Arret - A Ordem dos Templários
5 Capitulo IV - A Floresta de Sangue
"A Floresta de Sangue"
Amanhece o dia, Alissa ainda estava deitada na cama quando o sol bate em seus olhos fazendo-a acordar. Ela senta-se e olha o quarto, a maioria das outras candidatas já havia saído dali, estavam apenas Iris e Irelia sentadas conversando na cama da frente e mais outras duas na ponta do quarto.
— Bom dia Alissa. — Diz Iris.
— Você dormiu bastante. — Concorda Irelia.
— Porque vocês não me acordaram? — Pergunta Alissa.
— Uma templária veio aqui pela manhã e disse que os testes atrasariam um pouco, então achamos melhor deixar você descansar mais. — Iris explica.
— Obrigado. Fora isso, alguma outra novidade? — Pergunta Alissa.
— Não que eu me lembre. — Responde Irelia.
— Já viram Bartolomeu e Lucian hoje? — Ela pergunta novamente.
— Lucian estava no pátio, ele disse que também não acordaria o Bartolomeu.
— Entendi...
— Mas vamos, troque de roupa. — Apressa Irelia.
Alissa se levanta, troca suas roupas e vai até o banheiro se aprontar para o início do dia. Enquanto isso Iris, Irelia, Bartolomeu e Lucian se encontram na parte baixa do alojamento para o café da manha. Uma mesa grande, cercada por um banco longo em cada lado, servia os candidatos com um café da manhã simples, Pão, leite e uma maçã.
— Olá, Bom dia — Diz Bartolomeu.
— Bom dia meninas. — Lucian.
— Prontos para os próximos testes? — Irelia pergunta.
— Com certeza, já estou bem recuperado. — Bartolomeu.
— Eu quase não durmo de ansiedade. Mas cadê a Alissa? — Lucian.
— Acabou a hibernação. — Zomba Iris, apontando discretamente á ela.
— Eu já fiquei sabendo que o Bartolomeu também estava dormindo. — Diz Alissa, caçoando para disfarçar a vergonha que estava sentindo.
— Mas eu estou aqui faz tempo. — Responde Bartolomeu sorrindo.
— Mas eu que fui te acordar. — Zomba Lucian.
— O que acham que será o teste hoje? — Diz Alissa, mordendo uma maçã.
— Não faço a menor ideia. — Iris responde.
— Talvez matar um Dragão... — Bartolomeu com seus gestos exagerados.
— Cala boca, dragões estão extintos há séculos. — Diz Iris rindo dele.
— Então porque todas aquelas armaduras no pátio? — Pergunta Bartolomeu.
— Verdade, eu também notei. São muitas. — Alissa concorda.
— Ouvi boatos de que algum teste passado será feito novamente. — Iris.
— Verdade! O teste que o filho do Sr. Salazar fez 97 pontos na aprovação! — Diz Irelia com os olhos brilhando.
— Como você sabe tudo isso? — Alissa pergunta.
— Eu estudo pequenina... Eu estudo... — Explica Irelia zombando. Todos terminam de comer e se dirigem ao pátio. Alguns minutos depois um paladino se apresenta a eles.
— Bom dia. Eu sou Salomon Drake, Paladino General da divisão três e este é o capitão Alexander Salazar, como vocês já conhecem. — Salomon aponta na direção de Alexander. — O motivo dele estar aqui é bem simples... Dois anos atrás foi realizado um teste para novos templários e ele, Alexander Salazar, passou nos testes com 97 pontos de aprovação, porém um teste chamou a atenção da ordem e resolvemos repeti-lo este ano. O teste da floresta de sangue... Sr. Salazar explique á eles como funcionará. — O Paladino se cala. Salomon era um homem de cabelos pretos curtos e não tinha barba, era muito mais serio que o Sr. Hindra e não gesticulava enquanto falava, sempre fazia seus pronunciamentos com as mãos para trás.
— Primeiro vocês escolherão armas e armaduras, de acordo com o que foi ensinado pelo capitão Aldrey no teste passado, depois, partiremos em direção á floresta de sangue. Chegando lá passaremos mais instruções... Mas não se esqueçam de que o teste já começou. — Explica Alexander.
Todos escolhem suas armas e armaduras e entram nas carroças que se dirigem ao local dos testes. Em frente á floresta, Salomon se posiciona e começa as primeiras explicações:
— Esta é a floresta de sangue, não se enganem pensando que o nome dela é somente pela cor. Ali dentro existem varias espécies de animais, alguns comuns, outros bem agressivos, porém, existem animais míticos também. Minotauros, Harpías, Trolls, entre outros. É comum que vocês deem de cara com estes tipos de feras quando estiverem ali dentro, portanto, cuidado. Muitas mortes já ocorreram aqui e até mesmo Templários mais experientes evitam entrar nesta floresta. Mas, não vem ao caso. — Ele para sua fala e sinaliza para Alexander ao seu lado.
— Ao Norte, seguindo mais algumas milhas, existe um vilarejo muito pobre, pessoas passando fome, sofrendo e morrendo sem a ajuda de ninguém. Nós da Ordem dos Templários, também fazemos um tipo de serviço de ajuda aos vilarejos arredores. Nas provas passadas foram avaliadas a velocidade de vocês, a diplomacia, habilidade de combate e a capacidade de resolver problemas em conjunto. Este teste, no entanto, avaliará sua Determinação, Habilidade em campo e o quanto podem ser bondosos. — Finaliza Alexander.
Os candidatos se olham sem entender. Concordavam que realmente aquilo foi avaliado, mas bondade? Como se avalia a bondade de alguém?
— Escolheram seus equipamentos? — Pergunta Alexander.
— Sim... Sim... Já... Sim... — Todos respondem.
— Os times do primeiro teste serão mantidos, mesmo os que ficaram com menos candidatos. Vocês entrarão na floresta com o mesmo grupo, porém este teste é individual, ou seja, se ao final do teste só um do grupo chegar ao ponto definido. Somente ele será aprovado. Dúvidas? — Alexander continua.
— Não senhor.
— O teste é o seguinte: Vocês passarão três dias dentro da floresta, caçando e coletando o máximo de alimentos possível. No quarto dia, do amanhecer ao pôr do sol, eu e o Sr. Salomon estaremos aguardando ao Leste no fim da floresta, depois da ponte, com uma balança. Lá será pesado e avaliado todo tipo de alimentos que vocês levarem, este alimento será parte vendido e parte doado ao vilarejo pobre como ajuda. Dúvidas?
— Ah agora entendi o ato de bondade. — Resmunga Bartolomeu.
— Eles acham que eu acredito nisso? — Pergunta Lucian.
— Quietos! — Alissa briga com os dois.
— Nas carroças que vocês vieram existe uma espécie de “carrinho” onde vocês poderão transportar os alimentos. Peguem os seus e podem seguir em direção á floresta. — Alexander continua a explicação.
Todos pegam os carrinhos, era uma espécie de carroça muito menor, feita para ser puxada com as mãos. Quando os candidatos estavam indo em direção á floresta o Sr. Salomon os interrompe:
— No entanto, duas regras foram mudadas. Primeira, aquele que trouxer um item raro de alguma fera mítica terá seus pontos dobrados na hora da pesagem e avaliação.
— Como assim senhor? — Perguntou Irelia.
— Caso alguém tenha a audácia de trazer penas de um grifo ou de harpia, o tacape de um troll, itens do tipo... Terá seus pontos dobrados no fim do teste. E segunda e mais importante, não se aproximem da fenda de magma que existe no final do rio.
— Podemos saber por que senhor? — Pergunta um candidato.
— Porque está fora da área de proteção que criamos para o teste. Então, não existe necessidade de ir até lá. Uma energia misteriosa emana daquela fenda, templários experientes que foram enviados para averiguar a situação nunca voltaram para relatar o que existe lá.
— Isso não é perigoso demais? — Pergunta o candidato.
— Por isso obedeça! Agora sigam para o teste. — Salomon briga.
Alissa e seu time seguem em direção á Floresta de Sangue sem imaginar o que os esperava. Era uma mata fechada, diferente de tudo que conheciam, todas as suas árvores tinham folhagem vermelha e um tronco cinzento e forte, semelhante ao mármore. O gramado era avermelhado e um rio cortava a floresta de uma ponta á outra. A Floresta era densa, algumas partes dela eram escuras e sentiam-se calafrios só de se aproximar, outras eram claras e abertas, cheias de luz do sol, mas cheiravam a sangue como um campo de batalha. Rapidamente os times se espalham e Irelia começa a planejar algo:
— Pessoal desta vez será muito mais perigoso. Então vamos planejar com calma.
— Concordo plenamente. — Diz Iris.
— Primeiro vamos achar um lugar seguro para discutir isso. — Lucian.
Eles se agrupam em uma clareira, não muito longe dali. A clareira tinha a grama rasteira por toda sua extensão, era aberta e toda a luz do sol era refletida pelos troncos cinzentos e duros, daquelas estranhas arvores.
— Bom, eu não fiz praticamente nada no teste anterior, então prometo que farei o máximo pra poder ajudar. Não sou nem um pouco forte como vocês, mas eu posso fazer um estudo das áreas ao redor e criar uma espécie de mapa para não nos perdermos com frequência. — Diz Irelia, tentando se redimir.
— Ótima ideia! Alguém sabe caçar? — Alissa.
— Sim. Eu caçava as vezes no meu vilarejo. — Iris.
— Eu também caçava quando era mais novo, estou enferrujado, mas ainda posso ajudar. — Bartolomeu.
— Podemos nos dividir também. — Lucian.
— Bom, eu acho que primeiro de tudo, temos que ter cuidado para não virarmos presas. Devemos achar um lugar mais seguro e armar um acampamento. — Sugere Iris.
— Sim, vai escurecer daqui algumas horas. — Concorda Alissa, apontando uma gruta próxima dali. A gruta estava vazia e não tinha vestígios de nenhum antigo “morador”, parecia tranquila e aquecida o suficiente para eles. Todos vão até lá, a segurança deveria ser para todos os lados, para proteção contra as feras da floresta e também contra um possível ataque de outros grupos de candidatos.
— Então este é o nosso ponto de encontro. Eu vou procurar algumas madeiras e pedras para fazermos uma fogueira. — Diz Lucian se preparando.
— Eu vou com Irelia andar pelos arredores e verificar se este é o melhor lugar, e já aproveitamos para fazer o reconhecimento da área também. — Alissa.
— Bartolomeu vem comigo olhar a área? Quem sabe até montar algumas armadilhas pequenas para verificarmos amanhã. — Sugere Iris.
— Sim, vamos... Então, quem voltar primeiro aguarda aqui. Certo pessoal? — Bartolomeu confirma.
— Isso... Melhor assim, só não demorem. — Lucian.
O time se separa e cada um vai cumprir com sua tarefa. Lucian anda alguns metros adiante e vê algumas folhas secas, ele vai recolhendo, folhas, gravetos, alguns troncos pequenos e agrupando eles embaixo de uma árvore grande. De repente ele tem a sensação de estar sendo seguido. Rapidamente, vira-se e fica parado observando todos os cantos, atento ao menos dos ruídos.
“Deve ser impressão minha... Estou com um pouco de medo então isso é normal”. — Pensa Lucian.
Depois de alguns minutos ele recolhe os materiais que juntou e se dirige ao local combinado. Enquanto isso Alissa e Irelia andam em torno do local para verificar se é seguro acampar por ali. Com umas folhas de papel um pouco amassadas que trouxe em suas vestimentas, Irelia começa a rascunhar uma espécie de mapa, para que todos consigam se localizar quando se afastarem.
— Você não tem muitas habilidades em combate não é mesmo Irelia? — Alissa pergunta.
— Sim, claro que tenho. É que não posso usá-las. — Responde Irelia distraída com seus desenhos.
— Por quê? Algum voto de fé? — Alissa pergunta novamente intrigada com a resposta.
— Opa, desculpa. — Irelia sorri — Estava concentrada no desenho... O que você perguntou Alissa? — Ela disfarça.
— Se você não conseguia lutar... — Alissa fica encarando Irelia com um olhar duvidoso.
— Não tenho muitas habilidades como Lucian e Bartolomeu, mas acho que consigo compensar isso estudando e calculando o movimento dos meus inimigos.
— Entendi. Só fiquei curiosa porque durante o teste do labirinto você evitou o combate o tempo todo. — Alissa.
— Eu acho desnecessário, só luto se for pela minha vida ou pela vida dos que amo, do contrário, penso que sempre é possível conversar e resolver.
— É... Acho que você tem razão. — Concorda Alissa, ainda desconfiada.
Irelia continua fazendo seus rascunhos até que depois de andarem uma boa parte, elas se deparam com o grande rio que dividia a floresta. As águas do rio eram puras, limpas e cristalinas, podiam ser bebidas ali mesmo. As duas comemoram muito e Irelia começa a rabiscar a folha novamente, enquanto Alissa tentava arrumar uma maneira de levar um pouco da água até o acampamento.
Alguns quilômetros dali, Bartolomeu e Iris estavam montando algumas armadilhas pequenas. Bartolomeu levanta uma pedra pequena e a apoia com alguns galhos firmes deixando pedaços de frutas embaixo, enquanto Iris colocava alguns cipós em forma de laços presos em algumas arvores com galhos tortos.
— Bom, acho que com isso dá pra saber pelo menos o tamanho dos animas que existem por aqui. — Iris.
— Verdade, se as armadilhas estiverem desarmadas e quebradas eles podem ser muito maiores do que estamos imaginando. Faz muito tempo que você caça? — Bartolomeu.
— Faz, venho de um vilarejo pobre, então se quisermos comer bem, temos que ir caçar. Lá não existem tantos mercadores como Gladium. — Iris explica.
— Isso depende muito. Eu sou de Gladium, mas a cidade não é o que vocês pensam. — Diz Bartolomeu.
— Como assim?
— Gladium é dividida, se você é um nobre será sempre bem tratado, terá direito a morar nas casas próximas ao forte dos templários, porque a segurança é melhor. Eles têm tabernas e pomares que vendem os alimentos que eles precisam. Se você é um plebeu, assim como eu, você não pode muitas coisas. Moramos aos arredores da cidade, é considerado parte da cidade apenas para dizer que a extensão dela é grande, porque é quase um vilarejo, não podemos fazer parte de nenhuma função do clérigo e se quisermos comida de verdade temos que caçar e plantar, assim como vocês. — Explica Bartolomeu indignado.
— Nossa... Eu não fazia ideia que Gladium era assim. Quando falam da cidade citam a grande capital dos templários, então eu imaginava que todos na cidade eram templários, todo mundo era rico e vivia muito bem. — Iris.
— Não... Longe disso... A única coisa boa é o forte dos templários, porque só ali, garotos pobres tem a chance de disputar com nobres de igual para igual. Se não fosse isso já teríamos morrido de fome há muito tempo.
Durante a conversa os dois percebem que havia passado muito tempo e decidem voltar ao acampamento. No caminho, vão recolhendo algumas frutas que encontram para comerem durante a noite, já que não encontraram nenhuma caça. Chegando no acampamento a fogueira já estava acesa, Irelia rabiscava o chão com um graveto enquanto cochichava sozinha e Lucian e Alissa estavam construindo uma barraca que servirá de abrigo provisório com uma cobertura para chuva.
— Que barraca legal... Mas porque uma barraca, quando estamos de frente á uma gruta? — Diz Bartolomeu rindo, mas elogiando o abrigo construído.
— Dormir na gruta é arriscado, limita nossa visão e caso um time venha de frente... Estaríamos cercados. — Explica Lucian.
— Faz todo o sentido. Desse modo os alimentos coletados ficarão na gruta, e se um time tentar rouba-lo... Nós e quem o encurralaremos! — Iris admira a ideia.
— Isso mesmo... Vocês demoraram, já estávamos pensando em ir procura-los. — Responde Alissa um pouco preocupada.
— Ficamos conversando e não vimos a hora passar. — Explica Iris.
— O que a Irelia está fazendo rabiscando o chão daquele jeito? — Pergunta Bartolomeu.
— Ela disse que já nos explica, pediu para não falarmos com ela agora para não desconcentrá-la. — Alissa.
— Pessoal vamos lá... — Irelia os chama e começa a explicar apontando para o desenho no chão. — Este “X” aqui é o nosso acampamento, eu andei com a Alissa em forma de circulo para marcar os arredores e não encontrei nenhuma caverna, fenda, nem nada do tipo, então é bem provável que não haja risco de encontrarmos nenhuma fera mítica ou animal grande que possa ser uma ameaça. Ao norte podemos encontrar uma macieira gigantesca e ao sul estamos próximos do rio que divide a floresta. Usando estes pontos de referencia fica difícil se perder por estes lados, pelo que analisei aquela é a única macieira da região. — Explica Irelia.
— Porém, existe um detalhe... Podemos não estar em uma área de risco, mas ficar perto demais do rio é uma faca de dois gumes. Fica fácil para pegarmos água, mas é uma área que muitos podem vir buscar água também, Feras, animais grandes e até os outros candidatos. — Bartolomeu.
— Mas o rio tem uma extensão que atravessa a floresta inteira, provavelmente todos têm acesso a isso. — Iris.
— Verdade Bartolomeu. — Alissa.
— Você tem razão, mas temos que correr este risco. Se aprofundar demais na floresta pra ficar longe do rio pode ser ainda mais arriscado e fácil de se perder. — Irelia.
— Tenho que concordar com ela Bart. Melhor ficarmos por aqui. — Lucian.
— Tudo bem foi só um comentário para ficarmos mais atentos. Mas e os outros, o que descobriram? — Bartolomeu.
— Eu e Irelia só descobrimos isso. Estamos seguros e próximos do rio. E vocês? — Alissa.
— Eu e o Bart colocamos algumas armadilhas pequenas espalhadas pela floresta, hoje é o primeiro dia, não adianta caçar nada agora, a carne apodreceria até a chegada do quarto dia, sem contar que o cheiro atrairia predadores. — Iris.
— Eu não descobri nada de muito interessante, apenas tive a sensação de que estava sendo seguido, mas não encontrei nada. Mesmo assim sugiro dormirmos em turnos, com um vigiando enquanto os outros dormem. — Lucian.
— Ótima ideia. — Concorda Alissa.
Após conversarem, eles combinam a sequencia de quem irá vigiar e vão se deitar. Lucian apaga a fogueira para não chamar atenção e começa o turno de vigia enquanto os outros se deitam e dormem.
A noite passa rapidamente e todos se levantam na manhã seguinte. Iris era a última do turno de vigia então já estava acordada. Os outros se aprontam e começam o planejamento o dia.
— Bom dia pessoal. — Iris.
— Bom dia. — Todos respondem.
— Vamos seguir conforme foi planejado ontem? — Pergunta Iris.
— Acho melhor mudarmos algumas coisas. — Irelia.
— Tenho algumas ideias. Já que não poderemos caçar muito antecipadamente. Hoje poderíamos apenas colher frutas e outras coisas para melhorar o acampamento enquanto você e a Iris poderão planejar uma armadilha ou emboscada para amanhã a tarde, assim a carne não iria ficar aqui exposta por muito tempo e vocês caçariam apenas perto do fim do teste. — Explica Lucian á todos.
— É uma excelente ideia, mas temos que pensar que os outros já estão caçando, somente uma caça não daria pra competir. — Bartolomeu.
— Eu concordo com o Lucian, vocês podem usar o dia todo para planejamento e amanhã todos nós ajudaríamos vocês a caçar. Assim, podemos separar mais de uma presa e não juntar muita carne aqui. — Alissa.
— O plano é bom, mas se vamos trazer frutas e outras coisas para cá, precisamos que alguém fique na guarda do acampamento. — Concorda Bartolomeu.
— Nesse caso Irelia, me desculpe, mas eu gostaria que você ficasse. — Alissa.
— Por quê?
— Você é o cérebro da equipe, precisamos que fique. — Iris concorda.
— E você mesmo me disse que não tinha muitas habilidades de luta. — Insiste Alissa.
— Tudo bem eu fico... Mas, não demorem o dia inteiro. — Concorda Irelia desanimada.
E assim eles seguem para o segundo dia na floresta de sangue. Bartolomeu e Iris encontram duas lebres em suas armadilhas, recolhem elas e seguem para tentar rastrear algo maior, afinal as lebres seriam de bom almoço para eles. Já Lucian e Alissa vão colhendo plantas comestíveis e algumas frutas que encontram no caminho.
Depois de andarem uma grande distância calados e se afastarem bastante do acampamento, Alissa pergunta:
— Você e o Bart se conhecem á muito tempo?
— Sim, crescemos juntos. — Reponde tímido.
— Sempre ouvimos coisas sobre você pela cidade. — Alissa resmunga.
— Nem todos nós nascemos em famílias tradicionais como a sua. A vida sempre foi dura com os que vivem nas ruas.
— A vida não é fácil pra ninguém! — Retruca Alissa imediatamente.
— Eu me lembro de você. — Diz Lucian bravo.
— Lembra-se de mim? Como? — Alissa pergunta.
— Eu estava em frente ao convento quando você e seu irmão passavam por mim. Você deixou sua boneca cair e eu peguei para devolvê-la. Quando fiz, seu irmão puxou você para longe dizendo para não se aproximar porque nós transmitíamos doença. — Lucian responde com lagrimas nos olhos.
— Nós não o conhecíamos como eu imaginaria que você ia me devolver? — Retruca Alissa.
— Eu só tinha seis anos Alissa... Seis anos! — Lucian fala mais alto.
Neste momento eles são interrompidos por um grito de desespero, se assustam e veem alguém correndo. Rapidamente se escondem próximo ao tronco de uma grande árvore. Era um grupo de três candidatos, eles pareciam correr de alguma coisa e um deles estava sangrando na perna, mancava demais e não conseguia alcançar os outros até que caiu de joelhos. Seus dois amigos tentaram voltar para ajudá-lo, mas era tarde. Um grifo enorme desceu dos céus em um voo rasante e com suas fortes patas pegou o garoto e o levou em direção a uma fenda em uma montanha enorme que existia ali. Os outros dois fogem e Lucian e Alissa se olham assustados.
— Um Grifo, eu jamais imaginaria que ele estaria tão perto. — Alissa.
— E na direção em que íamos. Podia ter sido um de nós.
— Olhe a montanha, parece ter um ninho.
— Um ovo de grifo não seria ruim para o teste. Com certeza passaríamos. — Diz Lucian animado.
— Está maluco? Sabe o quanto isso seria difícil? — Alissa reclama.
— Consigo me aproximar sem ser notado.
— Isto não é como roubar dos comércios Lucian! Um grifo notaria sua presença e te mataria em segundos. Melhor voltarmos. — Explica Alissa.
— Está bem, mas olha só... Tem um filhote! — Lucian aponta.
Um filhote do grifo se movia dentro do ninho. Era um animal com corpo de leão e cabeça de águia, suas patas dianteiras ainda eram de leão com unhas grandes e fortes, já as traseiras eram de águia, feitas para agarrar e carregar animais pesados, além de suas asas que o tornava uma fera voadora. Era um animal bonito e indefeso. Já sua mãe era grande, media mais de 2 metros de altura e quase 3 de comprimento. Um animal imponente e forte, sem dúvida alguma. Lucian e Alissa recuam de medo e quando olham para trás uma dríade apontava sua pequena lança para eles.
— Gruatah! — Grita a dríade jogando a lança em direção de Alissa. Ela consegue esquivar por puro reflexo e corre junto com Lucian na direção do acampamento.
— Porque correr de um bicho pequeno destes? Podemos vencê-lo. — Diz Lucian.
— Você não sabe nada sobre estes seres não é? — Alissa reclama.
— Sei que o tamanho daquilo não me assusta.
— “Aquilo” é uma dríade. São seres pequenos iguais a gnomos e duendes que vivem nas florestas protegendo e mantendo o equilíbrio nelas, são inofensivos.
— Então porque nos atacou? — Lucian pergunta.
— Não faço idéia, mas não podemos machuca-la, eles vivem em grupos muito grandes. Vamos embora.
Os dois saem dali em direção ao acampamento. Enquanto isso Bartolomeu e Iris conseguem localizar um grande cervo próximo do local onde caçavam.
— Acho que encontramos o nosso almoço e jantar pelos próximos quatro dias. — Sussurra Bartolomeu.
— Um cervo das montanhas, pelo jeito terá que ser este mesmo. — Iris.
— Beleza, eu assusto ele e quando ele correr na sua direção tentamos levá-lo até a armadilha de laço.
— Sim, é o jeito mais fácil.
Algumas tentativas frustradas e muito tempo depois eles conseguem capturar o cervo. Iris o abate em um ritual de seu vilarejo, acalmando o animal e com um golpe certeiro, sem dor, sem sofrimento. Após isto ela agradece aos céus e os dois amarram o cervo de maneira mais fácil para fazer o transporte, fazem novas armadilhas e seguem para o acampamento. Eles estavam próximos do rio, então decidem passar nas margens para coletar um pouco de água e encontram um carrinho de outra equipe. Bartolomeu deixa o cervo no chão e puxa Iris para se esconderem.
— É um carrinho de suprimentos, alguma equipe está por perto. — Bartolomeu sussurra abaixado.
— Você deixou o cervo á vista, eles virão pegá-lo. — Bartolomeu aguarda alguns minutos e ninguém aparece, então ele se levanta e pega o cervo novamente.
— Agora vamos embora. — Diz Iris.
— Espera... E se a gente levasse o carrinho também? Parece que não tem dono.
— Aquilo é claramente uma armadilha, não para animais, mas para outros candidatos. — Insiste Iris.
— Nunca saberemos... Ele pode ter sido esquecido ou trazido pelo rio.
— Tivemos sorte Marisa, fisgamos dois de uma vez. — Uma voz foi ouvida enquanto discutiam.
— E foi a garota do labirinto Ross, agora ninguém pode defendê-la. — Marisa.
Agora tinham certeza que era uma emboscada. Bartolomeu pega sua lança e continua segurando o cervo nos ombros, Iris saca sua adaga e se prepara para a batalha. Ross e Marisa eram as garotas membros do time de Rafael.
— Calma lá garota... Onde estão os outros membros do seu time? O Rafael é muito mais amistoso que vocês. — Pergunta Bartolomeu em posição de defesa.
— O atrasa tempo? Acredito que ele não passará neste teste. Eu sou a nova líder. — Responde Ross.
— Ou seguiam o que ela manda ou seriam esmagados... Mas eles não quiseram ouvir. — Diz Marisa com um sorriso sarcástico.
— Iris, se ela derrotou mesmo os outros três membros, ela deve ser forte, eu luto com ela. — Bartolomeu.
— Me desculpa Bart... Mas eu estou devendo uma surra pra ela desde o labirinto. — Responde Iris sorrindo, animada com a batalha que estava para acontecer.
Bartolomeu fica paralisado olhando para Iris, seus olhos brilhavam como o de uma criança feliz que havia ganhado muitos presentes e doces, parecia estar em outra dimensão enquanto pensava...
“Bart... Bart... Ela me chamou de Bart... Com sua voz linda... Olhou nos meus olhos e disse...”
— BAAARRRTT!!! — Grita Iris.
Marisa avançava na direção de Bartolomeu com a espada empunhada, rapidamente ele volta a si e esquiva do ataque.
— Opa me desculpe... Já que você deve isso a Ross vá em frente, eu cuido desta aqui. — Diz Bartolomeu.
— Vou te ensinar a ter bons modos. — Ross debocha.
— Vamos lá. Você fala demais. — Iris.
Iris avança em direção a Ross com um ataque direto, porém Ross tira um escudo de suas costas e contra-ataca Iris com o próprio escudo. Iris cai no chão e rapidamente se levanta. Ross desembainha uma espada de sua cintura e ataca. O ataque é tão forte que mesmo desviando, Iris acaba se desequilibrando e caindo, mas se levanta novamente.
— O problema de vocês garotinhas mimadas é que nunca precisaram se esforçar de verdade. — Diz Ross.
— Não me culpe pela sua feiura, isso não significa que você se esforça mais que eu.
A batalha continua, os ataques de Ross são muito fortes, porém lentos, então Iris fica esquivando deles.
“Os ataques dela são fortes, não posso correr o risco de ser atingida por um destes ou vou desmaiar. Mas ficar esquivando assim eu vou me cansar muito rápido, tenho que pensar em algo.”
Então Iris começa a adentrar a floresta e usar os fortes troncos de mármore das arvores para se proteger. Ela esquiva dos golpes e entra atrás de uma árvore, depois sai rapidamente de trás dela para atacar Ross, que contra-ataca com o escudo novamente. Ross começa a perder a paciência e ataca ainda mais forte. Mas desta vez ela acerta uma árvore com tanta força que sua espada fica travada no tronco. Iris percebe e ataca Ross no exato momento com um golpe no ombro esquerdo, Ross usa o escudo, mas Iris acerta.
— Lenta... É forte. Mas tudo que preciso é ser mais rápida que você. — Iris provoca.
— Ótimo... Então seja — Diz Ross tirando a espada da árvore.
“Mais uma vez que ela travar a espada em uma arvore e então eu a derrubarei.” — Planeja Iris.
Alguns metros dali Bartolomeu e Marisa travavam outra batalha.
— Sua amiga vai perder. Não tem como derrotarem a Ross, ela é maior e mais forte até do que muitos homens. — Diz Marisa atacando Bartolomeu. — Não precisamos fazer isso... Só nos deixem ir e está tudo certo. — Diz Bartolomeu, defendendo-se do ataque sem esforço e jogando Marisa novamente para trás. Ela insiste e o ataca de novo e ele repete o movimento meio desajeitado, pois ainda segurava o cervo.
— Você não vai passar neste teste seu pobre miserável. — Responde Marisa muito irritada.
— Como é?
— Vocês plebeus acham que podem se igualar a nós? Acham que só porque estão inscritos no teste podem fazer o que bem entenderem? Escuta aqui Bartô... Sei lá o que. Nós nobres nascemos destinados á grandeza, deixar vocês participarem do teste é só um ato de pena.
— Terá que ser melhor que eu se quiser ser aprovada no meu lugar. — Responde Bartolomeu ficando serio e jogando o cervo para o lado.
— Vocês são um atraso para Gladium, deviam morrer todos! — Grita Marisa.
Marisa avança para atacar Bartolomeu, ele esquiva para o lado e levanta sua lança com a mão direita. Numa fração de segundos, ainda desequilibrada pelo ataque frustrado, Marisa olha para o lado e vê a posição em que Bartolomeu estava. Era como ver a morte e não ter forças para sequer defender-se. Bartolomeu desce o braço, desferindo um golpe que acerta Marisa arremessando-a a metros dali e se chocando contra uma árvore. A garota cospe sangue e com a visão embaraçada vê Bartolomeu se aproximando dela. Numa tentativa desesperada, ela tenta se defender e ao segurar o cabo de sua espada, Bartolomeu pisa na lâmina não deixando que ela levantasse do chão.
— Você é muito arrogante, mas não sou um assassino. Não diga isso outra vez. — Diz Bartolomeu agachando-se para ficar de frente para os olhos dela.
Ele se levanta e olha para a floresta, na direção em que a batalha entre Iris e Ross ocorria.
Iris, desgastada, começa a ficar ofegante, então vê outra árvore grande o suficiente para travar a espada de Ross e fica de costas para a árvore.
— SUA IDIOTA! — Grita Ross atacando Iris.
A espada trava na árvore novamente. Era a chance perfeita. Iris pula em direção a Ross que solta a espada e se vira na direção dela, agarrando-a pelo pescoço com uma só mão.
— Acha mesmo que eu seria tão burra? Que eu ficaria tentando destravar minha espada e você me atacaria pelas costas? Que pena. — Diz Ross gargalhando.
— Me solta. — Diz Iris com a voz espremida.
— Irá morrer sufocada mimadinha. — Diz Ross apertando mais o pescoço de Iris. Ela olha para todos os lados buscando ar, mas de repente solta um leve riso.
— Obrigado por ter me seguido até a floresta. Acho que daqui o Bart não conseguirá ver nossa luta. — Iris responde tranquilamente. Ignorando Ross que apertava sua garganta.
— O que é isso sua desgraçada? — Ross usa toda sua força.
— A diferença entre os fortes e os fracos é sutil Ross... — Iris aperta o braço de Ross que a enforcava, com muita força, fazendo ela se dobrar de joelhos no chão.
— Vou te matar! — Grita Ross.
— Não, você não vai.... Com o limite que seu corpo te oferece hoje, este é o máximo que conseguirá chegar. Mas eu vou te mostrar uma coisa que espero que nunca se esqueça.
Uma energia começa a emanar do corpo de Iris e sem esforço algum, ela joga Ross contra a grande arvore que prendia sua espada. O impacto deixa Ross sem fôlego. Iris se aproxima calmamente e diz:
— Isso é Aura, Ross. Algo que me deixa décadas á frente de sua força. Aprenda mais sobre isso e me procure novamente para termos uma luta mais justa algum dia.
Iris desmaia Ross com um leve soco na cabeça, depois ela ajeita sua roupa, seu lenço na cabeça e vai até a margem do rio encontrar Bartolomeu. Chegando lá ela o encontra pegando o cervo e Marisa desmaiada á beira do rio.
— Bart... Isso foi sério! — Diz Iris se aproximando.
— Vai viver, já fiz um curativo nos ferimentos dela. Só precisa descansar. — Bartolomeu responde assustado. — Vamos sair daqui antes que apareçam mais candidatos.
— Espera ai... — Pede Iris, correndo na direção do carrinho delas. — Isso é pelo trabalho que tive. — Iris Zomba, trazendo o carrinho.
— Ok. Agora vamos. — Responde Bartolomeu aos risos.
— É verdade... Não acredita? — Pergunta Iris zombando.
— Fiquei preocupado com você. Senti uma sensação estranha vindo da direção em que estava lutando. — Bartolomeu.
— Sensação estranha? — Iris fica intrigada.
— Como um calafrio, medo, não sei te dizer... Mas que bom que está bem, vamos indo. — Bartolomeu explica.
— Sim... Não há com o que se preocupar. — Iris sorri.
“Como pode ter sentido minha aura? Tenho certeza que estava a uma distancia segura. Um humano sem treino não deveria senti-la... Este Bartolomeu é realmente interessante.” — Pensava Iris, olhando pra ele.
Os dois seguem de volta para o acampamento, chegando lá já era quase noite e encontram Alissa e Irelia conversando, e Lucian acendendo a fogueira.
— Iris o que foi isso? — Pergunta Alissa preocupada ao ver alguns arranhões.
— Longa história... — Responde Iris acalmando-a e sorrindo.
— Trouxemos lebres para jantarmos e ainda sobra o cervo para colocarmos no carrinho. — Exibe Bartolomeu.
— E agora temos dois carrinhos. — Iris exibe o carrinho que pegou de Ross.
A noite chega ao segundo dia na Floresta sangrenta e todos se juntam em volta da fogueira para assar as lebres. Agora o time possui dois carrinhos, o que facilita, pois podem levar o dobro de alimentos, e com tudo que já juntaram chegaram a uma boa quantia.
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