As Crônicas de Aethel: O Livro dos Magos
6 O Encontro de Mabel e a Clareira das Fadas
Não se sabe ao certo onde era aquele lugar, apenas que a noite estava fria e o medo se apoderava de um pobre garotinho, em seus sete ou oito anos, que corria por entre os bosques, aos prantos, como se esperasse a chegada da morte, do fim de seus temores ou seu resgate por alguma alma caridosa.
O céu estrelado era complementado pela Lua cheia, cuja luz passava por entre as folhagens das árvores mais altas da floresta; o silêncio era quase geral, à exceção de algum grilo ou coruja que davam sinais de vida.
Aquela pobre criança, com sua camisa de mangas curtas, calça azul e calçados confortáveis, parou em frente a um grande carvalho, tão antigo quanto aquela floresta, e se sentou, desistindo de sua fuga; correr sem um destino seria inútil.
Em lágrimas, começou a pensar nas coisas terríveis que haviam acontecido naquele dia, de seus medos, raiva, tudo o que as pessoas geralmente pensam em momentos de tristeza e, como já era muito tarde, começou a ficar sonolento.
Talvez tenha sido pela vontade de Deus que aquela luz dourada tão quente e acolhedora tenha se aproximado daquele garotinho desanimado, para salvá-lo da friagem e de suas angústias…
Uma fada para resgatá-lo de suas dores.
O menininho sorriu para a pequena criatura, que lhe sussurrava palavras doces de conforto: ela tinha pouco mais que 12 cm, pele clara, um vestido curto feito de folhas, sapatinhos verdes, cabelos castanhos e olhos verdes, como esmeraldas.
A fadinha se aproximou de seu rosto um pouquinho e pousou no joelho dobrado do garoto, fitando-o um pouco; ficaram em silêncio, o que é algo importante no processo de construção da confiança, especialmente quando se está falando de fadas (que tendem a ser bastante tímidas).
Ela disse “sou Luna”, ele respondeu “sou Aethel”; nada mais precisava ser dito, ele confiou e ela lhe guiou até uma rústica, porém simpática, choupana na floresta, rodeada de árvores antigas, uma clareia limpa e um poço de água que parecia ser muito bem cuidado.
Na árvore ao seu lado, Aethel viu uma coruja com olhares de dúvida para ele, como se não soubesse o que esperar de sua visita (ou invasão) aquele lugar, mas logo o semblante da ave se tornou gentil, talvez por pena do garoto, que ainda apresentava vestígios de suas lágrimas.
O garoto jamais poderia imaginar o que lhe aguardava no interior daquela residência, mas, a partir daquele momento, seu destino foi traçado.
“Seja bem-vindo meu jovem, seja muito bem-vindo”, disse um senhor de barba branca, óculos redondos, vestes azuis e chapéu pontudo e azul, que se apresentou como sendo Merlin, o grande mago das lendas…
Após todas estas lindas recordações, Aethel levantou de sua cama.
Mabel e Dipper ainda dormiam, assim como o restante da Cabana do Mistério, mas não importava; seria melhor fazer a higiene matinal e tomar algum ar fresco antes de qualquer outra coisa, especialmente contato social, além disso, eram 4:00h da manhã!
Em cima de sua cama encontrou uma caixa de presentes azul, com laço azul e uma mensagem de Merlin, que dizia:
“Espero que vocês dois se divirtam no passeio de hoje. Luna escolheu este conjunto para você, então considere usá-lo ou ela ficará desapontada (sei que não está muito acostumado, mas chamará menos a atenção da cidade). – Merlin.”
Lendo o recado, abriu a caixa e seguiu para o banheiro, escovou os dentes, banhou-se e vestiu aquelas roupas tão diferentes de seus trajes tradicionais, como suas amadas botas de couro sintético ou seu gibão verde: os trajes escolhidos por Luna eram um jeans preto, tênis brancos com detalhes em preto, camiseta branca de mangas curtas e uma camisa social preta que, a bem verdade, lhe fazia sentir muito mal trajado.
Não comeu nada, pois desejava fazer suas orações matinais antes de tudo; se Mabel ou qualquer outra pessoa acordasse, haveria muito barulho para orar, ler, meditar ou qualquer outra atividade que exigisse paz e silêncio.
Após estar pronto, subiu até o quarto dos gêmeos e saiu pela janela, pois desejava assistir o nascer do Sol do telhado para, a seguir, iniciar suas reflexões diárias.
Após o espetáculo do Astro Rei, o rapaz seguiu com suas orações e meditações até que ouviu uma péssima música pop vinda da Cabana do Mistério: Mabel havia despertado.
Pensando bem, nem se dera conta do adiantado da hora, mas deveria ser algo em torno de 7 ou 8 horas, provavelmente mais tarde que isso, já que a Cabana do Mistério não tinha o costume de despertar cedo.
Logo, Aethel sentiu o cheiro das panquecas sendo assadas na cozinha e do café sendo preparado; o rapaz não havia comido nada ainda, mas preferia algo mais simples como uma maçã ou o néctar que as fadas tanto adoravam…
Ainda assim, precisava considerar a grosseria que poderia ser de sua parte, caso nem cumprimentasse Soos e o restante daquelas pessoas tão boas que lhe forneceram habitação.
Considerando a etiqueta, entrou pela janela e desceu as escadas, curvando-se em respeito a Stan, Soos, Melody e Mabel, que já tomavam seu café da manhã.
Soos lhe ofereceu panquecas, mas Aethel recusou com educação, enquanto Mabel,já vestida com seu suéter rosa com unicórnio e arco-íris, parecia ansiosa com o encontro dos dois.
Stan se aproximou de Aethel e lhe sussurrou “não deixe ela comer açúcar demais, cara, ou vai te deixar maluco”.
Como estava animada demais para sair com o rapaz, Mabel não pôde aguardar pelo período da tarde, então ambos se despediram e começaram seu “encontro” (encontro para ela, passeio estranho para ele).
Primeiro, seguiram para o “Restaurante Gorduroso”, mas logo Mabel preferiu que saíssem de lá, pois Aethel nocauteou com um golpe certeiro no pescoço um caminhoneiro mal encarado que reclamara do café com Lasy Susan, recusara-se a pagar a conta e, ainda por cima, havia ameaçado a pobre garçonete com um canivete.
Para Aethel, uma má conduta era tão abominável quanto o crime para um policial, especialmente se o comportamento reprovável fosse dirigido a uma garota, fosse ela criança ou adulta.
Embora Mabel e Aethel não houvessem consumido nada no restaurante, o rapaz deu a Lasy Susan um florim como desculpas pelo incômodo e mais outro como pagamento do que o caminhoneiro havia consumido.
Mabel achava que ele era algum tipo de príncipe disfarçado, mas ele insistia que era apenas “Aethel”, nada mais.
Depois, seguiram para o shopping, onde Mabel se divertiu a valer no salão de jogos, enquanto Aethel apenas parecia deslocado naquele ambiente cheio de pessoas, barulhento e tão animado.
Mabel estava determinada a fazer aquele encontro dar certo, então insistiu para que seu “futuro namorado” (era assim que ela via o pobre rapaz) jogasse algum jogo no fliperama junto com ela, o que foi aceito.
Era um jogo de luta chamado"Fight Fighters", que possuía uma mecânica simples, embora Mabel não parecesse muito animada, até ganhar as quatro lutas que travaram no fliperama.
Como dito, a mecânica não era complexa e Mabel não era uma profissional, mas Aethel sentiu que seu dever era fazer com que a garota se divertisse naquele dia, então entregou cada uma das partidas de propósito…
E Mabel sabia disto, mas não se importou; se ele estava fazendo aquilo era porque se importava com ela, então, para agradecer a esta gentileza velada, a garota levou Aethel até uma livraria do shopping, o que pareceu agradar o rapaz.
Na livraria, o jovem olhou a sua volta e conversou com um funcionário acerca de alguma edição recente de O Pequeno Príncipe, de Exupéry, o que surpreendeu muito Mabel:
—Você se interessa por esse tipo de livro?
—Perdão? – indagou Aethel.
—Quero dizer, você não parece ter a cara de alguém que liga para esse tipo de leitura.
—Bem, meus gostos literários são diversos: leio biografias, história, filosofia, contos de fadas e até livros de receitas… Merlin me ensinou a ter um forte interesse pela palavra escrita.
Enquanto conversavam, o funcionário trouxe uma cópia recente do livro pedido, mas Aethel pediu duas cópias e, no fim, pagou com seus tradicionais florins de ouro.
Mabel ficava sem palavras com a tranquilidade com a qual o rapaz distribuía ouro por ai, mas outra coisa a chocava ainda mais, motivando a garota a falar:
—Sei que essas moedas são valiosas, mas como as lojas aceitam com tanta facilidade? Como ninguém reclama?! Qual o problema com os dólares americanos? Heim?!
—Isso acontece porque, embora eles falem o “dialeto” de seus preciosos dólares, a linguagem do ouro é mais forte… um pouco lamentável, mas quem possui o ouro dita as regras.
—Mas isso é tão… errado, cara!
—Vamos sair daqui, senhorita Mabel, por favor. Há um lugar que desejo lhe mostrar.
Depois de presentear Mabel com o livro de Exupéry, ambos saíram do shopping e Aethel seguiu até o cemitério da cidade (ele realmente não entendia muito sobre encontros) e sentou-se em um morro, junto a Mabel.
Ela olhava o semblante tranquilo dele, sem cansaço, ressentimentos ou culpas passadas, apenas uma paz total; como ela poderia conquistar aquele garoto? Ele parecia um príncipe encantado, por outro lado, ela vivia com salgadinhos no cabelo!
Vendo que algo afligia a garota, Aethel pegou uma flor vermelha que estava ao seu lado e lhe ofereceu:
—Este lugar é associado à morte, mas também está rodeado de vida; algumas pessoas costumam refletir sobre ela quando vem a lugares como esse… isso é bom, assim reconhecem que a vida é o maior dom de todos e param de desperdiçá-la com conflitos, ódio e ignorância.
—Acho que isso foi legal… mas qual sua cor favorita? – perguntou Mabel.
—Me desculpe… o quê? – indagou Aethel.
Mabel apenas queria guiar a conversa para algum assunto mais “normal”, pois jamais conseguiria acompanhar esse “papo cabeça”, (quem gostava de coisas assim eram Ford e Dipper) mas a garota era persistente! Sim, ela poderia contornar a timidez e jeito antissocial daquele garoto!
Aethel percebeu que não estava animando muito a garota com seus assuntos, mas estava se esforçando, apenas não era bom em falar com as pessoas.
Falar com alguém convalescente no hospital, como Dipper, não era igual a conversar com uma pessoa sadia e extrovertida como Mabel, então Aethel sentia que estava tornando o encontro tedioso para ela.
Ele pensou por um instante em algo que pudesse interessar a garotas, olhou ao redor, viu a manga de sua camisa um pouco empoeirada e limpou-a com alguns tapinhas…
Claro! Suas roupas foram escolhidas por uma fada! Qual menina na Terra não gosta de fadas?!
Com isso em mente, começou a falar:
—Espero que minha roupa escura em um cemitério não esteja te deixando incomodada, minha fada escolheu tudo e eu não queria magoá-la vestindo algo diferente.
—Você disse fada? Como ela é? É igual as de Gravity Falls?
—Não, as daqui vomitam… ou não são muito interessantes. Luna é diferente.
—Como ela é? Deve ser bonita.
—Ela é muito bonita, minha melhor amiga no mundo inteiro. Ela me levou até Merlin e Arquimedes, devo tudo a ela.
—Onde ela está agora?
—Talvez no refúgio das fadas, ela é uma fada bastante ocupada.
—Refúgio das fadas? Ai meu Deus! Deve ser um lugar lindo.
Aethel começou a relaxar com a presença de Mabel; a garota fora fisgada e agora teriam o quê conversar pelos próximos minutos.
Ele sugeriu que os dois fossem procurar fadas no bosque, naquela área especial cheia de flores, pois o ambiente era agradável o suficiente para que Luna ou qualquer outra criaturinha mágica alada pudesse se aproximar.
Mabel seguiu o rapaz enquanto o abraçava carinhosamente, pois agora achava que os dois começavam a se entender.
Na verdade, Aethel começava a ver algo especial em Mabel; seus cabelos, embora com vestígios de purpurina, até que eram bonitos, seu nariz era engraçadinho e seu sorriso sempre mostrava alegria…
E que grande alegria! A garota parecia ser um raio de Sol em forma humana, sempre irradiando energia positiva por onde passava, fazendo todos se sentirem confortáveis e seguros.
Alguém tão especial quanto Mabel merecia algo mais que um passeio tedioso no shopping ou algum discurso formal que não poderia entender; neste momento, Aethel percebeu que aquela jovem de olhos brilhantes não era tão diferente assim dele.
Sim, por trás daquele brilho alegre se escondia uma pessoa que enfrentou tristezas e decepções, mas que decidiu alegrar o dia de todos; aquele discípulo de Merlin conhecia esse sentimento, pois lhe era inconfundível.
Aethel sorriu para Mabel e correspondeu o abraço da garota; a sintonia entre os dois já estava se formando.
Chegando ao campo florido, os dois começaram a olhar as flores ao redor, admirando sua beleza e variedade de cores, perfumes adocicados, borboletas e o canto dos pássaros.
De repente, os dois se viram no centro de um redemoinho de pétalas de flores que, somado a luz radiante do Sol, fez os jovens cobrirem os olhos com os braços…
Mas não tinham medo.
E porquê deveriam ter? Haveria algum sentimento que justificasse o temor daquela maravilha desconhecida? Talvez resquícios de um Bill Cipher decadente, ou traços de alguma memória distante preservada naquele jardim de maravilhas jubilosas…
A resposta para aquele mistério estava nas mãos de Deus, mas Aethel e Mabel deliciavam-se naquele turbilhão multi colorido e perfumado, como se fossem testemunhas de algum milagre dos céus ou, talvez, estivessem testemunhando visões do passado adâmico, do Éden; perdido para sempre pela ignorância, mas preservado na memória das crianças, como não poderia deixar de ser, pois este é o caminho normal das fantasias de infância, sejam elas do homem ou de sua herança primitiva no jardim das delícias sublimes.
Aethel perguntou se Mabel queria continuar a adentrar aquele desconhecido com ele, ao que ela respondeu:
—O quê… vamos encontrar?
—Mabel… não faço ideia… mas quero continuar… continuar junto com você.
—Estou com medo… mas também estou feliz… “MeLiz”... faz sentido?
—Não sei… não entendo muito o que você fala… não precisa fazer sentido… não sente no seu coração aquele bater forte, como um tambor?
—Sinto… é igual ao dia em que eu completei 13 anos! Não, na verdade é diferente.
—Mabel… você confia em mim?
—O quê? Como assim?
—Confia em mim?
Mabel olhou para o alto, onde o turbilhão colorido se elevava, como se desejasse chegar às nuvens, então Aethel a abraçou com carinho e cuidado, como os príncipes fazem quando despertam suas princesas de seus sonhos encantados. Eles sempre o fazem com um beijo de amor verdadeiro, é assim que a história sempre acontece.
Será verdade mesmo? Qual a origem disso tudo? Quem recebeu o primeiro beijo de amor verdadeiro e compartilhou o fato?
E importa? Basta saber que essa bela princesa de uma Era esquecida viveu feliz para sempre; não existem finais mais perfeitos do que esses.
Talvez tenham sido reflexões parecidas que levaram Mabel a beijar o rosto de Aethel e dizer as palavras mais maravilhosas que alguém poderia pensar naquele momento idílico:
—Aethel… eu confio.
A confiança nos conduz para lugares desconhecidos, mas nem todos são dignos de partilhá-la.
As gerações futuras têm uma dívida com Aethel, pois ele foi digno da confiança de Mabel. Também deve-se lembrar até o fim dos tempos a coragem dessa garota, por confiar em alguém que, de todas as formas, não parecia ser deste mundo; um filho da honestidade, um Galahad sem espada para se proteger, apenas livros e sua sinceridade.
Mabel estava feliz e seus olhos começaram a chorar…
O turbilhão os cobriu por inteiro, mas os dois não sentiam medo ou dor, apenas um amor ágape por tudo que havia de bom e belo no mundo, um perfeito amor pela humanidade, natureza, família, amigos, tudo! Talvez até um pelo outro.
De repente, o turbilhão de flores parou e os dois jovens se viram em meio a um lugar distinto daquela clareira florida da floresta de Gravity Falls.
Aethel sorriu para Mabel e disse:
—Mabel… estamos em Eden-Ghalary: este é meu lar. Tudo o que vê, desde as montanhas com os cumes nevados, até as florestas densas e misteriosas, o grande rio, as ruínas e o grande palácio imperial, tudo é parte de Eden-Ghalary.
—Onde ficam essas coisas? nos Estados Unidos?
—Tente um outro mundo, talvez um “mundo além do mundo”, algo que nem eu próprio consigo entender, mas basta saber que ambos os mundos, seu e meu, estão conectados como as partes de uma lâmpada; tire algo e a lâmpada apresentará problemas, seja o vidro, o filamento, a base que se conecta a rede elétrica…
—Acho que estou começando a entender… o que acontece aqui pode… quer dizer… afetar Gravity Falls?
—Mabel… o que acontece aqui afeta o seu mundo inteiro.
Mabel pretendia perguntas muitas coisas, mas Aethel queria que ela aproveitasse aquela experiência mágica, então levou a moça até o interior do bosque, onde chegaram em uma clareira rodeada de românticas colunas romanas, arbustos com flores e árvores antigas que emitiam luzes douradas muito bonitas: fadas se divertiam por entre os galhos, folhagens, frutos e até arbustos!
Neste momento, uma fadinha voou em direção a Aethel e pousou na palma de sua mão, começando a emitir sons de sinos, tão doces e agradáveis, que fizeram Mabel se lembrar do Natal, que em breve chegaria.
A garota percebeu que seu companheiro estava conversando com a fadinha, mas o que mais surpreendeu a jovem foi a aparência daquela pequena dama alada: tinha em torno de 12 cm talvez um pouquinho mais do que isso, pele clara e rosada, um vestidinho curto feito de folhas (e muito bem feito, diga-se de passagem), sapatinhos verdes, cabelos longos, castanhos e muito bonitos, olhos verdes e um brilho dourado que a fazia parecer algum tipo de luz forte de palco, ou a lanterna de algum vigia noturno.
Suas asas pareciam com as de uma borboleta, não eram coloridas, mas finas e quase transparentes, como se feitas de cristal.
A fadinha estava rodeada de algum tipo de pó dourado que brilhava como ouro, “é assim que elas voam” lhe disse Aethel, “pensamentos belos e pó mágico: com essas duas coisas você flutua no ar”, explicou o rapaz.
Aethel apresentou a fadinha como sendo sua amiga Luna, depois explicou que os “sininhos” que Mabel ouvia eram, na verdade, a “fala” das fadas.
Para o rapaz, o dialeto humano comum e a língua das fadas eram parecidos…
Mas apenas porque Merlin lhe havia ensinado a escutar da forma certa, como Hook, Pan ou as próprias fadas escutavam.
Aethel pediu que as fadinhas se reunissem na clareira e tocassem alguma coisa bela, em seguida, convidou Mabel Pines para dançar uma valsa.
Mabel era meio desengonçada, mas logo pegou o ritmo, já que Aethel era um excelente guia.
A garota ouvia a doce música das fadas, belos sons de flautas, pequenos tambores, violinos feitos de madeira de carvalho antigo e alguns outros instrumentos que não pôde identificar; ela sentia como se estivesse dançando nas nuvens.
Tudo era tão encantador, ela e seu companheiro de dança juntos, que já nem percebia o tempo passar, pois era o agora que mais importava.
Talvez Dipper não fosse ficar tão feliz com sua irmã em um mundo encantado, dançando uma valsa com um príncipe misterioso (embora, deva-se recapitular, Aethel negava ser filho de um rei), mas Mabel não se importava; era uma coisa do coração, só isso.
Aquele não era o refúgio das fadas, nem poderia ser, parecia ser apenas um daqueles locais especiais para passar o tempo (quase todas as pessoas tem um lugarzinho especial como aquele), algo que Aethel confirmou:
—O refúgio é um pouco longe daqui, mas este lugar é um ótimo acampamento de primavera. As fadas adoram ficar aqui.
A dança durou por alguns minutos, até que ambos fizeram uma pausa, já que Mabel parecia cansada.
Ela não conseguia entender como aquele rapaz, outrora tímido e solitário, conversava com as fadas sem grandes dificuldades; elas gostavam dele e pareciam lhe contar os mais variados fatos, engraçados ou apenas curiosos, impossível dizer, já que Mabel não falava a língua das fadas.
Aethel percebeu que a garota estava se sentindo deixada de lado, então apresentou cada uma das fadinhas (fazendo a tradução de seus nomes, claro, já que os sons de sinos eram indecifráveis para a irmã de Dipper Pines).
O rapaz disse que as fadas fariam uma apresentação teatral em poucos instantes:
—Elas vão contar uma das crônicas ghalaryanas, gostaria de assistir comigo?
—Se eu quero?! O tivô Stan gosta de Pizza?! O Dipper gosta de nerdices?!
—Então… quer dizer que você aceita… certo?
—Aceito sim, claro, com certeza. – respondeu Mabel.
As fadas se reuniram em uma clareira próxima, onde havia um palco previamente montado que tinha quase a metade da altura de Mabel, além de dezenas de fadas sentadas de frente ao palco, de forma a formar um “C”, como se pode ver em várias ruínas de anfiteatros gregos.
Usando o pó mágico, uma fadinha narradora começou a contar a história, enquanto o pó encantado formava uma série de figuras que ilustravam a narrativa.
Aethel e Mabel se sentaram atrás das fadinhas, ficando ele a direita da garota, então começou a sussurrar a tradução daquilo que a fada estava contando no palco:
—”Falem da noite, do dia, do mago, do rei, o temível Vortigern; grande infortúnio ao bretão se abateu.”
No palco, viram-se figuras douradas, feitas do pó das fadas: eram um mago de óculos, um rei com barba curta e uma espada, algumas casinhas de aldeões e, de repente, tudo se dissipou.
A narrativa prosseguiu:
—Vortigern governava a antiga Britânia, enquanto seus soldados malvados espoliavam os mais pobres e o conhecimento se afastava das casas, porém, o grande mago, guardião do saber, reuniu três amigos para o mal combater.
No palco, Mabel viu um jovem mago com uma coruja no ombro, tendo a sua direita um rapaz com um corvo no ombro e, à sua esquerda, uma moça com uma raposa aos pés (Aethel explicou que eram três magos que se uniram para trazer paz àquela terra assolada pela doença, fome e violência), tudo parecia fascinante demais! E a narrativa continuou:
—Um era pacífico e cultivava o saber; uma era mesquinha e desejava o poder; um era sombrio e nada tinha a perder; os três unidos derrotaram o rei e a paz renasceu.
Houve uma pausa dramática, então o conto continuou:
—O grande mago desejava trazer conhecimento aos humildes, mas sua amiga, Min, desejava mais poder, então abandonou o trio. O próximo a abandonar o grande mago foi seu irmão de batalhas, Gael, por não acreditar no sonho do amigo em mudar o mundo pelos livros.
As três figuras de pó mágico no palco se aproximaram da plateia (os dois magos e a bruxa da história) e a imagem da bruxinha desapareceu, em seguida, os dois magos ficaram um de frente para o outro, quando a narrativa prosseguiu:
—Gael desejava o controle da Britânia, então combateu seu antigo amigo, Merlin, mas sua mágica não conseguia superar a dele, o que forçou o feiticeiro ambicioso a recuar.
O palco se encheu de explosões mágicas, para ilustrar a batalha dos magos, houve mais uma pausa dramática e, finalmente, veio o discurso final:
—Gael recuou e se escondeu nas florestas da Britânia, mas Eden-Ghalary ainda sente sua presença. Lembrem-se todos que não há rei no grande trono dourado para fazer o que é justo e clemente; Gael ainda vive e buscará o poder maior, para derrotar Merlin, tomar o grande trono e impor sua vontade a todos. Cuidado com a floresta escura, com o círculo de pedras escondido; não há reis em Eden-Ghalary, mas há um mago temeroso e um futuro arrasador.
Assim a narrativa acabou, mas as fadinhas já começavam a limpar o palco para mais um conto.
Infelizmente já começava a ficar tarde, então Aethel levou Mabel até o lugar onde primeiro haviam chegado, ambos sendo acompanhados por Luna, que desejava seguir viagem com seu amigo.
O rapaz pensou um pouco nas opções que tinham para retornar para Gravity Falls, mas nem sabia como ou porquê haviam sido trazidos até Eden-Ghalary! Como poderiam voltar se nem sabiam como haviam chegado?! Neste momento, uma voz pareceu sussurrar nos ouvidos de Aethel palavras como “fechem os olhos, a viagem é rápida.”
Mabel e Luna também estavam ouvindo a instrução, então deram as mãos e fecharam os olhos…
Quando os abriram, se viram novamente naquela clareira na floresta de Gravity Falls, onde Dipper e Mabel foram atacados no passado e onde Aethel e a garota foram transportados para aquele mundo encantado de Eden-Ghalary.
Tudo parecia quieto, como se nenhuma alma viva houvesse pisado ali tão cedo, o que fez Aethel sentir certa aflição, mas como não desejava preocupar Mabel a toa, preferiu colocar o braço esquerdo em torno de seus ombros:
—Vamos voltar à Cabana do Mistério, todos já devem estar preocupados conosco, está começando a entardecer. – disse Aethel.
—Você tem razão, Dipper deve estar preocupado; “gêmeos do mistério” cuidam um do outro. – respondeu Mabel.
Luna concordou balançando a cabeça, então os três se preparam para voltar.
Infelizmente, o estranho pressentimento de Aethel não foi apenas preocupação em excesso; algo estava à espreita, uma figura se ocultava em meio aos arbustos e tinha os três em observação: era Björn, o elfo sombrío, que mirava uma flecha envenenada no coração de Aethel…
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