As Crônicas de Magnam - A Entidade
4 Aurora
Notas iniciais
Estava tentando agrupar tudo na bandeja. Pão, geleia, uma maçã e leite. Não, leite não. Ele não gosta de leite. Pegou o suco de uva feito pela criada e colocou na bandeja.
– Não levará o leite para o Sr. Grygor, senhorita Emily? – Indagou a única criada da casa.
– Não Dina – Respondeu Emily, suavemente. – Ele não gosta de leite, esqueceu?
– Eu sei, mas no leite tem os remédios de seu pai. Ele precisa toma-los para melhorar.
– Levarei o suco e o leite, mas acho que ele não provará deste leite. Os remédios o deixam amargo.
Subindo as escadas, Emily notou a grande amargura que estava presente na casa. As paredes de madeira e pedra estavam mais escuras, e o ar que pairava na casa sempre foi tenso. A primeira vez que Emily entrou na casa dos Grygor já sentia isso, mas, dessa vez parecia que a casa estava mais triste que antes. Ou pode ser só impressão minha. Atravessou o corredor até chegar ao quarto de Ryan. Entrou no grande aposento bem decorado com cuidado para não fazer barulho e, depositou a bandeja do café da manhã na mesinha ao lado da cama do garoto. Ryan estava totalmente desacordado em sua cama. Estava pálido, só não inteiramente pelos grandes hematomas em volta de seu corpo. Crisman poderia não machuca-lo tanto. Pensou. Ryan não deveria ter zombado tanto dele. Não enquanto estava lutando. Sabia que Crisman é bem mais forte. Tolo. Sentou-se num banco de madeira acolchoado, ao lado da cama para esperar seu amigo retomar a consciência. Esperou e esperou. E nada dele acordar. Não mostrava sequer um sinal de vida. Só estava vegetando em sua cama.
– Ele não acordará tão cedo – Disse uma tênue voz do lado da porta do quarto. – Ele está desacordado e não dormindo, pequena Emily.
– Senhor Grygor! – Emily saltou da cadeira. Era o pai de Ryan. Estava vestido com simples roupas, como sempre. — Assustou-me. Eu só estou cuidando para que ele não sofra nada enquanto dorm... Enquanto está desacordado.
– Estou vendo – Havia compaixão em sua voz. – Por favor, me chame de pai. – Pediu, colocando a mão no ombro dela, em ato carinhoso. – Ou Tomaz, se preferir.
– Como quiser pai – Disse ela, abraçando-o com um sorriso largo. Emily não era filha de sangue de Tomaz, mas era de consideração. – Como estão os negócios?
– Normal – O sorriso no rosto de Grygor evaporou com a pergunta. Ele é um alquimista de sucesso no reino, mas ultimamente seu trabalho vem perdendo utilidade com o crescimento da magia. – Estou trabalhando na cura de Infivetus.
– Existe uma cura para Infivetus? – Emily ficou surpresa com a notícia.
–Ainda não. Estou nessa com Bron. Ele tem ajudado bastante.
O idoso se sentou ao lado da cama de Ryan e olhou pesarosamente para o filho. Emily via a preocupação nos castanhos olhos do pai. Não a preocupação de perder o filho para a morte, mas a preocupação de um pai para com o filho de um futuro incerto.
– Você quer que eu dê a notícia? – Perguntou Emily acariciando as costas do pai.
– Se eu não estiver aqui quando ele acordar... – Tomaz parou de falar quando um homem grande passou pela porta.
– Estou interrompendo? –Indagou Bron
– Não – Respondeu o idoso. – Pode entrar.
E assim o fez. Bron caminhou até seu amigo e o observou se nenhuma expressão no rosto. Ele nunca mostra nenhum sinal de fraqueza emocional. Pensou Emily.
–Ele ficará bem, pai? – Bron estava preocupado, mas não queria demonstrar.
– Ele vai acordar. Só está inconsciente.
– Hoje vou até o batalhão pegar o documento de oficial – Afastando-se de seu amigo, Bron se sentou ao lado de Emily. – Depois vou até o Conselho Real e vejo se eles patrocinam suas pesquisas com uma escama de dragão.
Tomaz escutou com atenção. Bron estava determinado a conseguir uma escama por conta própria. Por mais improvável que fosse Tomaz concordou com Bron, deveria deixa-lo tentar.
– Por que você precisa de uma escama de dragão, Bron? – Emily ainda não sabia o que Bron foi procurar em Pólema, e não sabia nada de sua missão. Talvez nem Ryan soubesse.
– Bom... – Foi Tomaz quem respondeu. – Lembra que eu disse agora pouco sobre trabalhar na cura de Infivetus? – Não a deixou responder. – Bron foi até Pólema negociar uma escama para mim. – Emily arregalou os olhos e os mesmos encontraram o de Bron.
– E não conseguiu...
– Não – Continuou Tomaz. – Mas também foi até Asthlus trazer Lírios-Azuis. E conseguiu trazer bastante.
– Como você conseguiu chegar a Asthlus? – Emily estava mais do que surpresa, com razão. As ruínas de Asthlus eram proibidas a qualquer visitante, não só por guerreiros, mas por magia também. Darkon tinha os direitos de Asthlus num acordo com Marc, rei de Lammar. Marc era o segundo rei mais velho de Magnam, e em sua juventude, seu pai Dolan levou os Lammarnianos até Pólema para dizimar Asthlus que era um reino dos Maxanos. Após vencerem, Dolan ficou com os direitos das ruínas. Trinta anos depois Darkon compra as terras de Asthlus e a mantém protegida para reconstruí-la.
– Não fui exatamente até a cidade. – Bron coçou o pescoço. – Só cheguei perto, mas deu pare ver as muralhas... O que sobrou delas.
– Deixe de ser bobo – Brincou Emily, ainda impressionada. – Você chegou à cidade, só não entrou nela.
– Outra hora resolveremos isso – Bron bagunçou o cabelo da jovem e se levantou. – Mas agora precisa ir até o batalhão. Diga para o Ryan que eu deixei a mochila dele na sala. Até logo.
– Até. – As mochilas deles ainda estavam cheias de comida, e Emily teria distribuir antes de estragar.
– Boa sorte filho. – Os fortes passos de Bron deixavam de ecoar a medida que saía. – Também vou sair Emily. Tenho que fechar a loja e dispensar Nilman.
– Tudo bem, pai. – Volta logo. – Despediram-se com um abraço.
Emily continuou esperando ao lado de Ryan o decorrer do dia. Esperou, esperou e esperou. Quando se deu conta de olhar para a janela percebeu que o sol há muito já deixara de iluminar Magnam. Seus pensamentos vagaram além da escuridão dá noite, iluminados pela única vela que Dina trouxera. Pensara no que seria em prol da sua família. Seria ela uma nobre? Ou quem sabe uma membra do Conselho Real? As chances eram mínimas. Ela não tinha a diplomacia necessária: Era muito sincera e impulsiva. Se estivesse brava ela não esconderia, falaria o que fosse certo, e não o que desejariam ouvir. Quem sabe produzir poções com Tomaz, e ser uma Alquimista? Pensou com um pouco de ânimo. Emily era boa com poções, acertava as medidas, titulava, destilava e decantava tudo que Tomaz pedia. A ideia não era ruim para ela. Pelo contrário, era boa e Emily gostava do que fazia. Sempre fora inteligente o suficiente para decorar receitas e matérias. Sabia diferenciar um béquer de um tubo de ensaio, coisa que Ryan nunca se interessou. Ele sempre preferiu estudar as artes arcanas, coisa que Tomaz odiava.
– Emily? – Chamou Tomaz.
A jovem tomou um pequeno susto, mas ficou contente em ver que Tomaz voltou para casa.
– Pois não, pai? – Bocejou e se espreguiçou.
– Me acompanhe. – Tomaz parecia animado. — Quero te mostrar uma coisa.
Desceram a escada de mármore e passara pelo espaçoso corredor até chegar à outra escada que descia mais além. Desceram até uma porta de madeira lindamente decorada com desenhos em círculos. A porta tinha vigas de ferro que serviam para proteger qualquer coisa que estivesse lá dentro. Tomaz pegou seu aro contendo dezenas de chaves e pegou a maior chave e abriu a porta.
Lá estava o laboratório de Tomaz. Um grande espaço iluminado com Lamparinas de Occulon que havia na cidade inteira. As Lamparinas de Occulon emitiam uma luz azul que poderiam ser reguladas de acordo com necessidade do consumidor. Eram lâmpadas mágicas, e sua fonte de energia era produzida por magos na ilha Magnus. O laboratório tinha paredes de pedra, mas quase não dava para ver por conta de estantes de livros e vidrarias e almoxarifados que cobriam a maior parte da parede. Haviam vários equipamentos, desde tubo de ensaio até destiladores. Mas oque mais marcava era o estoque de ingredientes: Os mais derivados tipos de plantas, pedras e suas extensões no leste do laboratório. Emily sentia-se confortável ali.
– Não consigo parar de me impressionar com esse laboratório. – Comentou a jovem andando entre os livros e enciclopédias de Tomaz.
– Um dia será seu.
Emily paralisou ao ouvir aquilo. Estava feliz pela consideração, mais ao mesmo tempo preocupada.
– Mas Ryan é o herdeiro legítimo de toda sua herança.
Tomaz colocou a mão no ombro da jovem para conforta-la, e disse:
– Sabemos que Ryan não liga para Alquimia e suas artes. Esse laboratório tem que continuar. E alguém com talento, como você, deve continuar todo o trabalho – Emily ia responder, mas Tomaz não deu tempo. – Venha querida, deixe eu te mostrar o eu queira que visse.
Tomaz a conduziu até o centro do laboratório, onde havia uma bancada com duas placas de vidro, um frasco com um líquido azul-claro quase fluorescente, uma caixa, alguns instrumentos e uma Lamparina de Occulon.
–Veja só – Começou a mostrar. Tomaz abriu a caixa e Emily viu um amontoado de gelo.
Como ele conseguiu gelo no verão?
Do gelo, ele retirou um frasco com um líquido vermelho escuro. Estranhamente, o líquido não estava congelado.
– Este frasco vermelho é uma amostra de sangue da Ivy que o hospital forneceu– Pegou o frasco e despejou um pouco numa placa de vidro. – Veja.
Tomaz movimentou sua mão em círculos e sussurrou alguma palavra que Emily não entendeu, e envolta de sua mão pairou uma neblina. Tomaz conduziu a neblina tom amarelo fraco até um pouco acima da placa com o sangue. Gesticulou seu pulso e a neblina formou um aro acima da placa. Dentro do aro a imagem começou a tremer e mudar. Emily estava impressionada. Nunca vira uma magia de perto. Mas oque mais a assustava era que Tomaz (Quem mais parecia odiar magia) quem produziu. Quando a imagem parou de tremer, a imagem dentro do aro estava vermelho-amarronzado escuro.
O que o senhor fez pai? – Indagou Emily boquiaberta. Depois de perceber que estava sendo tola demais, recuperou a postura e fechou a boca.
– Construí uma lente convergente de magia acima do sangue, para podemos visualizar as células do sangue. – Tomaz parecia intrigado.
Emily estava confusa. Não via nada além de um borrão vermelho escuro na lente. Não dava para visualizar célula nenhuma.
– Aah! – Lembrou Tomaz. – Falta luz.
Tomaz deitou uma Lamparina de Occulon e colocou a placa com sangue em cima da lamparina, de modo a luz da lamparina iluminar a placa. Tomaz gesticulou para que a neblina seguisse a placa, e impressionantemente a neblina a seguiu. É como se a magia possuísse vida própria.
– Isso é incrível! – Emily estava encantada. Queria aprender a fazer o mais rápido possível. – Como o senhor fez isso?
– Não a chamei aqui para ver magia, querida – Calmamente, Tomaz posicionou Emily em frente à placa e a lente mágica. – Agora ajuste a luz até que as células fiquem visíveis.
Emily tocou na lamparina mágica e quis mais intensidade aos poucos. E assim foi. As Lamparinas de Occulon eram mágicas, e obedeciam ao pensamento de quem as tocasse, ajustando a intensidade da sua luz até que se cumprisse o desejo do portador.
– Assim está bom – Informou Tomaz. – Agora observe.
Emily se aproximou do frasco e da lente e pôde observar um mar vermelho, cheio de glóbulos e células vagando sem rumo. Era impressionante para Emily ver coisinhas tão pequenas ficarem visíveis. Podia ficar horas estudando as pequenas bolinhas sem se importar com o cansaço ou o tédio.
– Agora vou aproximar mais um pouco. – Tomaz fez uma meia-lua com a mão e, instantaneamente, a imagem dentro do aro tremeu como onda e, ampliou o sangue mais ainda. As bolinhas pequenas estavam grandes agora. –Olha dentro delas. Está vendo outra bolinha, preta e danificando a célula? Tirando a vida da célula?
Emily balançou a cabeça concordando.
– Essa bolinha é o Infivetus. Esse pequeno organismo ataca as células da Ivy e se infiltra dentro delas. Quando dentro, se alimentam da célula, e quando a doença extrai a vida da célula, invadem outra. Tudo isso num processo incrivelmente lento.
Emily estava prestando tanta atenção que não tirava os penetrantes olhos da lente.
– Recentemente, – Tomaz continuou a explicação. – Graças ao Bron, descobri uma forma de amenizar os sintomas da célula afetada... – O idoso tropeçou até o outro lado da bancada.
– Pai! – Emily correu para socorrê-lo.
– Estou bem – Emily o ajudou a levantar.
Tomaz era muito magro, e Emily não teve problemas em levanta-lo. Aparentemente ele não estava machucado. Pelo contrário, estava ansioso para continuar a ensinar.
– Onde paramos? Ah! – Tomaz pegou o frasco azul claro quase fluorescente da bancada. – Aqui está. Essa é a solução de Lírio-Azul que Bron trouxe. Coloquei outros ingredientes que estavam que anotei no livro, mas não me lembro deles agora.
– Eu leio depois. É só me contar onde está o livro.
Algo que Emily disse incomodou Tomaz.
– Não, não, não. Quando o livro estiver pronto eu te mostro. – Ele caminhou até a lente. – Descobri que essa solução nutri as células, curando-as e fortificando-as por um período de um dia.
– Genial pai! – Entusiasmou-se Emily.
– Mas não está completo. Olhe.
Tomaz despejou um pouco do líquido azul na placa com sangue, fazendo uma solução verde. Emily via o líquido regenerar as células, nutrindo-as e dando vigor a elas. Era notório que estavam melhores e mais resistentes.
– É incrível! Mas não vejo nada de errado.
– Essa solução não mata a doença, somente cura a célula dando mais tempo a ela.
– Já é um grande avanço. Essa descoberta vai ajudar Ivy a ficar forte e dar mais tempo a ela. – Consolou seu pai, com um sorriso cheio de entusiasmo e orgulho.
– É – Aceitou os fatos, sorrindo de volta – Mas ainda há muito trabalho pela frente.
–Isso tudo é magnífico – Concluiu Emily, voltando o olhar para Tomaz. – Mas por que o senhor está me mostrando tudo isso agora?
O sorriso no rosto de Tomaz evaporou. Ele chegou mais perto de Emily e pediu:
– Um dia... Quando eu me for, você continuar esse trabalho. Por Bron e Ivy... Por mim.
– Com certeza – Prometeu Emily. – Será divertido.
Tomaz sorriu em agradecimento, e abraçou fortemente Emily. Mas não sentiu o abraço de sua filha.
– Está tudo bem Emily?
– Está...
Tomaz não se contentou com a resposta.
– Pode me contar. – Insistiu. – O que foi?
Emily hesitou por um momento, mas decidiu perguntar:
– O senhor é sempre tão rígido quando se trata de magia. Não suporta que nós conversemos sobre o assunto, e odeia a ideia de sermos convocados a Tsyrak. – Engoliu seco, mas não podia perder essa oportunidade. – Mas agora pouco você conjurou uma magia. E... E eu não entendo. O senhor era um mago?
Houve um curto período de silencio que pareceu demorar uma eternidade. Tomaz estava relutante para responder. Hesitou bastante, mas respondeu:
– Eu..Eu quase fui.
Emily não tinha reação. Jamais pensaria que Tomaz foi um mago ou algo próximo.
– Lydia, — Continuou a explicar. — a mãe de Ryan era superior a mim nas magias. Ela era extremamente talentosa. Estávamos em Tsyrak realizando a última prova e, somente cinco de nós iriamos para Magnus. Eu reprovei, mas ela passou na prova. E depois disso nunca mais voltou.
A tensão tomou contado laboratório assim como um tsunami inunda uma cidade litoral. Emily percebeu que jamais deveria ter perguntado.
–Pai... Eu... Me desculp...
– Eu entendo – Interrompeu, secando as lágrimas. – Não tenho ódio por magia, só não quero que vocês tenham o mesmo destino.
– Não teremos – Confortou Emily. – E mesmo se formos convocados, voltaremos.
– Chega por hoje. – Tomaz gesticulou com a mão, como um aceno e a neblina e a lente sumiram lentamente. – Vamos dormir.
Apagaram as Lamparinas de Occulon e saíram do laboratório. Subiram as escadas e Emily foi para seu quarto, apagou a vela e se deitou na cama de penas. Meditou nas descobertas de Tomaz e o quão benéfico eram essas descobertas. Mas principalmente refletiu o encanto por magia. Emily havia adorado o que viu. Pensou até cair no profundo poço dos sonhos, e dormir.
Sentiu frio nas pernas e isso fez com que Emily acordasse. A aurora estava bonita neste dia. Emily foi até o banheiro, esquentou a água da banheira e se banhou. Será que o Ryan já acordou? Emily não estava tão preocupada como antes; talvez Tomaz o currasse com magia. Mas era bem improvável.
Saiu da banheira quando a água esfriou. Secou seu corpo desejável e seu volumoso cabelo. Emily não tinha paciência para pentear o cabelo, mas o fazia bem feito. Vestiu-se e foi ver Ryan.
O coitado estava do mesmo jeito quando o viu pela ultima vez ontem: Pálido, com hematomas e sem ter movido um membro. Emily esperou ao lado cama por duas horas naquela manhã.
–Emily... – Sussurrou a fraca voz de Ryan.
– Estou aqui – Emily se aproximou. Ryan abriu seus olhos verdes e sorriu.
– Eu me dei muito mal, não é? – O jovem riu, mas parou quando começou a sentir dor.
– Queria que você tivesse apanhado mais um pouco – Brincou, e os dois riram. – Como se sente?
Ryan se sentou na cama com um pouco de dificuldade e tomou um pouco de água do copo em cima do criado-mudo ao lado da cama.
– Já estive melhor. – Ryan olhou para ela preocupado. – A avaliação! Eu fui aprovado?
Houve grande hesitação de Emily para responder. A tensão dos olhos dele pesou na sua face, mas ela tinha que responder.
–Não, Ryan.
O jovem baixou o olhar e não disse nada por um bom momento. Ryan não demonstrava nenhuma emoção. Talvez Emily não pensasse com clareza ao contar que foi reprovado logo que acordou. Às vezes sou tão estúpida. Emily ficou emburrada por se achar estúpida.
– Eu já sabia... – Por fim Ryan soltou. – Meu pai já sabe?
Emily mexeu a cabeça dizendo que sim.
– Não se preocupe – Tentou confortá-lo. – Ele não está nem um pouco chateado ou preocupado.
– Não quero que me conforte. – Investiu Ryan. Mas parou quando percebeu que estava sendo babaca.
Os dois passaram a aurora inteira conversando. Bron veio visitar Ryan também. E as brincadeiras correram soltas no quarto. Riram bastante, menos Dina que estava sempre emburrada.
– Tome logo seu remédio, Ryan – Ordenou a criada, coçando a perebinha que tinha no pescoço.
Ele teve que obedecer. Todos tinham medo da Dina. Achavam que aquela pereba tinha vida de tão grande que era.
– Quando é a avaliação do Occulon? – Indagou Ryan.
– Daqui uma semana. – Respondeu Emily. – É bom você melhorar até lá, pois o teste é obrigatório.
– Pode deixar senhorita – Zombou Ryan.
–Bom... Vou esvaziar sua bolsa, Ryan. – Emily piscou para seu amigo e ele entendeu que se trava de distribuir a comida que pegaram na dispensa do batalhão para as crianças sem teto da periferia.
– Até logo. – Despediu-se dela.
Emily desceu a escada de mármore correndo e quase caiu. Pegou as duas bolsas e saiu de casa, para fazer o que já queria há muito tempo.
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