As Crônicas de Magnam - A Entidade
5 Occulon
Notas iniciais
Passou-se uma semana desde que Ryan acordou. Ele e Emily estavam no batalhão novamente. Fizeram o alistamento para Artes Arcanas, como era de obrigação há quem tivesse vinte anos.
Fazia frio de manhã em Prosperatus. Ryan estava sentado no refeitório do batalhão enquanto degustava uma caneca de chá de ervas quente. O cardápio da manhã era pão amanhecido com manteiga fresca. Ryan odiava manteiga. O refeitório estava lotado, como sempre em uma manhã de verão. Olhou para os arredores em busca de algo que lhe chamasse a atenção, mas tudo oquê encontrou foi uma janela que emitia a fraca luz do sol de aurora.
– Parece que teve uma noite difícil. – Disse Emily. — Uma noite mal dormida. — Sonhei com você essa noite. — Disse-lhe enquanto acomodava-se na mesa à sua frente.
– Foi bom?
– Você morreu. – Disse ela o desafiando com seus grandes olhos castanhos.
Pelo menos dessa vez não virei eunuco. Deixando um sorriso leve no canto da boca disse. – Que doce da sua parte.
– Acha que eu controlo meus sonhos?
– Seria legal, não acha?
– Acho que sim. Poderia matar-te mais vezes. – Os dois riram e degustaram o chá de ervas quente.
Os gritos dentro do salão aumentaram a intensidade cativando a atenção dos dois. Após alguns segundos os gritos tornaram-se risos e gargalhadas. A jovem olhou para Ryan e disse:
– Eles não mudam nunca – Disse a jovem. Ryan sabia que ela nunca aprovara a cerveja como parte de uma sociedade culta. Ás vezes questionava-se se nem o vinho estava nos seus conceitos culturais.
– Você está sendo muito crítica. Eles só estão se divertindo. – Disse Ryan com um leve sorriso no canto da boa.
– Você que acredita que isso seja diversão. São somente homens e mulheres que se entopem disso quase todas as noites, para esquecer problemas e tomar atitudes que nunca tomariam enquanto sóbrios. A cerveja não é diversão e sim uma fraqueza. – Concluiu com firmeza a moça ao mesmo tempo em que olhava para ele com seus grandes olhos. Seu olhar era destemido, cheio de uma certeza indecifrável. Mesmo sendo de aparência indefesa e jovem, ela possui grande inteligência e um caráter forte. Concluiu Ryan. Levantaram-se para sair do local, estava fedendo a bêbados logo de manhã. No corredor do batalhão, uma criança caminhando passa por eles.
– Oi Bruxos – A criança disse rindo. Parou instantaneamente de rir quando sentiu os olhos de Emily a aterrorizar por completo. Os olhos da criança incharam e, ela saiu correndo, chorando. Ryan riu da situação. Como ela faz isso somente com os olhos? Questionou-se o rapaz.
–Agora só por que vamos fazer o teste somos bruxos? Todos passaram por isso, por que é motivo de chacota?– Indagou Ryan.
– Isso não tem uma explicação exata. Uns os fazem por inveja, outros por ódio e outros somente por estarem bêbados. Não de importância para oque dizem. – Por mais que soubesse que não era um bruxo, Ryan não gostava da ofensa.
– Não preciso de consolo. – Disse ele com o orgulho um pouco ofendido.
– Não estou te consolando. Estou somente lhe informando que desse jeito as pessoas irão desprezar o seu trabalho e sua moral. A não ser que você tenha muito dinheiro.
Não seria ruim.
– Humm. Somente quero paz e...
– Paz? A última coisa que você deveria desejar é a paz!
– Quem não quer paz? Qualquer um deseja isso.
– Você não é qualquer um!
– E que associação isto tem com a paz? – Indagou em tom de deboche.
– Não me provoque. — Disse ela parando a caminhada mergulhando profundamente seus olhos negros amedrontadores. Ele soltou uma risada baixa e, poucos segundos depois ela também o fez. — Besta! –Disse ela rindo com mais intensidade.
– Essa é a paz de que falo. Não ficar bêbado e rico.
– Como você pretende conseguir essa paz?
– Não sei... – Disse ele virando o rosto para olhar a porta do corredor temendo tropeçar. Ao abrir, Ryan pode observar o grande reino de Prosperatus. Um reino grande com várias mansões e pequenos castelos que dava ao reino forma de arco. A parte maior que formava a reta do reino era virada para o mar do oeste e, o castelo real ficava no centro da Grande Praça. Um castelo recém-construído de pedra e metais.
– Esse reino me dá arrepios. – Disse Emily olhando vagamente entre as ruas e casas nobres.
– Por quê?
– Sinto que aqui não é meu lugar.
– Vamos para o campo de batalha. Hoje começaremos os testes.
Emily fez uma careta ao lembrar de que era dia de ser testada. Caminharam até o local que procuravam. O campo de batalha tornou-se á pouco tempo, um lugar para treinar desde recrutas até os mais altos cargos do batalhão real, por ordem de Darkon.
Chegaram a uma sala de estudos, ao lado do campo de batalha. Seus nomes, e o de outros estavam na lista. Abriram a porta e pediram licença.
– Entrem – Ordenou a professora. Entraram e se sentaram. A sala estava quieta, como se esperassem a professora começar a aula. Ryan estava ansioso. Esse teste diria se o mesmo possuía o Occulon, ou não.
– Bom dia. Meu nome é Alexia, e vou realizar o Teste do Occulon. Vou passar de mesa em mesa para realizar o teste. Se vocês falhararem, saiam pela porta. Caso contrário permaneçam na sala. – Emily estava calma e esperançosa, o oposto de Ryan, que estava inquieto e desconfiante. A professora pegou um orbe negro e andou até o centro da sala. – Quando eu passar por vocês, estendam as mãos e segurem o orbe. Esse orbe canaliza seu Occulon e o manifesta em forma de luz. Se ele brilhar intensamente, você foi aprovado no teste. Se nada acontecer, você reprovou e não me encha o saco! Não hesite em sair pela porta. – Os loiros cabelos de Alexia combinavam com seus olhos azuis.
– O que foi Ryan? Está com medo de uma bola negra? – Perguntou um rapaz negro e forte do seu lado.
– Não sei se quero passar, Bron. Mas de qualquer jeito, sou melhor que você quando se trata de magia.
– Mas ainda dou uma surra em você, quando se trata de combate individual. – Os dois riram. À medida que iam conversando, jovens iam deixando a sala, e uma pequena proporção fazia o orbe brilhar uma luz negra.
Alexia chegou até Emily. A jovem estava descontraída e quase não descobre a presença da professora.
– Me desculpe professora – Pediu, ao mesmo tempo estendendo o braço para segurar o Orbe. Concentrou-se para ver se o Orbe emitia sua luz negra. Uma frustração tocou em seu coração, pois nada que tentava fazia o orbe acender. Alexia olhava para ela um tanto impaciente.
– Não somos nós que acendemos o Orbe, garota. Ele somente canaliza nossa energia que possuímos em luz. – A professora estendeu o braço para retomar o Orbe, mas Emily não podia deixar essa oportunidade. Sua vida estava decidida. Era de nascimento muito pobre e, não tinha condições de manter uma vida social melhor. Sua única solução era a Magia. Sempre esteve lado a lado com ela, por que a deixaria no momento em que mais precisava?
Encarou o Orbe com seus grandes e penetrantes olhos, e nesse momento, sentiu a magia explodir dentro de si. Ela canalizou toda essa energia que efervescia dentro de si e, a fez fluir para o orbe, como um rio com uma correnteza muito forte. O orbe brilhou muito intensamente.
– Parabéns, você foi aprovada. – Disse Alexia relutante.
Em seguida foi a vez de Ryan. Alexia entregou-lhe o Orbe, e como todos os outros aprovados, o orbe acendeu imediatamente uma luz negra. Uma explosão de sentimentos tocou seu peito. Estava feliz, pois sempre admirou a Magia e suas artes. Estava esperançoso e com medo, mas acima de tudo estava perplexo. Nunca saberia a reação do pai sobre o assunto. Somente sabia o grande desprezo que o pai tinha pelos Arcanos. Logo depois, Bron fora reprovado no teste. Estava um tanto contente com isso, pois Bron queria ser guerreiro. E tinha porte para isso: Focado, forte e justo. Sobraram somente quarenta pessoas na sala. A professora os chamou:
– Venham comigo — Alexia os conduziu entre as paredes curvas do campo de batalha. Runas e desenhos de contos épicos estavam entalhados nela. Nos entalhos havia histórias de grandes cavaleiros como Vrair, O Touro, que usava uma armadura de placas que estampava um grande touro. Realmente, este lugar é fascinante. No meio do campo de batalha ocorriam os treinamentos e os testes. O solo do campo era uma grama rasa verde clara. Chegaram a uma parte um pouco isolada do campo de batalha, onde tinham mais livros e artefatos estranhos em forma de varas e pedras redondas de vidro. Ao lado tinham guerreiros treinando lutas desarmadas.
– Estamos nós aqui. – Comentou a professora. Encontravam-se em uma espécie de caverna aconchegante.
Ryan estava olhando por todo o estabelecimento a procura de algo que lhe cativasse a atenção. Seus olhos vagaram por todo lugar. Achou, na parte direita do local, estantes com livros antigos e uma mesa com pergaminhos, penas e velas e uma lareira. Mais a esquerda encontrava-se uma porta um tanto pequena, e ao centro um espaço grande o suficiente para dois Magos treinarem, e nesse espaço encontra-se um circulo verde brilhante no chão com um quadrado dentro dele. Ele percebeu que as quatro pontas do quadrado tocavam no circulo. Era o circulo da meditação dos Magos. Um dia Alexia vai me ensinar a usa-lo. Pensou Ryan. Olhou mais a esquerda e, encontrou um canto com alguns baús, itens de decoração interior empoeirado. e alguma coisa cilíndrica que emitia um leve brilho. Percebeu que sua sombra estava escurecendo o objeto ele observava e deu um passo para esquerda. O objeto começou a brilhar com mais intensidade com aspecto metálico em seu brilho. Ryan foi de encontro ao objeto e, por um momento olhou-o com uma curiosidade estranha. Um orbe de prata? Isso lá existe? – Alexia. Posso ver esse orbe prateado aqui?
Ela parou de explicar como funcionavam diversos tipos de poções de porte fraco e olhou-o com um pouco de ódio.
–Eu odeio ser interrompida.
– Desculpa. Eu só queria ver esse orbe. – Apontou para o objeto.
Semicerrando os olhos, Alexia conseguiu distinguir o objeto e por fim respondeu:
– Isso não é um somente um orbe. É um cajado. – Ryan teve de inclinar a cabeça para ver melhor. – Se quiser, pode ver. Mas jamais me interrompa novamente.
– Tá bom – Disse enquanto ia de encontro ao objeto. Esticou o braço e puxou o cajado. O cajado não era pequeno, nem grande, o suficiente para manejar com uma mão só. Era leve e tinha aspecto de resistência.
– Ótimo. – Guardou o cajado e aproximou-se da sala e atentou-se com a explicação de Alexia.
– Embora a ilusão seja uma arte difícil de entender, é considerada a mais instintivas de todas. – Concluiu, quando um guerreiro de túnica bege um pouco esfarrapada com uma coroa de três pontas verdes desenhada na túnica por cima da cota de malha. Um guarda. Pensou Ryan.
– Alexia – Disse o homem, com a boca mais preta que o piche. – Estes são os novos aspirantes a magia?
– São sim. Há que devo sua visita, sor?
– Estes serão levados para a ilha Tsyrak daqui a duas semanas.
O quê? Pensou Emily. Estava estupefata. — Se me permite sor, fomos informados que seriamos...
– Diga isso para seu professor. – O guarda interrompeu a jovem. Quanto mais o guarda falava, mais mostrava seus nojentos dentes pretos. — Só dirija suas imundas palavras a mim quando eu falar com você. — Os olhos de Emily ficaram cheios de ódio.
– Imundos são seus dentes!– Soltou Emily.
– Sua cadela, seus dentes ficarão vermelhos de sangue depois de beijar minha espada. – Antes que pudesse desembainhar a espada, Ryan tinha o cajado apontado para o homem.
– Garoto, abaixe o cajado. – Não teve escolha se não obedecê-la. –Boca Negra e seus palavrões desnecessários. – Disse Alexia em tom de reprovação. — Já deu seu recado e agora pode sair daqui.
Boca Negra, curiosamente obedeceu quase que instantaneamente, um tanto afobado par sair da sala-caverna. Emily não gostou nada do ocorrido. Toda a sala estava quieta.
– Vocês dois atraem muita confusão. Quais são seus nomes? – Quis saber a professora.
–Ryan.
–Emily.
– Um ponto por bravura para cada. Agora, toda sala está dispensada. Vereemo-nos amanhã. E tentem não morrer.
Todos os alunos foram saindo do local. Conforme saiam, os alunos voltaram a conversar.
– Meu Deus, você arrasou agora pouco. – Disse uma garota mulata dos cabelos negros, ao lado de Emily. – Eu teria feito o mesmo. Você será um motivo de fofoca por um tempo entre os alunos.
– Foi instintivo. Só me defendi. Você nunca passou por isso? –Indagou Emily. Isso pareceu divertir a jovem.
– Eu queria ter essa experiência, mas acho que não seria tão corajosa quanto você. Foi incrível.
Santa Criadora. Quanto entusiasmo. Pensou Emily. Apesar de a jovem ser muito alegre, parecia ser frágil quando se tratava de sentimentos. Então Emily resolveu guardar seus pensamentos para não ofende-la.
– Você fez uma careta – Apontou a jovem. – O que aconteceu?
– Nada. – É só que você não teria coragem de desafia-lo, eu acho. Ia dizer, mas se segurou.
– Hm... Enfim, eu acho seus cabelos bem irados. Eles são lisos naturais, ou você que conjura magia para deixa-los assim?
– Naturais. – A cara de espanto da jovem foi o suficiente para Emily cair nos risos.
– Tantos magos tentando desenvolver magias para maquiagens e cabelos e eis você aqui, o exemplo perfeito para eles. – A garota riu também. – Essa é a rua da minha casa. Até amanhã.
– Como você se chama?
– Anna. Meu nome é Anna.
– Até amanhã. – E assim elas se despediram. Emily sentiu um pouco de pena. Anna a divertiu nesse curto período de tempo.
– Ryan, o que você achou dela?
– Ela parece muito espontânea e inocente. – Respondeu ele, parecendo entediado. Mas Emily sabia que ele estava ansioso e preocupado com o resultado do teste. Tomaz nunca gostara de magia. O ódio presente em suas palavras era mais que notório. Para ele Magos e Bruxos eram a mesma coisa.
Caminhando para a casa de Ryan, os dois passaram por jardins que cheiravam morte e solidão, e sentiram o gosto amargo do outono assim que viram A Grande Árvore tão fria e seca, que sentiram como se tristeza dela fizesse parte deles. O outono está chegando. Concluiu Emily.
– Esse lugar não me agrada. Se pudesse sairia daqui agora. – Disse a Emily quando a amargura da Árvore tocou seu coração.
– E para onde iria?
– Para longe. Para junto dos Antigos, talvez.
– Antigos? Eles ficam longe daqui e, há quem diga que estão extintos.
– Uma raça tão inteligente e perfeita não pode ser extinta sem motivo plausível. Você acredita muito no que falam os alheios, Ryan.
– E você não acredita em ninguém também. – Retrucou o jovem.
– Só podemos confiar em quem possui a verdade no coração. – Com um suspiro e pesar nos olhos, ela continuava quieta e inexpressiva.
– Os Antigos foram extintos na Grande Guerra – Tentou convence-la, mas sem sucesso. Andaram mais um pouco até chegar à casa de Ryan. – Finalmente chegamos. Não aguentava mais andar. Meus hematomas ainda doem um pouco.
– Pare de reclamar. Entre logo, seu pai nos espera.
– Como a senhorita ordena. – Zombou Ryan. Apesar de ainda fazer brincadeiras, estava mais pálido que o normal. O medo de Ryan era tão grande que Emily quase sentia o mesmo.
A casa estava mais quieta que o normal. Dina não estava no andar de baixo, notou. Parecia que tinha ido embora.
– Pai? – Chamou Ryan.
– Estou no laboratório. – Respondeu Tomaz.
E lá estava ele trabalhando em novas poções. Estava um pouco cansado de tanto que trabalhou nos últimos dias. Uma poção que curasse Infivetus parecia piada de tão impossível. Parecia que jamais existiria. – Dina deixou o jantar no forno. Ainda está quente.
– Estamos com muita fome. – Dina preparou frango cozido com molho um pouco apimentado e batata assada. Era simples, mais Ryan adorava frango. Jantaram até não aguentar mais comer. Tomaz surgiu através da porta. Estava sujo e fedendo a ingredientes indecifráveis pelo olfato.
– Então, como foram os testes? – Ryan pasmou ao lembrar que fora aprovado.
– Eu fui aprovada – Respondeu Emily. – Mas para mim não foi nenhuma surpresa.
– E você Ryan? Qual foi seu resultado? – O silencio reinou na casa. Toda a tensão estava voltada para Ryan.
– Eu...Eu fui... – Sua garganta secou, um frio percorreu sua espinha e o medo tocou sua mente. — Aprovado.
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