Notas iniciais
Então amores, a história está começando a ganhar forma ainda, mas eu estou gostando do texto, então vou continuar seguindo por esse caminho...

Estela dirigiu até estar tão cansada que não conseguia nem manter os olhos na estrada. Sua única opção era arrumar uma pousada para pernoitar, porém quanto mais perto se aproximava do castelo mais longe queria estar. Quando foi expulsa do castelo teve que ir para bem longe e a Cidade Quatorze era onde seu limite de permanência começava, então nada mais correto que viver ali. Era uma cidade como outra qualquer, ela imaginava, haviam áreas pobres e áreas consideradas nobres, mesmo que ninguém que ali vivesse fosse de fato da nobreza. O caminho até a Cidade Quatro mostrava sinal de que a hierarquia daquelas cidades eram iguais a da sua, mas mostravam claros sinais de que o status dos novos nobres – como esses se denominavam – iam melhorando a cada cidade. Por essa lógica as três primeiras cidades deveriam ser as melhores e mais bonitas, mas quanto mais se aproximava da divisa entre as cidades Três e Dois mais caos e devastação eram visto, em alguns pontos de forma isolada, como se tivesse acontecido algum acidente ou algo do tipo. Já em outros, as pessoas pareciam estar afundadas na miséria absoluta. Sentiu o coração apertar ao se deparar com o pequeno corpo de um menino jogado a margem da pista, ele não deveria ser mais que dois anos mais velho que Miguel, sangue seco estava espalhado ao seu redor e podia se ver duas pequenas marcas redondas nele, onde alguém tão pequeno quanto ele, provavelmente um irmão menor ou um amigo, se ajoelhara. Ela agradeceu por estar com as janelas fechadas, o corpo estava inchado e aves picavam todo o dorso do menino, o que significava que ele já estava ali por muito tempo. Eles haviam deixado o rosto intacto, como se de algum modo respeitassem ele. Ela acelerou, mas continuou olhando aquela cena pelo retrovisor, queria ter parado, expulsado aqueles animais, queria poder ter dado um enterro digno aquela criança ao invés de deixa-la jogada no acostamento, mas não o fez, mesmo não querendo admitir ele era só mais um indigente negligenciado pelo nobreza e agora por ela também. Pela primeira vez, desde que partira para viver com o homem que amava, não sentiu falta do castelo, mas ao contrário, sentiu ódio de todos aqueles que viviam lá, em seu mundo privado e seleto, sem se importar com a fome e a miséria que os cercavam.

Assim que atravessou os limites da Cidade Dois parou o carro bruscamente, não acreditava na cena que via, mesmo a centena de metros conseguia ver exatamente o que acontecia. Os guardas reais estavam lutando com um pequeno grupo, as armas em punho, estava obvio que a guarda ganharia aquela luta. Todos estavam repletos de sangue, mas ela não havia escutado um tiro sequer. Os guardas estavam hesitando em atirar e ela entendia o porquê, aqueles com quem eles lutavam tinham a metade da altura dos guardas, eles também eram mais magros e estavam imundos, semelhante ao menino que ela acabara de ver quilômetros atrás. De repente algo acertou um dos guardas, ele cambaleou por alguns segundos e depois caiu no chão, da distancia em que estava não conseguia saber se ele ainda estava vivo ou não. Todos pararam, os meninos se juntaram como uma alcateia em posição defensiva, um dos guardas se abaixou em direção ao ferido, enquanto os outros apontavam as armas para as crianças. Ela desceu do carro e alguns dos guardas viraram em sua direção.

— Não atirem. – ela gritou e levantou as mãos – Eu posso ajudar.

— Rápido! – gritou alguém que ela não consegue ver – Ele está perdendo muito sangue. – um dos guardas faz sinal para que ela se aproxime e ela correu.

— O que o atingiu? – ela perguntou para o homem ajoelhado ao seu lado.

— Não sei, nunca vi um ferimento assim.

— Qual o seu nome? – ela perguntou olhando o rapaz ferido.

— Daniel. – ele abafou um grito – Soldado Cramim.

— Eu quero que você fique olhando pra mim. – ela se virou para o outro soldado – Faça pressão no abdômen, eu preciso fazer um torniquete na perna.

Ela arrancou um pedaço da blusa e enquanto se desculpava mentalmente com Makaila começou a imobilizar a perna do soldado.

— Ele precisa ir para um hospital agora, se continuar perdendo sangue... – ela não terminou a frase, sabia que o soldado Cramim a estava escutando.

— Certo. – falou um dos guardas, parecia ser o chefe – Ebraham, Braner, Lenguinton e Damis voltem para o palácio com o Cramim. Ela vai junto caso ele precise de mais cuidados.

— Sim senhor! – eles responderam em coro.

Ela se levantou e foi até o homem que estava falando.

— Acho que ele não sobreviverá, a viagem é longa.

— No carro tem alguns equipamentos de primeiros socorros, você conseguirá mantê-lo vivo.

Ela assentiu, sabia que ele disse aquilo mais para si mesmo do que para ela. Os soldados levaram Daniel para o carro e ela foi logo atrás, parando brevemente para olhar aquelas crianças, apenas crianças assustadas. Assim que as portas foram fechadas e o carro deu partida ela ouviu os disparos. Doze disparos. Sabia que se aquelas crianças não estivessem mortas naquele exato momento, estariam logo.

Christine não foi trabalhar nos dias seguintes, passou a maior parte deles olhando Miguel. Ele passava a manhã todo assistindo televisão, não havia passado nada que parecesse adequado para uma criança, mas ele parecia gostar de ver as noticias, talvez isso o distraísse. Ele estava em um lugar estranho, sem os pais e sem nenhuma segurança de que eles iriam voltar além da palavra da mãe, mas isso pareceu bastar a ele. Makaila tratava o menino com carinho, dava-lhe um pedaço enorme de bolo pela tarde e lhe fez companhia, comentando aleatoriamente alguma novidade transmitida e começando um breve dialogo. Ele claramente entendia muito bem os assuntos que eram passados na televisão, sinal de que fora extremamente bem educado. Já eram quase sete e meia da noite quando ela escutou alguém bater, sentiu o coração parar, fazia cinco dias que Estela havia partido e ela provavelmente ainda não havia chegado no castelo e mesmo que tivesse chegado os guardas demorariam um dia ou dois para chegar.

— Abra logo essa porta Tine. – a voz era de Joshua.

— Já vou. – ela diz se aproximando da porta, agora mais calma.

— Eu podia congelar aqui fora sabia?

— Não seja dramático.

— Senhora Muph – ele fez um pequeno aceno com a cabeça e recebeu um beijo como resposta.

— Pequeno Josh.

— Oi Miguel. – ele se aproxima do menino – Eu trouxe algumas panquecas, já que você gostou tanto delas.

— Obrigado Josh. – Miguel sorriu e foi para a cozinha, acompanhado de Makaila.

— Eu fiquei tão preocupada. – Tine disse assim que estava certa que eles não podiam ouvi-la – Eu não entendo o porquê eu temo por esse menino, ele não é nada meu.

— Ela o deixou na sua responsabilidade, por isso.

— Eu sempre quis ter um irmão mais novo e o Miguel é tão doce e inteligente.

— Eu te entendo. Quando o Edwin nasceu eu admito que eu não gostei muito, mas ele era minha responsabilidade e eu aprendi a ama-lo.

— Isso demorou dois dias. – ela ri.

— Admito que quando ele segurou o meu dedo, eu não achei ele uma lagosta.

— Josh. – chamou Makaila – Você pode fazer companhia para Miguel enquanto eu converso uma coisa importante com Christine?

— Sim senhora, vai ser um prazer.

— Por favor, venha ao seu quarto comigo filha.

— O que houve mãe? A senhora está estranha desde aquele dia.

— Existem coisas que você precisa saber. Coisas sobre mim e principalmente sobre você.

— A senhora está me deixando curiosa mamãe.

— Eu quero te entregar isso. – ela estendeu a mão e pegou o anel.

— Onde a senhora conseguiu isso? – Tine sabia que uma joia como aquela era muito cara e definitivamente pertencia a alguém da realeza – Foi na época em que você trabalhava no palácio não foi?

— Quando um bebê real nasce uma joia é esculpida exclusivamente para ele. Os novos nobres adquirem joias cujas pedras são de Grandidierite, é uma pedra cara, mas não é nada em comparação com as reais. As que os cavaleiros e damas de companhias recebem e dão de herança para os filhos são de Painite, depois vem os marqueses, condes e duques, que recebem de Garnet Azual, Serendibite e Diamante Vermelho respectivamente. E por fim têm nossas Majestades que ganham joias de Jadeite, uma pedra tão rara que qualquer um que encontrar deve entregar direto no palácio ou pode ser acusado de roubo e preso.

“Quando a princesa nasceu, há dezesseis anos, o rei mandou que lhe fizessem um anel que seria entregue quando ela fizesse dezoito anos no dia da posse. O anel era em ouro branco, continha uma pedra de Jadeite pequena com três Diamantes Vermelhos de cada lado. Ele ficava no quarto da princesa, junto com tudo que ela ganhou quando nasceu.”

“Dois anos depois houve um ataque direto ao Palácio. Os rebeldes nunca tinham chegado até lá, o castelo é maior que as cidades de Um a Quatro juntas e a segurança da princesa foi ameaçada, ela era a única filha deles e a rainha me implorou para tirá-la de lá, eu levei a princesa e o anel. Pois se ela não voltasse em cinco dias, quando fizesse dezoito anos voltaria para casa e usaria o anel para reivindicar seu lugar de direito.”

“Eu guardei esse anel todos esses anos e ele seria seu ano que vem, mas agora que Estela te viu, agora que ela me viu, você voltará para o castelo antes que o planejado. Eu te criei como minha, porque eu estive com você este o dia do seu nascimento. Talvez você agora me odeie já que eu escondi tudo isso de você, mas eu prometi isso para a rainha e a sua segurança sempre foi o mais importante pra mim.”

— Eu preciso de tempo. – Christine disse e desviou o rosto.

— Claro filha. Se precisar de algo é só me avisar.

— Obrigada... mamãe.

Makaila saiu do quarto. Christine estava tentando compreender tudo o que sua mãe dissera, tudo o que ela sabia sobre a própria vida era mentira, mas não conseguia ter raiva da sua mãe. Tudo o que ela fez foi para protegê-la, porém isso foi um pedido da rainha, “não se nega favores a alguém de sangue real”, essa frase soava em sua cabeça, ela a ouvira diversas vezes da sua mãe, mas nunca havia de fato a entendido, achava que ela dizia isso por ter trabalhado tantos anos no castelo, algo que as servas aprendem e memorizam, entretanto e se for algo mais? E se for por que criá-la era um favor a rainha? Ela tinha tanto o que pensar e sabia tão pouco sobre sua família de sangue, tudo o que tinha era um anel que não cabia em seu dedo e um primo que nunca conhecera seus pais então não podia dizer muito sobre eles.

Estela estava sentada em frente ao soldado Cramim, eles conseguiram chegar ao castelo com uma rapidez impressionante, a viagem que deveria demorar três dias foi feita em menos de dois e isso salvou a vida do soldado. Ele passou por cirurgia e agora estava descansando. Ela o observava, Daniel não devia ter mais que dezoito anos, era forte e musculoso, mas trazia marcas nos braços e pernas de quem sofrera muitas agressões na infância, então ela imaginava que fora isso que o fez entrar para o infantaria. O exercito real era cruel, Christopher havia lhe dito alguns dos treinamentos que era obrigado a fazer, mas era melhor sofrer lá dentro do que viver na rua sem ter o que comer. Essa era a verdade por trás de quase todos os guardas, meninos abandonados a própria sorte que preferem servir ao rei do que morrer de fome.

— Senhora. – disse um homem que ela reconheceu como o que a mandara vir com Cramim – Devo lhe agradecer, você salvou a vida do meu irmão.

— Eu não fiz nada demais. – ela olhou Cramim, o dorso quase completamente enfaixado.

— Não posso fazer muito pela senhora, mas se quiser posso arrumar um emprego em uma das casas nobres, alguns me devem favores.

— Eu fico muito grata. – ela riu – Mas não preciso disso. Se quiser me ajudar, apenas leve uma mensagem a rainha.

— Perdão? – ele parecia incrédulo, que assuntos uma plebeia teria para tratar com a rainha.

— Diga assim “Vossas Majestades, venho em nome de sua prima Estela La Fontan, filha do duque e da duquesa La Fontan, dizer lhe que precisa ter uma audiência particular com a rainha. Seu marido foi morto por rebeldes e na tentativa de fuga ela descobriu algo”. – ele a olhava incrédulo – Eu sei que não pareço com alguém da nobreza, mas olhe, leve isso com você – ela tirou do pescoço um colar onde pendia um Diamante Vermelho segurado por três fios de ouro que prendiam como garras – Ela vai acreditar se lhe der isso.

— Minha senhora. – ele se ajoelhou em reverência desajeitada.

— Faz algum tempo que ninguém se ajoelha perante mim. – ela riu.

— Irei imediatamente. – ele parou antes de sair do quarto – Lamento pela sua perda.

— Não lamente, Deus não faz nada sem um motivo.

Notas finais
Espero que tenham gostado.