As Crônicas Aladas - Principatus
14 Capítulo Treze.
Notas iniciais
O semblante coletivo da classe é de surpresa.
Creio que ninguém, nem mesmo eu, esperava por duas Emilly. Já estou até imaginando a confusão que isso irá causar.
—O que diabos estão acontecendo aqui? — Diz um dos alunos, que não consigo distinguir quem é só pela voz.
Os outros começam a falar, todos juntos, assustados. Algumas garotas irritantes gritam e eu continuo sentada.
O professor está alternando o olhar assustado entre mim e a outra Emilly.
—Você poderia me explicar o que é isso aqui, Srta. Emilly? — Ele ajeita os óculos no rosto e olha de novo. Parece não acreditar no que vê. Limpa as lentes dos óculos e coloca-os novamente no rosto e repete o ato de olhar para mim e para a outra que está ali na frente.
—Eu explico. — Falo pondo-me em pé. Tudo fica em extremo silencio. Sinto o olhar de todos os alunos sobre a minha pessoa. A outra Emilly ergue uma das sobrancelhas e sorri maliciosamente esperando para ver o que sairá da minha boca. — Eu explico... — Reforço o comentário, nervosa. — Essa que está aí na frente, ao lado do Kyle, não sou eu. Ela tem a mesma aparência, a mesma voz e o mesmo nome. Mas nós duas temos personalidades diferentes.
—Há — Ela diz. — Não fode!
O professor olha furioso para ela, por causa do palavrear pesado dela. Sei que agora eu estou com a razão. Nunca usei um palavrão em minhas falas.
—Quantas vezes eu já te falei para não falar essas palavras sujas em sala de aula? — Adverte-a — não sei o que os seus pais tem em mente de te deixar falar essas barbaridades! Estamos em um local estudantil e eu exijo total respeito em minha presença, ouvi? Ou vou ter que te dar outra suspensão?
—Mas o que? — Digo incrédula, num tom audível — você recebeu suspensão? Está maluca? O que anda fazendo por aqui? Professor, o senhor sabe mais do que ninguém que eu — coloco a mão, aberta, sobre o meu peito — nunca falaria uma coisa dessas e nunca, nunca mesmo, faria algo que me traria uma suspensão.
Ele olha para mim como se eu fosse uma garota estranha, que ele nunca tinha visto em sua vida.
—Essa é a Emilly que eu gostaria de conhecer, minha senhora — ele ajeita os óculos sobre o rosto para me observar melhor enquanto dirige as suas palavras para mim —, mas todos aqui dessa classe sabem que a Emilly é uma pirralha encrenqueira que só quer saber de namorar e aprontar!
—Oque? — Grito, inconformada, com o que acabei de ouvir. Eu não sou assim. — Eu não sou assim, nunca seria assim. E pergunte para Kyle! Ele nunca seria tão vulgar ao ponto de namorar uma menina desse jeito. Ele é quieto e sempre passa despercebido pelas pessoas.
—Lamento minha cara, mas creio que não estamos falando das mesmas pessoas. — Fala o professor.
Olho para os dois. Kyle estame olhando curioso e Emilly tem um belo sorriso malicioso no rosto. Torço para que eu nunca use esse sorriso irritante em minha vida toda.
—Bem, professor — Kyle começa.Sua voz é igual a de sempre e seu tom é calmo. — creio que houve um pequeno mal entendido entre essas duas garotas. Emilly nunca me disse sobre uma irmã gêmea e eu creio que isso não exista. — Fala ele. — Mas, já que temos duas Emilly, eu posso dar conta da outra, se o senhor permitir! — Entendo a malícia em sua voz ao pronunciar tais palavras.
—No que você o transformou? — Digo olhando para Emilly. —O que você fez com Kyle?
Ela gargalha alto.
—O que é? — Pergunta — Está surpresa em ver o seu príncipe do jeito que ele realmente é? — ela gargalha mais uma vez. — Está na hora dessas crianças aprenderem que a vida não é um conto de fadas.
Que garota irritante!
Ela anda até mim. E para. Faz uma analise visual completa em mim, e então, pronuncia:
—Querida Emilly, você pode ver que a sua presença traz confusão para todos aqui. —Fala ela calma, com uma autoridade de um juiz. — Você não tem esse direito. Não pode simplesmente aparecer achando que é A Garota e fazer tudo o que está fazendo. O que você pensa que é? Você vive me perturbando, e agora vem aqui para acabar com a vida em que eu estou gerando? — Lágrimas de crocodilo surgem no canto dos seus olhos. O que ela quis dizer com essa sua última frase? Não preciso nem perguntar! Suas mãos pousam sobre o ventre dela, como uma grávida que acaricia a barriga.
—Não! — Digo. — Você não fez o que eu penso que você fez!
—Qual o problema em eu e Kyle nos amarmos? — Diz ela em meio a soluços de um choro teatral. — Você está arrasada só porque ele me ama mais do que ama você?
Perco a razão dos meus movimentos. Deixo a raiva me possuir e realizar as ações por mim. Esse teatrinho da Emilly realmente me irritou.
Pulo em cima dele e cubro o seu pescoço com as minhas mãos. Começo a apertá-lo. Ela começa a se debater e faz várias tentativas frustradas de me bater. Os outros alunos correm, deixando somente o professor e Kyle na sala.
O mais velho implora para que eu pare, não dou ouvidos.
Só separo as minhas mãos do pescoço dela quando sou jogada com brutalidade contra a parede. Sinto o impacto do ato de Kyle. Perco o ar por questão de segundos. Escorrego e bato com força os meus joelhos no chão.
Inspiro com rapidez para conseguir a maior quantidade possível de ar. Meus pulmões estão carentes deles agora.
—Você ficou louca? — Grita ele enquanto ajuda a outra a se levantar. — Quer matar a minha namorada e o meu filho?
É ruim ouvir isso. Muito ruim, não pelo fato de aqui ele estar com ela, mas pelo fato de ela estar grávida. E se isso significar que eu também estou? Ok, eu quero não pensar muito nisso, pois ainda quero ser portadora da minha virgindade.
—Eu só quero que isso pare! — Digo com certa dificuldade, pois a dor ainda me atormenta. Tento respirar mais e sento-me para poder olhar com quem eu estou dialogando no momento. — Eu só quero ter noites de paz. É demais pedir por isso? — Sinto as lagrimas pedindo passagem nos meus olhos. Simplesmente sedo a elas o que querem.
—Do que você está falando, menina? — Kyle vem em minha direção. Para assim que está frente a frente comigo. Ajoelha-se e olha bem fundo nos meus olhos, como ele faz algumas vezes durante a vida real. — Eu não estou entendendo muito bem essa sua lógica.
Inspiro. Não sei se ele vai acreditar, mas digo a verdade:
—Tudo isso aqui não passa de um sonho. Um sonho onde ela — aponto para a Emilly do outro lado da sala — vem me atormentar e, às vezes, tenta até me matar dizendo que sou uma farsa.
Ele para um pouco, como se estivesse processando lentamente o significado de todas as palavras que soltei agora. Seu semblante esclarece.
—Então não durma mais, se é isso. — Fala como se isso fosse uma coisa óbvia. Nunca imaginava um Kyle tão... Infantil. —É claro que você deve ter tido algum problema com o que eu fiz agora. Desculpe-me, ok? O que você acha de ir para um hospital ver se está tudo bem? Eu posso te levar e— O nosso dialogo foi interrompido por uma espada que eu tenho um total conhecimento sobre. Kyle foi furado pela espada e ela está fincada na parede atrás de mim, bem ao lado do meu rosto. Olho para Emilly.
—O que deu em você? — Pergunto incrédula. Faço força para me levantar e não me esqueço de pegar a espada que está ali. —Como consegue invocar isso? Eu aprendi isso hoje...
Ela sorri como se eu estivesse acabado de dar a resposta para a pergunta e... Eu realmente dei. Eu aprendi isso hoje. E se eu aprendo, ela também aprende.
—Finalmente se ligou, hein, babaca!
+++
Kyle me sacode pela milionésima vez. E só agora eu acordo.
—Ah não, obrigada, eu não quero ir para o hospital. — Digo. Ele estranha a frase.
—Do que você está falando?
—Ah, perdão! — Digo sem graça. Eu realmente esqueci de que ele não tem consciência dos meus sonhos. E isso é bom.
—Bem, eu vim te acordar, pois hoje a sua aula é comigo e tal... — Explica.
—Ah tudo bem! — Falo sorrindo. — Eu só preciso de um tempo para meu corpo se acostumar e já vou indo para lá, ok? — Ele sorri.
—Leve biquíni.
Ok, eu acho isso meio estranho, mas ele deve ter algo em mente.
Levanto-me e faço minha higiene matinal. Invoco as asas e tento passar uma quantidade razoável de energia para elas, assim como Loran me pediu ontem. Enquanto faço isso, vou comendo o meu café da manhã: Pão com manteiga e um copo de café com leite.
Passo no meu quarto e pego o que Kyle exigiu. Vou lá para fora.
O dia está... Brilhante. O sol está muito forte, deixando tudo muito iluminado, o clima esquentou o que torna o meu treino de hoje algo totalmente chato.
Sinto que se ficar mais um pouco aqui, irei soar demais e isso é péssimo. Kyle está lá, com uma camiseta gola V da cor preta e uma bermuda, calçando chinelos.
—Bem, acho melhor irmos treinar na sombra — falo com uma sugestão, enquanto ando até ele — será menos cansativo. — reforço.
—Ok, mas antes você poderia me acompanhar? — Enquanto faz à pergunta ele estica uma de suas mãos. — Tenho algo especial pra você hoje.
Ele sorri. Recuo.
—Você não vai me obrigar a lavar a louça ou a lavar todas as roupas sujas, não é? — Pergunto.
Ele ri.
—Você ficou brava por aquilo ontem? — Ele interrompe o riso e olha seriamente para mim.
—Nah, — Falo e faço um movimento com as mãos. — Só fiquei assustada.
Ele ri mais ainda.
—Que bom! Mas hoje não é nada disso, vai me acompanhar ou não?
—Vou sim, mas não preciso pegar na sua mão, não sou mais nenhuma criança e não tem carros transitando por aqui. — Falo e vou até seu lado.
—Está de TPM? — Uau, ele fala essas coisas como se fosse algo normal para ele.
—Não... — Meu tom é de que isso é algo óbvio. — Vamos logo, antes que você fala mais uma bobeira como essa!
Ele me leva para o meio das arvores e depois saímos num pátio e logo depois, nós estamos num lago que eu nem sabia que existia. Tem aquele lago da caverna, mas acho que ele deve ser inferior a esse, algo assim.
—Uau! — Falo
—Não vamos treinar hoje. —Explica o moreno. — Eu e Loran decidimos que você precisa de descanso.
—E ele não vem? – Não gostaria de ficar aqui sozinha aproveitando com o Kyle... Eu gostaria que fosse algo em conjunto, todos nós unidos. Amaria ter Maggie aqui também!
—Ele vem, mas disse que antes foi pegar algumas frutas para comermos quando ficarmos com fome... — Falou Kyle enquanto tirava a camiseta. Não demorou muito para que o seu peitoral malhado estivesse exposto. Ele não devia muito de tirar a camiseta, pois seu tronco era numa coloração mais clara do que os braços. — Vamos?
—Pode ir indo. — Digo olhando em volta — eu preciso de um lugar para por o meu biquíni...
Ele aponta para um lado e diz que por ali há uma rocha onde eu poderia trocar-me calmamente, Agradeço pela informação e vou para lá. Troco-me e volto.
Fico um pouco envergonhada ao ver que ele estava olhando para mim, assim que volto.
— Você ficou bonita — Diz ele.
Agradeço, envergonhada, e mergulho na água fria. E assim eu descubro o motivo de estarmos aqui: aqui é mais fundo do que lá. E a água é muito transparente e fria.
Ele me acompanha e mergulha também, mas não faz muita coisa além de ficar parado com somente o pescoço e a cabeça para fora da água.
Mergulho um pouco mais para me sentir fresca. Quando volto para a superfície em busca de oxigênio, vejo Loran pousando levemente aqui. Ele trouxe uma cesta repleta de frutas diferenciadas e coloridas. Suas asas estão abertas como se fosse uma das coisas mais normal do mundo. Ele está sem camisa e, diferentemente de Kyle, seu peitoral é bronzeado, mas continua sendo malhado. Ele usa um chinelo e uma bermuda da cor laranja.
—Vejo que vocês não perdem oportunidade de se divertir, não é? — Pergunta ele enquanto coloca a cesta no chão, tira os sapatos e mergulha para se juntar a nós. No meio do seu salto meio atlético, suas asas desaparecem, ou melhor, encolhem.
—Está curtindo? — Diz ele ao emergir.
Sorrio e respondo com o mover da cabeça.
—Se quiser comer, é só pegar uma fruta ali da cesta. — Agradeço.
Ficamos um tempo na água. Não nos falamos muito, até Kyle começar uma demonstração de coisas que consegue fazer usando o poder angelical. Ele consegue criar uma bola, bolhas e até mesmo um rodamoinho.
—Uau — Digo assim que ele termina a demonstração. — Você é muito bom nisso, mesmo!
—Muito obrigado. — Ele abaixa a cabeça como se estivesse agradecendo a plateia por ter assistido um de seus mais esperados shows.
Loran se sentiu desafiado, creio eu, pois assim que viu o que Kyle conseguia fazer, ele fez algo maior. Loran criou um dragão à oriental. O ser voava sobre nossas cabeças e, às vezes, derramava um pouco de água. Kyle entrou nessa também e criou igual. Ambos começaram a voar sobre nós e a derramar um pouco de água sobre nossas cabeças, até começarem uma batalha. Os dragões iam para lá e para cá enquanto se mordiam e batiam as caudas com força. Entro na onda e tento criar um também. Ele fica muito, muito pequeno mesmo, mas consigo fazê-lo voar e se juntar aos outros dois. Ficamos um tempinho ali, brincando com os dragões aquáticos.
+++
Estou na borda, do pequeno lago, comedo uma das frutas que Loran trouxe para nós. Ficar brincando com os seres feitos de água não é nada fácil e exige muita energia. A fruta, uma maçã, para ser mais exata, estava bem doce e vermelha.
Após mordiscá-la mais um pouco, jogo o que sobrou ao lado da cesta, para poder me lembrar de depois jogá-la junto com o resto das coisas que não vamos mais usar.
—Está curtindo, Emilly? — Pergunta Loran enquanto se aconchega ao meu lado e pega uma fruta para comer comigo também.
—Bem, esse dia era realmente necessário!—Digo convicta de que estou certa. — Precisava mesmo de um descanso. Acho que amanhã já estarei totalmente disposta para voltar com o treinamento.
Ele sorri. Olho em volta procurando o Kyle, mas não o vejo, ele deve estar mergulhando por aí.
—Escuta... — Ele começa, olho para ele e vejo que ele não está nem olhando para mim. — Você ficou brava pelo que fizemos ontem?
Tenho que rir nessa hora.
—Não. Só me assustei um pouco, pois pensei que era algo sério. — Explico a minha situação para ele.
Agora quem ri é o ruivo. Ele parece uma criança livre de qualquer tipo de perversão, uma criança inocente.
—Okay... —Ele impa a garganta e inicia um novo assunto — Sobre o treinamento... Eu e Kyle estávamos pensando que você já sabe fazer muitas coisas, já...
—É? — Pergunto incrédula e fazendo um semblante que deve ser horrível de apreciar. — Nossa, eu acho que não sei fazer nada ainda, é como se eu estivesse no primário...
Ele ri com a minha comparação. E retoma o assunto:
—Sim, você já sabe fazer bastantes coisas, Emilly. —Reforça — você consegue invocar as asas, a sua arma, já consegue criar esferas de energia e também já sabe sentir se há algo diferente por perto. E isso é o básico, mas o que vem agora é só aperfeiçoamento.
—Uau! Nunca pensei que ouviria isso tão cedo... — Falo num tom baixo, porém audível.
—Mas você merece. Você se esforçou e aprendeu as coisas numa velocidade incrível. — Ele me parabeniza por isso. Eu não sei se agradeço, mas sei que devo estar corada nesse instante. Nunca fui boa recebendo elogios. Negar não é algo muito legal de se fazer, pois é a mesma coisa que chamar a pessoa de mentirosa, mas aceitar e concordar com o elogio me faz parecer que eu estou me achando demais pelo fato.
—Obrigada! — Digo mostrando um sorriso de alegria e completo, para não parecer que estou pegando toda a glória para mim: — Mas isso só é possível, pois tive dois ótimos professores.
Ele sorri agradecendo o elogio.
—Que bom que você acha isso de nós! — Fala enquanto sorri.
O assunto termina ali, creio. Fico quieta e começo a olhar para os meus pés que estão submersos e fazendo um movimento para que eu não afunde mais. Observo-os, e então, como é de costume, começo a pensar no meu irmão. Ele deve estar muito solitário. Não faz nem uma semana desde que estou aqui, mas eu nunca cheguei a dormir na casa de uma amiga, sempre estive ali com ele e isso deve estar deixando-o muito preocupado. Com toda a certeza ele já deve ter comunicado a policia e eles devem ter mandado até várias viaturas para me procurar, as cidades devem estar cheias de cartazes com uma foto minha e em baixo escrito “procurada”. Maggie deve estar rindo disso tudo e se segurando para não falar para o meu irmão o que aconteceu. Lena deve estar consolando-o toda vez que ela tem a oportunidade. Eu me sinto ruim por isso, por não poder falar para ele o que realmente está acontecendo. Pendo nisso até que o silencio é quebrado por Kyle.
—Eu e Loran também pensamos em mais uma coisa, que eu creio que ele se esqueceu de te informar. — Afirma ele. Eu assustei um pouco, pois até segundos atrás ele não tinha dado sinal de vida.
—E no que vocês pensaram? — Pergunto curiosa.
—Nós pensamos que, como agora só falta o aperfeiçoamento dos poderes, nós podíamos treinar você com demônios. — Explica ele. Isso é uma ideia legal e empolgante, mas não sei como faríamos isso. — E claro que teríamos que mudar de local. Não poderíamos ficar chamando demônios para a estrada e eles ficariam fracos por causa da aura da Árvore da Vida.
Isso deve ser verdade.
—E onde iríamos treinar então?
Ele demora alguns segundos para dar-me a resposta:
—Na nossa antiga cidade.
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