As Crônicas Aladas - Principatus
15 Capítulo Quatorze.
Notas iniciais
A sensação de que teria o conforto de volta para a minha vida, me deixa totalmente repleta de ansiedade.
Vou poder ver o meu irmão após tanto tempo! Isso é uma benção! Continuo fazendo as minhas malas para poder partir ainda hoje a noite.
“Onde você pensa que vai?” ela não poderia dar-me o prazer de ficar sem escutar a sua, ou a minha irritante voz.
Isso não é da sua conta, Emilly.
“Claro que é! Somos a mesma pessoa. Vê se cresce, garota!”
Você podia ter ouvido. O que ficou fazendo esse tempo todo?
“Não escuto conversa das outras pessoas”
Somos a mesma pessoa. Encerro a pequena conversa aqui mesmo.
Ela não desiste, mas começo a ignorá-la. É legal perceber que estou aprendendo a lidar comigo mesma. Isso é um avanço. Continuo guardando as coisas, mas há uma hora em que tenho que retirar todos os objetos que coloquei ali, pois a mochila não quer fechar. Arrumo-os de outra maneira.
Enquanto faço isso, uma voz familiar tira-me do estado meio-consciente (este é o modo que eu comecei a chamar o estado de quando eu estou acordada, mas perdida nos pensamentos).
— Mas que pressa toda é essa? — Loran vem com toda a sua ironia para cima de mim, me ajudar.
Não posso deixar de rir do seu comentário.
—Acho que dá para perceber o quanto eu quero o meu irmão de volta, não? — Pergunto, sem desviar a minha atenção dos meus atos.
— Isso está tatuado na sua testa. Será que ele vai brigar com você por ser menor de idade e fazer uma tatuagem e ainda, para piorar, na testa? — Pergunta o ruivo como se isso fosse algo totalmente sério.
—Talvez ele ligue. — Digo como se estivesse dando de ombros (eu realmente estou dando de ombros) — E talvez ele queira cortar as minhas asas, no modo literal.
Continuo colocando as poucas coisas, que agora estão no chão próximo ao meu pé esquerdo, dentro da mochila.
—É totalmente desagradável quando você descobre que a sua irmã tem asas e anomalias sobrenaturais. Odeio quando isso acontece comigo. E sei que não sou o único. — Fala Loran após acabarmos tudo e eu conseguir fechar a mochila. Ela ficou cheia e parece que irá explodir a qualquer segundo.
Rio e sento-me, pondo a bolsa pesada entre as minhas pernas. Cruzo-as.
Loran senta-se ao meu lado e bufa. Vejo que me ajudar realmente cansou-o. Uma gotícula de suor está para escorrer, numa velocidade incrível, pela sua face. O seu peito incha cada vez mais em busca de oxigênio.
— Você já pode saber qual é a minha casta, Loran? — Pergunto enquanto analiso-o.
—Vamos tentar — diz ele e se senta em minha frente. Acompanho-o com o pescoço. Ele estende ambas as mãos e as deposita, com total delicadeza, ao lado da minha cabeça, mais ou menos em algum lugar em cima das orelhas. Sinto uma pequena diferença dessa vez para a outra. Agora consigo sentir as ondas que são enviadas para o meu cérebro. —Bem, eu ainda não posso saber o que você é, mas já estamos numa situação bem melhor do que a anterior. Seus poderes parecem estar bem mais dispostos ao uso.
—Ah... Ok! — Digo sorrindo. Gostaria claro, de saber hoje a minha casta, mas já fico feliz em saber que melhorei demais! — Obrigada, Loran.
—Não tem de quê, querida Emilly. — Ele diz e sorri. Afasta as suas mãos e, continua em minha frente, observando-me.
Fico constrangida por alguns milésimos de segundos, mas, então, começo um assunto para descontrair o clima e não tornar essa cena desagradável.
— O que eu vou falar para o meu irmão? — Ponho minha mão sobre o queixo, imitando a imagem famosa da escultura.
—Como assim? — Loran ainda não entendeu por completo o questionamento.
—Eu fiquei sem aparecer por alguns dias. Não posso simplesmente aparecer e fingir que está tudo bem. Esses dias de treinamento trarão consequências severas para mim agora... — Formulo uma resposta de um jeito que ele não possa perder o embalo da conversa. Alguns segundos são tirados para que ele pense.
—Agora, Emilly, vamos ver se você é uma boa atriz. — Ele sorri com o canto da boca. Não entendo o que ele quer dizer com isso e, num questionamento visual, mexo com as minhas sobrancelhas e deixo-as num jeito que pareça que eu ainda não captei totalmente a informação. — Você terá que atuar, simples assim. Pode aparecer toda suja, com roupas rasgadas e tudo mais. Fingir que se perdeu e que não se lembra de nada e que, quando se deu por conta, estava de volta.
—Essa é uma boa ideia. — Digo enquanto imagino-me fazendo tais coisas.
—Todas as ideias que saem da minha mente são boas. Tenho que admitir isso. Eu deveria ganhar vários e vários prêmios perante isso. — Gaba-se Loran. Rio de suas expressões faciais feitas enquanto falava.
—Isso é evidente! — Respondo com ironia.
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A Árvore da Vida é o que, creio eu, sentirei mais saudades. A sensação proporcionada por ela é algo totalmente diferente de tudo o que já pude sentir nessa vida. Acaricio seu tronco pela milionésima vez, sentindo minhas energias sendo revigoradas em vão — não estou carente de energia, neste momento.
Respiro o ar puro e exótico do local — acho que será repetitivo demais caso eu diga que o motivo disso é a Árvore. Fecho os olhos e dou um pequeno impulso com o pé esquerdo para dar uma volta de 180º.
Até mais. Não me sinto infantil por isso. Este é um local que eu certamente irei lembrar-me para sempre. Então uma boa despedida não chega à infantilidade.
É como se todo o local me agradecesse por todos os momentos juntas.
Vou até o nosso automóvel e, antes de embarcar, olho mais uma vez para o local. Pulo em direção ao antigo.
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Estamos numa velocidade considerável. Eu não vejo a hora de poder abraçar o meu irmão com todas as forças possíveis e pedir desculpas por tudo o que eu, provavelmente, o fiz passar. Isso é uma tortura psicológica. Mas, infelizmente, terei que ocultar a maior parte da verdade. Ele não pode ficar sabendo de nada que seja relacionado ao sobrenatural. Terei que fingir-me de louca e, certamente, ter várias e várias consultas com algum psicólogo, para ver se consigo lembrar-me um pouco do que aconteceu e se nada disso atrapalhará em alguma coisa futuramente. Grande peso, mas por sorte eu posso suportá-lo.
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O céu nublado deixa a cidade com um clima estranho. É como se eu estivesse em um filme, onde a cidade é pequena e existem poucos moradores nela, e são nela onde todas as coisas estranhas e ruins acontecem com os mocinhos. Talvez o meu estado atual não seja muito diferente disso.
—Agora é que vamos testar o seu nível de atuação. — Kyle comenta, ao meu lado. Uma de suas mãos está apoiada no meu ombro e meu corpo está encostado no dele, para que possamos falar baixo e conseguirmos entender um ao outro. — Você já sabe o que tem que fazer, correto?
Penso em todo o plano que viemos traçando durante a viagem. Ok, eu gostaria de ter essa facilidade de memorizar as coisas, na hora de estudar para uma prova que decidirá o meu futuro.
—Lembro de cabo a rabo. — Digo e sorrio pelo fato de não estar exagerando com a minha fala.
—OK... — Kyle fala e vai ajudar Loran com as coisas que eles têm de fazer.
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Dou três leves toques na porta, mais uma vez. Ninguém parece estar em casa e, se eu continuar mais um pouco aqui, irei pegar um resfriado. E quem sabe eu não dou a linda sorte de pegar uma febre?
Ouço o barulho da chave. Ajeito-me.
Lena abre a porta e sua cara de surpresa me faz querer rir, mas me controlo. Ela ainda está pálida, como era antes. Os seus cabelos da cor preta estão soltos num jeito supernatural e sua vestimenta é da cor verde azulado. Ela usa um pequeno short, mas nada que fique vulgar em seu corpo. Eu estava quase me esquecendo de o quanto Lena parece uma deusa grega que, após muitos anos, decidiu descer até a terra e ver como anda os seus súditos.
—Por onde você esteve? — Pergunta ela me olhando dos pés à cabeça. — Seu irmão está preocupado. Eu estou preocupada! E que estado todo é esse?
Olho para baixo para analisar as minhas roupas: minha calça está suja e rasgada. Minha roupa também. E agora, devido à chuva, ambas as vestimentas estão encharcadas.
—Eu vou poder entrar? — Falo hesitando entre uma palavra e outra. Lena me ajuda a colocar-me dentro da casa.
—Thony, vá pegar uma toalha limpa, RÁPIDO! — Grita Lena enquanto me leva até o sofá da sala de estar. Não deixo de reparar que a casa está perfeita novamente.
—Ah meu Deus! — Diz Thony ao entrar na sala com a toalha branca em mãos, a mesma toalha que eu sempre usava para me enxugar após os banhos. — Onde você esteve? —O seu tom de preocupação me pareceria exagerado, caso eu não o conhecesse.
Lena toma a toalha das mãos dele e começa a me secar.
—Eu vou fazer um chocolate quente. Um só segundo — Diz ela se levantando e deixando a toalha aberta e pendurada nas minhas costas.
Thony continua dirigindo o seu olhar para minha pessoa, com o seu lindo par de olhos azuis, arregalados ao extremo.
O choque para ele deve estar sendo muito grande. Não sei se devo falar alguma coisa agora, mas acho melhor não. Fingir que estou traumatizada é a melhor coisa possível. Loran conseguiu implantar todas as memórias que eu preciso na minha cabeça, assim na hora de contar, só preciso fazer que elas emergissem.
Demora alguns minutos para que a morena retorne com um copo escaldante de chocolate quente em mãos.
Pego o copo e sinto as palmas das minhas mãos queimarem, mas suporto. Levo o copo até a boca e bebo um pouco. Queimo minha língua.
—O que é que aconteceu com você? — Pergunta Thony. — Sumiu por quase uma semana.
Termino de engolir — e de queimar a garganta — e preparo-me para a primeira resposta.
—Tudo indica que eu sou sonâmbula. — Digo convicta. A expressão no rosto de ambos mostra que eu não os convenci. — Eu não me lembro de nada que aconteceu, eu fui dormir, como sempre faço, e puf! Eu estava no meio da floresta. — Digo e bebo um gole do chocolate quente que Lena fez.
—Isso é sério? — Pergunta Thony, com uma incerteza tremenda sobre o que acabou de ouvir.
—Sim, isso é sério. — Digo. — Mas, pelo que tudo indica, eu não fui atacada ou algo do tipo. Muita sorte a minha! Eu só estou um pouco aranhada, deve ser por causa de galhos, já que as minhas roupas estão danificadas também.
Thony bufa.
—Tudo bem. — O meu irmão força um sorriso. Sei que não é verdadeiro, pois ele fica muito bonito quando lança um sorriso que vem do coração. — Eu estarei indo para lá, voltar a fazer as coisas do trabalho. Qualquer coisa que precisar, é só me chamar.
Uma virada rápida com os pés e, em questão de segundos, Thony já está se retirando do cômodo em que estamos.
—E o que realmente aconteceu? — Pergunta Lena, assim que Thony aparenta já estar longe.
—Oi? — Assusto-me com a sua pergunta.
Ela estame olhando com um semblante calmo, não parece estar preocupada comigo ao extremo, assim como Thony aparentava.
—Eu gostaria que você parasse de mentir, Emilly. — Ela desabafa. — Isso não ajudará nem a você e nem a Thony.
Sinto o meu estomago, e tudo mais, endurecer. Os meus pulmões sentem uma dificuldade em respirar normalmente e mil coisas começam a passar pela minha mente agora.
—Eu não estou mentindo. — Afirmo. Não posso ceder.
—Você ainda não confia em mim. — Lena fala. Eu até responderia, mas a entonação não revelou que tal frase é uma pergunta, então simplesmente solto uma grande quantidade de ar pela boca e olho para ela. Seus olhos calmos parecem estar pedindo uma passagem para a minha alma, como se ela quisesse e pudesse ver, através do olhar, o que realmente aconteceu.
Coro. Ela é bonita demais. E também tenho um medo, eu sou fraca no quesito “defesa mental”.
—Eu confio em você. — Digo num tom alto, tão alto que até eu fico impressionada. — Desculpe, é que... É que eu pensei que teria o apoio de vocês.
Lena cruza as pernas e se ajeita melhor no sofá.
—Você terá o nosso apoio, Emi. — Ela fala. O seu tom calmo me faz esquecer de que isso não é um sermão. — Mas eu não quero que você minta para nós e depois venha fazer brincadeiras emocionais para não se dar mal. Eu tenho total autoridade para te por de castigo, sabia? E eu acho que vou ter que fazer isso.
—Mas eu não menti!
—Eu quero acreditar que não. — Ela fala e se levanta. — O seu quarto continua o mesmo, espero que se lembre de onde dormia. Pode tomar banho, enfim, faça o que quiser. A casa é sua!
Fico ali sozinha. Lena deve ter ficado estressada com tudo o que eu disse, mas não vejo motivos. Os garotos me garantiram que isso daria certo com ambos.
Termino de tomar o meu chocolate quente, lavo o copo e vou até o banheiro para tomar um bom banho.
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—Você tem que me contar tudo! — Diz Maggie, me tirando de um devaneio estranho. — Tudo, tudo. Até os menores detalhes.
— Nós fomos para lá e treinamos. É isso. Eu sei controlar um pouco de aura e sei invocar as asas e a espada também. Não sei qual é a minha casta, mas isso nem deve ser de muita importância. — Digo. A poluição sonora causada pelas conversas das outras pessoas que estão na sala era algo de que eu estava começando a sentir a falta.
—E mais alguma coisa aconteceu? Eu quero os detalhes! — Eu também estava me esquecendo de o quanto Maggie consegue ser insuportável quando quer.
—Eu voltei. E estou de castigo. Só isso. — Digo ponto um fim na conversa.
Maggie percebe que eu não quero mais trocar palavras, então se cala e começa a enviar mensagens pelo celular.
Viro-me e fecho os olhos, enquanto mantenho o rosto apoiado nos braços, como se eles fossem um travesseiro.
—Ei. — Chama alguém. A voz não é tão desconhecida assim, mas não consigo lembrar na primeira. — Ei! Emilly!
Abro os olhos e procuro o autor da voz.
Dou de cara com um garoto louro.
Ele arqueia as sobrancelhas e sorri.
—Tudo bom? Você ficou desaparecida por um tempo.
—Está tudo bem! — Digo. — Como é o seu nome, mesmo?
—Amnésia? Vish! — Diz ele e puxa a sua cadeira para mais perto da minha carteira. Assim que a distancia é a mínima, ele apoia um dos grossos braços na carteira e sustenta a cabeça nele. — Eu me chamo Jace, lembra?
Jace? Jace? Jace Wayland?
—Jace? —Repito na dúvida. — Jace Wayland?
— Não. – Diz ele rindo. – Ele não chega aos meus pés. E não gostei muito dele no quarto livro. Não existe mais insuportável! — Rio com o seu bom humor. — Eu sou o Jace Wayne. Lembra?
—Ah! O garoto que eu conversei durante uma tarde e que pensa que eu tenho um harém! — Digo ao me lembrar dele.
—Isso mesmo! — Ele sorri. — E você pensou sobre a minha proposta?
—Eu não tenho um harém.
—Qual é? Não sou tão bonito como os outros dois? — Pergunta ele, fingindo estar desapontado.
Rio de sua ironia.
—Eu diria que vocês estão no mesmo nível. — Revelo.
— Preciso ser superior. — Ele diz, ainda com um tom de brincadeira.
—E o que aconteceu enquanto eu estive fora? — Pergunto, para não terminar o assunto. Falar com pessoas que ainda não sabem sobre a minha outra parte é algo tranquilizador e totalmente fácil.
— Seu irmão estava louco atrás de você. A escola estava avisando todos os dias que, caso alguém a visse, era para avisar um mais velho ou te guiar de volta para a casa. Até espalharam cartazes com o seu rosto pela cidade.
—Então eu sou uma criminosa procurada? — Digo sorrindo.
—Eu amaria ser roubado por você. — Ele di rindo.
Coro ao ouvir isso. Não acredito que esse babaca está dando em cima de mim assim!
Percebo que Maggie está prestando atenção na nossa conversa. Terei que me explicar para ela depois. Espero que Kyle não esteja aqui. E nem que Loran esteja, pois não quero dar explicações para eles também.
Quando penso em responder, o professor chega à sala. Todos os alunos se calam e voltam para o local de estudo, conforme sempre sentamos.
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Thony estava na calçada da escola, com Lena ao seu lado. Ambos estavam bem vestidos e parecia um casal de outro mundo, de tão bonitos e perfeitos que eram juntos. Óculos escuros e roupas escuras faziam parte do look do dia.
—Acho que alguém aqui é severo. — Comenta Maggie ao meu lado, ao ver os dois me esperando.
Bufo, mas não por causa do comentário dela.
—Você ainda não viu nada! — Exclamo. — Se eles forem fazer isso todos os dias, terei que fugir de novo.
—Você quer que eu vá com você? — Pergunta Maggie por educação.
Penso em recusar, mas creio que será melhor para mim se ela estiver lá.
—Eu amaria.
Andamos até o carro. Ao nos aproximarmos, Thony e Leva se movimentam e abrem a porta do carro. Pulo para dentro e Maggie me segue rapidamente.
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Nada foi dito durante a viagem, nada importante. Maggie não parou de tagarelar. Às vezes eu me pergunto se ela é realmente uma guardiã, de tão normal que parece.
Entramos em casa e subimos para o meu quarto.
—O clima está tenso. — Deduz Maggie e torna o obvio audível assim que bato a porta.
Sento-me na cama e começo a me despir. Coloco uma roupa leve para ficar em casa e, então, Maggie volta a tagarelar:
—O que você disse para eles?
—Eu falei que eu sou sonâmbula, pois não me lembrava de nada. Simplesmente fui dormir e acordei no meio da mata.
O semblante da morena não foi algo muito empolgado.
—Se você falasse que dois caminhoneiros pedófilos te raptaram e iam abusar de você, seria melhor. — Diz ela. — Essa história é muito mequetrefe.
—Eu não tenho culpa! — Digo baixinho. — Kyle e Loran que bolaram tudo. Garantiram-me que ia dar certo.
—Você sabe que todos os homens são péssimos com mentiras, não é? — Pergunta ela, como se isso fosse tão obvio como se todos os homens tivessem uma camiseta escrita “eu sou péssimo em contar mentiras”.
—Agora eu sei. — Respondo e jogo-me na cama, olhando para o teto e pensando se realmente foi algo bom ter voltado para cá tão cedo e sem pensar muito no que iria acontecer.
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Após o jantar, tranco-me no quarto e faço o meu dever de casa, todos os que eu tenho que entregar amanhã.
Abro a porta do quarto, para que Lena pudesse vir para cá assim que desejasse dormir.
Deito-me e encaro o teto.
Tudo o que ouço é o som da televisão lá de baixo e o gemido que o vento causa, devido a sua velocidade.
Quando já de madrugada, a janela resolve abrir e deixar que alguém invada minha privacidade. Levanto-me preparada para começar uma boa briga, mas o ruivo ainda não entrou totalmente no quarto: está somente sentado na janela.
Olho para a outra cama e Lena ainda não veio para cá.
—O que você está fazendo aqui? — Pergunto. — Lena pode vir aqui a qualquer momento.
—Eu vim te buscar. — Diz ele calmamente.
—Buscar? Loran, eu estou de castigo, não posso sair. — Respondo.
—Nós voltamos aqui para treinar, Emilly. — Loran fala. — Você deve sair. O castigo não é nada. Agora vamos.
Eu não quero sair, não quero me encrencar mais do que já estou. Não me mexo.
—Você quer que o seu irmão seja atacado na sua frente e você, por não ter tido esse treinamento, não saber como revidar e vê-lo morrer? — Loran pergunta com a sua ironia natural.
Estresso-me. Levanto e mudo de roupa.
—Boa garota. — Ele diz bem baixinho e estica a mão direita para mim. Deposito a minha mão na palma dele e ela se fecha fortemente, me puxando para fora do quarto pela janela.
A sensação é de que vou cair e me espatifar no chão, mas nenhum anjo deixaria isso acontecer comigo. Ou melhor, eles não deixariam isso acontecer comigo. Loran me abraça e abre as suas grandes asas. Voamos por toda a cidade e posso afirmar que a vista área dela a noite é mais do que deslumbrante.
Pausamos num canto com pouca iluminação, onde Kyle já se encontra. O local só sustenta a nós três, até agora.
Loran mete uma de suas mãos no bolso e, após um tempo revirando-o como se fosse um saco sem fundo, ele puxa-a com algo em sua mão.
Sua palma se abre revelando uma pequena esfera roxa que parece conter uma supernova em seu interior. É linda.
—Você sabe o que é isso? — Pergunta ele.
—Não. — Respondo rapidamente.
—Isso é um portal que está compactado, ou seja, ele está fechado. — Ele põe a bolinha no chão e, após um tempo, pisa com força. Ela se quebra em vários pedaços e uma geada forte percorre o local. — Agora ele já não está mais fechado.
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