Arms up!
2 Um Mundo Novo
Cabelo longo nunca foi tão importante assim para mim. Já havia cortado antes, mas a reação dos meus pais foi um desgosto intenso. Minha mãe se tornou mais aceitável de mim nos últimos tempos, mas só em comparação com meu irmão menos favorito.
Agora, eu sentava na frente de um espelho. Wendell tinha a tesoura em mãos. Fotos do meu irmão no celular que eu segurava. A sorte era que Leo era da mesma altura que eu, só um pouco mais magro. Nada que não pudesse ser explicado por um misterioso sumiço de algumas semanas."Posso?" Wendell levantou a tesoura.Assenti.Enquanto o rabo de cavalo caía no chão, mechas eram aparadas e cortes eram feitos. Isso ia ser um erro tremendo ou uma salvação. Ao mesmo tempo, tive que confrontar algumas ideias que vinham me incomodando há meses. Um sentimento de não pertencer, um desejo de ter algo que não podia ser ganho do nascimento. Pelo menos, não o meu.Wendell saiu do caminho. Eu me olhei no espelho. Comecei a sorrir porque minha reflexão não parecia com uma fantasia, e embora houvesse traços do meu irmão no meu rosto, não era ele que eu via. Eu via apenas quem eu era. Franzi a testa com esse pensamento."Fui na sua casa, sua mãe tinha acabado de sair, e peguei algumas roupas do Leo. Experimenta." Ele me deu uma tonelada de roupas e me empurrou para o banheiro.Após me olhar no espelho, cativado por tempo suficiente, me vesti. Sabia que Leo jamais usava nada colorido demais. Com jeans e camiseta, eu sai e parei na frente de Wendell.Abri os braços.Ele soltou um riso."Você realmente se parece com ele. Tô começando a ter mais fé nesse plano." Ele andou em minha volta analisando imperfeições. "Hmm, vamos precisar de algo para esconder seu, ah, volume." Depois que meu amigo saiu para comprar materiais, peguei fitas de vídeos caseiras da nossa família. A sala de Wendell estava uma bagunça, já estava dormindo no sofá dele a dois dias. Após algumas mensagens de texto, minha mãe aceitou que eu ficasse ali para 'lidar com tudo melhor'. A escola estava de férias, e a mãe do Wendell era um doce.Junto com uma mala de roupas e itens necessários, veio uma caixa com as coisas do meu irmão. Para pesquisa.O vídeo mostrava meu irmão correndo, sorrindo e dizendo "Sou rápido, viu?" de quando ele tinha treze.Tentei imitar sua voz."Sou rápido...sou...sou rápido, viu?" Falei, modificando meu tom cada vez. Me levantei e copiei seu modo de andar, seu sorriso de lado, até sua risada. Era exaustivo.Wendell voltou com uma espécie de regata que comprimia seu peito e um saco de comida fast-food. Fiquei preso na regata por dez minutos antes de conseguir me ajustar. Com a camiseta por cima, ninguém iria ficar olhando nem nada. Eu esperava. Passei o resto do dia treinando, do jeito que vi Leo fazer.Horas e horas fazendo flexões, levantando latas de tinta, abdominais. A cada hora, tentava me convencer de que estava fazendo isso por minha família e não por mim. Dormi com gelo amarrado nos dois braços, e tive um sono horrível e dolorido.No dia seguinte, fomos ao hospital em segredo. Usávamos roupas pesadas e capuz para não chamar atenção. Acho que chamamos mais atenção justo por causa disso. Wendell perguntou a enfermeira do posto se ela podia informar a ele algo. Ela saiu e deixou a porta aberta prestes a bater. Segurei a porta por uma fresta e entrei. A sala era pequena, com armários de metal, uma mesa de escritório e pôsteres de saúde. Nos armários, procurei por meu sobrenome, e encontrei sua ficha em ROCHA, L.Peguei a ficha e saí.Sem sua ficha, não poderiam liberá-lo e até conseguirem uma cópia e eu já teria ganhado o Torneio. Esperava.Corremos ao redor do parque duas vezes. E com isso quero dizer que eu corri enquanto Wendell gritava encorajamentos. Algumas pessoas nos olhavam apontando e acho que eu reconheci alguns do Mão de Aço.Parecia que estava funcionando.Na noite da inscrição, eu lutaria com duas pessoas. Na frente de todos. Me olhei no espelho da sala — cabelo loiro curto, olhos grandes e um físico magro.Após semanas de treinamento, dez horas por dia, meus braços estavam mais fortes. Definidos. Ainda sentia dor, mas era tolerável. Não conseguia ver meu irmão no espelho, mas Wendell disse que eu estava tão acostumado em ser seu gêmeo que não via. "Acredite, você se parece com ele até o último fio." Não discuti.O Mão de Aço borbulhava com turistas, lutadores e fãs. A casa de madeira era enorme e esportiva, e o estacionamento estava lotado. Entrei engolindo a ansiedade. A qualquer momento alguém ia gritar algo e meu disfarce seria descoberto. Os lutadores tinham músculos grandes, mostravam eles usando roupas sem mangas. A maioria tinha tatuagens. Leo não tinha nenhuma visível mas isso não me acalmou.Um grupo de garotas lindas tomava shots no bar.Vários dos competidores lançavam olhares hostis ao me verem. Devia ser o efeito de perder para um moleque todo ano. Outras garotas me olhavam interessadas, algo que nunca havia acontecido.Aquilo me confortou. "Atenção, vamos lá! Hora de se registrar!" Um apresentador jovem, com cabelo arrepiado em gel, gritava no microfone.
Fui lá e fiquei feliz de ter treinado a assinatura do meu irmão também.Abaixei a cabeça ao ouvir o apresentador gritar meu sobrenome, mas aí me lembrei que Leo não agia assim."Rocha, pessoal! Leo Rocha veio para o título novamente!" Os olhares se tornaram mais hostis, violentos até. Sorri arrogante e me afastei da mesa.Por dentro, estava aterrorizado.Após todos assinarem, vi Wendell na multidão. Ele não deu sinal de me conhecer, mas sorriu na minha direção. Wendell atraía sua própria atenção, com uma camisa apertada de botão e calças de couro. "Muito bem, sejam bem vindos! Sou Robb, e serei seu anfitrião nessa semana. Irei chamar seus nomes e vocês irão fazer pares nas mesas. Ninguém luta até meu sinal. Sem jogo sujo. Com suas certificações hospitalares mandados no começo do ano, sabemos que ninguém aqui está trapaceando."Deve ter sido um teste de anabolizantes. Leo já havia mandado o necessário."Todos sabem como funciona. O vencedor ganha dois mil e um troféu. Que o melhor vença!"Uma onda de aplausos inundou o bar. Havia tanta gente ali.Meu nome (o do meu irmão, pelo menos) foi chamado para a mesa quatro.Me sentei na cadeira a esquerda. Um cara de regata preta, cabeça raspada e tatuagens por todo o corpo se sentou a minha frente. Ele era mais magro que eu ou Leo.Um juiz de camisa vermelha se ajoelhou ao nosso lado. Por todo o bar, todos competindo também se sentavam. Dois apitos soaram. O homem apoiou o cotovelo na mesa e eu fiz o mesmo. Apertamos as mãos. Senti a tensão de tentar controlar a pressão do aperto.Um apito soou dessa vez.Novato, o homem puxou meu braço e eu resisti alguns segundos tarde. Era como lutar com um rinoceronte. Meu punho se curvava para o lado. Podia sentir meu queixo contraído, parecia que minha mão ia quebrar. O homem não deu sinal de surpresa. Tentei me lembrar do que meu irmão havia tentando me ensinar aos treze. Habilidade, não força.Virei meu cotovelo um pouco e minha mão começou a ir na direção oposta. A mão dele entortou, e com um baque, eu ganhei a primeira rodada."Temos mais um ganhador, Rocha na mesa quatro! E na mesa seis..." Robb continuou narrando.Meu adversário saiu xingando.Minha mão ardia, podia ouvir os batimentos pela pele mas jamais me senti tão orgulhoso.Fui ao bar e me encostei.Ao meu redor todos ainda assistiam entretidos. E ninguém notou.Na segunda rodada, repeti o que havia sido ensinado. Com esforço, ganhei de um barbudo grisalho. Ele chutou sua cadeira e meu nome foi para as semifinais.Notei que havia só uma mulher na competição, uma garota de vestido vermelho e braços de ferro. Ela sorria e piscava para multidão, relaxada. Após ganhar, eu e Wendell voltamos para casa comemorando ao som do rádio no carro."Cara... eu — eu jamais senti isso antes." Wendell riu."Você sempre foi forte, minha querida. Isso é óbvio."Me ajustei no banco. Era mais do que isso, mas me faltava a linguagem para explicar. Não sabia como dizer que jamais me senti confortável a não ser agora. Deixei quieto. A mãe de Wendell trabalhava dia e noite em sua arte e confiava demais em seu filho. Ela já dormia.Me lancei no sofá, e em segundos, eu também havia adormecido.Só saberia depois, mas a enfermeira do hospital foi ver meu irmão em seu quarto. Quando ele perguntou quando poderia ser liberado, ela hesitou. Confessou ter perdido sua ficha. Leo, o verdadeiro Leo, ficou aborrecido. A enfermeira o acalmou e disse que assim que conseguissem uma cópia, ele poderia ir.Leo ficou encarando a janela até dormir, sem conhecimento do que acontecia fora do seu alcance.
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