As Asas do Corvo
2 Uma Nova E Estranha Aluna
Notas iniciais
David voltou a andar pelo longo corredor principal com Damian e Henry em direção à escada. Ele estava novamente absorto em seus pensamentos, como já estava acostumado a fazer. Os dois amigos que o acompanhavam já estavam conversando sobre algum assunto engraçado novamente. Os três eram muito unidos. Cursaram uma parte do ensino fundamental juntos, e desde então se tornaram amigos inseparáveis.
— E então David, já está sabendo da festa na casa da Stacy né?
David voltou a si e olhou para Henry com uma expressão ainda vazia.
— Na verdade não. – Disse com uma certa lentidão. – Vocês vão?
— Eu acho que não. Comprei uma coletânea de filmes da década de 20.
Henry lançou um olhar furioso e engraçado para Damian. Não era surpresa que ele não estivesse interessado, afinal, ele nunca estava. David deu de ombros e voltou a falar monotonamente.
— Bom, então acho que não vou. Será chato. Henry provavelmente vai dar em cima de alguma garota louca o bastante para ir pra cama com ele e eu ficarei sozinho. – Ele parou e voltou a falar em seguida, quando já estavam no segundo andar. – Prefiro ficar sozinho em casa.
Henry estava visivelmente decepcionado. Ele odiava aparecer em festas, às quais não havia sido convidado, sozinho.
— Vocês dois são uns otários! Você – ele disse apontando para Damian – sua bichinha, vai morrer virgem!
Damian suspirou e revirou os olhos cinematograficamente.
— Porque você só pensa em sexo seu pervertido?
— Porque você não pensa em sexo seu desgraçado? O que há de errado com você? David eu até entendo. Ele está curtindo uma fossa agora que a Kate foi embora. Mas e você? – Henry estava indignado. – Eu, e acho que ninguém aqui nessa escola, já viu você com uma garota!
— Será que vocês duas podem parar de brigar? – David soltou um longo suspiro. O ano realmente havia começado. Ele parou em frente a uma porta e olhou para os dois amigos. – Ao contrário de vocês dois, seus desocupados, eu tenho mais o que fazer! Nos encontramos na hora do almoço.
David já estava entrando na sala de aula. O professor de biologia já estava presente, mas a aula ainda não havia começado. Ele foi até a última carteira, que ficava bem no canto da sala, e sentou-se pesadamente, largando sua mochila no chão e afundando na cadeira. Não era de falar muito e passava a maior parte do tempo apenas observando. Logo viu que haviam duas pessoas novas na classe: um garoto estranho que olhava desesperado para todos os lados, como se alguém fosse arrancar sua cabeça e comer seus olhos; e uma garota com os cabelos ruivos. Não... Não eram ruivos. Eram vermelhos, da mesma cor de sangue. Ela chamou a atenção dele por ser bem exótica. Além de seus cabelos completamente vermelhos tinha também a pele branca como as páginas do seu caderno, que ainda esta dentro da mochila jogada no chão. Ele ainda não tivera a oportunidade de ver seus olhos. Ela estava sentada duas carteiras à esquerda olhando para baixo com um mp3 player na mão. Aquilo logo o fez pensar qual seria o estilo musical da garota. Talvez eles tivessem alguma afinidade. Talvez...
A aula de biologia passou estranhamente rápido para David. Quando o sinal que marcava término da primeira aula do dia soou ele pulou de sua carteira com o susto. Logo estava enfiando seu caderno juntamente com o livro dentro da mochila e caminhando em direção à porta. Assim que chegou à porta Stacty estava lá, parada e sorrindo calorosamente para ele.
— Olá David! Como foram suas férias?
David estava inseguro encarando-a em silêncio ainda. Ele tomou fôlego com a boca e finalmente respondeu.
— Ahm... Oi Stacy. Er... minhas férias? Foram, foram boas, e as suas?
David não pôde esconder o nervosismo tão bem quanto teria feito em outra ocasião. Suas mãos suavam quando ele acenou em frente, para que ambos começassem a andar.
— Foram ótimas, mas felizmente as aulas começara. – Ele pôde ver a garota olhando-o de rabo de olho, o que o deixou completamente constrangido. – Bom – retomou – eu vou dar uma festa hoje. Não sei se você ficou sabendo... Eu gostaria muito que você fosse meu convidado especial.
Stacy, ainda andando ao lado de David, pegou sua mão com delicadeza e disse.
— Eu imagino como deve estar se sentindo pela Kate... Acho que seria bom você se animar um pouco, não é?
Ah! Droga... ele pensou, por um mísero segundo, que ninguém iria comentar isso. Pelo menos não no primeiro dia de aula. Estava redondamente enganado. Quando já estava perto de um entroncamento de corredores Stacy parou, observando-o.
— Bom... tenho aula de matemática agora. – Ela apontou para o corredor do seu lado esquerdo. – Nos vemos hoje à noite então?
David titubeou por um segundo, fechando os olhos e respirando. Iria se arrepender disso.
— É... acho que sim. Nos vemos mais tarde. – Ele deu um passo, segurando-a pela cintura enquanto colava um beijo em seu rosto.
— Tchau... – ela saiu dali com um sorriso que ia de orelha a orelha.
David se encaminhou para sua sala, de história. Assim que entrou logo viu Damian que havia guardado um lugar para o amigo ao seu lado. Ele foi até os fundos da sala, aonde sentava-se sempre, e falou:
— Já no segundo horário?
— Sim meu caro, já no segundo horário. – Damian o observou por um segundo, como se esperasse algo. – E então?
David já estava brincando com uma caneta preta. Olhou para Damian despreocupado, mas já era óbvio que ele sabia sobre Stacy. Damian sabia de tudo.
— E então o que?
— Ah, não me venha com essa. Eu sei que Stacy O’Connel esta de charminho para o seu lado. Diga, o que ela queria afinal?
— Cara... você está parecendo uma daquelas amigas fofoqueiras da Kate, querendo saber dos mínimos detalhes sobre nosso primeiro beijo. – David fez uma careta e passou a imitar a voz fina de uma garota. – Como ele beija? Ele colocou a língua? Foi molhado de mais? Ah cara, dá um tempo!
Damian revirou os olhos e olhou pra frente, parecendo desinteressado agora. Ficou calado por pouco mais de um minuto. Então David finalmente falou.
— Ela me convidou para a festa.
Assim que se calou a professora Marrie entrou na sala, não dando chances para Damian perguntar mais. Ela era uma boa professora. Atenciosa e simpática. Nâo parecia ter mais do que trinta anos. Era morena, cabelos castanho-escuros e olhos mel.
— Olá queridos alunos! Como foram as férias? – Ela perguntou entusiasmada, como se fossem todos amigos que não se viam há décadas. Depois que o burburinho se acalmou ela retornou a falar. – Bem. Esse ano nós temos uma nova amiga conosco. – Ela disse acenando para uma garota ruiva. – Essa aqui é Velkan Vasile. – Quando a ruiva dos cabelos de fogo chegou à frente David pôde ver que era a mesma da sua primeira aula. – Ela não é daqui. Seus pais acabaram de se mudar para a antiga casa dos Willers. Eles são da Romênia, não é isso Velkan?
Todos observavam a garota extremamente pálida e com cabelos ruivos como fogo. Seus olhos eram lindos e marcantes, de um cinza singular. Ela não parecia muito de conversas, apenas acenou com a cabeça levemente quando a professora se referiu a ela.
O restante da aula passou normalmente, e foi assim com as outras duas aulas seguintes, das quais Velkan estava presente em mais uma. Quando a hora do almoço chegou David estava se dirigindo ao refeitório com Damian.
— E então, o que achou da novata? Velkan, não é?
David ficou um pouco pensativo. Algo naquela garota havia chamado sua atenção. Era parecia muito... estranha.
— Bem, não sei muito o que dizer. Ela é bem diferente de todas as outras garotas né? – Aquilo não era mentira, mas também não era totalmente verdade.
Logo eles avistaram Henry sentado em uma mesa aporrinhando algumas garotas que pareciam estar sendo torturadas com seu papo furado. David e Damian pararam em frente à mesa e ficaram observando enquanto Henry tentava convencê-las de que era o maior pegador da escola.
— É sério gatinhas, se vocês vierem comigo nunca mais irão se esquecer. – David pôde ouvir o suspiro pesado de uma das líderes de torcida que agora saiam da mesa. – O que foi chuchuzinho? Já vai?
David e Damian jogaram seus corpos pesados nas cadeiras dando a deixa que as outras três garotas imploravam para ir embora também. Henry fuzilou os dois amigos como se eles tivessem interrompido uma missa de sétimo dia.
— Vocês não tem mais o que fazer? – Ele estava indignado. – Se vocês são duas bixas assexuadas, eu não sou ok?
David deu de ombros, como se não desse a mínima para o ataque de pelancas do amigo.
— David não fica atirando para todos os lados como uma metralhadora, como você, mas ainda assim foi convidado para a festa da Stacy pessoalmente.
David virou seu olhar teatralmente pra Damian.
— O que? Ele ia ficar sabendo de qualquer forma!
— Obrigado, seu idiota. – Ele disse afundando a cabeça na mesa.
— Então você já sabe que não será somente uma festa de boas vindas ao ano letivo, não é?
Damian, e David também, olharam com expectativa para o bobalhão com um sorriso triunfante no rosto a sua frente.
Aposto que não sabem de porra nenhuma. Pensou Henry ao observar o olhar especulativo que estava em ambas as faces confusas que o observavam. Ele parou um pouco pegando algo na sua mochila, com uma calma demasiada, colocou um convite na mesa e disse:
— Será uma festa a fantasia, o tema será livre. Parece que a escola inteira vai estar lá.
— Claro, se até você recebeu um convite, é óbvio que a escola toda estará lá.
David ficou calado, apenas observando a pequena discussão dos amigos. Automaticamente uma pergunta se formou em sua mente, e ele se assustou ao perceber que ele havia, realmente, a feito.
— Será que Velkan vai?
Tão automaticamente quanto aquela pergunta, seus amigos se entreolharam e encararam David ao mesmo tempo. Quando ele se deu conta do que havia feito não conseguiu desviar a atenção da conversa.
— Vocês não acham que ela resolveu avisar muito em cima da hora sobre essa festa a fantasia?
Damian e Henry começaram a falar juntos, suas vozes se misturando e formando algo que era impossível decifrar. Eles se calaram e Damian fez um sinal para que Henry prosseguisse.
— Quem é Velkan? – Ele disse com uma expressão confusa, deixando claro que ele ainda não vira a nova aluna. – E porque todo esse interesse nela?
Droga. Eu, minha boca grande e minha imaginação lunática. Foi a única coisa que David conseguiu pensar.
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