– Eu preciso correr,Meu Deus, o que foi isso? Mas ainda falta muito, ainda falta muito para chegar em minha casa. Charlie atordoado falava sozinho enquanto corria até seus pulmões agonizarem pela falta de ar, parecia que sua asma estava voltando porque nunca mais sentira algo tão agudo em seu peito.

Ele já estava perto de sua casa, mas isso não o deixou mais aliviado, porque além do medo, agora ele estava sentindo o ar ir embora de seus pulmões. Virando a esquina já avistou sua casa charmosa porém simples, entrou como um turbilhão subindo as escadas que saiam da sala para o segundo andar, o corredor coberto de carpete vermelho e enfim seu quarto.

Procurou logo se dirigir para a mesinha onde ficava o abajur, a gaveta daquela mesinha nunca era aberta, pois era onde Charlie costumava guardar utensílios que não eram mais usados no seu dia a dia.

–Graças ( suspiro) a Deus (mais puxões sem sucesso no ar). Ele logo colocou mão em sua bombinha de asma e a levou a sua boca. A cada puxada no ar, ele ia se acalmando, até que depois de alguns minutos sentado na beirada da cama, ele percebeu que já estava normal.

Seus pulmões estavam bem por enquanto, mas sua mente não. Pensou com ele mesmo que um banho ajudaria a aliviar toda essa tensão, foi direto para o banheiro que ficava ao lado do quarto. Se despiu, ligou o chuveiro que enchia a banheira confortável e de um branco impecável.

A água quente fez seus músculos relaxarem, e uma sensação de alivio tomou seu corpo, aquele vapor tomou conta do banheiro embaçando o espelho grande que tinha perto da bancada da pia. Ele fechou os olhos por um instante e tentou imaginar que aquela situação de minutos atrás já havia passado, e que agora ele estava bem. Mas no mesmo instante, o cheiro de rosas e flores raras tomou conta de seus banheiro, inundou suas narinas e o deixou até tonto. No espelho embaçado, agora podia-se ver letras sendo escritas por alguma coisa pessoas normais não saberiam o que era. Charlie mais uma vez encontrava-se numa situação sobrenatural.

Só que dessa vez ele não estava mais assustado, algo dentro dele dizia que tudo estava bem. Ele não era uma pessoa normal e ele sabia exatamente quem estava escrevendo aquelas letras que agora já eram frases. Era um fantasma, uma alma sem paz, um espirito vagante sem consolo e alegria. Charlie se aproximou e leu o que estava escrito em voz alta:

–Não nos deixe Sir, ajude-nos a escapar dessa vida, vingue-nos. As letras eram de um desenho arredondado e Charle entendeu que se tratava dos mesmos fantasmas que o haviam encurralado na rua. Ele tomou uma iniciativa.

Andou até o espelho, e escreveu:

–Por onde devo começar? Logo o fantasma escreveu em baixo:

–Siga as luzes na noite de lua vermelha..

E então, o espelho foi apagado e só a imagem de Charlie nu, o espelho refletia. Com olhos determinados e que pela primeira vez já haviam decidido o que fazer sem objeções. Ele iria prestar atenção na tal lua vermelha e ele iria sim ajudar aquelas almas sem descanso.

Depois de se secar e colocar um pijama agradável para dormir, ele deitou em sua cama, com a cabeça mais leve porém com os pensamentos pesados e longes de seu local atual. E ele adormeceu...

***

Ruas de pedras, postes de velas e um ar de cidadezinha ultrapassada, ele estava no passado.

Aquilo tudo era um sonho. Charlie estava andando pelas ruas de pedregulhos, e pessoas caminhavam pelas calçadas acidentadas e sem uma lineagem correta. Foi ai que uma carruagem veio em sua direção e o pânico tomou seu corpo, ele não conseguia se mexer. Fechou os olhos e esperou pelo impacto iminente, foi neste momento que a carruagem passou por ele, por dentro dele, e seu corpo se desfez em fragmentos de fumaça que logo se juntou e voltou ao normal. Ele era um ser que não pertencia à aquele lugar. Ele não estava só em um sonho, era algo que havia acontecido, aquela cidade existia, aquela rua era familiar e aquela atmosfera era a mesma que tocava sua pele quando estava acordado.

– Eu estou em St. Petersburg. Eu estou no passado.

Ao perceber isso, ele seguiu andando e observando a vida daquela época. Era tudo tão nobre e requintado, as luzes emitidas pelos postes de velas davam um ar especial as ruas. Ele sentou-se no banco da praça e percebeu como tudo agora já estava vazio, e só ele estava na rua. Mas isso não fazia diferença pois ninguém poderia vê-lo de forma alguma.

Até que um homem encapuzado, de vestimentas medievais apareceu atravessando a rua, seu capuz era pontudo igual a de carrascos medievais. Em suas mãos tinha um livro com capa de couro que abrigava uma pentagrama brilhante.

Ele seguiu andando e Charlie resolveu segui-lo. O homem entrou dentro da mata que era brilhante apenas pela luz da lua, que estava maior que o normal e em um tom de ouro. Em uma trilha, desbravando a relva nativa, o homem parou. Parou em frente de uma árvore tão grande que seu tronco caberia três pessoas com facilidade, ele pegou o livro e encostou no buraco da árvore. Como mágica uma porta se abriu, e uma escada em espiral apareceu levando as profundezas da terra.

Charlie desceu as escadas com atenção, pois não sabia o que ele poderia encontrar mais a frente. Só que logo ele avistou.

Era um salão subterrâneo bem amplo e iluminado por tochas de chamas azuis, animais mortos jaziam em mesas de uma madeira escura. Outros homem encapuzados esperavam a chegada do homem com o livro, pois apenas ele tinha um livro como aquele.

Eles trocaram palavras em uma língua não conhecida por Charlie mas que poderia ser de um hebraico antigo. Logo em seguida, um dos homens entrou em uma sala e voltou com uma mulher, uma mulher nua, amarrada pelas mão com cipos que pareciam cortar seus pulsos. Em seu peito, imagens tinham sido desenhadas com sangue. E sua cabeça estava coberta por um pano que parecia seda, de um vermelho vivo e dominador.

Colocaram a mulher na mesa e começaram a fazer um tipo de ritual. Jogaram vísceras de animais em volta dela, a mulher se debatia como se algo a tivesse queimando por dentro. Os gritos eram agonizantes e foram parados por uma súbita facada em se peito. A lâmina que havia sido enfiada na pobre mulher era brilhante como lua, e seu cabo era de osso, era um fêmur humano.

Charlie percebeu que aquilo era um ritual maligno, era uma oferenda a algum tipo de entidade. As tochas se apagaram com um vento que não podia estar ali, uma vez que estavam embaixo da terra. Tudo ficou escuro, a não ser pela luz azul que agora saia de dentro do corpo já sem vida da menina. A bola de luz se levantou e ficou emanando ondas de luminescência pela sala, logo seu núcleo ficou preto e em torno dela, em torno da pureza da luz azul agora tudo estava roxo, um roxo morto e agonizante.

Raios de luz se dilaceraram e uma risada mais que congelante foi dada por um dos encapuzados, que de pouco em pouco se aproximava da mulher. Tirou parte do seu capuz e só deixou a boca aparecer, dentes afiados como animal, num movimento súbito ele mordeu a coxa da mulher, um grande pedaço foi tirado dela e seu sangue era rosa. Era Pura.

Tudo ficou em desfoque e aos poucos nada mais parecia sólido, assim Charlie acordou assustado.