As Chamas Negras Da Luz
11 O resgate
O sol já estava surgindo, quando Tanya desperta, e olha a cama onde Draco repousava tranquilamente, ela se levantou ajeitou o lençol que o cobria e saiu do quarto tentando fazer a porta ranger o mínimo possível, para que Draco não acordasse, no corredor fora do quarto o som das tábuas de madeira que compunham o chão deixavam a tarefa de manter o silêncio quase impossível. No fim do corredor ela encontrou uma porta e ao abrir se surpreendeu com o que se assemelhava a uma pequena estufa, mais abundante em diversidade de plantas, diversas delas que ela nunca havia visto antes. Ela andou por ali, admirando as plantas até que viu Marta sentada regando algumas plantas, se aproximou e falou:
– Bom dia.
– Bom dia, dormiu bem?
– Sim, você tem muitas plantas, são muito lindas.
– Ah. Obrigada, basicamente elas são minha vida, já que vivo isolada, tenho que ter de onde tirar meus alimentos e remédios, além de que elas são uma boa companhia para não viver na solidão.
– Compreendo, deve ser bem solitário viver aqui.
– Sim, mas chega deste papo, é deprimente, vamos fazer preparar um lanche que aposto que você deve estar com fome, e que o seu amigo também vai estar quando acordar.
– Ah. Comigo não precisa se preocupar, já fez demais por mim.
– Que isso, vamos logo, não precisa se acanhar.
– Está bem, o que faço?
– Vamos, acho que ainda tem umas frutas por aqui, e algumas plantas boas pra se comer, pegue um cesto ali – ela apontou para uma mesa cheia de ferramentas sobre ela, ao lado da porta — e venha que não poderei carregar tudo na mão.
– Ok – Ela pegou o cesto e levou até Marta – Está aqui.
– Obrigada, vamos à cozinha, temos que preparar a comida.
Assim as duas saíram da pequena estufa e caminharam até a cozinha que ficava no quarto ao lado, assim Marta entrou e deixou o cesto sobre o balcão e retirou recipientes de um armário abaixo do balcão e começou a jogar plantas e temperos dentro, enquanto Tanya fazia um chá num fogão a lenha. Elas arrumavam a mesa da cozinha com os preparativos quando a porta se abre e Draco entra, Tanya põem a bandeja que estava em sua mão e corre até Draco, e fala:
– Você não deveria estar de pé, você ainda não se recuperou.
– Calma, estou bem. Não sou tão frágil assim, mas obrigado pela preocupação... Mas a verdade é que estou incomodado em estar parado, temos que partir em breve, não podemos perder tempo.
– Ao menos vamos lanchar, você ainda está fraco.
– Mas...
– Não – Colocou seu dedo indicador direito sobre os lábios de Draco delicadamente – Vamos comer, você está fraco e está a um bom tempo sem comer.
– Está bem, mas depois partimos. – Falou assim que ela retirou o dedo que estava sobre seus lábios.
– Ok.
Assim os três se sentaram à mesa e começaram a comer em silêncio, ao terminar Marta recolhe as sobras e as põem no lixo e a louça suja na pia, então Draco se levanta e fala:
– Estou muito grato por ter nos fornecido ajuda e abrigo, e por ter contado sobre minha história, obrigado, mas teremos de ir agora.
– Está bem. Adeus.
– Adeus.
– Mas antes tenho uma pergunta. Você sabe para onde vai?
– Bem... – Draco olhou para Tanya que estava à sua direita.
– A verdade é que não sabemos, pretendíamos buscar pistas – Falou Tanya.
– Sei para onde a levaram, posso estar em um lugar bem isolado, mas tenho meus meios de descobrir informações, irei com vocês.
– Mas você poderá se meter em grandes perigos – Falou Draco.
– Não se preocupe, nasci e vivi no Tártaro, garanto que minha vida sempre foi cercada de perigos, e um a mais não faz mal. Só peço um instante para eu pegar minhas coisas.
– Então está bem, irei aguardar, mas seja rápido, perdemos muito tempo aqui.
Marta foi ao seu quarto e depois de minutos intermináveis voltou com uma armadura similar à que Tanya usava, era negra só que parecia mais leve, pois estava sem ombreiras e outras partes da armadura, fornecendo maior mobilidade para ela, talvez por que ela era médica e precisava ser rápida e não se envolvia muito em combates, e carregava uma bolsa razoavelmente grande. Ela olhou e falou:
– Vamos, estou pronta. Talvez cheguemos antes do anoitecer se formos rápidos.
– Ok. Vamos logo então.
Saíram e se puseram a caminhar pelo grande deserto, caminharam por horas. Quando o sol estava quase no seu auge, provavelmente era meio dia, chegaram em destroços de algo que foi uma cidade um dia, e ao andar por lá, Draco percebeu que não se diferenciava da versão de sua cidade no Tártaro, sempre escutava gritos de desespero, sangue e pedaços de carne em todos cantos, o fogo que queimava tudo na cidade parecia não terminar. Quando se depararam com um construção grande, Marta faz sinal para pararem. Ela olhou atenciosamente envolta e avistou um prédio bem alto, que apesar de muito danificado parecia firme, seguiram até entrar no prédio e subiram até o sexto andar e foram a um quarto e olharam por uma grande abertura que havia na parede, Marta observou e falou:
– Como esperado, estão se preparando.
– O quê? – Perguntou Draco.
– Olhei, é uma base de treinamento.
– Nossa – Falou Draco perplexo ao avistar um imenso campo de treino que deveria haver centenas de demônios treinando.
– Todos os esquadrões do Tártaro receberam ordens para treinar o máximo de demônios possíveis, assim como fazer mais armas e armadura, pois acham que os anjos irão atacar primeiro, agora o que, mas por enquanto estão numa guerra psicológica, ambos os lados criando poderes cada vez mais mortíferos. Quando a guerra estoura mesmo que haja um vencedor o preço é grande, um segundo juízo final. – Falou Tanya com os braços cruzados e de lado olhava fixamente o campo de treino.
– Sim, o primeiro teria acabado com toda a existência dos três mundos, se não fosse os três irmãos impedindo, tendo em vista que só levariam ao fim, assim votaram e deu unanimidade, impediram a perseguição a nave Esperança, e a paz reinou por alguns séculos entre anjos e demônios. – Falou Marta.
– Mas por que então os querem guerrear novamente? – Falou Draco
– Os irmãos não estão mais aqui, não se sabe mais nada sobre eles, só eu, sumiram um dia e então não tem ninguém que impeça tal carnificina, e o ódio assim como o medo entre os dois só se aumentam com o tempo, é inevitável. – Falou Tanya ainda com um olhar sério.
– Vamos, tem muitos demônios aqui, não será difícil de nos achar aqui. – Falou Marta
– Ok – Respondeu Draco.
Saíram tentando evitar chamar a atenção, saíram da cidade e caminharam por mais algumas horas, até chegarem em uma floresta totalmente queimada como todas as outras vistas anteriormente, caminharam por horas, o silêncio parecia imperar, muito pacífico, o sol estava se pondo então Marta fala:
– Estamos próximos, mas não adianta de nada se estivermos com fome, iremos nos desconcentrar. Trouxe comida, vamos comer. Sentem-se.
Se sentaram no chão enquanto Marta tirava de sua bolsa um pano que logo colocou no chão e arrumou com um chá e algumas frutas. Todos comeram e Marta guardou o pano e voltaram a caminhar, era noite quando avistaram uma construção que parecia cercada por diversos demônios, logo Marta fala:
– Como entraremos? Está totalmente cercado.
– Existe um velho túnel que usavam para chegar lá dentro. – Respondeu Tanya.
– Nossa como você sabe? – Perguntou Draco.
– Não podemos perder tempo vamos – Falou Tanya.
Assim seguiram Tanya que andara até um árvore onde tinha uma moita no chão, então ela retirou sua espada e cortou a moita e ali deu para ver uma porta que ao abrir via-se uma escada, onde eles desceram. Ao chegar ao fim da escada deu para ver, um longo e estreito túnel, que ia em direção à construção. Andaram até a outra ponta. Quando chegaram na escada Tanya fez sinal para que se mantivessem em silêncio, ela subiu e abriu a porta de forma que ninguém percebesse e olhou, mas não avistou ninguém, ela subiu e chamou os outros e falou:
– Daqui em diante tenham cuidado, será perigoso e temos grandes chances de sermos descobertos, será difícil.
– Ok – Falou Draco.
Assim caminharam pelos corredores, abrindo porta após porta procurando Anna, não acharam ela, logo desceram, parecia um imenso complexo subterrâneo, diversas selas. Se puseram a procurar, e procurar até que Tanya achou alguém que não conhecia, estava muito ferida, parecia ter sido torturada intensamente. Abriu a sela e percebeu que estava inconsciente, hesitou um pouco, mas chamou Draco, e assim que Draco chegou na sela, falou:
– Seria essa sua amiga?
– Anna! – Correu até a cadeira onde ela estava amarrada e olhou seu rosto – ela está...
– Inconsciente, calma, só teremos de a carregar. Eu não consigo carregá-la, se quiser a leve.
– Está bem, eu a levo – assim pegou Anna e a carregou no colo com cuidado.
Assim a carregaram e subiram até o térreo, pareciam ter sido avistados por ninguém, quando se aproximavam da porta para o túnel, de repente um grande arpão atravessa a parede e se abre de forma que quando puxaram caiu a parede vindo uma grande nuvem de poeira, e do meio da nuvem saíram cordas com ganchos que se amarram a eles e os puxaram os levando pra fora, e em seguida soltaram as cordas, lá estava Thaytus, ele os olhou sorrindo e em seguida falou:
– Tentando sair sem ao menos nos cumprimentar, cadê os modos dos jovens de hoje em dia.
– Deixe-nos ir! – Exclamou Draco.
– Nossa, você acha que vai ser tão fácil assim? Se enganas, vamos guardas, terminem logo com isso, e mate a prisioneira também, acho que ela não vai mesmo abrir a boca.
Assim diversos soldados correram para cima deles com suas lanças e espadas, lutaram intensamente. Marta lutava, mas quando recuava de um golpe de uma lança tropeçou em uma pedra que a fez perder o equilíbrio por um curto instante que foi o suficiente para desferirem um golpe que poderia ser fatal sem tempo de pensar, por pura reação ela defende com seu braço direito que instantes depois estava no chão, o sangue jorrava, ela gritou e em seguida três lanças atravessaram seu tórax, Draco ao ver isso perde a atenção quando leva um golpe que corta seu peito superficialmente, então tudo parecia ter parado, ele olhou envolta do campo de batalha. O tempo parecia ter parado, ninguém se movia, o tinir das lâminas não soavam mais, era possível ver o sangue parado no ar de uma ferida que Tanya fez em um soldado com sua espada, era algo impossível, quando Draco escuta uma voz:
– Acho que me enganei, esperava mais de você.
Draco gira em busca de quem estava falando, quando vê algo que não estava ali, entre as pessoas que lutavam, um grande trono negro, decorado com ossos e crânios, estava deitado de lado um homem, aparentava ter na faixa dos vinte e cinco anos, comia uma maçã, que falou:
– Isso chega a ser frustrante, achava que você era forte.
– Quem é você?
– Que isso? Que formas são essas de falar com seu avô? Achava que aquela infeliz da Sarah tivesse lhe dado modos, afinal esse seria o dever de uma mãe, talvez seja o fato dela ser um anjo, criaturas repulsivas – De repente ele desaparece e reaparece na frente de Draco de pé, quase que instantaneamente – Ah! Então foi por isso, parece que fizeram dois selos, calma irei te ajudar com isso.
– Que selo?
– Seus pais com medo de que seus poderes viessem a lhe prejudicar lhe puseram dois selos, de forma que se quebrassem o selo externo só viesse o poder angelical, e o interno o demoníaco, devo dizer que eles deram um caprichada nesse interno, levaria muito tempo para fazer um ritual e quebrá-lo, talvez anos. Sinceramente, odeio esses negócios, prefiro do meu jeito, rápido e fácil – então ele segurou o ombro do Draco com sua mão esquerda e socou seu abdômen com a outra mão de forma que a mão entrou, e a retirou com um objeto negro, foi tão brutal que fez Draco cair de joelhos – Aqui está, o segundo selo, vamos, não fique com essa cara covarde, levante-se, você terá poder.
– Afinal quem é você?
– Você terá de viver a vida intensamente, sinta amor, alegria, viva disso, e viva pelo ódio que a tristeza lhe trouxe, viva.
– Diga logo.
– Vejo que tem problemas com isso, vamos lhe provocar um pouco – Ele caminhou até Tanya e colocou sua mão envolta do pescoço dela e falou – Será que se eu matar ela você irá me entender?
– Não ouse tocar nela! Estou falando com você volte aqui e me diga quem é você! – O ódio era claro no rosto de Draco, que se levantava aos poucos.
– Era isso que eu queria, ódio. Por ter me escutado irei responder sua pergunta. Sou Demon, mas se preferir me chame de vovô. Mas agora tenho de ir, e vou liberar logo esse selo.
Demon fechou a mão de forma que esmagou o objeto em sua mão, e uma névoa negra saiu rapidamente daquilo, e em seguida os guardas falavam que não viam nada e não via os intrusos, parecia que tudo tinha voltado ao normal, quando a névoa rapidamente foi absorvida por Draco, que estava totalmente diferente, usava uma armadura negra e exageradamente grande como sua anterior, só que estava decorada com ossos e crânios, ergueu sua espada que também estava negra e ao que parecia seu olhos estavam vermelhos, então ele sorriu e falou:
– Vamos brincar de matar?
Então ele correu e com um único movimento com sua espada na horizontal, quatro soldados estavam separados de sua cintura, corria e mutilava todos pelo caminho com sua espada, sempre rindo, chegava a parecer que ele estava mesmo brincando, quando restou somente Thaytus de pé, estava encostado na parede uma distância razoável de onde estava a briga. Ele olhou Draco e falou:
– Calma, não quero brincar com você, e está chegando reforços, deixarei vocês irem em paz.
Draco parecia ignorar e começou a correr na direção de Thaytus, quando Tanya se joga na frente dele chorando e fala:
– Por favor, esqueça o ódio, não se importe com o ódio, não quero lhe perder também, vamos.
Aos poucos a armadura dele parecia suar e escorrer o negro, assim como a espada, e aos poucos os olhos voltavam ao cinza, e Draco falou:
– Não chore, vamos então.
– Obrigada.
– Vamos chega de enrolação eles estão chegando, tem um portal no primeiro quarto à direita da entrada, vão logo.
Assim Draco levou Anna em seu colo. Tanya olhou Marta, e ao perceber que estava morta segurou o choro e foi embora junto a Draco, correram até o outro lado do portal e saíram no mundo dos humanos, e quase de imediato Tanya destruiu o portal, o que parecia estavam em um velho galpão, colocaram Anna no chão, e Tanya falou:
– Draco, desculpe. Mas... a Marta... morreu.
– ... – Ele segurou suas emoções e falou – Não se desculpe, não foi sua culpa dela ter morrido.
– E desculpe por ter chorado e tentado lhe atrapalhar.
– Não, aquilo foi culpa minha, perdi o controle, estava com medo de você se ferir.
– É que foi assim que meus pais morreram, meu pai perdeu o controle e acabou matando minha mãe acidentalmente, depois que retomou a consciência se matou... – Foi possível ver lágrimas escorrerem do rosto de Tanya e ela falou – A verdade é que estava com medo de te perder, a única pessoa que me aceitou como amiga em tanto tempo, eu ficaria tão só.
– Desculpe – Draco a abraçou – Não lhe deixarei sofrer de novo.
Em seguida ela se sentou encostada na parede e ele também, ficaram ali até que dormissem.
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