As Crônicas fantasmagóricas

Dezembro nunca foi tão gelado na pequena cidade de St. Petersburg.

As árvores pálidas sem ao menos expressarem um pingo de vida, o vento cortante que assobiava nos ouvidos das pessoas corajosas demais para saírem de suas casas naquela atmosfera densa e assombrada. Não era normal um lugar que já fora tão feliz, E de tanta alegria estar totalmente conturbado por uma estranha e mortífera adrenalina de medo e pânico. Mas tudo aquilo tinha uma explicação, no dia Quinze de Dezembro a cidade presenciou um dos mais fantásticos acontecimentos de todos os tempos. Uma neblina que mais se parecia com cimento cobriu a cidade, e jorrando luzes sobrenaturais dentro de si, assustou e aterrorizou aqueles que despercebidos estavam no meio dela.

Uma dessas pessoas desavisadas e pegas de surpresa era Charlie. Ele passou pelos seus piores momentos naquela noite.

Charlie voltava pra casa como uma grande parte da população de St. Petersburg, quase chegando em sua casa, já virando a esquina da rua Frederic Manson, homenagem a um dos colonizadores mais imponentes da cidade, Charlie foi surpreendido pelo vento mais cortante que já presenciou em sua vida, seguido da tão amedrontadora neblina. E em poucos segundos se viu preso e sem rumo naquele emaranhado sufocante, angustiado e sem direção ele vagou procurando uma saída daquela grande emboscada do destino. Enrolado nas mãos do medo e sem saber o que estava acontecendo, ele foi mais uma vez surpreendido por luzes verdes vindas do meio da neblina e pairando sobre sua cabeça, e ele podia jurar que vozes chamavam seu nome, podia até jurar que algo segurara seu braço.

Já quase ficando sem ar e paralisado de medo, ele conseguiu ver a 2m em sua frente um semblante quase pacifico, era um menino, uma criança. E então pensou consigo: “ o que uma criança esta fazendo nesse lugar, meu deus”. Charlie não sabia que quem estava no lugar e hora errada era ele, e que aquele menino era um aviso mais que incomum. Charlie tentou se aproximar, mas a cada passo o menino se distanciava mais, vozes vindas de todos os cantos diziam para ele se afastar, para ele correr para outra direção, mas ele não podia confiar naquilo que não podia ver, estava talvez desorientado demais para seguir conselhos. E já quase correndo atrás do pobre menino, ele foi obrigado a parar de sobresalto. Não havia mais apenas um menino, mas sim uma família inteira.

Suas faces imploravam misericórdia, seus rostos estavam quase que desfigurados e jaziam em um borrão de expressões, todos eram de uma obscuridade que contrastava com suas peles pálidas como a mais branca neve, o ar carregava piedade e desespero vindo daquela pobre família. O homem estava com uma farda de militar, e podia se ler com dificuldade o sobrenome em seu peito, pelo que parecia o sobrenome daquela família era Crowley, ao lado desse homem uma mulher de portes não muito convencionais se encontrava com a roupa mais brilhante que os olhos de Charlie já puderam ver exceto pela mancha de sangue no lado esquerdo de seu peito, o pequeno garoto que o levara até lá estava com uma boina e roupas joviais, e só agora ele havia percebido que seu pescoço estava marcado com fortes hematomas, o mesmo ele conseguiu ver da menina, seu pescoço estava marcado e sua expressão era de surpresa e enorme melancolia.

Quando Charlie resolveu se aproximar deixando o medo de lado e sendo levado pela curiosidade, a imagem obscura da mulher o repreendeu com um gesto feito pela sua mão, imediatamente Charlie parou, o pequeno menino saiu de onde estava ao lado de sua mãe e foi até ele, segurou sua mão e o empurrou para baixo, fazendo com que assim Charlie se ajoelhasse no chão, então o pobre menino se dirigiu até a orelha dele e disse:

–Ache os corpos, o tempo esta acabando, casa na estrada encoberta pelas sombras, ache os.

Ao dizer isso o menino se afastou, e junto com ele a neblina foi se dissipando, e as ruas começavam a serem as mesmas ruas, mas Charlie não estava mais onde se lembrava, ele não estava mais perto de sua casa, ao contrario, ele se encontrava distante. Estava em frente a entrada do cemitério da cidade que parecia mais mórbido naquela noite e a sua frente enrolado numa rosa que vibrava seu tom vermelho, estava um papel. No bilhete dizia com letras que não eram comuns:

“No solstício de inverno elas voltaram

Mais fortes que as águas elas destruíram

Se a morte daqueles inocentes não forem julgadas

O caos se espalhara por toda a cidade

E não só um fantasma do bem aparecera

Mas sim os maldosos os perturbaram

E em suas camas eles te acharam

Então corra até o ultimo suspiro

E salve o “pingo de sorte que se acumula em sua mão.”

Ao terminar de ler, seu dedo foi cortado por um espinho do talo da bela rosa, e uma gota de sangue caiu em cima do bilhete, mostrando uma marca que não era familiar no canto do papel, era uma caveira de boca aberta que abocanhava uma estrela negra. Charlie estava assustado com tudo que tinha acontecido e correndo pra sua casa ele voltou. Mal ele sabia que a partir daquele momento, nenhuma parede iria protegê-lo ou mantê-lo longe de seu destino como vidente de fantasmas.