As Asas do Corvo
1 Primeiro Dia De Aula
Notas iniciais
Ps: Para os apressadinhos um aviso. Os primeiros capítulos serão apenas apresentações, então não esperem pancadaria e sangue antes do terceiro capítulo.
O som estridente do despertador era insuportável. Logo David o calou com um tapa desengonçado. Ainda com a cabeça embaixo do travesseiro pegou seu celular e viu que horas eram. Sete da manhã. Tinha exatamente meia hora para tomar banho, trocar seu pijama preto de algodão por algo decente, e ir à escola.Então levantou preguiçosamente e caminhou até o banheiro, olhou no espelho e a única coisa que enxergava era um rosto amassado coberto por cabelos desgrenhados que chegavam até a ponta de seu nariz.
– É amigo... Seus dias de liberdade chegaram ao fim. – Ele grunhiu para o seu reflexo no espelho e depois olhando mais acima, em sua testa, por baixo dos longos cabelos completou – Que ótimo, mais uma espinha!
Era realmente inconveniente que aparecesse uma espinha no meio de sua testa logo agora, em seu primeiro dia de aula. Depois de alguns segundos ele pensou... Ainda estudava na mesma escola de cinco anos atrás. Os mesmos amigos, os mesmos professores chatos das mesmas matérias inúteis. Enquanto tirava o short preto e folgado do pijama perguntou-se porque tinha que aprender botânica sendo que seria músico em alguns anos. David largou o short no chão e foi tirando a camiseta, bagunçando ainda mais seu cabelo. Ligou o chuveiro e logo aquela fumaça de água aquecida começou a inundar todo o banheiro, deixando os vidros do box embaçados. Ficou ali por bons 10 minutos. A água quente relaxava seus músculos e fazia com que sentisse vontade de voltar para sua cama e dormir até o pôr-do-sol, como havia feito durante todos os dias das férias de verão.
– Voltando à vida chata de escravidão.
Ele desligou o chuveiro e pegou sua toalha. Logo estava se enxugando monotonamente. A mãe de David, Linda Donnavan, sempre reclamava de sua estranha mania de falar sozinho.
“Vão achar que você é um louco, e nunca tivemos um louco na família.”, era o que ela sempre dizia. Em partes ela tinha razão. Vez ou outra aparecia algum engraçadinho fazendo piadas sem graça sobre essa estranha mania, mas David logo dava uma de suas respostas que faziam qualquer um morrer de vergonha de estar falando com ele, e então o transtorno acabava.
Ele enrolou-se na toalha preta e felpuda que estava pendurada na parede e abriu a porta do banheiro. Ficou ali mesmo, na porta, parado, por alguns segundos. Seu quarto estava uma verdadeira bagunça. Seus sapatos favoritos estavam jogados em cima do cubo amplificador preto, rodeado por um emaranhado de fios. Em cima da escrivaninha que fiava à direita da cama estava um prato com um pedaço de pizza da noite anterior, uma revista de mulheres peladas, que logo ele se lembrou de tirar dali, e o seu despertador. E as cortinas... Nossa como estavam sujas! Já podia ouvir sua mãe berrando a plenos pulmões, lhe dando a maior bronca por não conseguir deixar as cortinas de seu quarto limpas por mais que algumas horas.
Ele olhou aquela bagunça por mais alguns segundos e perguntou-se:
– Onde está...? – Então ele viu sua guitarra embaixo de uma pilha de roupas sujas. – Ah! Aí está você.
Ele foi até Haylle, sua Stratocaster preta, e tirou-a do meio daquelas roupas imundas.
– Nunca mais me assuste assim Hayl.
David olhou novamente no celular e já passavam das sete e vinte. Ele se atrasaria para seu primeiro dia de aula. Enquanto largava a toalha e apanhava as primeiras peças de roupas que viu em seu guarda roupas ,ouviu sua mãe bater na porta chamando-o impacientemente.
– David! Anda logo. Você vai atrasar-se para seu primeiro dia de aula!
Ele revirou os olhos enquanto pensava: “Como se nunca houvesse me atrasado antes”. Tirou uma calça jeans preta, uma cueca, depois de certificar-se de que estava realmente limpa, e uma camiseta qualquer. Gritou em direção à porta.
–Estou quase pronto mãe! Já vou! Não me apresse.
Ele vestiu-se logo e voltou ao banheiro. Seu cabelo estava um caos completo, não havia tempo para penteá-lo e não fazia tão frio assim, mas o bastante para ele usar uma touca sem ser chamado de esquisito por seus colegas de classe. Agarrou uma touca preta, com o nome de sua banda favorita, e antes de fechar a porta do guarda roupas beijou uma foto que estava grudada à porta.
– Deseje-me sorte baby.
Ele saiu correndo escada abaixo, e quando chegou à cozinha Jimmy, seu irmão mais novo, e Sam, a filha de sua mãe com seu padrasto, já estavam prontos, esperando.
Jimmy o olhou com aquele olhar de tédio que carregava consigo para todo lado, e David mostrou a língua, como um garoto de cinco anos.
– Babaca. – Disse Jimmy mostrando seu dedo do meio.
Ele tinha pouco mais de dez anos, mas estava numa fase em que achava que era o adolescente mais descolado da escola primária de Blackpool. Ultimamente vinha se rebelando dentro de casa. Não obedecia às ordens de Lind, como Harry, seu padrasto, chamava sua mãe, e sempre arrumava confusões na escola.
– Mamãe vai à escola hoje, de novo David. – Disse Sam enquanto pulava no colo do irmão. – Jimmy aprontou mais uma vez.
Sam e David eram muito apegados. Ela tinha ainda cinco anos, mas era uma garotinha muito esperta para sua idade.David a chamava de Sam Litte Teeth, pois adorava morder o braço do irmão. Eles quase sempre estavam juntos, e quando não estavam um sabia exatamente onde e o que o outro estava fazendo.
– Jimmy não tem mais jeito Samy, ele está perdido.
– Vão se ferrar. – Protestou Jimmy pegando sua mochila e colocando nas costas.
Logo Linda apareceu para por fim àquela balbúrdia.
– Sem brigas crianças! Entrem no carro ou todos vão atrasar-se para a escola.
David revirou os olhos. Ele odiava quando sua mãe o tratava por criança. Havia completado seus 16 anos em agosto, mas entrou no carro e sentou-se ao lado de Sam, como sempre fazia.
No caminho para a Escola Secundária James Crowley, ele recostou seu rosto no vidro do carro e ficou lembrando das férias de verão. Nada havia acontecido. Nada de bom.
Seus pensamentos voltaram para seu quarto, mais precisamente a foto na porta do guarda roupas. A foto que havia ali era a foto de Kate, sua namorada. Seus pais eram diplomatas e tiveram que se mudar para algum país quente da América do Sul. Seria difícil ir à escola e saber que não ia encontrar Kate o esperando no portão, como fizera durante os treze meses de namoro. Felizmente o restante de seus amigos estariam lá, esperando ansiosamente para encontrá-lo e contar como haviam se divertido nessas férias.
Logo sentiu o carro parar e sua mente voltou a processar o que acontecia naquele momento. Sua mãe estava estacionando. A escola de David era a primeira do “circuito didático”, como sua mãe chamava. Ele pegou suas coisas e deu um beijo na testa de Sam.
– Vejo você mais tarde Sam Little Teeth. – Apertou a bochecha da pequena arrancando um sorriso de sua boca. – Até mais Jim.
O garoto não respondeu e David saiu do carro, batendo a porta. Foi até a janela do motorista e se despediu de sua mãe.
– Até mais tarde querido. Eu sei como é vergonhoso para você chegar até aqui comigo, mas você ia atrasar-se. Espero você em casa para o jantar. Bom dia.
Ele deu um sorriso forçado para Linda e virou-se para encarar a frente da escola. Era um prédio antigo, de quatro andares. A fachada era de um amarelo sujo, que o lembrava a palavra “queimado”. Havia uma larga escadaria, com 25 degraus. Ele já havia contado aqueles degraus várias vezes, enquanto esperava sua mãe, que quase sempre esquecia de ir buscá-lo nos primeiros anos.
– É amigo, aqui estamos, para mais um ano torturante de aulas de química. – Disse Damian, enquanto colocava seu braço no ombro do colega.
– Não se esqueça das gatinhas líderes de torcida. Você já viu como a gostosinha da Lety está com uns peitinhos bonitinhos?
Esse idiota ninfomaníaco era Henry. Seu mundo girava em torno de alguns “peitinhos bonitinhos”, e filmes pornôs. Ao contrário de Damian, que era um amante das artes, como ele mesmo dizia, e de David que era um tanto reservado, Henry era o jack-ass da turma.
– Oi pra vocês também. É... Aqui estamos nós. – Disse David enquanto começava a andar em direção às escadas.
Henry olhou para a expressão triste de David e disse:
– Qual é cara? Você não pode ficar assim o resto do ano letivo também! Kate se foi e há nada que você possa fazer para mudar esse fato. Agora é bola pra frente e vamos curtir essa droga de vida que temos. Olhe só – disse enquanto mostrava a agenda de seu celular – temos opções novas no cardápio. Conheci uma asiática... cara, ela me deixa lou...
– Eu não quero saber de suas aventuras sexuais com asiáticas! – Damian deu um tapa na nuca de Henry. – Não dê bola para o que ele diz man. Ele é um idiota que só pensa com a cabeça de baixo, você sabe.
David não pôde evitar o sorriso que escapou por seus lábios. É, mais um ano letivo havia começado. Damian e Henry subiram a escadaria conversando sobre como as férias haviam sido excitantes para um, e intelectuais para outro. David apenas ouvia vagamente a conversa e acenava com a cabeça ou murmurava alguns “Aham”, e outros “Hum” de vez em quando. Sua cabeça estava em outro lugar, em um planeta distante talvez.
– Cara! Ela te comeu com os olhos. – David voltou a si enquanto Henry murmurava algo idiota.
– O que? Quem comeu quem? – David tentava inteirar-se da conversa.
– Como assim?! Você não viu a Bella Swan em sua versão sexy olhando para você como se fosse um pedaço de carne e ela uma pantera negra faminta? Em que mundo você vive? – Henry deu um empurrão no ombro de David.
– Ora, não fale tolices.
– Desculpe intrometer –me David, — Damian começava a falar – mas dessa vez não é invenção do nosso amigo pervertido aqui. Stacy O’Connel realmente estava olhando para você como se fosse um pedaço de carne.
– Viu? Não estou inventando nada...
– Dessa vez! – Interrompeu Damian.
– Não importa! O que importa é que ela estava o olhando de forma estranha. Agora me diz... o que essas garotas veem no David??? – Henry estava gesticulando para David como se ele fosse um produto em uma prateleira. – Sim, porque a Kate era uma gata... nunca vi olhos tão marcantes e sexys...
David lançou um olhar que teria matado Henry se fosse uma metralhadora. Logo o garoto branquelo e esguio se calou.
David não era exatamente um Di Caprio, mas sempre fizera sucesso com as garotas. E claro que isso deixava Henry com inveja.
Henry era muito magro e alto. Seu apelido era Garibaldo. Seu rosto era extremamente fino, e ele usava um cabelo da moda, que o fazia parecer com um desses astros teens de hoje em dia. Seus olhos eram de um verde musgo estranho, e ele tinha olheiras fundas por conta das noites em claro se masturbando enquanto via um de seus muitos filmes pornôs.
Damian era o mais bonito dos três, com certeza. Ele era alto, com os ombros largos. Tinha uma pele mais morena que os outros, cabelos negros que faziam qualquer um perder-se, de tão profundos em sua cor. Seus olhos eram igualmente negros. Por algum motivo muito estranho seus dentes eram perfeitos e brilhantes, mas ele era muito devoto à arte e não dava chance à nenhuma garota. Henry desconfiava que ele fosse gay, afinal, que garoto de 17 anos de idade nunca beijou uma mulher que não fosse sua própria mãe?
David tinha uma aparência mediana, assim como sua estatura. Tinha cabelos longos, que viviam bagunçados ou escondidos sob uma touca, como hoje. Era branco, mas não tão branco como Henry. Tinha olhos castanho-escuros, na mesma cor, ou um tom mais claro dos cabelos. Mas o que fazia sucesso mesmo, na opinião de seus amigos, era seu estilo.
David era um pouco vaidoso com relação às suas roupas. Com exceção de hoje ele costumava vestir-se bem, para um garoto da escola secundária.
Eles já estavam no corredor, de frente para os armários. David abriu o seu, que era o mesmo há mais de 2 anos. Só fora mudado uma vez, porque seu antigo armário fora substituído por um bebedouro novo.
Quando abriu a porta de alumínio fino viu o bilhete de Kate, que estava lá desde o último dia de aula. Ele abriu-o e leu pela milésima vez o que havia escrito. Já estava decorando algumas partes do texto.
Querido David,
Não vou à aula de química hoje, infelizmente tive que sair mais cedo porque meu pai quer que eu vá com ele e mamãe conhecer algumas pessoas. Quando você sair daí me mande um sms, tudo bem? Amo você.
De sua princesa, Kate.
David tornou a fechar o bilhete, que já estava surrado por ter sido aberto e redobrado tantas vezes, e pegou os livros que os funcionários da escola haviam colocado em todos os armários. Logo o som desafinado da campainha começou a proliferar-se por toda a escola.
Era hora de começar sua rotina novamente. O primeiro dia de aula, de muitos.
David respirou fundo, pegou o horário que estava em cima dos livros guardados no armário e viu qual seria sua primeira aula do dia. Biologia. Ótimo...
– Vamos lá, vai começar a tortura. – Ele disse olhando para os amigos.
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