As Crônicas Aladas - Principatus
18 Capítulo Dezessete.
Notas iniciais
Olho para cima, buscando o autor da voz. Não que eu já não saiba quem é, mas preciso de uma confirmação concreta de que a minha mente está completamente correta. E ela está.
Kyle está sem camiseta e soado, com ambas as asas à mostra. Algumas penas balançam com a brisa quente do local. Ele me pega, tirando-me do chão como se eu fosse uma boneca, como se meu peso fosse algo totalmente inútil para ele, que somente com um dedinho ele pudesse me sustentar.
— Eu não te treinei para que você fique caída aqui, Emilly. — A sua voz continua a mesma: ele mantém a calma até nos horários mais estranhos e corridos da vida.
Tento reunir o máximo de força possível para responder, porém as palavras insistem em fugir, não somente da minha boca, mas também da minha mente. Todo o esforço que estou fazendo está sendo desnecessário. Minhas pálpebras estão pesando mais do que um elefante, preciso de um grande esforço para mantê-las abertas agora.
Para quê? Ficar me esforçando só fará com que eu gaste mais energia, atoa. Paro de me esforçar. Minhas pálpebras fundem-se uma com a outra e tudo o que vejo agora é escuridão. Por pouco, paro de sentir o balançar e o calor humano de Kyle.
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Emilly está em minha frente, portando vestes brancas. Olho para baixo e vejo que eu me encontro na mesma situação que ela. Um belo vestido branco que vai até um pouco depois dos joelhos. Há uma parede cinza e velha atrás dela. Posso ver que é velha pelas manchas negras em algumas partes.
— Não morremos, no final. — Diz ela, tão aliviado quanto eu. Imaginava que já estava no céu.
—Que bom... Ou não... — Algumas coisas ainda estão confusas em minha mente, mas tudo não passa de uma questão de tempo.
— Vou ir logo ao assunto, enfim... — O tom de sua voz me passa uma seriedade sobre o assunto. Começo a tentar arrumar a minha postura, como se estivesse falando com alguma autoridade. — O que você vê atrás de mim, é a famosa Barreira que bloqueia os seus poderes, Emilly.
Olho novamente para o objeto, mas agora com um ódio. Isso é o que tem me atrapalhado desde o início.
—Do outro lado, estão todos os poderes que eu posso usar. — O seu dedão aponta para o próprio seio. — Há uma parte rachada e, por ela, partes do meu poder vazam para cá. Como você pode ver, o solo abaixo de você parece úmido.
Olho para os meus pés descalços. E, realmente, o chão está úmido. Não tinha nem percebido que estava sobre terra molhada.
—A umidade representa que um pouco de poder passou por aqui. — Explica. — Isso significa que, sempre que a sua parte de poder acabar, você puxará um pouco da minha, fazendo com que a rachadura se prolongue por toda a extensão da parede, e logo tudo isso resultará no seu fim. Para você pode parecer uma boa coisa, mas não é.
—Não é? — Não entendo muito bem suas palavras, são muitas informações sendo jogadas e empurradas, goela abaixo, de uma só vez. — Por que não seria?
—Assim que a barreira quebrar significa que eu irei me fundir a você. Mesmo sendo amigas, ou até mesmo a mesma pessoa, eu não irei ser uma garota tão quieta assim. Irei lutar por minha existência. E você também irá lutar. Todo ser luta!
Engulo em seco. Emilly está dizendo que assim que a barreira quebrar irá ter uma batalha entre ela e eu. Certamente, quem está na vantagem não sou eu. E não há outra saída. Parar de treinar agora não está em pauta e, tentar enganá-la só acelera a minha morte.
—Eu entendo Emilly. — Digo então, olhando dos meus pés até que fico olho a olho.
Ela sorri.
—Você amadureceu.
Sorrio de volta.
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Abro os olhos e tento levantar meu corpo. Não estou mais onde Kyle me encontrou, porém também não me encontro em casa.
Olho em volta e vejo que o quarto onde me encontro é composto por uma cama, um guarda-roupas, uma escrivaninha e uma prateleira repleta de livros, todos os móveis da cor preta. Aperto com as mãos o edredom que está sobre mim. Ele é simples, da cor azul. E é quente também. Levanto-me e vou até a porta. É quando percebo que não visto uma roupa minha. Somente uma camiseta enorme e preta, com a imagem de uma cruz desenhada em branco.
Ergo a camiseta para ver se visto algo embaixo, mas tudo o que encontro é a minha calcinha. Abaixo rapidamente e coro. A vestimenta certamente é do Kyle. Vou até o guarda-roupa e abro-o. Todas as roupas seguem o estilo dele.
Dou três passos para trás. Ele não pode ter me trocado... Ele não faria...
A porta se abre e o moreno entra.
—Vejo que você já melhorou! — Ele sorri inocentemente.
Coro mais ainda.
—O que foi? Você está vermelha. — Ele se aproxima um pouco, deixando a porta aberta. — Você está com febre?
Uma de suas mãos é posta em minha testa e a outra vai para a dele. Não digo nada.
—A temperatura não parece estar tão elevada assim...
—Você viu? — pergunto, fazendo com que as suas sobrancelhas negras e grossas se arqueiem. —Não se faça de bobo, Kyle. Eu estou perguntando se você viu a...
—Ah... Não! — Ele cora também, recuando alguns passos. — Eu não vi a sua...
—Impossível! — Grito, ou quase, já que a minha voz falha. — É impossível que você não tenha visto!
—Se acalme! — Ele agora está na parede, com o rosto vermelho e com uma mão ele afasta as gotículas que surgem em sua testa. — Emi, não fui eu quem te trocou. Eu não seria tão safado assim.
Tento me concentrar em sua mente. Talvez ele esteja com a guarda fraca agora que está morrendo de vergonha.
Não obtenho resultados, mas a sua expressão muda. Ele parece ter percebido o que eu estava tentando fazer. Após passar algum segundo me encarando seriamente, sua guarda mental é totalmente desfeita.
Ela nunca entenderá que eu não seria tão safado a esse ponto... Terei que pedir ajuda para Maggie, já que ela sim trocou você, Emi. É isso o que eu consigo ouvir, na voz de Kyle. Mas sua boca está totalmente fechada e seca... Essa é a sensação de ouvir um pensamento! É estranho, porém acho que posso me acostumar. Só que ele pode estar tramando contra mim, já que baixou a sua guarda, ele deve ter manipulado o pensamento.
—Então a chame. — Falo, agora tentando esconder a parte nua da minha perna.
Kyle grita o nome dela e, em segundos, ela está no quarto.
—Explique para ela quem foi que a trocou. — Kyle fala sem mais nem menos. Como se não desse importância para o diálogo.
—Ah, Emilly. Quem te trocou fui eu mesma! — Fala ela, rindo. Posso não estar vendo bem, mas ela aparenta estar mais magra e com o cabelo bem mais curto.
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Maggie e Kyle me explicam tudo: eu dormi apenas por algumas horas, por isso meu irmão não apareceu me procurando, ainda. Após a minha queda, Kyle me levou para fora do Plano Ethereo, e me afastou do local em chamas, Loran continuou lutando, tentando destruir o demônio e acalmar Maggie. Clare foi levada para fora também, mas bem depois do que eu. Ela está na casa de Maggie agora, pois respirou muita fumaça e precisa de cuidados especiais — aqueles que os médicos não podem dar a um ser que não está totalmente ligado com essa realidade da maioria. Kyle me disse que o que aconteceu com Maggie foi uma sobrecarga. Os meus poderes preencheram-na com energia Angelical e isso a sobrecarregou. Por isso ela entrou naquele estado monstruoso, ela ainda estava consciente, mas não conseguia se controlar. Após toda a energia acabar, ela caiu próximo às chamas, e um pouco do seu cabelo foi queimado, mas por sorte Loran a salvou antes de tudo estar num estado pior. Por isso o seu cabelo está curto: eles cortaram a parte que foi queimada. Kyle e Loran conversaram por um tempo e decidiram que está na hora de dar uma pequena pausa no meu treino, para que todos possam se recuperar.
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Passo a esponja pela minha perna mais uma vez, mas agora a intensão é retirar o sabão. Após conseguir, deixo que a água caia e escorregue sobre o meu corpo. Fecho o chuveiro e pego a toalha.
Após me enxugar, vou até o meu quarto e tento fazer todas as minhas lições do colégio.
É estranho e totalmente confortador saber que irei parar com os treinos. Vou finalmente poder me deitar e ter uma boa noite de sono, não que antes estivesse sendo ruim, mas creio que preciso disso.
Acabo pegando no sono antes mesmo de terminar metade das lições que tenho.
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Toda a escola está impressionada com o novo corte de cabelo de Maggie. Os garotos olham impressionados, as garotas olhem e comentam o quão invejadas estão. O seu cabelo está bem curto: não chega nem no pescoço. Há uma franja que tampa a sua testa e, mesmo assim, ela continua linda como sempre. Sua vestimenta florida combina totalmente com o seu novo cabelo. Parece até outra pessoa.
—Eu estou pensando em mudar a cor do cabelo! — Diz ela ao sentar do meu lado.
—Eu não acho que você deva fazer isso.
—Faça, vai ficar bem bonita. — Diz Jace.
—Obrigada, Jace. Pelo menos alguém aqui sabe ser legal com as pessoas. — Ela me fuzila com o olhar. Sou obrigada a rir.
— Jace, pare de mentir. Todos nós sabemos que mentir é feio.
—Vou ficar ruiva. Vocês vão gostar!
Continuamos conversando normalmente até ter um movimento estranho na sala. Todos nós paramos a conversa e olhamos para o local. É Kyle. Não sei por que, mas ele já virou um estranho para todos da sala. Ele está normal, camiseta preta e calça jeans preta, usando um all star da mesma cor.
O silêncio devorou toda a sala. Ele para no meio do caminho e olha em volta, estranhando o clima de tensão. Torço para que ele me veja, e para que venha me cumprimentar e dizer que está tudo bem, para que todos vejam que ele só teve que se ausentar, mas continua sendo a mesma pessoa. Nada disso!
As esferas negras em seu rosto acham as minhas, mas nenhuma reação é expressa. Ele simplesmente anda e senta até o seu lugar, quieto. Tendo toda atenção da plateia.
Não demora muito para que as pessoas voltem a esquecê-lo e continuem com o que estavam fazendo.
—Isso foi bem estranho. — Diz Jace, quebrando o silêncio entre nós três.
—Por que ele não veio para cá? — Pergunto.
Maggie se incomoda, mas não fala uma palavra sobre.
—Ele deve estar pensando em algo, Emilly. — Supõe Jace.
—Emi, ele deve estar esperando que você vá até lá e fale com ele. — Maggie finalmente solta. Mas tenho a impressão de que não é isso o que ela queria falar. — Vocês podem fazer isso agora, ou no intervalo. Eu e Jace vamos respeitar.
—Quanto mais cedo, melhor. — Me levanto e vou até a carteira em sua frente. Sento-me na cadeira, com o corpo virado para trás, de frente para ele. —Olá!
Ele ri.
—Oi.
—Está tudo bem com você?
—Sim.
—Não parece.
Não tenho uma resposta. O que ele pensa que está fazendo?
—Olha, Kyle, eu não quero chamar muito a atenção dos outros para nós dois aqui, mas você precisa me dizer o motivo de estar se afastando.
Encontro os seus olhos. E os dele se encontram com os meus. Sinto uma onda de arrepio passear por todo o meu corpo.
Sua boca começa a se mover, está quase para abrir, mas tudo é estragado — ou interrompido— por Loran, que me abraça, jogando-me no chão.
—Oh, Emilly, como senti sua falta! — Diz ele, corado e esfregando-se em mim como um gato carente.
—Também senti a sua falta, Loran! — digo tentando afastar-me de suas carícias. Levanto-me, finalmente, e bato as minhas roupas para tirar alguma possível contaminação que estivesse no chão.
Arrumo o meu cabelo que, certamente, está desarrumado depois da grande queda. Loran não engordou, mas está mais pesado.
—Você ainda conversa com esse brutamonte estranho, Emilly? — Ele me pergunta, olhando para Kyle.
—Eu sempre falei com ele, Loran! — Sorrio. É como se tudo estivesse no zero.
—Você precisa refinar essas suas companhias, Emilly. Quem anda com bosta...
—Ora, Emi, então você quer começar a andar com coisas boas? Pare de falar com o Loran então. — Kyle retruca totalmente convencido.
—Ah então você fala a nossa língua... Isso é interessante.
Rio ao perceber que estamos nos dando bem, como se fossemos adolescentes normais. Como se eu não estivesse quase sido queimada e morta. Fico alegre por estar tudo bem.
A palhaçada dos dois garotos não dura muito, já que o professor não tarda a chegar.
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Tudo se encontra relativamente perfeito em casa, até demais. Deixo as minhas coisas no meu quarto e começo há estudar um pouco, pois não é válido pensar só na minha nova vida agora. Preciso levar a responsabilidade de tomar conta dessa vida que tive desde o momento em que nasci também.
De supetão, Loran pula para dentro do meu quarto, bagunçando as coisas com o seu pousar.
Sua camiseta clara e listrada de azul me deixa mais aliviada — pois só assim sei quem é. Seus coturnos parecem estar limpos, já que não deixam partículas de sujeira pelo piso do meu quarto.
Sua testa está molhada e seu rosto está vermelho.
—Loran? — Pergunto sorrindo, até perceber que ele está tomando folego para me contar algo. — O que aconteceu? — Pergunto um pouco mais preocupada.
—Não é algo muito sério... — Diz ele, respirando e limpando o suor da testa. — Mas é algo do seu interesse!
Minhas pupilas quase cobrem totalmente a minha íris.
—E o que é?
Ele umedece os lábios antes de revelar:
—Acho que descobri um jeito de saber definitivamente a sua casta, Emi.
Levanto-me da cama, deixando o lápis de escrever cair no chão, sem nem ligar com o grafite.
—Isso é sério? — Posso sentir uma fonte de alegria crescendo em mim, dependentemente da resposta, posso começar a esbaldar alegria e começar a pular agora mesmo.
—Sim! — Ele sorri. — Eu estava em casa quando me lembrei de um ritual antigo que faziam quando um anjo “perdia a memória”. — Ele fala — Não há como um anjo perder a memória, mas há coisas que ficam menos nítidas conforme o tempo. Se você está aqui e é um anjo, isso significa que certamente você deve ter alguma memória lacrada da época que vivia no paraíso, na sua forma celestial.
— Isso é ótimo! — Digo animada ao extremo. — Quando podemos começar?
—Não é assim tão simples Emi. —o cabelo ruivo dele parece pegar fogo, quando a luminosidade solar entra em contato. — Se suas memórias daquela época estão lacradas, pode ser que você as tenha lacrado por algum motivo muito tenso. Pode ser uma armadilha também.
— Eu não vejo problemas nisso. E acho que não tem como ser uma armadilha...
—Isso não é tudo, Emilly... — Loran coça a cabeça — Mexer na sua cabeça pode causar falhas cerebrais e também podemos acabar descobrindo coisas não muito legais... Tudo isso é realmente bem perigoso.
Reflito sobre o assunto. Eu realmente quero saber sobre minha casta, não importa as consequências. Posso dar um jeito de arrumar tudo depois!
—Eu estou disposta a arcar com as consequências. — Digo, enfim.
—Esteja em casa hoje à noite então.
É engraçado como em um piscar de olhos, pareço uma louca que imaginou tudo isso, tendo o meu quarto intacto.
Volto a estudar.
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A fumaça produzida pela água quente é confortante. Pego minha toalha e começo a enxugar o meu corpo. Apressadamente, saio do banheiro e coloco roupas leves, mas que cubram todo o meu corpo. Coloco-as e, após, coloco o pijama por cima. Olho-me no espelho para ver se é possível ver algum vestígio das roupas que eu estou camuflando.
Tudo ok!
Desço até a sala, onde se encontra Thony e Lena e me despeço deles. Subo novamente para o meu quarto e apago a luz. Finjo por alguns minutos que eu estou dormindo, então tiro o pijama, faço uma réplica minha e pulo para fora de casa.
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Corro pela rua, sentindo minhas pernas queimarem de cansaço. Não é como se eu não lembrasse onde Loran mora, só não me lembro como chegar lá. Paro para respirar por um segundo e sinto-me num cubo de gelo. Meus pulmões recusam-se a trabalhar para puxar o tanto de ar que é necessário para que o meu fôlego volte.
É como um zunido de um inseto, que sou levada de supetão e com força para o lado. Não tenho tempo de me localizar, mas sei que estou sendo levada para algum lugar por um ser voador. Loran, talvez. Olho para o que me tem em seus braços e, por segundos, tento entender o que vejo. É aterrorizante!
Olhos, mas não só um par. Um milênio de olhos está distribuído pelo corpo do ser, seus braços fortes me seguram e me apertam contra o peito da coisa, que deve ser repleta por olhos também. Duas grandes asas batem com uma velocidade incrível, mantendo-nos no ar.
Sinto-me assustada. Nunca vi algo desse jeito antes. Começo a me debater, para que ele me solte, mas qualquer movimento que eu faça parece ser extremamente inútil para ele.
Sou jogada com força no chão, rolo e bato com mais força ainda contra a parede. O mundo ao meu redor gira e se multiplica. Fecho os olhos, numa tentativa de ajeitar a minha visão e de vencer a dor.
Um pouco de sucesso, mas me arrependo ao abrir os olhos e ter a visão em foco novamente: Aquela coisa está de frente para mim.
Seu formato é quase humano, mas seu corpo é repleto por olhos e suas asas também. É como se fossem feitas de penas de um pavão.
Encolho-me, para me proteger melhor.
—Então a garotinha aqui é uma caída, hein? Belo disfarce! — Diz a coisa.
—Como assim? Não sou nada disso! — falo, mas me arrependo logo em seguida. Deveria ter ficado quieta, pois não sei do que ele é capaz de fazer.
—Minha sonda indica que você — ele aponta o seu dedo indicador para mim — é uma deserdada!
Tento compreender o que ele disse.
—E o que você seria? — a curiosidade está me martelando por dentro.
—Ora, quem vê pensa que não sabe! — O deboche está mais do que visível em sua fala.
—E eu não sei! — Digo, repleta de raiva. — Você deveria me colocar onde me encontrou, pois tenho coisa mais importante para fazer do que ficar conversando com uma coisa estranha e cheia de olhos!
Ele ri.
—Acho que quando te derrubei, foi com uma força imensa que você não deve mais se lembrar de nada! —Ele ri. — Coitadinha da loirinha. — Ele finge limpar uma lágrima de o seu par de olhos que ficam localizados no mesmo local que o meu par de olhos ficam. —Vou te explicar rapidamente. Eu vim aqui juntamente com outros de minha casta. — A palavra casta me é familiarizada. Isso significa que ele é um ser celestial, assim como eu e Loran e assim como Kyle era. — Nós nos chamados de Sentinelas e temos um único objetivo em comum: Matar todos os anjos caídos, antes que a guerra no mundo espiritual se torne pior e comece a atingir o plano dos humanos.
Está acontecendo uma guerra. Certamente deve ser entre os seres celestes que estão no céu e os caídos. Ele veio para cá para eliminar os caídos. Ele pensa que eu sou um inimigo. Ele quer me matar.
—Você disse que você tem uma casta...
—Você gostaria de saber? — Ele ri exageradamente. — Não sei por que eu deveria relevar uma informação tão óbvia para um mero Elohim como você! — Elohim. Ele me chamou de Elohim. — O que você vê na sua frente, cara deserdada, é um celeste da casta dos Querubim.
Um Querubim! Mas ele é totalmente diferente de Kyle. Kyle não é repleto de olhos! Ele é um celeste normal como eu, só que com as asas escurecidas!
—Querubim? O que eu conheço não tem essa aparência. Kyle não é repleto por olhos! Você só deve ser mais um demônio querendo se passar por um celeste para me enganar! — Lanço com fúria.
Um clarão rápido, e estou com a minha cabeça encostada na parede feita de concreto atrás de mim. A alguns centímetros da minha cabeça, para a direita, está uma espada, mas não uma espada normal. Uma que está em chamas e, sua lâmina não está derretendo.
—Você tem mesmo uma boca que não tem consciência do que diz! E nem para quem diz! — Fala ele, sério. — Eu deveria ter te matado ali mesmo, caída.
—Você realmente acha que sou uma caída? — Digo. Levanto-me e mantenho-me no mesmo local, mas olho diretamente em algum olho dele. — Não é o que as minhas asas falam!
Mostro-as. Um par de asas abençoado com o branco do leite, com o branco da neve ou até mesmo das nuvens!
— Isso não pode ser verdade! — Comenta ele. Sua espada é retirada do meu lado. Ele fica ereto, olhando para mim. — Você, uma Elohim caída, tem asas brancas! Isso não é possível.
—Eu não sou uma caída! — Falo. Dou um passo para frente. Ele recua. — Você está vendo com os milênios de olhos que você possui. Um par de asas da cor branca. Caso eu fosse uma caída, elas teriam a coloração preta.
—Isso é impossível! — Ele comenta e eu não sei mais para qual olho olhar. — Você tem até contato com um caído, Kyle. Você sabe quem ele realmente é?
—Não. E você não tem moral para falar de mim, já que não sabe quem eu sou! — Falo, tentando manter a calma.
—Você tem uma língua afiada e ela te salvou da morte. — Diz ele, fitando-me com todos os seus olhos. — Isso não irá se repetir, Elohim! Quando eu voltar, você não terá mais a vida que possui.
E é em questão de segundos que os olhos não estão mais na minha frente. Estou sozinha jogada no alto de um prédio, encostada numa parede fria feita de concreto, mas nada disso importa. O que importa é que, mesmo tendo sido machucada e, praticamente raptada, eu atingi o meu objetivo de hoje: Agora eu sei o que eu sou, sei de onde pertenço. Sou um Elohim. E estou sendo caçada pelas Sentinelas.
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