Artimanha da Discrição
2 ✿ 2. Atos inconscientes.
Notas iniciais

Quando assistimos um filme de ação e percebemos o quão insano e impossível as cenas são a cada minuto que se passa, acabamos concluindo que: “Isso é impossível até mesmo para Bruce Lee”. Afinal, quem é o idiota que caminha serenamente com uma explosão ocorrendo logo atrás? Bem, ninguém é tão estúpido a chegar neste ponto.
Isso se chama reconhecimento de limites. Todos nós temos mesmo que o mínimo de sanidade. Os que acabam não percebendo que o limite já foi alcançado, acabam entrando num próprio filme de ação. E, bem, eu nunca fui fã desse gênero. Talvez uma comédia ou até mesmo drama. Pois bem, não gosto de carros explodindo.
Uma pessoa que não sabe o significado de sanidade? Natsu Dragneel.
— Lucy, pé na tábua! — Ele gritou em meu ouvido.
Num ato inconsciente, pisei no acelerador, dirigindo para sabe-lá-onde. O que eu estava pensando quando cheguei no nível de fazer algo que o ruivo havia mandado?
Bem, eu definitivamente tinha chego em meu limite.
— Natsu Dragneel, me explica o que tá acontecendo — fiz uma pausa, esperando sua resposta, todavia fui ignorada, e, de relance, notei que ele olhava para trás, a procura de algo —, AGORA.
Ele gargalhou. Pelo menos um de nós estava se divertindo com toda essa situação. Girei o volante, virando à esquerda.
Para onde eu estava indo? Não fazia ideia.
— Resumindo, irritei uns caras — consegui enxergar o sorriso no rosto dele. — Aliás, doçura, pode dirigir mais rápido?
Mostrei o dedo do meio para ele com uma das mãos livres enquanto olhava a rua, tentando fugir do trânsito e entrando em todas as curvas com o asfalto vazio. Ainda não compreendia direito do que estava fugindo e nem o porquê, no entanto, lá estava eu, não é mesmo?
— Eu não deveria seguir o conselho da minha mãe sobre “colocar a família em primeiro lugar” — falei, demonstrando o quão nervosa eu estava diante àquela situação.
— Sinceramente, eu não me importo de ter uma prima como você em primeiro lugar na minha vida — desviei meu olhar da rua para encará-lo. Ele sorria maliciosamente. Antes que pudesse protestar e xingá-lo, ele gritou. — Olha pra rua, sua retardada!
Bufei e voltei a dirigir. Pelo o retrovisor pude ver dois carros atrás de nós, e senti um arrepio na espinha. Estava com receio sobre o que iria acontecer. Na velocidade que estávamos, eu poderia ser multada ou até mesmo bater o carro — mal tinha ficado com ele por um dia e já ia perdê-lo (ou não, talvez eu levasse a sorte) —, mas estava mais preocupada com o que iria acontecer conosco caso os “amigos” de Natsu nos alcançassem.
Definitivamente, de qualquer jeito, estávamos fudidos.
— Você é um babaca, sabe disso, não sabe? — Murmurei, baixo suficiente para que ele não pudesse me escutar.
— Querida, se for para você dirigir tão devagar, vamos ficar dando a volta no quarteirão a noite inteira — Natsu disse, grosseiro. Eu sabia que ele tinha me ouvido – ele sempre ouvia. Sua audição era um dos pontos positivos que me irritavam no ruivo. — E, se esse for o caso, me passe o volante.
— Nem fodendo que eu deixo você dirigir o meu carro novo — respondi, ríspida.
Novamente, ele soltou uma gargalhada, como se estivesse se divertindo com a situação. No momento, tudo que eu queria era parar, chutá-lo para fora do veículo e voltar para minha casa, como se tudo aquilo nunca tivesse acontecido.
De repente, senti o meu celular vibrar no meu bolso.
Puta merda!
O ruivo, sem permissão, pegou o celular e me encarou.
— Ei! — Exclamei.
— Quer que eu atenda? Pode ser seu namoradinho — eram incontáveis as vezes em que Natsu estampava aquele sorriso sarcástico em seu rosto. Mostrei-lhe a língua e tomei o celular de sua mão.
— Você não disse que queria dirigir? Agora segura essa merda de volante — exigi, segurando suas mãos colocando-as sobre o volante.
Ele tentou protestar, todavia, botei minha mão em seus lábios, impedindo-o de dizer alguma palavra além de resmungos. Atendi o telefone.
— Oooi mãe! — Cumprimentei, soando o mais falsa possível. Pude perceber que, nos resmungos de Natsu, ele disse algo como “E aí tia”.
— Lucy, meu amor, onde você está? — Layla indagou, preocupada.
— Ah, sabe como é o trânsito, né? Cada vez pior — soltei uma risada nervosa, tentando ao máximo enganar ela. Senti minha mão ficar úmida, e percebi que Natsu estava lambendo minha pele. Soltei um grito.
— Filha? O que está acontecendo?
— Mãe! Nada demais, é que está tocando minha música preferida no rádio, nossa!
Limpei minha mão suja de saliva na camisa de Natsu, enquanto ele girava o volante, virando à esquerda. Bati em sua cabeça, sussurrando: “Era pra direita, seu pedaço de merda”.
— Certo... Então. Você vai demorar? Eu tenho novidades maravilhosas que você vai amar! — Podia ver a cena da minha mãe sorrindo, exaltando felicidade e dando pulinhos de alegria com essa tal notícia. Revirei os olhos.
— Talvez, não sei ao certo. Puts, olha só, o semáforo abriu. Tenho que desligar, mãe!
— Mas, Lucy...!
— Tchau, nos vemos no jantar! Te amo muito — e desliguei, sem lhe dar a chance de falar.
Empurrei as mãos de meu primo para longe do volante e tomei o controle da direção. Natsu olhava para trás, vendo se tínhamos despistado dos carros. E, de alguma forma, ele acabou dizendo que sim, eles haviam nos perdido. Soltei um suspiro de vitória e diminui a velocidade do carro.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Ah, o glorioso som do nada, onde não havia a voz sarcástica de Natsu Dragneel incomodando meus tímpanos. Mas, infelizmente, este momento de tanta paz em minha vida foi quebrando em mil pedaços após um comentário desnecessário:
— Você é uma grossa com a tia Layla.
Bufei.
— É tudo culpa sua, seu retardado!
— Minha culpa?!
— Sim, sua culpa! — Elevei minha voz. — Se você não tivesse entrado na merda do meu carro, provavelmente eu não teria mentido para a minha mãe, quase ter perdido o minha carteira de motorista, e agora não estaria...!
— Espere, fique quieta. — Colocou o dedo indicador sobre meus lábios.
— O que foi?
Senti que o carro estava perdendo a velocidade. O som de algo solto debaixo de nossos pés tomou conta do ambiente.
Caralho.
E então, o parei o carro.
Fiquei quieta, olhando a rua, paralisada.
— Lucy, você está bem?
O fitei.
— Eu vou te matar.
✿
No inverno, escurecia mais cedo. Podia se notar pelo o fato de ser quase seis da tarde e o sol estar quase se pondo no horizonte. Não me importava muito, gostava mais da noite do que o dia — por mais que eu fosse mais fã de verão, onde anoitecia mais tarde.
Todavia, neste horário, tudo se tornava mais perigoso. Estávamos já dentro do Brooklyn, ou seja: sim, eu poderia ser estuprada ou violentada a qualquer momento. Mesmo que não estivesse usando roupas tão sugestivas — porque, obviamente, eu não iria usar um biquíni numa temperatura de quase 10°C.
“Mas você está com seu primo, nada vai te acontecer.”
Amigo, se um estuprador surgisse no meu lado, Natsu provavelmente iria me entregar nas mãos do homem e dizer “Pegue, é toda sua”. Bem, pelo menos, era essa a visão que eu tinha sobre o ruivo. Desde nossa infância, ele me colocava nas piores situações, estas sendo como pôr a culpa em mim sobre certas ocasiões — como quando ele quebrara o vaso de sua mãe.
— Certo, já descobriu o que aconteceu? — Indaguei, encostada no carro. O capô estava aberto e Natsu tentava encontrar o problema.
— Olhe, não tenho tanta certeza, mas tenho uma ideia — respondeu, mostrando seu rosto sujo de poeira.
— E você pode consertar?
Ficou em silêncio, me encarando.
— Lucy, sei que sou um prodígio, mas por acaso tenho cara de mecânico? — Disse, sarcástico. Revirei os olhos, ignorando o comentário desnecessário. — Você conhece algum?
Botei a mão no queixo, pensativa.
Bem, tinha Gajeel. Um delinquente que fazia aula de química comigo — ou melhor, ele estava na mesma turma, no entanto, nunca frequentava as aulas —, mas também um mecânico com experiência em carros. Felizmente, a oficina ficava perto, possivelmente o carro sobreviveria até chegarmos lá. Talvez ele pudesse ser minha única salvação.
— Sim, mas não sei se ele vai me ajudar — suspirei. — Não tenho dinheiro suficiente para pagar o concerto.
— E não tem uma maneira de, sei lá, subornar ele? — O ruivo perguntou, cruzando os braços.
Pensei no dia em que eu passava pelos alunos de química e entregava os exames com suas respectivas notas. No canto da mesa de Gajeel, em letra mal feita, o nome “Levy” estava escrito.
Sim, era bem possível que um brutamontes daquele pudesse estar tendo uma quedinha pela a minha melhor amiga.
Sorri, cínica.
— Pare de sorrir assim, você me dá medo — o ruivo cortou meus pensamentos sobre maneiras de chantagear Gajeel. — Sua estranha. — Mostrou a língua e entrou no carro.
Revirei os olhos e andei em direção à porta do motorista. Estava incerta se o carro iria ao menos funcionar até o meu destino — a oficina da família Redfox ficava, felizmente, duas quadras de distância de onde estávamos. Era perto, no entanto, para um veículo com tendência a parar de funcionar a qualquer momento, era o mesmo que viajar dos Estados Unidos até a Argentina — talvez nem tanto assim, mas deixe-me ser dramática.
Sentei-me no banco do motorista enquanto Natsu já estava dentro do carro, mexendo em seu celular. Ele era sensível ao frio desde pequeno, portanto, estava tremendo e suas bochechas permaneceriam rosadas por um tempo.
O ruivo desviou o olhar do celular para me encarar.
— Quer que eu dirija? Você não parece estar muito bem.
Ergui uma sobrancelha.
— Pfff. Já falei, senhor, você não dirige meu carro nem se pagar. E eu estou ótima, muito obrigada. — Respondi, encaixando a chave na ignição.
Mentirosa. Na verdade, estava um pouco receosa de dirigir um carro que poderia terminar explodindo na próxima quadra — novamente, meu momento dramático. — No entanto, jamais deixaria Natsu tocar um dedo nos volantes do meu veículo.
No fim, chegamos são e salvos. Soltei o ar, como se durante todo o percurso — que durou, literalmente, cinco minutos — eu não tivesse respirado.
Ambos descemos do carro e fitamos a oficina. Pela a aparência, o lugar não parecia ser confiável, mas eu ao menos conhecia os donos, então estava tudo bem.
Estava, não estava?
É, estava.
O lugar não era muito grande e não haviam muitos carros. Na verdade, nem ao menos tinham pessoas — a se julgar pelo o horário, pelo menos, deveria ter. Natsu e eu nos entreolhamos no mesmo momento em que ouvimos um ruído e, logo em seguida, gritos. Duas vozes masculinas ecoavam pela a mecânica, e, por um momento, pensei em sair correndo.
Mudei de ideia quando uma figura alta surgiu de uma porta. Era Gajeel, um rapaz com aparência assustadora e cabelos negros compridos. Vestia bermuda e uma regata branca suja — um pouco estranho, já que a temperatura era de 10°C.
— O que estão fazendo aqui? Estamos fechando.
— Gajeel, meu carro está com um problema e preciso da sua ajuda — fui direta, apontando para o veículo.
— Ei, não fale comigo como se me conhecesse, garota — me interrompeu, sinalizando com a mão para que eu parasse de falar.
— Na verdade, nós nos conhecemos. Você faz aula de química comigo, lembra? — Ironizei. — E seu pai vive na floricultura da minha mãe. Então, sim, nós meio que não somos tão desconhecidos.
Para esclarecer a situação: o Sr. Redfox — vulgo, pai de Gajeel — era um namorador de primeira. Desde que sua esposa havia morrido, ele tinha mudado completamente seu estilo de vida, e vivia a procura de uma mulher perfeita que pudesse satisfazer suas fantasias românticas. Então, pelo menos cinco vezes por semana, Sr. Redfox visitava a floricultura de minha mãe para comprar flores.
Bem, era isso que Layla me dizia, pelo menos.
O moreno bufou e revirou os olhos.
— Ainda assim, não faço serviço de graça. — Falou, ríspido.
Sorri.
— É uma pena. Eu ia pedir para Levy vir buscar meu carro quando estivesse pronto, mas creio que isso não vai ser possível, vai?
Gajeel arregalou os olhos e coçou a nuca, irritado.
— Espertinha. Ok, loira, você venceu.
Olhei para Natsu, que parecia se segurar para não rir com a situação.
✿
No fim, voltei para a minha casa à pé. Meu primo permanecia ao meu lado, como um chiclete grudado no sapato, mas preferi não falar sobre isso. Permanecemos o caminho inteiro em silêncio.
Em mais ou menos vinte minutos, caminhando depressa no clima frio do Brooklyn com o cuidado para não ser estuprada ou roubada, finalmente, eu estava em casa. Ou melhor, na frente do pequeno prédio onde eu morava.
Encarei Natsu, que estava ao meu lado com as mãos nos bolsos.
— Pode ir embora agora.
— Ir embora? Você está louca? — Indagou, andando em direção às escadas que dava à porta. — Até onde eu sei, seus pais são meus tios. Não os vejo há anos e quero ao menos dizer oi. — Ergueu uma sobrancelha. — Não sou um grosso como você.
Franzi o cenho, sentindo que iria explodir a qualquer momento.
— Quer saber? Vai tomar no seu cu! Você me faz dirigir por quarteirões por um motivo retardado, quase me fez morrer, e, ainda por cima, agora, meu carro está quebrado por sua causa! — Me aproximei dele, pronta para estapear sua cara. — Qual é o seu problema, Natsu Dragneel?
— O meu problema? Você que está gritando feito uma taquara rachada histérica!
— Eu quero mais é que você enfie a taquara rachada no...!
Antes que eu pudesse terminar a minha fala inadequada, notei que alguém chamava meu nome. Olhei para cima, a janela do terceiro andar — mais especificamente, a janela do meu quarto — estava aberta, e lá uma bela moça de cabelos loiros olhava em minha direção.
— Lucy, meu amor! Está tudo bem? Com quem você está falando?
Forcei um sorriso.
— Com ninguém, mãe! Já estou subindo!
— Natsu, é você, querido?
O encarei e ele sorriu, cínico.
— Sim, sou eu, tia! — O ruivo respondeu, mantendo o sorriso em seu rosto. Eu tinha vontade de quebrar todos aqueles dentes brancos com minhas próprias mãos.
Ela nos mandou subir pois estava frio, e Natsu mostrou a língua para mim, demonstrando que ele tinha vencido nossa discussão e que era um garoto infantil e havia parado de crescer racionalmente por volta dos oito anos de idade.
O apartamento estava quente, e o cheiro de comida invadiu minhas narinas. Estava com fome e mal esperava para jantar. Antes que eu pudesse cumprimentar minha mãe, Natsu a abraçou e ela retribuiu.
— Que saudades, Natsu! Você está bem? Com fome? Eu acabei de terminar a janta, se quiser. Ah! E seus pais?
Esse era um dos defeitos de Layla: falar pelos cotovelos. No entanto, o ruivo sorria, sem se importar com as bilhões de perguntas que a mais velha lhe fazia. Os dois realmente se davam muito bem, e, claro, desde pequena eu tinha muito ciúmes de minha mãe. Mas, no momento, estava com fome demais para sentir qualquer resquício de ciúmes. Revirei os olhos e sentei-me na mesa de jantar, enquanto os dois conversavam sobre a vida maravilhosa que tinha Natsu Dragneel.
Fiquei assim por alguns minutos, inquieta. Batia meu pé no chão como se esperasse alguma coisa — e, realmente, eu estava esperando. Layla não pareceu notar, além de ser lerda, estava animada demais com a conversa, óbvio que não ia prestar atenção em sua própria filha. Todavia, o ruivo percebeu minha impaciência, e mostrou-me a língua novamente, como uma criança pequena.
— Mãe? — Interrompi a loira, que falava algo sobre como estava sua floricultura. — Você disse que tinha algo para me contar no telefone.
Ela fez uma expressão, como se tivesse lembrado de algo.
— Sim! Ainda bem que me lembrou! — Colocou uma panela em cima da mesa, a qual estava cheia de sopa. — Espero que não tenha nada agendado para sábado, pois vamos para a casa dos seus tios comemorar a volta deles para Nova Iorque!
Meu mundo parou.
Natsu ria, contente com a notícia, enquanto Layla tinha um sorriso de orelha a orelha. Não sabia muito bem como reagir diante as notícias: desde o início, ainda tinha um pouco de esperança de que a família Dragneel fosse ficar nos Estados Unidos durante as férias — ou, por sorte, somente uma semana —, mas, pelo o visto, eu estava enganada. Eles iriam ficar por muito mais tempo do que eu imaginava — possivelmente, iriam passar a morar em Nova Iorque.
Ah, como queria colocar todos eles dentro de um avião e manda-los de volta para a França.
O jantar passou-se voando. Finalmente eu tinha algo no estômago, no entanto, estava com ânsia de vômito. O que eu mais queria fazer era deitar em minha cama e ficar lá por meses, talvez anos. Pensava seriamente em começar o processo de hibernação.
O ruivo me fitou, com seu olhar cínico. Seus lábios moviam sem formar som, todavia, ele dava a intenção de dizer “Estou de volta, loira”.
Deus, como eu queria me jogar pela a janela.
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