As Árvores Trigêmeas
2 Entre as Árvores e o Medo
Notas iniciais
A manhã chegou, e assim que os primeiros raios de luz despontaram no horizonte, a família Volencroft se levantou para as atividades diárias. Cortar lenha, alimentar os animais, lavar roupa e por aí vai. Raphael gostava das manhãs, eram frias e silenciosas e apreciava ouvir o som da madeira partindo sob o machado.
Ás oito horas todos se reuniram à mesa para o desjejum. Havia um pão tão quentinho e macio que a manteiga derretia nele.
– Comam bastante pão, para agüentar o dia – disse Jess, a mãe, em tom amoroso e que não admitia discussão
– Mãe! Hoje eu e o Raphael vamos à floresta – precipitou-se Livie
– Ah, não vamos não, eu não disse que iria. – reclamou o garoto
O sorriso da pequena menina fechou-se e deu lugar a uma expressão triste, com lágrimas nos olhos que ameaçavam cair.
– Ora, pare de ser tão estúpido, moleque! Leve sua irmã para dar uma volta e pronto – ordenou o pai
Assim, sem eira nem beira, Raphael se viu sem escolha teria que levar Livie para onde quisesse. Ele até podia ter uma grande paciência, mas nada lhe tirava mais do sério que as birras da irmã.
– Tudo bem – resmungou contrariado – pegue sua mochila, leve pão, manteiga e seu cantil. E não se esqueça de colocar sapatos confortáveis.

Raphael e Livie, em suas melhores formas de aventureiros, cada um com uma mochila munida de alimentos, cordas e coisas úteis como pederneiras, partiram para as borlas da floresta. Era o início da tarde, o sol estava a pino, fazendo-os suar tanto que os cabelos lhes colavam ao rosto.
– Preste bem atenção, Livie, pois não quero ter que sair como louco procurando você pela mata. Vou amarrar essa corda em volta da sua cintura e amarrá-la em mim. Nunca a solte e nem corra, não vamos a lugar nenhum sozinhos.
– Esta bem, esta bem, você já disse isso várias vezes – retrucou a garotinha contendo um suspiro
Raph vendo a agitação de sua irmã pôs-se a andar. Não tinham muito que ver. Era apenas uma floresta como todas as outras, havia árvores, folhas, algumas pedras aqui e ali, barro e principalmente insetos. Era o que mais os incomodava. Mas por mais inofensiva que aquele monte de verde parecia ser, o pequeno Volencroft não se deixava enganar, sabia que por ali havia animais perigosos, e que a noite podia ser muito assustadora. Aquele lugar já passara por tudo, riquezas, desmatamento, vida, mas principalmente morte. A floresta cheirava a podridão. Tinham que manter os olhos abertos.
Logo Livie se cansou e demonstrou sua impaciência em palavras:
– Aaah. Isso é um tédio, achei que as ruínas do castelo ficassem mais perto. Falta muito para chegar lá? Será mesmo esse o caminho certo? Na verdade, Raph, nós estamos mesmo indo até as Árvores ou você só esta fazendo com que a gente caminhe em voltas pela mata?
– Eu disse que a levaria, é pra lá que estamos indo, tenha paciência – falou o menino.
E de novo o silêncio se instalou, o caminho tornara-se mais acidentado, fazendo com que prestassem mais atenção por onde andavam e após mais uma hora viram as pedras do castelo ao longe. Isso os animou e retomaram a caminhada com nova força.
– Veja! Lá esta o castelo – disse Raphael
– Uaaaau.
A reação dos pequenos era justificada. O castelo mesmo aos pedaços e meio enterrado na lama e no musgo ainda era bem impressionante. As torres haviam caído, as pedras escureceram. Todo o muro havia virado pó, mas o portão de ferro ainda estava lá, resistindo ao tempo. E na frente deles havia as Árvores.
Eram exatamente como nas histórias, só que bem maiores. Eram negras e secas e se postavam uma ao lado da outra, nada em sua volta crescia, era terra negra que as cercava. Parecia que aqueles troncos haviam sugado todo o tipo de vida que existira ali, fosse na terra, no céu ou no castelo.
– Vamos até lá, quero tocá-las! – Livie se esquecendo do que seu irmão dissera no começo da jornada correra a frente arrastando Raphel junto com ela.
– Espere!
Mas a garotinha havia ido muito longe em sua felicidade, e já estava dentro do círculo negro que a terra criava. Esticando a mão em direção ao tronco do meio, Livie a tocou. Um baque surdo pareceu sair da árvore e se esticar por toda a floresta, e junto a ele um grito se tornou audível:
– GRIFFITS! — era uma voz feminina, desesperada de angustia e perversidade.
Os irmãos estacaram, o sorriso desvaneceu dando lugar ao medo, eles sabiam que alguma coisa aconteceu ali e que deviam fugir, mas não conseguiam sair do lugar. Os pássaros se calaram e o vento parou. Estava tudo quieto, mas dava para sentir que algo maléfico os espreitava.
Então um jovem saiu correndo de entre a mata.
– Corram! Se afastem das Árvores.
E com um puxão tirou a mão de Livie do tronco e levou os irmãos para o meio da floresta.
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