As Crônicas Da Vida Eterna
1 Capítulo 1 - A queda
Notas iniciais
As luzes da cidade não me deixam dormir, não me deixam passar de um dia para o outro sem ficar remoendo o que eu fiz ou deixei de fazer.
Já faz dez anos que ele se foi pela mesma porta que eu entro todos os dias. Minhas lágrimas ainda marcam o piso onde chorei aquela noite.
Não fazia sentido eu continuar amando após tanta dor que ele me fez sentir. Eu devia estar amando a morte, porque logo ela iria me levar. Estarei seca e impura, sem compaixão, sem expressão, sem sentimento algum.
“Você não tem mais tempo para mim!”, foi o que ele disse. “Mas não fui eu que aceitei ir para a Alemanha sem se importar com o que eu iria dizer!”, foi o que eu disse, e depois disso não vale mais apenas contar.
As minhas cicatrizes são marcas das batalhas eu perdi, e ele faz parte de uma dessas cicatrizes.
Na manhã seguinte, fui para a faculdade. Na entrada havia um cartaz de um baile de formatura. O meu baila! Deveria ir para dispersar a mente, mas a solidão me faz dizer “não” para o esquecimento que eu procuro tanto.
No meu armário, no segundo corredor, estava tão enferrujado quanto o meu coração, e as fotos dele lotavam as paredes de metal. Nunca tive coragem de tirá-las. É quase um masoquismo, uma dor boa que me faz sofrer, e lembrá-lo me faz sentir melhor, mas as minhas lágrimas dizem ao contrário quando caem.
Havia uma carta no meu armário. Uma carta azul com letras cursivas que eu muito vi nas cantigas de amor que me faziam cada vez mais apaixonada.
A carta dizia:
“Lyla,
Por favor, preste atenção! Sei que está com raiva de mim e já faz dez anos que parti, mas eu preciso que preste atenção, não pare de ler!
Irei para aí no seu baila de formatura. Por favor, apareça. Eu tenho uma surpresa para você!
Rich”
Um sorriso bobo brotou na minha face. Uma esperança tola de que ele iria voltar para mim. Uma felicidade estúpida que me fez ter vontade de tudo.
Como uma doença mortal. Só quando você descobre que a tem, começa a dar mais valor para a vida.
Foi o que eu senti e gostaria de manter esse sentimento.
Amanhã será o dia. O vestido eu ainda não tinha providenciado. E eu não iria comprar um novo.
Quando acabou o meu último dia de faculdade, fui correndo para o apartamento. Jóquei minha mochila no sofá e abri o guarda-roupa. Roupas e mais roupas que há dez anos não usava.
Meu Deus! Que sentimento maravilhoso!
O vento soprava lá fora, um vento quente e fraco. Calmaria na cidade e uma explosão dentro de mim. Quando se está a explodir de vivacidade, nada mais importa. Você é um fogo de artifício que brilha na noite escura.
Depois era só dormir para o dia que iria seguir.
As luzes da cidade não me incomodavam mais. Dormi sem sonhos e acordei na manhã seguinte pensando estar em um.
De manhã cuidei da minha mente, com ioga, meditação, rezas e psicologia. À tarde, do meu corpo, com salões de beleza, massagem e academia. À noite, me aprontei.
Usei a mesma roupa do dia em que ele me deixou... Recaída! Lembranças em pesadelos voltam à minha mente em preto e branco. Dor, lágrimas e melancolia.
Vesti-me e fui ao baile. O xale xadrez que ele me deu no nosso primeiro aniversário me esquentava como se ele estivesse ao meu pescoço.
Entrei pela porta da faculdade, agora enfeitada por luzes e desenhos vibrantes e coloridos.
Iluminava-me!
Ao longe, vi Rich. Ele, sorrindo, e eu, séria e nervosa. Em menos de segundos, ele puxou uma garota para perto.
Naquele momento, as pessoas me pareciam invisíveis. Somente a cena dele com a garota me interessava. Os anéis dourados em seus dedos, ligados pelo matrimônio. O sorriso falso em seu rosto dizia que eu não era mais ninguém.
A minha raiva ressaltava em meu rosto. Correr era a única reação que me veio.
Subi as escadas para a sacada. Rançava ás pressas os sapatos que me demoravam.
As lágrimas ficavam para trás, como tudo o que eu ganhei. O amor, a felicidade, a esperança. Nada me importava somente eu e a dor.
As cicatrizes voltavam a me marcar e em queimar. A dor insuportável me enlouquecia. Vozes ao meu redor gritavam o passado, gritavam a dor de perdê-lo, gritavam as muitas vezes que nós poderíamos ter evitado conflito.
Agora, só o adeus me restava.
Corri para a beirada da sacada. Um pé de cada vez, o equilíbrio me enganava. Os carros passavam lê embaixo. As luzes da cidade eram como holofotes do diabo esperando que eu desse o meu show. A minha vida não importava mais.
Estava entregue ao ar! Minha alma já não habitava meu corpo.
O vento puxou o meu xale, me fazendo perder o equilíbrio. A luta para voltar à sacada e recuperar o xale perdido. A queda foi suave e o meu corpo se quebrou no solo. A última vez que vi as luzes da cidade, mas dessa vez, eu podia dormir, sem pensar, muito menos sentir.
Quando lerem essa carta, não estarei mais aqui, mas quem sabe eu possa descobrir a felicidade e o amor fora do corpo físico. Quem sabe eu seja somente mais uma suicida que morreu em vão. Ou uma vida que se acabou por ilusão.
Adeus, Rich.
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