era feito de prata, algo simplório e carente de atrativos. Dante pouco se preocupou em reparar no mesmo, em sua forma. Sua estrutura representava uma cobra mordendo o próprio rabo, os olhos desta diferiam-se do material prateado, eram celestes como os respingos de uma furiosa onda. Eles contemplavam o Auror em silêncio, como era o natural, porém havia algo ali, oculto naquela “inocente” aldrava.

Do outro lado uma jovem de mechas castanhas e sorriso frouxo abriu a porta, recebendo o visitante com dizeres agradáveis. Ela não aparentava ser uma serviçal da família, suas vestes eram extravagantes e em suas orelhas brincos reluzentes jaziam. Deveria ter entre 18 a 20 anos.

— Boa noite – disse ele, inclinando-se à canhota da garota para um delicado beijo de cumprimento.

— Boa noite, Senhor Ronan. Estávamos a sua espera, meu avô o aguarda na biblioteca – respondeu ela fechando a porta cuidadosamente, guiando em seguida o visitante.

A sala de recepção da mansão era ampla, decorada com uma mobília digna da realeza. Duas escadas ocupavam as extremidades do recinto e três portas postavam-se sistematicamente ao redor do cômodo. A morena encaminhou-se até os degraus da esquerda. Ela olhava constantemente sobre o ombro, ora contemplando Dante em silêncio e ora questionando-o sobre sua viagem. Sua entonação era sutil e surpreendentemente meiga, não havia prepotência ou superioridade em seus dizeres.

— Foi muito tranquila – mentiu o Auror, mantendo-se próximo da jovem enquanto ela caminhava por um corredor inóspito. Um carpete azulado estendia-se no chão e nas paredes um mar de quadros se espalhavam, eram em suma pinturas de datação medieval – Tirando é claro o cunho da minha vinda, mas fora isto bem tranquila de fato.

— Entendo, espero que dê tudo certo – comentou a garota, fitando-o ao parar diante de uma porta esporádica. Dante olhou para esta brevemente, notando a placa que dizia “Biblioteca” – Meu avô deseja ajudar com o que puder. Enfim, ele está aí dentro, pode entrar. Irei buscar chá na cozinha, voltarei logo.

A morena esboçou um sorriso frouxo e logo desapareceu em uma curva à esquerda. Com um ligeiro receio ele apossou-se da maçaneta e a girou, desbravando o ambiente que se escondia atrás daquela porta. A biblioteca para a surpresa de Dante era modesta, ligeiramente pequenina. As paredes eram revestidas de prateleiras de madeira, provavelmente foram feitas das tábuas de um carvalho. Inúmeros livros espelhavam-se por estas, enchendo-as de vida e propósito, como se não pudessem estar ali sem que os exemplares as ocupassem. No centro do cômodo jazia uma mesa de leitura redonda, com oito cadeiras a sua volta.

O velho de madeixas grisalhas assentava-se na ponta, que no ver de Dante era a oitava cadeira. Ele estava com os orbes inclinados sobre um grosso livro que repousava na mesa, óculos de leitura o auxiliavam naquela árdua tarefa. Dante não sabia, mas ele estava lendo sobre os ocorridos da Guerra dos Puros, em especial a Batalha de Monaco em 1957, conhecida pelo o surgimento do bruxo irlandês Lancaster Silma. O mesmo liderara uma resistência contra os Puros da região, expurgando-os em um embate que perdurou por 03 meses. A ocasião marcara apenas o começo da trajetória de Lancaster, servindo como uma previsão do misterioso duelo que viria a surgir anos depois.

Cuidadosamente o Auror fechou a porta atrás de si e rumou para o extremo aposto da mesa, apoiando-se na borda da cadeira. Louis ergueu lentamente a face e por um longo período contemplou o homem diante de si. Dante ostentava madeixas douradas e orbes castanhos, era ligeiramente alto e possuía um porte físico digno de sua posição. Não chegava a ser amedrontador, mas de fato atraía olhares. Porém o olhar de Louis em si era diferente, afiado como uma navalha que estava pronta para corta-lo se fosse descuidado.

— Senhor Dante J. Ronan – falou o velho por fim, fechando o livro e esboçando com dificuldade um sorriso minimamente amigável – Seja bem-vindo a minha casa.

— Muito obrigado, Senhor Mortensen. Sua neta me recebeu com tremenda cordialidade – replicou o loiro, repousando a bolsa na mesa. Mantinha-se em pé, observando cautelosamente o recinto que lhe cercava – Como foi dito em minha carta, a minha visita se deve a uma investigação, uma busca incessante por um certo indivíduo.

Os feixes das velas que circundavam no ambiente reluziam nas lentes do óculos de Louis, que mantinha-se em silencio enquanto revirava a mente em busca de uma resposta. Dante retirou a destra da cadeira, levando-a para o bolso interior de seu sobretudo. Uma foto jazia em sua mão, era velha e ostentava sinais de desgaste que o tempo havia lhe causado. O homem na fotografia possuía madeixas sombrias e uma barba cerrada, o rosto era esguio e delineado como as feições de um lobo.

— Ambos sabemos que você não gosta de visitar o passado. Os raros depoimentos da época dizem que o senhor se viu coagido devido às ações de seu irmão mais velho, Robert, que regia a família durante a Guerra dos Puros. E por isto lhe foi concedido o perdão, correto? Você estava apenas seguindo ordens de acordo com os relatórios da guerra.

—Sim, sim – respondeu Louis, retirando a armação da face. Sem as lentes seus orbes eram mais amedrontadores, opacos e perdidos, como se não conseguissem focar em algo – Aonde o senhor quer chegar?

Dante respirou fundo, as palavras saltitavam no interior de sua boca, salpicadas com verdades que poucos ousariam em proferir. Ele sabia o que havia por trás daquelas mechas grisalhas e do sorriso frouxo, aquele homem não era inocente e tampouco merecia ter sido perdoado. Os seus feitos ainda ressoavam nas mentes de muitos Nascidos-Trouxas e Mestiços, porém o restante da sociedade optara por ignora-los, como era o costume.

— Quero chegar a uma simples pergunta...

Um toque ressoou na porta e a neta de Louis adentrou no recinto, trazia consigo uma bandeja com duas xicaras e um bule. O homem de mechas douradas calou-se e recuou ligeiramente, deixando que a garota aloca-se os objetos sobre a mesa. Ele a observou fixamente enquanto esta deixava o recinto, fechando a porta em um baque cuidadoso, como se o menor som pudesse acordar alguma horrenda criatura.

— Enfim, uma simples pergunta – disse Dante retomando sua fala. O vapor desprendia-se das xicaras, o velho Mortensen por sua vez tomou um dos recipientes em sua canhota tremula, bebericando o líquido – Você teve algum contato recentemente com Alexander Pietros? – sem delongas ele jogou a foto a mesa, que por coincidência alojou-se próxima do bule – Como é de conhecimento comum, Pietros desapareceu após a morte de Mortimer. Ele era apenas um jovem de 19 anos quando se aliou aos Puros, porém sua maleficência conseguia amedrontar os Aurores mais experientes da época – os relatórios de Dante discorriam atrocidades que o mantinham acordado noites afinco, temeroso diante da realidade de um ser como Alexander estar vivo – E, além disto, após algumas visitas feitas nos últimos meses por alguns colegas – mentiu o loiro, ele mesmo havia se colocado em campo – Chegou ao meu conhecimento que você era um amigo querido de Pietros, que este o via como um mentor na época. Estou certo ou estas informações estão equivocadas?

Os lábios de Louis tremiam e sua mandíbula rígida evidenciava o seu nervosismo. Ele não conseguia crer nos dizeres do loiro, em sua petulância e na audácia do mesmo em confrontar-lhe em sua casa. De fato o velho esperava por algo deste cunho quando recebeu a carta pela a manhã, porém a gama de informações que ele possuía despertavam no regente Mortensen uma sensação que circundava entre o temor e o incômodo.

— Eu...eu – Louis gaguejava, forçando uma tosse enquanto levava a xícara de volta a mesa – Eu não o vejo desde o seu desaparecimento, isto é a verdade. E sim, nós éramos amigos – confessou ele, reconhecendo que a negação de nada adiantaria diante do cenário que se desenhava – Porém depois que me foi concedido o perdão pelo o Ministério eu busquei distância de todos que se intitulavam como “Puros”. Como você bem sabe meu irmão foi condenado à morte e lhe garanto que não derrubei uma sequer lágrima, ele era um monstro. E cabia a minha pessoa impar o nome da família.

“Você é um monstro”, pensou Dante, contendo a ira nos confins de sua mente enquanto o velho discorria seu discurso regado a mentiras e distorções.

— Entendo – replicou o Auror em um murmuro, recolhendo a foto ao bolso do sobretudo. Sua varinha também estava ali, oculta na grossa camada de tecido, como ele desejava saca-la. Nestes instantes Dante surpreendia-se com o seu autocontrole – Então, se eu emitir uma ordem de busca em sua propriedade você não irá se opor, correto? Pois não há nada a se esconder, já que o senhor fez questão de cortar as relações com os fantasmas do passado.

A surpresa ficou estampada no rosto de Louis, que em meio a tremores e múrmuros inaudíveis realocou o óculos no nariz. Uma fina saliva escorria do canto esquerdo de sua boca.

— Certamente não, traga quantos enxeridos desejar. Estarei lhe esperando na varanda pela manhã para que possa revistar minha propriedade de cabo a rabo, satisfeito? – falou ele, esforçando-se em manter a razão diante da postura imponente que o Auror

— Formidável – comentou Dante, esboçando um sorriso largo à face. Casualmente ele pegou a bolsa que jazia na cadeira e por fim a xicara de chá, secando-a em um único gole. O líquido salpicou-lhe o interior com calor, despertando-o para os passos seguintes – Então o deixarei ter um breve momento de paz, se me permite. Tenha uma ótima noite.

Antes que Louis pudesse responder ele deixou o recinto, selando o cômodo em um baque seco e duro, regado com o descaso que desejava transparecer. A neta do velho o esperava na curva do corredor, os fios castanhos despencavam até os ombros e por alguma razão ele se viu atento em seus lábios, eram finos e rubros.

— Já vai? Pensei que ficaria para o jantar – falou ela, aprontando-se com batidas singelas no vestido que portava.

— Oh, não desejo causar incômodo. Preciso retornar para o meu modesto hotel e fazer algumas ligações, relatórios e toda esta burocracia.

— Hum, compreendo. Pois bem, então me deixe leva-lo a porta, pedirei que Carter deixe o seu carro em prontidão – disse a morena, postando-se no lado esquerdo de Dante.

O trajeto até a saída foi moldado pelo o silêncio e por notáveis trocas de olhares, tanto o homem quanto a garota se entreolhavam, esboçando sorrisos frouxos e múrmuros que se perdiam entre as paredes e os quadros. Ao atingirem a varanda a jovem de mechas castanhas despediu-se do Auror com um simples aperto de mãos, informando-o que iria até o serviçal que estava a cuidar de seu automóvel.

Uma frágil garoa havia substituído a estrondosa chuva, maculando os degraus ilustrados com alguns resquícios de lama. Em sua solidão Dante refletiu quanto o encontro com Louis. O velho agiria da maneira que o homem esperara, até mesmo caíra na falsa proposta de busca. O Auror sentia que algo se escondia nas sombras daquela propriedade e que diante da acusação o regente da família tentaria movê-lo até a manhã, retirando quaisquer suspeitas que estavam a recair em si. Portanto Dante tinha um plano, era audacioso e de fato impulsivo, mas era a única investida que lhe restava.

Assim que o carro lhe foi entregue ele adentrou neste de maneira corriqueira, quieto e com dizeres casuais de despedida. Ao rumar para a saída ele certificou-se de que as árvores e a distância da mansão o acolheriam, mantendo suas ações ocultas de olhares alheios. A bolsa fora colocada no banco do passageiro e com a mão enluvada ele retirou a varinha, apontando-a para o volante. Um feitiço rompeu de seus lábios e repentinamente o automóvel ganhou “consciência”, designado a seguir o trajeto que havia sido confinado em sua fala.

Os orbes de Dante miraram no exterior, o portão de saída logo se fez presente. Com a varinha em punho ele abriu a porta e saltou do carro, repousando no cascalho com certa dificuldade. O automóvel seguiu o seu curso, transparecendo a noção de que o Auror havia deixado o local. A visita não havia terminado, ele ainda precisava revirar os segredos que permeavam as árvores e os arbustos da família Mortensen.