As Águas de Veneza
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Antônio estava radiante enquanto andava pelas ruas venezianas com seu Lovino.
Com o passar do tempo e da viagem, o italiano consentiu que dessem as mãos, e apesar de manter o rosto quase sempre virado e corado, o espanhol sabia que ele estava gostando da do passeio.
Uma leve brisa batia nos cabelos castanhos do mais novo fazendo os fios reluzirem na luz do sol quase poente, era nisso que o outro pensava toda vez que olhava para seu companheiro.
Este por outro lado reparava discretamente em como a pele já naturalmente bronzeada de Antônio ganhava tons mais vivos com os raios de sol.
Eles agora tomavam um dos característicos barcos da cidade, o barqueiro por conhecer Antonio de outros pontos abriu um sorriso amigável, este que foi prontamente correspondido pelo outro enquanto subia com Lovino na embarcação.
O italiano estava realmente feliz por tudo aquilo. Antonio havia falado a maior parte do tempo, e se tem uma coisa que o espanhol sabia fazer bem era contar piadas, Lovino tentava a qualquer custo não rir delas, mas a animação de Antonio quase sempre o cativava e era praticamente impossível conter o riso.
Quando subiram no barco, o espanhol sentou do seu lado e Lovino em um reflexo tentou se afastar, mas assim que deu sinal de que iria fazê-lo Antônio segurou sua mão e enlaçou seus dedos. O italiano percebeu o barqueiro dar um suspiro, não sabia se de aprovação ou de irritação, não estava preocupado com isso, no momento a única coisa que havia na sua cabeça eram os dedos de Antonio enlaçados nos seus, no ritmo lento do barco, as luzes dos postes começando a se acender, o reflexo brilhante da água...
Tudo estava tão tranqüilo e bom que Lovino desejou que durasse para sempre.
Mas não fraquejaria, não iria agir como uma menininha colegial e encostar no ombro de Antônio, não perderia o controle de si com a respiração calma do espanhol erissando os pelinhos de seu pescoço, com o corpo dele tão próximo ao seu...
Lovino fechou os olhos e sentiu a brisa tocar sua pele levemente... Não se arrependia de ter trazido a blusa, mas sentiu o outro tremer levemente com o vento inesperadamente gelado.
O italiano abriu os olhos apenas para perceber que haviam chegado á algum lugar, viu Antonio se levantar e pagar o amigo barqueiro, depois esperou-o para que se levantasse tambem. Ambos saíram do barco no bairro no Dorsodoro, o bairro universitário de Veneza.
O Dorsodoro era um bairro que ficava no extremo oposto de Veneza, do outro lado do canal, pelos alugueis serem mais baratos(pra os padrões venezianos) havia muita gente jovem por ali, em especial estudantes estrangeiros e intercambiastas, mas ao mesmo tempo era um bairro tranqüilo, onde se podia achar calma no meio do mar de turistas que andavam por Veneza todos os dias.
Os restaurantes tinham um ar colonial e quase sempre haviam pessoas comendo e se divertido aqui e ali, um lugar eclético, mas ao mesmo tempo tradicional em Veneza.
Era fim de tarde e ainda haviam alguns ateiês abertos, os restaurantes e bares estavam cheios de gente jovem, mas tranqüila, artistas, músicos, escultores, todos eles se reuniam naquele lugar para tomar um Martini no fim do dia.
A brisa fria soprava suave, e isso era o suficiente para fazer Antonio, acostumado com o calor desde pequeno, tremer e se arrepiar.
Lovino percebendo o desconforto do outro tirou sua blusa de seda e com o rosto corado a estendeu para o outro.
–Toma! A última coisa que quero é gente doente do meu lado! Tsc
Antonio ficou confuso e empurrou a blusa de volta
–Não, não preciso, não estou com frio...
–Está sim! Acha que sou cego? Você fica aí todo arrepiado na primeira brisinha que passa! Pegue essa droga de blusa e pare de reclamar.
–Mas...
–Nada de mas... Tô! – E literalmente jogou a blusa de seda na cara do espanhol.
O outro não teve outra opção se não vesti-la, e se por um lado a blusa ficava um pouco folgada no italiano, em Antonio a camisa ficou justinha... Não esquentava muito também, porém este era de fato um gesto muito bonito da parte de Lovino.
Aproveitando a deixa do italiano, Antonio sorriu carinhoso e abraçou o menor que começou a fazer um escândalo.
–Me solta maldito! Quem você acha que é para ficar me abraçando assim?
– Eu sou o seu chefe! – Respondeu o espanhol em um tom brincalhão – E você fará tudo o que eu quero!
–Eu não preciso de um chefe tão bobão como você!
–Precisa sim! Se eu te soltar você vai ficar doente... O chefe não quer ver você doente.
–Me solta!
Antonio vendo que não haveria outro jeito se aproximou mais do outro e murmurou em seu ouvido “Eu me preocupo muito com você, não quero te ver mal”. Então Lovino murchou, parou de gritar e de se debater, ele apenas ficou olhando para um ponto fixo da camiseta de Antonio enquanto esse o abraçava mais forte.
–E-e-e-e E como vamos andar? – Lovino perguntou depois de alguns segundos.
O espanhol já esperava essa pergunta e soltando o outro do abraço, apenas o enlaçou pela cintura para mante-lo próximo.
–Assim. Está bom?
Lovino maneou a cabeça ainda muito corado.
“Que fofo...”
Pensava Antonio enquanto eles subiam juntos as estreitas ruas de pedra.
XXX
Antonio e Lovino continuaram andando assim pelo bairro, tudo era extremamente bonito e bem arrumado. Aos pouco a paisagem foi mudando, os ateliês e pequenas lojinhas foram se fechando, e os restaurantes começaram a receber mais clientes para a hora do jantar. O ar se encheu com um cheiro de comida recém-preparada e a barriga de Antonio começou a roncar e a fazer um barulho muito estranho.
Lovino o olhou com as sobrancelhas franzidas enquanto este cocçava a nuca um pouco rubro.
–Podíamos comer em algum lugar – Sugeriu o espanhol
Lovino concordou, também estava com bastante fome, mesmo que não aparentasse isso.
Ambos entraram no primeiro restaurante que encontraram pelo caminho, um tal de “La Madre”. O ambiente era bem familiar e havia alguns casais e famílias jantando aqui e ali, o casal se sentou em uma mesa mais afastada e esperou um pouco. Podia-se notar que de algum lugar do estabelecimento alguém estava tocando um sanfona com musicas calmas e tipicamente italianas. Em alguns minutos uma garçonete de longos cabelos loiros, quase prateados veio atende-los, ela não parecia estar de muito bom humor.
–O que vão pedir? – Perguntou ela em um tom rude. Nenhum dos dois havia olhado o cardápio e se decidido, contudo a moça não estava com cara de quem gosta de ficar esperando.
Romano foi o primeiro a pedir.
–Que um prato de pasta.
A garçonete anotou no bloquinho
–Que tipo de pasta?
Lovino parecia um pouco confuso com a pergunta e abriu a boca para perguntar...Mas antes que disesse alguma coisa, a moça virou a página do cardápio com a sutileza de um elefante, depois sorriu com ironia voltou a posição austera e irritadiça. Na pagina em questão havia pelo menos 20 tipos de massas e acompanhamentos, Lovino ficou um tanto perdido.
–Anh... Vou querer um desse – E apontou para o primeiro nome da lista.
A moça deu uma olhadela e anotou o nome do pedido, depois se virou para Antonio que estava tentando permanecer sério diante daquela situação.
–E você? Já escolheu?
–Vou querer o mesmo dele.
A garçonete anotou no bloquinho e antes que fosse embora Antonio a chamou.
–Ah...Natalia, certo?- Ele leu no crachá- Será que você não pode trazer os dois pratos em um prato só?
–Porção única?
–Sim! – Confirmou Antonio.
Lovino franziu o cenho
–Pra quê?
–Ora... Assim fica melhor...
O cérebro de Lovino se pôs a pensar, onde já tinha visto alguma coisa assim... Ah!
–Se está pensando que vou dar uma de “A dama e o vagabundo” com você, pode ir tirando cavalinho da chuva!
–Mas Lovino... Eu posso ser o vagabundo..
–E eu lá tenho cara de dama? – O italiano emburrou e cruzou os braços.
A garçonete rolou os olhos e perguntou com um tom monótono
–Vocês vão querer porção única ou não?
Lovino olhou cheio de fúria contida para Antonio e esse consentiu.
– Não... – Respondeu com um pouco de mágoa
–Certo. E as bebidas?
Antes mesmo de mencionar a palavra, Lovino já havia aberto o catálogo de vinhos, e enquanto o espanhol tentava encontrar alguma coisa barata sobre o olhar assustador da garçonete, o italiano se virou para a moça e pediu:
–Um vinho do catálogo, número 327.
A moça levantou uma sobrecelha para o pequeno italiano e olhou de esguelha para o espanhol, pela primeira vez naquela noite a garçonete sorriu de verdade, mas não era um sorriso alegre, muito pelo contrário, o sorriso daquela mulher era uma mistura perigosa de ironia com aprovação, mas de qualquer forma, ela anotou os pedidos e foi sorrindo e cantarolado para a cozinha.
Antonio observou toda a cena curioso e no instante seguinte em que a garçonete sumiu de vista abriu o cardápio, ao chegar ao catálogo de vinhos quase viu seu coração sair pela boca, Lovino havia pedido simplesmente um dos vinhos mais caros do catálogo.
XXX
Antonio ainda estava pasmo com o italiano.
– E-eu não tenho tanto dinheiro assim. Como vou pagar a conta?
Lovino que até o momento estava com os olhos perdidos em algum ponto da toalha de mesa os levantou com uma imensa tranqüilidade.
–Eu nunca disse que você devia pagar a conta, SOZINHO. – E apoiou a mão direita no queixo
–Mas é o mínimo! Estamos em um encontro!
Toda a aura de tranqüilidade que cercava Lovino desapareceu como em um passe de mágica, suas bochechas adquiriram um tom róseo
–Não estamos em um encontro! E-eu posso pagar sozinho!
Ali estava uma das grandes contradições da vida de Lovino. Apesar de morar em um apartamento com pelo menos 30 anos de idade, de trabalhar em uma tapeçaria, e em dias de semana só comer na faculdade (porque era de graça). O italiano não fazia economia quando se tratava de impressionar alguém, por causa dos inúmeros livros deixados por seu avô, Lovino ganhara um conhecimento incomum sobre vinhos, e apesar de não manter freqüência, o italiano muitas vezes comprava uma ou outra garrafa mais caras no mercado para presentear seu irmão.
Não seria diferente com Antônio, naquele jantar ele mostraria todas as suas boas maneiras e seu jeito gourmet.
“Isso com certeza vai impressiona-lo” “Só não posso exagerar no orçamento” – lembrou o seu lado racional.
Dois minutos depois aparecia um outro garçom, este por sua vez emanava um aura um pouco tímida e contida, bem diferente da garçonete anterior, ele tinha os cabelos castanhos um pouco cumpridos e mantinha-os presos em um pequeno rabo, nos seus lábios permanecia um sorriso simples e amigável.
Em suas mãos ele trazia duas taças de cristal e a garrafa com uma etiqueta branca, e com toda a pompa necessária o homem deixou que Lovino abrisse a garrafa (Antonio não quis fazê-lo por medo de estourar), e cheirasse a rolha (coisa que Lovino fez só para parecer mais gourmet, visto que não entendia o porquê daquele gesto). Só então o garçom os serviu, deixando a garrafa descansando em cima de um apoio na mesa.
Lovino tomou um pequeno gole do vinho e esboçou um sorriso para Antonio, indicando que ele também podia beber. O espanhol aproximou a taça dos lábios e também bebericou, ao afasta-la abriu um sorriso para outro ao mesmo tempo em que soltava uma exclamação de contentamento.
–È muito gostoso! Você já tinha tomado desse vinho antes?
–Na verdade não... Foi uma recomendação de amigos... – Era uma mentira, Lovino havia namorado a garrafa desse vinho por longos minutos no mercado na semana anterior, mas devido ao preço nunca tivera a coragem de comprar.
“Para quê se vou beber sozinho?”
–Sei... – Respondeu o outro – Você tem amigos com bom gosto.
E então os dois começaram verdadeiramente uma conversa. Lovino estava mais tranqüilo e fazia de tudo para manter a calma, apesar do espanhol nunca perder a chance de fazer perguntas “embaraçosas”.
Antonio por sua vez, estava gostando do rumo em que as coisas estavam levando, Lovino estava mais falante e alegre, e mesmo que as vezes ficasse inesperadamente vermelho com alguma pergunta sua, logo voltava ao normal...
Apesar de estar falando bastante Antonio quase não bebia o vinho, não porque não apreciara a escolha do companheiro, mas porque toda vez que tentava levar a taça aos lábios sentia um remorso imenso por fazer o italiano pagar aquele vinho absurdamente caro, no final das contas acabava pousando o copo na mesa e dizendo “Vou esperar pela comida”
O outro dava os ombros.
Logo a comida veio, e para desespero de Lovino, a garçonete de antes foi quem apareceu para servi-los. O sorriso macabro em seu rosto fora desfeito e agora ela andava por entre as mesas com uma expressão de tédio.
–Aqui – Disse ela ao se aproximar da mesa. E com um sorriso tipicamente falso colocou os pratos na mesa. Logo depois tirou de dentro do bolso de seu avental os talheres enrolados em um saquinho plástico, colocou cada par do lado de um prato e saiu.
Mal a garçonete havia se virado, Lovino pegou um guardanapo grande propositalmente colocado no centro da mesa e pendurou na gola da blusa, depois tirou os talheres do saquinho e no mesmo momento colocou a faca de volta. Antonio ficou olhando para o italiano com certa curiosidade.
Lovino não percebeu o olhar do outro e levantou a mão, quando um outro garçom veio atende-lo (este loiro e bastante baixinho) lhe pediu uma colher de sopa. O garçom concordou com a cabeça com quem já estava muito acostumando com esse tipo de pedido, e tirou de dentro de seu avental uma colher embalada em plastiquinho.
Lovino agradeceu e só depois de retirar o plastico da colher é que percebeu o olhar do outro.
–O que? – Perguntou um tanto desconcertado por toda a atenção de Antonio lhe dirigia.
–Nada.
–Então porque fica com essa cara de bunda?
Antonio abriu um sorriso com a sinceridade do italiano.
–Eu nunca vi ninguém comer macarrão com colher
–Então nunca jantou com um italiano.
–É verdade. Você é o primeiro – Respondeu o espanhol olhando diretamente nos olhos de Lovino. Este por sua vez desviou o olhar e enfiou uma grande quantidade de macarrão na boca, era uma tentativa vã de disfarçar o rubor.
“Que fofo”
Antonio sorriu mais uma vez e começou a comer seu prato também.
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