As Crônicas Da Vida Eterna
2 Capítulo 2 - Meu amor
Notas iniciais
Perdida no meio da floresta eu me encontrava. Sem saber se estava indo para o norte ou para o sul. Sem saber se estava me aproximando dele ou indo para mais longe.
Ele tinha dito que queria me encontrar logo após da quinta árvore, mas qual árvore ele considerava a quinta. Odeio esse negócio de referência mal explicada. Andei, andei e não cheguei ao lado dele.
Um eco passou pelo meu ouvido. Parecia a voz dele, mesmo que fosse eu não iria saber da onde vinha. E então se repetiu, e mais uma vez. Cada vez mais perto, mais nítido. E então eu ouvi, ao meu lado, a sua voz grave e forte.
-Lyra O’Donnel, está cansada de me procurar?
Não! Imagina... Eu só passei por várias quintas árvores e não te encontrei. Estou com calos no pé, suor escorrendo pelo rosto e coração palpitando, tirando isso, eu estava bem! Mas eu não respondi isso. Simplesmente sorri e virei o rosto para com o dele.
Seu largo e branco sorriso me restaurava a bateria. As dores da caminhada e a falta de ar se foram. Ficar ouvindo a respiração dele e olhar em seus olhos não me cansavam.
-Sabia que seus olhos me fazem ficar velha? – eu disse, fixada em seu olhar.
-Por quê?
-Porque eu não vejo o tempo passar quando me fixo nele.
Ele riu e olhou de volta para mim.
-E eu acho que seu nariz me atrapalha!
-Por quê? – Que grosseria!
-Porque ele me atrapalha quando quero chegar a seus lábios.
Ele me puxou e roubou um beijo. Eu me entreguei e retribui. Acho que fiquei minutos e mais minutos ligada a ele.
Quando ele me largou, eu continuei de olhos fechados e de lábios projetados para frente. Ele selou maus lábios com os dedos, empurrou-o para trás. Eu ri e ele somente sorriu.
-Por que você me chamou aqui? – perguntei.
-Não sei! Na floreta, me parece mais reservado.
-Reservado para que?
-Para isso!
Ele abriu o zíper do bolso e retirou uma corrente de ouro, com o pingente, que abre, em forma de coração. E dentro estava escrito “Meu Amor”, em letras cursivas. O melhor presente que já me aconteceu. E ainda tive o direito de escrever nossos nomes na árvore, representando, segundo ele, a quinta árvore, representando nosso amor!
Ficamos horas e mais horas deitados na grama, olhando o dia virar noite. Desde a primeira estrela, desde o primeiro resquício da Lua e o último do Sol.
Já era tarde. Olhei para o rosto dele.
-Amanhã eu tenho aula na faculdade. Preciso ir. – disse.
-Fique mais um pouco. Nem deve ser seis horas ainda.
-Mas eu preciso ir. Sério! Amanhã a gente se fala.
Virei-me e comecei a andar. Mas ele se levantou e foi atrás de mim. Segurou o meu braço.
-Me solta Richard! – gritei – Você nunca me segurou assim. Que aconteceu com o cara gentil de poucos minutos atrás?
-Está aqui esperando que você volte comigo até a árvore.
-Mas eu preciso ir embora. Já disse que está tarde. Por favor, me solta! Amanhã a gente se fala.
-Você não tem mais tempo para mim!
-Mentira! Só ando ocupada com as MINHAS coisas.
Soltei-me dele e sai correndo. Ele foi correndo atrás. Cheguei à ponte que dava para o outro lado do lago. Andei mais calma, já que a ponte estava meio podre. Quando estava no meio, ele chegou. Tentei passar mais rápido, antes que ele me alcançasse. Terminei e sai correndo de novo.
Cheguei ao centro urbano e corri para dentro do meu apartamento. A porta bateu. Depois veio um silêncio ensurdecedor, seguido de um berro de Rich:
-Me deixe entrar! Precisamos conversar.
Abri a porta. Ele entrou cabisbaixo. Sentou no sofá e respirou fundo.
-Sente-se.
-Prefiro ficar em pé.
-Então não diga que eu não avisei.
Silêncio. E eu tentando segurar as lágrimas que se acumulavam em meus olhos.
-Bom... Eu aceitei fazer estágio na Alemanha, por isso te convidei você para ir até a floresta. Seria a última vez que eu ia te ver, ou uma das últimas vezes. Convidei-te para entregar a corrente para você nunca me esquecer, mesmo que eu esteja longe. O meu amor estaria com você, o tempo todo. E você só quer voltar a estudar. Você não tem mais tempo pra mim, mas pra mim não faz diferença se você está longe ou perto. Eu ainda te amo.
-Rich... Eu também te amo, mas você podia ter me avisado disso. Eu estou atordoada ainda. Você aceitou a proposta de ir para a Alemanha e nem conversou comigo sobre. Você devia ter me avisado... Falando nisso, quando que você vai?
-Amanhã...
-O quê? Amanhã?
Passei a mão na testa e baguncei o meu cabelo. Era loucura ele ir embora sem conversar comigo, sem ter me preparado.
As lágrimas escorreram e caíram no chão. Ele tentou me abraçar por trás, mas eu desviei. Puxei a corrente do meu pescoço e entreguei na mão dele.
-Acabou... – eu disse. – Não posso viver longe de você, sem saber com quem e como você está.
-Você não confia em mim?
-Não é questão de confiar. É meu problema, eu não sei amar a distância.
Ele jogou a corrente no chão, onde as minhas lágrimas haviam caído. Saiu e bateu a porta. Desabei no chão. Peguei a corrente e atirei pela janela, atravessando o vidro e partindo-o.
Voltei ao chão e permaneci chorando a noite inteira. E assim ficarei até que ele volte, ou até que eu morra.
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