As Árvores Trigêmeas
3 Sozinhos e com estranhos
Notas iniciais
Eles corriam como loucos por entre a floresta, não seguiam trilhas, nada. Se perder era inevitável. O garoto desconhecido corria a frente, sabia que ele os salvara, mas para onde estavam indo?
– Parem! – estou cansada reclamou Livie
– Não podemos parar – respondeu entre dentes o rapaz
– Vamos parar – falou Raph em tom que não admitia discussões
Por um momento ninguém falou. Estavam todos tentando recuperar o fôlego perdido. Um sentimento de desconforto e desconfiança pairou sobre o trio. O irmão mais velho perguntou:
– Quem é você?
– Sou Josh. Temos que continuar andando.
Livie em um misto de medo e cansaço começou a choramingar.
– Por quê? Do que estamos fugindo?
– Vocês não têm ideia do que se meteram, não é? – uma fúria tomou o lugar do desespero nos olhos de Josh e então riu, descontroladamente – Vocês estragaram tudo! Todos esse anos mantivemos os espíritos das árvores quietos, e conseguimos, a cidade destruída estava segura. Mas aí, hoje, justo hoje, vocês tinham que aparecer e acabar com a pouca paz que nós conseguimos. Eu devia ter deixado que ela comesse os seus cérebros e palitasse os dentes com suas espinhas!
Diante de tal discurso Livie que já estava aterrorizada não conseguiu conter as lágrimas e se escondeu atrás do irmão agarrando-lhe as roupas e sussurrando baixinho que deviam ir embora. Raph também tinha medo, mas ninguém gritava daquele jeito com a pequena Ly, então disse:
– Nunca, nunca mais fale assim com a minha irmã – seu tom era tão calmo, mas tão cheio de ódio que surpreendeu Josh.
– Vocês não entendem, ela esta solta, de novo.
– Você usou o plural quando disse que mantinham o lugar quieto. Você e mais quem? – perguntou Raphael
O rapaz engoliu em seco, pelo jeito havia falado mais do que devia.
– Eu e os sobreviventes que moravam naquela cidade. Escutem, o castelo não caiu a toa. Temos que continuar andando, vou levá-los a um lugar seguro, então..., então lhes contarei tudo. Devem confiar em mim.
Naquele momento o que Raph menos queria era dar o benefício da dúvida para aquele estranho, mas vendo-se sem saída, sem saber como voltar, se viu obrigado a concordar.
– Que fique claro: não confiamos em você – declarou o irmão pegando a mão de Livie.

A noite chegara e com ela veio a chuva. Depois de andarem por horas dentro da floresta enfim as árvores começaram a minguar dando lugar a um pequeno vilarejo, algumas casas feitas de madeira despontavam aqui e ali. Logo em frente havia um grande portal de madeira onde estava escrito: “Vila Stopfire”
– Chegamos – anunciou Josh – não se percam de mim, isso traria mais problemas.
Raphael nunca desconfiara que havia uma pequena cidade dentro da floresta, e ele como desbravador daquela mata se surpreendeu com que viu. Quanto mais andavam mais casas, lojas e tabernas apareciam. Então um cheiro acre chegou ao nariz dos irmãos Volencroft, que após mais alguns passos descobriram que vinha de um grande estábulo. Livie deixou escapar uma exclamação de seus lábios ao ver tantos cavalos juntos.
Mas passado a surpresa com o local, começaram a reparar nas pessoas, havia muitas delas. A maioria era carrancuda e se vestiam com trapos pesados e esfarrapados, eles os encarava, os reconheciam como forasteiros; alguns estremeciam e se afastavam. Logo Raphael sentiu um grande desconforto dentro de si. Não devíamos estar aqui.
Quando Raph achou que nunca mais parariam de andar Josh estacou em frente a uma grande porta de madeira, havia uma placa com um desenho grosseiro de uma mão apontando que dizia: “Taberna Mão Amiga”. O rapaz virou para as duas crianças e avisou:
– Não olhem para ninguém, não falem com ninguém, e acima de tudo não toquem em nada.
O lugar de amigável não tinha nada além do nome. Era escuro e cheio de gente bêbada, com homens grosseiros e violentos, havia mulheres que andavam de um lado para outro distribuindo um pouco mais do que cerveja. O cheiro era estagnado e rançoso, como se nada fosse lavado há séculos.
Raphael remexendo em sua mochila tirou um longo pedaço de tecido que usou para cobrir os olhos de Livie.
– Não quero que veja isso, e não importa o que escutar não tire a venda nem solte a minha mão – advertiu Raph que recebeu como resposta um silencioso assentimento por parte da irmã.
Josh tomando a frente se sentou em um banco vazio que estava perto do balcão e pediu uma cerveja, quando foi atendido trocou palavras rápidas com o homem que estava enchendo seu copo. O desconhecido era grande e tinha tatuagens por todo o corpo, ele era assustador, olhou para Raphael, que tremeu de medo, e voltou sua atenção para a conversa e então com um grito que fez silenciar o recinto, chamou:
– Marya, venha até aqui, mulher!
Uma mulher magra com os cabelos tingidos de vermelho se aproximou dos dois homens. Raphael se aproximou um pouco para tentar escutar.
– Pois fale logo, Chefe – disse a mulher, Marya, com impaciência
– Leve este rapaz e aquelas duas criança para ver Ducalion, seja rápida, você ainda tem muitos clientes para satisfazer essa noite.
Marya passando uma mão pelo braço de Josh e com uma voz provocante olhando de Raphael para ele disse:
– Quem diria que até mesmo você tem dificuldades de falar com Ducalion. São tempos difíceis, não são? De qualquer forma, vamos, e quem sabe depois você não queira relaxar um pouco?
– Apenas nos leve até ele. – disse Josh friamente.
A moça fez um sinal para que eles a seguissem e assim fizeram. Marya os levou para uma porta nos fundos que estava barrada por um guarda que logo abriu passagem depois de ouvir uma senha, quando chegaram a uma escadaria a mulher parou.
– Daqui vocês vão sozinhos – disse ela, e olhando melhor para Raphael, continuou: — Bem, se esse aí tiver o mesmo destino que todos os outros, então tudo o que posso fazer é lamentar. Ele é bonitinho.
E com uma risada alegre os deixou.
Josh começou a descer as escadas.
– Quem é Ducalion? – perguntou Raphael
– A pessoa que vai contar tudo para vocês. Tenham cuidado, ele é perigoso, mas é o único que me ajudou e sei que pode ajudá-los também.
Raph parou por um instante para tirar a venda dos olhos da irmã e perguntar se ela estava bem.
– Estou bem – respondeu –, mas acho que a mãe e o pai estão preocupados com a gente.
Com certeza estão, pensou o irmão. Onde ele estava com a cabeça quando aceitou ir com Josh para onde quer que fosse? Ele devia ter pensando melhor antes de ter ido com ele, quem sabe que tipo de pessoa era Ducalion, e se fosse um assassino? Com essa ideia na cabeça, resignou-se a descer as escadas, já que estava ali, iria até o fim.
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