Eram 6:00h em ponto, quando todos saíram da Cabana do Mistério; Dipper, Ford, Aethel e Tristan estavam caminhando pela floresta de Gravity Falls, seguindo na direção das cataratas de Trembley, onde Stanford, muitos anos atrás, havia encontrado um túnel secreto cheio de pinturas rupestres estranhas.

Eram resquícios dos habitantes primitivos de Gravity Falls, mas Ford nunca teve tempo de explorar aquele túnel adequadamente, já que, na época, estava sendo manipulado por Bill Cipher e, por isso, perdia tempo construindo um portal interdimensional.

Tristan guiava a expedição, enquanto Dipper folheava o diário 3, buscando ler sobre o túnel:

—Isso é incrível! Você e o velho McGucket exploraram as cataratas de Trembley no passado! Tivô Ford, eu nem lembrava que tinha lido isso no diário!

—Sim, Dipper. Bons tempos aqueles, bons tempos…– sorriu Ford.

—Fiquem juntos, por favor, estamos seguindo uma trilha conhecida, mas não sabemos se Björn ainda está por aí. – disse Tristan.

Aethel permanecia em silêncio; tinha coisa demais na cabeça para prestar atenção nos comentários de Dipper ou nas histórias de Ford.

Seguiram pela floresta e tiveram de passar por um morro bastante incômodo até que, finalmente, chegaram nas famosas cataratas de Trembley, nomeadas em homenagem ao mais peculiar chefe de Estado que aquele país já havia conhecido.

Passando pela cachoeira, encontraram um túnel em seu interior, com uma escada de madeira que parecia ser muito antiga.

Ford capturou alguns geodites (criaturinhas esféricas cobertas por cristais que brilhavam) com uma rede fina e usou-os como lanternas.

Todos ficaram impressionados com os desenhos pictóricos, mas Tristan tocou em uma parte da parede mais ao fundo, fazendo seus desenhos e estranhos glifos brilharem como se feitos de ouro:

—Vejam todos. Esses desenhos fazem algum sentido para vocês? – perguntou Tristan.

—Vejamos… parecem retratar algum tipo de batalha primitiva… estou identificando um cavalo que está pisando o solo e… parece que isso está rachando o chão. O equino parece estar cercado por sete estrelas do mar e peixes. Pode ser uma representação de algum terremoto que prejudicou o povo original destas terras. – disse Ford.

—Ignorem essa parte, ela faz referência a um mito antigo sem ligação com nosso problema atual, o que quero indicar é a figura à direita. – disse Tritan, apontando para o desenho de um homem.

Era a figura de um guerreiro desenhado em perfil, como nos murais do antigo Egito, portando um arco na mão direita e um amuleto na mão esquerda abaixada; parecia retratar algo importante, pois aquele conjunto de ilustrações tinha estado oculto até Tristan tocar a parede.

Aethel olhou com atenção e tocou no rosto da figura quando, de repente, Dipper fez um comentário:

—Que esquisito… esse cara parece com você.

Aethel viu o olhar da figura e, de repente, pareceu ser sugado por aquele conjunto de figuras…

O rapaz havia acabado de atravessar a parede para um mundo escuro, vazio, silencioso, mas a curiosidade parecia suplantar o medo inicial, então Aethel flutuou por aquela imensidão sem nada, em busca de algo interessante.

Uma luz parecia brilhar forte no vazio distante e, conforme Aethel se aproximava, ela cresceu e o cobriu por inteiro.

De repente, o rapaz viu inúmeras bolhas que mostravam as mais variadas imagens, como se fossem telas de inúmeras realidades distintas para as quais não poderia adentrar, por maior que fosse seu desejo aventureiro.

Fossem tâmias inundando uma cozinha com água e sabão ou mais tâmias voando em um tipo de planador, feito com o que se chama de sucata; as realidades eram tão fantasiosas que não seria possível descrevê-las em detalhes.

Em uma das bolhas, Aethel viu uma multidão rodeando um garoto que atirava uma esfera branca e vermelha de onde saiu um espécime estranho; algum tipo de dragão laranja! Mas não havia medo em nenhuma das pessoas que assistiam a essa estranha cena…

Seria algum tipo de esporte ou costume peculiar? Quem pode saber? De qualquer maneira, olhar para aquelas pequenas bolhas era como admirar um catálogo de viagens, cheio de cores e imagens diferentes das que estamos normalmente habituados.

De repente, uma voz que parecia ser como a de muitas águas, tão forte quanto agradável, como nenhum homem poderia descrever, chamoupor Aethel.

O rapaz ainda estava flutuando naquela vastidão iluminada, cheia de bolhas e realidades curiosas, mas ficou em silêncio, esperando resgatar a atenção dispersa pela curiosidade, quando ouviu mais uma vez:

—Aethel…

Quem o chamava? Seria aquele um desses momentos em que o extraordinário se mescla ao impossível para nos trazer de volta as lembranças de um passado esquecido, dos tempos de criança, quando fadas e piratas recheavam nossos sonhos, junto às sereias e índios instalados em suas tendas, cantando mitos em torno de fogueiras? Na dúvida, busca-se a Deus, pois só Ele tem a resposta para questões de importância tão crucial quanto essas.

De qualquer forma, o rapaz apenas respondeu sem demorar muito (pois é falta de educação não responder quando lhe dirigem a palavra; questão de cortesia que Merlin, eficientemente, lhe ensinara):

—Eis-me aqui… quem é você, amigo?

Uma estranha sensação de paz encheu o espírito de Aethel, assim que a voz respondeu:

—Eu tenho muitos nomes, mas um dia todos os homens me conhecerão…

—Isso é um enigma? Não compreendo…– respondeu Aethel.

—Para muitos ainda sou um enigma… guiaram-se pelos próprios corações, porém, o coração do homem é enganoso… por isso se afastaram da razão, crendo que as verdades do peito bastariam para resolver os problemas da vida e encher os espíritos de paz… os homens são assim.

—Você me trouxe a essa imensidão etérea? Pensei que fosse obra de Gael.– disse Aethel.

—Tenho visto as obras de Gael, cujo coração se entregou quase por completo à escuridão. Ele se perde em suas ambições, crendo que restaurará a ordem perdida e guiará o mundo para uma Era dourada… mas entenderá que tudo isso é vaidade.

Aethel pensou nessas palavras, mas pouco pôde dizer sobre elas, então preferiu ficar em silêncio, enquanto a voz misteriosa continuava:

—Agora estenda a mão e pegue a bolha que se aproxima.

Neste momento, Aethel segurou uma bolha nas mãos e foi transportado para dentro dela; neste momento, viu-se em um novo mundo…

Pequeno.

Era um quarto com cama de solteiro, mesa com computador portátil, cadeira de escritório, algumas prateleiras cheias de livros e um tapete laranja que combinava bem com aquele ambiente.

Havia alguns romances policiais, inclusive obras de Poe e Doyle, mas os livros de química, ciências e história se destacavam; “deve ser de alguém estudioso”, pensou Aethel, “mas não vai gostar da invasão.”

Dirigindo-se para a porta, pegou a maçaneta e a girou quando, de repente, se viu diante de uma garota.

A expressão de surpresa em ambos era latente, mas o rapaz logo se recompôs e analisou aquela que, muito provavelmente, deveria ser a dona do pequeno quarto.

Ela tinha uma aparência bastante distinta: pele clara, cabelos castanhos e olhos de igual cor, óculos com lentes retangulares, suéter laranja (que, aparentemente, devia ser útil nas noites frias de dezembro) e meias também dessa cor, sapatinhos e uma saia média, ambos de um tom de rosa escuro que parecia se aproximar muito do vinho.

Os dois se olharam confusos, quando a garota perguntou:

—Quem é você e o quê faz no meu quarto?!

Dando dois passos para trás, Aethel curvou-se levemente, segundo o costume oriental, dizendo em seguida:

—Minha senhorita, perdoe a invasão… sou Aethel, a seu dispôr.

—Aethel? Que roupas são essas? Nunca te vi na vizinhança antes.

—Perdoe se meu traje a ofende. – disse o rapaz, um pouco incomodado (ainda que estivesse na posição de invasor) – apenas apareci aqui, só isso… mas não posso dizer mais do que a senhorita… perdoe a grosseria mas, qual seria sua graça?

Aethel usava gibão e camisa azuis com fios dourados, botas pretas lustradas e cinto de couro, pois se sentia mais confortável com roupas assim, então é razoável imaginar que não se agradou muito do espanto demonstrado por aquela garota; seriam as roupas dele tão estranhas assim? Deixando isso de lado, Aethel esperou a resposta da moça, que logo se apresentou:

—Sou Velma. Velma Dinkley e… ainda não disse porque estava no meu quarto. Quer que eu acredite que você apenas “apareceu” assim, do nada?!

—Senhorita, garanto que não desejava ofendê-la ou tentar alguma desonra contra sua casa. A verdade é que, simplesmente, fui jogado aqui por uma força superior que não entendo; uma resposta irracional, porém, verdadeira, lhe garanto.

—Bem… acho que eu deveria ligar para a Daphne… talvez ela tenha alguma opinião sobre isso. É interessante ter uma segunda opinião… ou eu poderia apenas chamar a polícia.

—Senhorita Dinkley, se o quê vê diante de si é um criminoso, então chame os oficiais, mas antes, peço que, por gentileza, olhe em meus olhos e diga se a visão que tem remete a um inocente ou marginal.

Difícil dizer se alguma garota na Terra daria atenção a uma conversa tão estranha, mas Velma decidiu dar um voto de confiança, já que os olhos de Aethel eram diferentes de tudo que ela já havia visto antes: eram castanhos, reluzentes e profundos, de uma forma que apenas Shakespeare seria capaz de descrever.

A garota já não sentia receio com sua presença, ainda que duvidasse de sua história sem sentido, então decidiu acalmar as palavras e recomeçar:

—Ok, tudo bem, me desculpe por falar da sua roupa… os garotos da escola não costumam usar algo tão diferente… sabe como vocês, homens, se vestem no colégio, não é?

—Não… faz muito tempo que não vou ao colégio. – respondeu o garoto, baixando o olhar.

Velma sentiu que havia tocado em um assunto que não deveria, então começou a pensar em um jeito de atenuar a situação:

—Me desculpe… por favor, sente um pouco, deve estar cansado.

Os dois se sentaram na cama e Aethel lhe contou sua história, falando de Merlin, Luna, Tristan, Mabel e seus novos amigos, embora tenha evitado falar de sua origem.

Velma ouvia o relato com atenção, fascinada, mas ainda tinha dúvidas (pois era do tipo racionalista), então pediu evidências, ainda que soubesse que o rapaz, certamente, não as poderia fornecer.

Aethel pensou um pouco, mas o que poderia oferecer para convencer aquela garota da veracidade de seu relato? Se possuísse algum fragmento do Coracor seria tão fácil! Mas o que poderia apresentar agora?

Neste momento lembrou-se do encontro que teve com Mabel no acampamento das fadas e de todo aquele pó mágico.

Luna sempre estava perto dele, então seria razoável supor que seu rastro de pó encantado acabasse ficando nas roupas do rapaz, até porque a fadinha adorava escolher trajes especiais para ele, então Aethel sorriu e procurou em seus bolsos e colarinho, logo achando um pouco de pozinho de fadas.

A garota colocou o pó em seu microscópio e ficou chocada com o que viu: as pequenas partículas de pó dourado emitiam uma estranha energia que as faziam parecer pequenos sóis; aquele pó não era uma poeira brilhante qualquer, então a garota exclamou:

—Meu Deus, eu nunca tinha visto uma coisa parecida!

—Pena que é tão pouco, você teria adorado ver algo flutuar.

—Como o Peter Pan de Barrie? Bem, com a energia que essa poeira emite, fico pensando nas possibilidades…

—Sim, deve ter razão. Mas talvez seja melhor evitar esses assuntos, já que cairão no campo do fantástico e imagino que a senhorita começará a me achar louco.

—Pode me chamar só de Velma, sem o “senhorita”. – disse a garota, com um risinho engraçado — E por enquanto, você é apenas um invasor.

Os dois começaram a conversar sobre muitos assuntos diferentes, desde obras clássicas à filosofia e política até que, cerca de duas ou três horas depois, chegaram aos campos da história e das ciências naturais.

Para Velma era divertido conversar com um garoto que não a olhava como uma "quatro-olhos esquisita”, mas ainda lhe intrigava qual seria a origem daquele visitante (ela já não o via como um invasor), então perguntou de onde ele era, mas o rapaz não respondeu.

“Você é um mistério”, disse ela, “gosto de mistérios”, o que fez o rapaz sorrir timidamente, mas algo parecia incomodá-lo, ao que ele pediu:

—Por favor, podemos passear lá fora? Pode ser divertido explorar a vizinhança.

—Mas já é bem tarde, pode ser perigoso.

—Não se preocupe – disse Aethel – vou te proteger com a minha vida.

Velma deu uma risada gostosa e olhou para sua companhia, já pensando na explicação que daria aos pais por estar sozinha em casa com um garoto.

A garota se apavorava só de pensar na vergonha que sua mãe lhe faria passar, dizendo coisas constrangedoras como “nossa filhinha está crescendo; veja querido, como ela fica fofa assim”, ou a pior coisa de todas…

O álbum de família.

Para Velma, esse seria o horror final; não poderia ficar mais tempo em casa com aquele garoto misterioso, pois os pais logo estariam em casa e a ideia do álbum, sem sombra de dúvida, viria à mente da mãe.

Tremendo com a sinistra possibilidade, Velma segurou a mão do rapaz e ambos saíram para fora de casa.

É claro que sair com um desconhecido no meio da noite era uma grande tolice, porém, Velma já havia estudado os jogadores do colégio por tempo suficiente para ser capaz de identificar um mal elemento: os olhares enganadores, a postura de excessiva confiança, as cantadas infantis, o modo de caminhar, etc.

Além de tudo, a garota já havia tido alguns contatos com as autoridades, aprendendo muito com eles sobre segurança e outras coisas referentes ao tema que, sem dúvida, todas as pessoas deveriam saber.

Com essas considerações em mente, Velma não precisou se preocupar muito com a índole de seu invasor suspeito (ainda que a maioria de nós preferisse apenas chamar a polícia) antes de passear com ele pela noite.

O cenário noturno era bonito, composto por uma estrada pavimentada, casas que variavam entre um ou dois andares superiores, com telhados triangulares (que deveriam ser úteis nos dias frios de inverno, impedindo o acúmulo de neve), gramados bem cuidados e cercas de madeira de cor indefinida (pois a escuridão da noite, ainda que abençoada pela luz do luar, tornava difícil definir se uma cerca era branca, azulada de forma leve ou acinzentada).

Velma ficou olhando o rosto de Aethel, que estava sorridente, como se ele houvesse descoberto um tesouro precioso que nunca antes fora contemplado por olhos mortais; aquele rapaz enchia-se de uma força única, e a garota já começava a ser contagiada por aquela energia.

Aethel estava vivo e sentia imenso prazer nisso, por isso era capaz de correr por uma estrada a noite, acompanhado por uma linda garota de óculos e suéter laranja que amava mistérios, enquanto ambos eram banhados pela luz da Lua, como uma benção extra de Deus que lhes era concedida.

Velma não pôde parar de pensar no quão irracional era correr pela noite sem um destino, com aquele que invadira seu quarto, então questionou seu novo amigo:

—Gente!... Para onde vamos com tanta pressa?

—Sem um destino certo, qualquer caminho serve… mas que a estrada seja tão mágica quanto a reta final.

—Isso soou um pouco como Lewis Carroll, mas ainda assim é sempre bom ter um destino certo. – disse Velma.

Va bene, se é o que deseja. Diga uma direção e te seguirei até as estrelas.

—Vamos até a casa da Daphne, algo me diz que você precisa conhecê-la.

Ambos seguiram pela estrada e cortaram caminho pelo bosque, sendo que Aethel parecia se deliciar a cada passo, ouvindo os sons noturnos, corujas, grilos, tudo aquilo que compõe a gloriosa sinfonia noturna.

Velma não entendia de onde vinha tanta satisfação, então ele explicou:

—Meu professor é amável, mas me faz estudar bastante, então não costumo ter muito tempo para sentir o prazer de uma caminhada… na verdade, estar na floresta me lembra dele, Merlin, com seus ensinos naturais, enquanto me transformava em raposa, pássaro, peixe…

—Ele te transformava em bicho!? Porquê?!

—Uma forma peculiar de olhar o mundo através de outros olhos; perspectivas distintas vindas de realidades que, quase sempre, o homem ignora. Você pode olhar o fundo de um lago, mas poderia vê-lo da mesma forma que um peixe? Olhar o céu e a terra pelos olhos de uma águia? Sentir o coração batendo rápido, enquanto foge de perigos na forma de uma raposa? O mundo é imenso e cheio de perigos e nem sempre podemos contar com a força bruta, o que nos leva para…

—Pela lógica, a astúcia natural dos seres vivos e sua capacidade de se adaptarem ao meio em que vivem, certo?

—Exato. Simplificando… inteligência supera força. Merlin me ensinou a não ouvir aqueles que dizem coisas como “o mais forte sobrevive” ou “o fraco se abaixa ao forte”, coisas assim.

Enquanto caminhavam, chegaram a uma grande mansão que ficava no topo de uma colina; a mansão Black em todo o seu esplendor.

Um lugar agradável, com certeza, mas pouco convidativo a estranhos, assim era a morada dos Blake.

Apesar de não ter ligado antes, Velma foi bem recebida na mansão, já que os pais de Daphne haviam saído para um baile de gala (pois desejavam uma noite só a dois) mas a herdeira dos Blake era sua amiga há tempos.

Aethel, sempre ciente das normas de conduta, curvou-se levemente para aquela nova garota que lhe aparecia, segurou a mão da moça e a beijou levemente, com respeito e dignidade, pois jamais deixaria as normas da boa etiqueta de lado.

Daphne era uma garota bela, de pele rosada, cabelos ruivos longos e bem cuidados, olhos tão azuis quanto as safiras de Odin (ou seriam rosas? Em certo momento, pareceram tão verdes quanto o jade que compõe o grande trono do jaguar; foi preciso novo olhar para admirar o azul daqueles olhos tão belos).

Com um vestido anos 60 roxo que, surpreendentemente, parecia moderno em Daphne, a garota sorria, enquanto corava ante o gesto galante do rapaz desconhecido.

Aethel era tímido, não havia dúvida, mas os últimos dias o estavam fazendo muito bem, especialmente pelas amizades que havia feito e pela proximidade com Mabel…

Mas será que aquilo era correto? Até onde poderia confiar tanto nas pessoas?

"Que romântico", disse Daphne; mas porque? Aquele era um beijo de cumprimento, não de amor, não era como o beijo que Aethel dera em Mabel…

Pensando bem, o rapaz ainda não havia beijado a gêmea Pines.

Aethel começou a pensar na velocidade em que sua relação com Mabel corria, tão rápida quanto os ventos de uma tempestade de areia, mas não compreendia porque isso o incomodava tanto; era divertido, só isso.

Com esses pensamentos em mente, o jovem foi conduzido pelas garotas até o quarto de Daphne, que estava ansiosa para ouvir as novidades, especialmente a história referente ao misterioso rapaz (que a garota pensou ser algum amigo ou parente próximo de Velma).

Era um quarto bonito e espaçoso, adequado para uma garota da linhagem dos Blake, com rosa por toda parte, bichos de pelúcia na cama, uma varanda pequena e agradável, móveis básicos, como uma escrivaninha e uma mesa para maquiagem com um espelho oval bastante limpo, um macio tapete roxo com bordas rosadas e uma série de itens menores, adequados para uma garota naquela idade (Daphne devia ter a idade de Velma, algo em torno dos 12 ou 13 anos).

Velma contou a extraordinária narrativa de Aethel, que gerou uma interessante conversa entre as garotas (que muito aborreceu o rapaz), culminando, como não poderia deixar de ser, em um popular jogo de “verdade ou desafio”, com a pergunta de Daphne vindo logo no início:

—Verdade ou Desafio?

—Como assim? – perguntou Aethel, que desconhecia o jogo.

—É um jogo, Aethel – disse Velma, gentil – você escolhe um dos dois; se escolher “verdade” então terá de responder uma pergunta, mas se escolher um “desafio”, terá de realizar uma tarefa qualquer que a pessoa mandar. É muito divertido, todo mundo gosta.

—Entendo… se é algo cultural, então respeitarei… devo escolher um dos dois, certo? Então escolho desafio… O que devo fazer agora? Aposto que deseja que eu esfaqueie alguém que está lhe aborrecendo, não é verdade, senhorita Daphne? – disse Aethel, sacando o punhal.

As garotas se assustaram com aquilo e pediram que ele guardasse a arma, explicando que o “desafio” deveria ser algo mais leve e permitido pela lei, diga-se de passagem; como dançar, beijar a garota ao lado ou morder um limão.

O rapaz pareceu tão desapontado com desafios tão fajutos, que optou por “verdade”, ao que Daphne iniciou:

—Ok, talvez seja melhor – riu Daphne – então nos diga, quem é você?

—Segundo Merlin, a “esperança.”

—De onde você veio?

—De longe.

—E quanto tempo ficará?

—O suficiente.

—E o que você faz?

—O que for preciso.

Aethel não desejava ser aquilo que chamamos “estraga prazer”, mas pouco entendia dos jogos e brincadeiras populares, fossem eles modernos ou antigos, então nem se deu conta de que suas respostas não eram divertidas.

Velma interrompeu o questionário, entendendo a inutilidade de respostas tão vagas e sem significado, então disse “ok, acho que é sua vez, Aethel, precisa escolher uma de nós”, então o rapaz escolheu Velma e perguntou “verdade ou desafio”, e Velma escolheu desafio:

—Tudo bem, então te desafio a dançar uma valsa comigo – disse o rapaz, estendo a mão esquerda para Velma.

Daphne ligou seu celular e tocou uma bonita melodia, mas Velma recusou a proposta, até que o rapaz segurou suas mãos e disse “está tudo bem, é apenas uma dança”, sempre olhando nos olhos da garota, “é raro ter a chance de dançar; vai, me ajude”, disse Aethel, com um sorriso de derreter o coração.

Ambos começaram a valsar pelo quarto da herdeira dos Blake, ao som da magnífica valsa n°2, de Shostakovich.

Por um instante, Velma olhou nos olhos de Aethel e o mundo todo pareceu desaparecer, como se nada mais importasse, apenas aquele momento divertido com aquele príncipe de outro mundo.

“Quem é você?”, perguntava ela, “um príncipe? Um rei?”, ao que ele respondia “Aethel; sou apenas Aethel”, e os dois continuavam a dançar.

Segurando na cintura de Velma e guiando a moça, o rapaz parecia se encher de vida naquele momento que, para ele, era como a síntese da arte de viver, sem grandes complexidades ou dores de cabeça.

“Isso sim é divertido” pensou Aethel, já se esquecendo da caverna, do mundo vazio, de Björn e até do Coracor.

Embora um pouco atrapalhada, Velma sentia o coração palpitar rápido, como o fazia durante as feiras de ciência, assim como percebia seu corpo ficar cada vez mais leve.

Ao final da valsa, seus lábios quase se tocavam quando, de súbito, Aethel abriu os olhos, se afastou de Velma e curvou-se, educadamente, dizendo em seguida:

—Aceite minha gratidão… por tão agradável valsa.

Ficou um clima estranho no ar, como se algo tivesse sido quebrado naquele momento mágico, o que deixou Daphne se perguntando o que havia acontecido.

O jogo continuou mais um pouco, então Aethel escolheu verdade e veio a pergunta da senhorita Black:

—Então Aethel, você tem alguém especial?

—Mas é caro, tenho Merlin, Arquimedes, Luna, Dipper…

—Espere um momento – disse Daphne – me expressei mal… quero dizer se você tem alguma garota te esperando, se tem alguma moça que faz seu coração bater rápido, entende?

—O quê? Ah sim, acho que querem saber se estou apaixonado, não é isso?

—Isso mesmo – confirmou Daphne – tem alguém que você ame?

—Hum… não sei dizer… na verdade não entendo dessas coisas, são um mistério para mim. Merlin me explicou que o amor é a força mais poderosa do mundo, mas acho que era apenas uma frase filosófica, ou algo assim. Bem, quando estou com a Mabel eu me divirto, assim como me alegrou dançar com Velma ou ser bem recebido em sua casa.

—Então não está apaixonado? E essa Mabel? – perguntou Velma Dinkley, ainda pensando na valsa.

—Ela é muito divertida, gosto dela, mas não acho que seja amor real, quer dizer, talvez seja, não sei identificar. Não sei o que é o amor, talvez tenha vivido isolado demais do mundo.

As duas garotas se entreolharam, com surpresa e pena, então Velma perguntou:

—Você me disse que Merlin é seu professor, que te ensinou muitas coisas, etc., mas disse que não vai à escola e nunca falou da sua família, então, onde eles estão? Você não tem mais amigos além desses que falou?

—Nunca tive muitos amigos… nem nos tempos de colégio… bem, na verdade nem sei se já estive em um colégio, só acho que sim, pois dizem que os garotos sempre vão para lá. Amigos, colégios, família… faz tanto tempo que já não me lembro muito; ficou para trás, como a Lua de outono.

—Mas esses Dipper, Mabel… – disse Daphne.

—Eu os conheço a poucos dias, ao contrário de Luna, Arquimedes e Merlin, que cuidaram de mim até agora, acho que são minha família, não é?

—Mas, até onde você pode confiar neles? E onde estão seus pais? – perguntou Velma.

—Pais… são severos… não gosto de severidade. Magoa as pessoas.

—Aethel… aconteceu alguma coisa entre você e seus pais? – perguntou Daphne.

—Daphne… essa é uma noite alegre… vamos esquecer essas coisas. – pediu o rapaz.

Na verdade, Aethel não sabia se havia algo de ruim com seus pais, pois não se lembrava, mas como parecia ser um assunto tedioso e um tanto triste, seu pedido para esquecer tudo aquilo.

A herdeira dos Blake se sentiu um pouco mal, entendendo que havia tocado em uma ferida profunda, “até os ‘príncipes encantados’ tem suas angústias”, pensou ela, enquanto pedia ao mordomo biscoitos e chocolate quente, pois imaginou que “um pouco de açúcar" faria bem numa hora como aquela.

Os três comeram, conversaram, compartilharam histórias…

Naquela noite, Aethel fez duas amigas verdadeiras, o que já o tornava mais rico do que a maioria das pessoas.

As horas avançavam e o mordomo subiu ao quarto para pedir que todos fossem dormir (era um senhor gentil; prevendo que a senhorita Dinkley e seu amigo passariam a noite na mansão, preparou quartos aconchegantes para ambos), mas nem precisou…

Depois de cantar alguns salmos, Aethel e suas amigas adormeceram no tapete no quarto. então, temendo acordá-los de sono tão tranquilo, o mordomo fechou a porta da varanda, colocou travesseiros macios debaixo de suas cabeças e cobriu os jovens com um cobertor, pois a noite estava fria; “boa noite senhores”, sussurrou o mordomo, “que Deus lhes conceda lindos sonhos”, em seguida saiu do quarto, deixando a porta de entrada aberta.

Notas finais
Poe: Edgar Allan Poe (1809-1849), autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense. É famosos pelo poema "O Corvo" (1845), obras como "O mistério de Marie Rogêt" (1842), "A Carta Furtada" (1844), dentre outras... Doyle: Arthur Ignatius Conan Doyle (1859-1930) foi um escritor e médico escocês. Embora tenha várias obras de grande qualidade, ficou mundialmente conhecido pela criação do detetive Sherlock Holmes (personagem que, ao longo dos anos, aprendeu a detestar). Barrie: Sir James Matthew Barrie (1860-1937), escritor e dramaturgo britânico, nascido na Escócia. É conhecido pela criação do famosos Peter Pan, personagem que aparece em obras como O Pequeno Pássaro Azul (1902), Peter Pan (1904, uma peça teatral), Peter Pan em Kensington Gardens (1906, cuja maior parte do texto foi tirada de O Pequeno Pássaro Azul) e Peter e Wendy (1911). "Va bene": "Tudo bem", em italiano. Lewis Carroll: Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898), mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll, foi um romancista, contista, fabulista, poeta, desenhista, fotógrafo, matemático e reverendo anglicano britânico. Sua obra mais conhecida é Alice no País das Maravilhas (1869); Velma citou o autor devido ao famoso diálogo entre Alice e o Gato Risonho, contido no livro.