As Crônicas de Nárnia: Invulnerável
2 A Descberta
Caspian achou que tinha se livrado do temido assunto chamado casamento. Faziam duas semanas que Cornélio e Drinian não falavam em casamento, mas isso não queria dizer que não haviam tramado nada. Realizaram um coquetel e convidaram as mais belas donzelas, tanto da nobreza como também as mais simples, mas todas com o mesmo atrativo que Susana, a estonteante beleza. Sabiam que qualquer jovem carente se alegria em meio a tantas beldades. Caspian ficou bastante aborrecido, não gostou nem um pouco da intromissão de seus amigos, mas depois de refletir bastante achou que já estava na hora de fazer a fila andar.
O coquetel foi um sucesso, até o próprio Cornélio se sentiu atraído pelas belas damas. Todas tentavam chamar a atenção de Caspian, muitas se surpreenderam ao vê-lo, pois algumas dessas damas não o conheciam e pensavam que se tratava de um velho asqueroso, nem imaginavam que se tratava de um verdadeiro deus grego. As mais ricas o cortejavam primeiro, ele tentava se animar, dançava com todas, cumprimentou uma a uma, mas em nenhum olhar encontrou o que ele encontrava no de Susana. Enquanto dançava com uma das jovens, Cornélio e Drinian que não deixaram de o observar, viram que algumas lágrimas caíam dos olhos dele e perceberam que era porque nenhuma daquelas moças preenchiam o vazio que Susana deixou.
– Acho que foi um erro Drinian. Caspian está aqui, mas sua mente está muito longe, eu quero que ele esqueça da jovem rainha, mas não quero que sofra.
– Ele tem que se casar. Não só pelo reino, mas porque a cada dia que passa ele fica mais abatido. Agora que Nárnia está na mais perfeita paz a solidão assolou nosso rei. Ele está afundado numa tristeza profunda e não consegue mais disfarçar.
– Mas ele tem se esforçado para mudar isso. Agora evita falar da rainha, não fica mais acariciando a coroa dela, e deu bastante atenção a todas as moças.
– Cornélio juro que se pudesse iria atrás da rainha Susana e dos irmãos dela, só para fazer nosso rei feliz. Pode ser insolência da minha parte dizer isso, mas amo Caspian como se fosse meu filho.
– Mas será que a rainha também o ama?
– Creio que sim, afinal foi ela quem demonstrou amor por ele primeiro, o beijou na frente de todos, mesmo sendo um pouco tímida.
– Imagina só se nossos reis voltassem pela graça de Aslam, e se a rainha Susana tivesse se apaixonado por outro, Caspian morreria de desgosto.
– Ele é muito sensível, seria melhor então que eles não voltassem.
– Se um dia Susana voltasse e se apaixonasse por outro que não fosse o Caspian, eu mataria o infeliz, juro que seria capaz de fazer isso pelo bem do nosso rei.
– Apesar de tudo não pretendo desistir de casá-lo, ou Nárnia não terá um herdeiro, imagina só se o reino caísse nas mãos de um malfeitor. Ele deve ter outra moça em mente, não é possível que se interesse só por essa Susana, ele ainda é muito jovem, só tem 23 anos.
– Isso converse com ele.
…
Quanto mais Susana e Pedro se aproximavam, seus pais se separavam, e o fato assustava muito Edmundo e Lúcia, ainda eram muito novos, Lúcia tinha 13 anos, Edmundo 15. Pedro só se preocupava com Susana, e ela só com Caspian e com o que faria para esquecê-lo.
Pedro cursava a faculdade de medicina e Susana psicologia, os dois iam juntos para a universidade todos os dias de trem. Certo dia em que o vagão estava quase vazio, Susana estava sentada distraída e apesar de vários bancos estarem vazios Pedro estava em pé, apenas para observar Susana. Suas notas haviam caído de maneira assustadora, mas ele não conseguia controlar seus pensamentos, e quando ele pensava no que poderia ser aquilo, começava a chorar, tinha medo, sabia que estava indo para um caminho perigoso que o faria sofrer muito, mas mesmo quando não estava perto dela, sua imagem não saía de sua cabeça e ele não fazia questão de tirá-la de lá. Por isso todas as manhãs ficava a observando em pé, no trem, segurava a barra de ferro, e mantinha seus olhos nela como se tivesse sido hipnotizado, e aquilo já estava incomodando Susana. Depois que desceram na estação, ele pegou a mochila dela, e de braços dados ela fez uma pergunta ao irmão, e nem ele mesmo sabia responder.
– Pedro por que me trata diferente da Lúcia e do Edmundo? — O garoto parou sem reação e as palavras lhe faltavam.
– E-eu não te trato diferente deles.
– Como não? Você está sempre comigo, é sempre tão amável, atencioso e carinhoso, protetor. Fica várias horas do dia comigo, e até a pouco tempo não tirou os olhos de mim por nenhum segundo, e já faziam 40 minutos que estávamos naquele trem.
– Talvez porque tenhamos mais coisas em comum, somos mais velhos, sempre nos demos bem, sempre fomos uma dupla, assim como a Lu e o Ed são.
– Não temos tantas coisas em comum assim Pe. Se você não se lembra nós já tivemos várias discussões por nossas opiniões e os temperamentos diferentes. Mas agora você está tão compreensível, tão companheiro.
– Não gosta do meu carinho? — perguntou um pouco triste.
– Não há nada que eu queira mais do que estar com você Pedro. — disse tocando o rosto dele com leveza, o que fez o coração de Pedro acelerar e suas pernas tremerem, ele não entendia por que se sentia daquela maneira.
– Como você gosta de mim Susana? Gosta de mim como gosta dele?
– Dele quem Pedro?
– Do Caspian.
– Impossível. Eu amo o Caspian de outro jeito, como uma mulher ama outro homem, e você eu amo como amigo e irmão.
– Ah é? — ficou triste novamente. Mas achou que estava descobrindo o que sentia por ela, e achou, melhor guardar a palavra impossível em sua memória.
…
A festa tinha acabado e Caspian estava sentado em um trono que servia apenas para festas, observava as estrelas e percebia que passaria mais uma noite sem dormir. Ele observava todas as estrelas que eram muitas, assim como as convidadas, que eram numerosas e belas, mas nenhuma estrela era como a lua, e para ele a lua era sua Susana, a maior, mais brilhante e mais bela dama da noite. Um aperto no coração que só os platonicamente apaixonados sentem invadiu o coração de Caspian, às vezes ele conseguia passar uma semana sem chorar, mas ao perceber que mesmo tendo conhecido em só um dia duas mil moças e não ter sentido nada por nenhuma delas, ele ficava mais apavorado por ver o quanto Susana o dominava.
Vendo o rei sozinho, Cornélio pediu que criado colocasse uma cadeira ao lado dele, o velho senhor se sentou e ficou um tempo em silencio, vendo as lágrimas que caíam do rosto do rapaz.
– Meu filho, não quero te ver assim. Essa tristeza é como a noite, logo passa.
– Mas volta dia após dia, assim como a noite.
– Só você pode acabar de uma vez com isso Caspian, não jogue sua juventude fora por uma pessoa que foi e nunca será sua.
– Como posso acabar com isso? — perguntou virando o rosto para o senhor. Cornélio lhe secou as lágrimas.
– Susana é a pessoa mais adorável e a que mais merecia ser sua mulher. Mas você deve se lembrar que nunca mais a verá. Deve haver outra moça nesse mundo tão adorável e doce quanto ela. Alguém além de Susana já deve ter tocado seu coração também Caspian. Me diga quem é, e não medirei esforços para entregá-la à você.
Caspian ficou calado, um pouco pensativo, vasculhava seu coração e sua mente, fazia uma busca detalhada de cada olhar e sorriso marcante, mesmo que Susana aparecesse toda hora em sua mente, ele se lembrou de uma pessoa.
– Acho que tem uma pessoa sim Cornélio. — dizia tentando se animar um pouco.
– Verdade meu rei, me diga quem é, e como ela é. — perguntava com tremenda empolgação.
– Quando Edmundo e Lúcia procuravam os fidalgos comigo, conhecemos uma mulher extremamente bonita – dizia resgatando a cena em sua memória – lembro que fiquei completamente encantado com ela. Foi a primeira e última vez que uma ocupou o lugar de Susana em minha mente, e naquele momento pensei como seria maravilhoso tê-la como esposa.
– Jura meu rei? — perguntava Cornélio encantado. — Qual é o nome dela? Onde mora?
– Ela é tão linda quanto o nome, é uma estrela, se chama Liliandill, e é de Ramandú. — dizia agitado.
– Que encantador. Deve ser uma moça muito especial, se soubesse a teria convidado.
– Sim, seria fantástico vê-la de novo. Você a traria para mim Cornélio? Pode ser ela, tem que ser ela. É essa moça que eu quero Cornélio. — Dizia sorrindo com a mão no ombro do velho.
– Amanhã mesmo você a verá meu rei. Mas seria melhor se você fosse até ela pessoalmente.
– Não vejo a hora. Partiremos amanhã bem cedo. Prepare presentes e carruagem, Drinian me levará até ela. — disse entusiasmado.
…
Na hora do intervalo, Pedro raptou Susana para um lugar mais escondido da universidade, ficava perto de umas árvores e quase ninguém ia lá.
– Estou com saudades! — disse entrelaçando seus braços ao redor da cintura dela.
– Mas já? Só nos separamos por três horas.
– É mais que suficiente para enlouquecer de saudades. — disse puxando-a para mais perto do seu corpo. Ele não conseguia controlar o que estava sentindo, a olhava intensamente, a desejava. Por isso a colou com seu corpo, e colocou sua boca bem perto dos ouvidos dela.
– Eu te amo Susana. — disse com os olhos fechados um poucos antes de dar leves beijos no rosto e na orelha dela. Susana não via aquilo com maldade, na verdade nem ele, agia por impulso, em puro êxtase, para Susana estava sendo bom, pois ela estava carente e não percebia que os carinhos do irão eram de amor.
– Eu também te amo Pedro. Obrigada por assim, tão meu amigo.
Pedro tirou sua respiração quente do pescoço de Susana, e voltou a mirá-la, o desejo de beijá-la foi muito grande, mas ele aguentou. Ela ficaria muito assustada se ele a beijasse, e ele queria aproveitar cada minuto com ela, tinham ainda 30 minutos de intervalo, e ficaram abraçados embaixo da árvore, Pedro a apertava forte contra seu corpo, queria sentir o cheiro dela. Ele tirou os cabelos do pescoço dela, para observar melhor, Susana estava de costas para ele, e só conseguia pensar em Caspian. Sem conseguir resistir, após acariciar o pescoço nu de sua suposta irmã, Pedro com certo temor, beijou levemente o pescoço de Susana. Como ela não reagiu estranhamente, ele deu vários outros beijos, mas em certo momento, ele sentiu que seu corpo estava reagindo e para que Susana não percebesse seu desejo, terminou com aquilo e foi para o bebedouro mais próximo. Susana se sentou apoiando suas costas na árvore e ficou delirando de amor por Caspian. Agora ela e Pedro eram tão próximo e íntimos que ela não viu nada demais nas carícias e nos beijos de seu irmão, para ela era isso que Pedro era, seu irmão, apenas isso e entre irmão não haviam maldades.
No bebedouro Pedro molhou suas mão e lavou o rosto, a boca, e o pescoço, todo seu corpo ardia com um fogo que o consumia, Pedro tinha 20 anos e nunca havia estado com uma garota intimamente, nem desejava isso, mas algo mudou naqueles minutos em que esteve com Susana, ele desejou possuí-la. Mas foi só se afastar dela e espairecer que o remorso esmagou seu coração cruelmente, ela era sua irmã, como poderia estar apaixonado por ela? Isso era uma aberração, seus pais nunca o perdoariam se soubessem que ele sentiu coisas ilícitas por sua própria irmã, Edmundo e Lúcia o repudiariam, e Susana, ela nunca mais iria querer saber dele e isso acertou Pedro como um golpe. A amava e isso era fato, não soube como tudo aconteceu e começou, só sabia que era tarde. Lágrimas violentas saíram de seus olhos como se estivessem a caminho de uma rebelião, seu estômago se retorceu e ele se enojou de seus próprios sentimentos, matou aula e se trancou no banheiro, sentado ao chão, não deixava de chorar. A única solução para seu problema era se afastar de Susana, com muita dor e dificuldade precisava ficar longe dela, por ela e por sua família, tinha que fazer esse sacrifício.
Quando as aulas terminaram Pedro se apressou para ir embora, queria chegar rápido em casa, não queria ir com Susana, pois tinha medo de se perder no azul dos olhos dela. A irmã do rapaz estranhou que ele tivesse ido embora sem ela, o procurou na universidade inteira e percebeu que ele realmente tinha ido embora. Quando Pedro chegou em casa se apressou para sair, não queria dar explicações a Susana, e Edmundo disse que o acompanharia. Pedro achou uma boa ideia.
Os dois foram ao cinema e depois a um bar, Edmundo tomou uns sorvetes e capucchinos, já Pedro, experimentava o álcool pela primeira vez. Parecia triste e deprimido, ouvia os monólogos de Edmundo sem lhe dar muita atenção, achou um erro aceitar a companhia do irmão, Edmundo estava percebendo seu desanimo e sua tristeza, e achou estranho o fato de Pedro beber.
– O que foi cara? Você está com cara de cachorro abandonado. — disse zombando de Pedro que estava com o olhar perdido e nem ouvira a gracinha do irmão.
– Pedro eu estou falando com você – Edmundo lhe deu um murro no braço, para despertá-lo.
– Hã o que foi Ed? Me deixa vai. — disse chateado.
– Já sei o que significa isso. — Edmundo fazia uma careta de desconfiança.
– Já sabe o que Edmundo? Dá pra parar de me irritar? Desde que saímos de casa, não cala essa boca.
– Você está desse jeito porque está apaixonado Pedro. Posso saber quem é a minha cunhadinha?
– Não diga besteiras Edmundo – Pedro gritou assustado com as palavras de Edmundo, chamando toda a atenção para os dois – de onde você tirou isso? — perguntou arfante.
– Calma parece uma garotinha medrosa, por acaso a gata está aqui?
– Vai embora Edmundo, me deixe sozinho e nunca mais fale uma coisa dessas.
– Qual é o problema mano? Está transtornado Pedro, parece abatido.
– Diga ao papai e a mamãe que chegarei tarde, talvez quando todos estiverem dormindo. — disse sentando-se novamente ao balcão.
Edmundo ficou preocupado, e achou até que o irmão estava daquele jeito por Nárnia, mas quando chegou em casa não comentou com ninguém, Susana perguntou por Pedro e Edmundo disse que ele tinha encontrado uns amigos e só voltaria tarde.
Quando Pedro voltou para casa já eram duas horas da manhã, viu que a luz da cozinha estava acesa, como as largas portas era de vidro, viu que seu pai e sua mãe discutiam, mas o vidro o impedia de ouvir a briga. O casamento de Helena e John se deteriorava a cada dia que passava, brigas se tornavam constantes, mas eles evitavam isso na frente dos filhos. Pedro deu a volta e entrou sem fazer barulho pela sala, se aproximou da cozinha e escondido ficou ouvindo a discussão dos pais.
– A culpa é toda sua Pedro nunca foi de fazer uma coisa dessas. Deixou a Susana vir embora sozinha sabendo o quanto esta cidade está perigosa. Saiu sem nos dar explicação e Edmundo me disse que ele estava bebendo.
– É só isso que vocês mulheres sabem fazer, culpar nós os homens por tudo de ruim que acontece. Acho que não é só o Pedro que está cansado de você e desta casa Helena.
– Não coloque meu filho no meio de suas sujeiradas John, sei que você tem uma amante, só pode ser isso. Vive chegando tarde em casa, se nossos filhos estão estranhos a culpa é sua, que não se impõe como pai, até Susana, nossa primogênita, anda esquisita, deve ter percebido que você me trai.
– Nossa primogênita? — Pedro repetiu baixo, para si mesmo, bem confuso.
– Pare de dizer besteiras mulher, sempre fui um homem honrado que ama a família acima de tudo.
– Toda a família? Até o Pedro? Pois não parece, você não está nem aí para meu filho.
– O que ela quis dizer, com até o Pedro? — dizia bem baixinho tentando ouvir o resto.
– Seu filho? Só seu? Se eu não tivesse o aceitado, você não o teria agora, eu o amo muito mais do que você e tenho direitos. Quando tiver condições de sair dessa casa levarei ele e Edmundo comigo.
– Eu encontrei o Pedro na porta de casa, portanto ele é mais meu do que seu. Tudo o que fiz foi para protegê-lo e continuarei o protegendo sempre, você não vai tirá-lo de mim.
– Quis tanto o proteger que escondeu do nosso filho que ele é adotado. Tirou dele o direito de procurar sua verdadeira família, Pedro nunca vai perdoá-la quando souber a verdade.
– Sempre escondi isso porque não queria ele sofresse. Ir atrás da família pra que? Nós somos a família dele. Se a mãe verdadeira o amasse não teria o abandonado apenas com uma capa.
– Algum dia ele descobrirá tudo Helena e pode se revoltar com você.
– Só comigo? Esqueceu que você também omitiu a verdade dele? Nem tente usar isso para jogá-lo contra mim.
– Seria uma ótima ideia Helena, mas não quero magoar o Pedro. Eu o amo assim como amo Susana, Edmundo e Lúcia. Se nos separarmos ficarei com os quatro.
– Eles nunca aceitariam isso. Quem sabe Pedro não é seu filho com alguma amante? Talvez por isso tenha vindo parar em nossa porta.
– Você está completamente louca Helena. Não faço ideia de quem seja a mãe do Pedro.
– Isso não importa, apesar de tudo ele é meu filho, meu amado filho e isso nunca vai mudar.
Pedro ficou tão chocado que tapou a boca com as mãos, suas pernas tremiam o impedindo de sair dali. Em outras circunstâncias teria ficado arrasado por não ser filhos de seus pais que ele tanto amava, por não ser um Pevensie, mas agora era diferente, e isso significava que não haviam motivos para sofrimentos e remorsos, poderia amar livremente sem medo de ser feliz, pois Susana, sua amada Susana, não era sua irmã.
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