Para evitar se meter em situações desconfortáveis, Wendell disse que eu deveria ficar em casa. Só ir ao mercado poderia gerar perguntas que eu não ia saber responder.

Fiquei fazendo flexões e assistindo televisão. Wendell retornou com três jornais diferentes.

"Ah, Wendell? Pra que todos esses jornais?" Esfreguei a nuca.

Ele derrubou os exemplares na mesa de centro. Sorriu feliz.

"Leo Rocha é famoso. Mais do que nunca."

Olhei os jornais, só então entendendo. A primeira manchete, "O SUMIÇO DE ROCHA PAGOU NO FINAL"; o segundo jornal, "LEO ROCHA PODE GANHAR DE NOVO?"; e o terceiro, "MÃO DE FERRO JÁ TEM UM CAMPEÃO".

Olhei estupefato para aquilo.

Era uma sensação alien ver as pessoas falarem do meu irmão, de mim, dessa forma. Pra mim, Leo era só um garoto feliz que gostava de dobrar o braço dos outros. E minha opinião própria era ainda pior.

Comecei a ver as consequências desse jogo. As coisas jamais seriam iguais e eu podia só ter esperança de que saísse daquilo com danos mínimos. Naquela noite, fomos de novo. Sem pais para nos preocuparmos, só um bar de estranhos clamando por batalha.

Ao entrar lá, fui surpreendido com uma decoração de boate. As luzes apagadas eram substituídas por holofotes no teto. Junto à mesas ocupando espaço, havia sofás nos cantos. E uma pista de dança delineada. Por um momento pensei ter errado o dia ou o endereço.

"E aí, Leo?" A mulher do dia anterior se aproximou. Ela usava um vestido preto dessa vez, e embora fosse feminina, havia um charme de pegadora nela. Algo no jeito que se movia.

"Ah... e aí?" Falei, assentindo. Minha voz já ficava rouca de tanto esforço.

Ela hesitou. Me encarou.

Não sabia o nome dessa garota. Meu irmão talvez tivesse mencionado, e eu deletei da minha memória. O silêncio foi interrompido por passos rápidos. Outra garota de cabelo curto veio por trás e abraçou a amiga de Leo (eu presumo), a beijando na bochecha.

"A Julia é fofa, né Leo?" Ela disse rindo.

Engoli em seco. Julia pareceu ter lançado um olhar para a outra. Ela queria ver se eu ia saber seu nome. Leo teria feito uma piada, quebrado o clima.

"Não posso dizer, somos adversários." Falei em tom de humor.

A tensão se dissipou com a risada da outra garota. A Júlia sorriu. Seus olhos pareciam calcular algo.

"Estava prestes a contar para Leo da decoração." Ela apontou ao redor. "Ficou bonito. O paspalho do Robb está fazendo o maior suspense sobre algo. Enfim..."

Ela se afastou segurando a cintura da outra e olhou para trás uma última vez, antes de se virar e as duas começarem a se beijar contra o bar.

Eu esfreguei minhas mãos. Elas estavam todas suadas. Me misturei na multidão, aceitando elogios e acenos mas mantendo o olhar longe de outras pessoas. Robb atraiu todos batendo em seu microfone.

"Olá, lutadores e fãs do esporte amador! Em nosso segundo dia, teremos a festa anual de clube para comemorar aqueles que irão para a semifinal!" Ele sorriu.

Aplausos varreram a multidão. Isso explicava a decoração. Nunca sendo de festa, eu não me sentia animado para ficar ali e ainda ser forçado a fingir ser outra pessoa. No entanto, não podia sair sem atrair muita atenção.

"E mais uma coisa! Para comemorar nosso ex-campeão saído da aposentadoria, Fish..." Ele apontou para alguém atrás de mim.

Ao me virar, constatei que ele era a maior pessoa naquele lugar. Devia ter pelo menos dois metros, com músculos inchados de alguém cuja vida é ficar na academia. Seu rosto era uma máscara cruel e assimétrica. Ele me encarou e eu me virei para frente torcendo que não precisasse lutar contra ele.

"Fish voltou! Ganhou por oito anos antes de Rocha tomar seu lugar!"

Olhares por toda volta se focaram em mim e gritaram em clamor. Eu assenti, desconfortável. Julia no bar com seu braço ao redor da garota, levantou seu copo para mim. Pareceu ironia.

"Por causa disso, estamos levantando o prêmio de dois mil... para cinco mil!"

A multidão foi a loucura. Os lutadores pareciam mais determinados. Senti algo se agitando no meu estômago. Lutei para parecer animado.

Todos se dispersaram. Os fãs foram para os cantos, os competidores para o centro. Começaram a chamar os nomes e anunciar a mesa. Engoli um barulho quando a Júlia se juntou a mim na mesa oito.

Dois sinos. Nós colocamos os cotovelos na mesa. Senti os olhos dela em mim.

Ela sabia quem eu era. Podia ser só paranoia, mas ela me olhava concentrada. Apertamos as mãos, tentando ser mais forte no aperto que o outro. Um sino e começou.

Júlia já era interessante só por competir aqui sem ligar a mínima para o que os outros pensavam. Ela não estava se passando por outro, ela não parecia ligar para as vantagens de ganhar, e enquanto todos pareciam odiar Leo, ela veio falar com ele. Comigo.

E por cima de tudo, ela era muito forte.

E não digo por dizer. Seu braço em tensão, os dedos firmes, me deu uma desvantagem imensa. Mesmo ela sendo boa, parecia que a habilidade corria no sangue dos Rocha.

Por um segundo antes de bater o braço de Júlia na mesa, tive a impressão de que sua mão ficou mole. Por um segundo apenas.

Ela se levantou, deu de ombros e foi embora. Lutei com mais três pessoas. Mais fácil do que lutar com a Júlia, mas ainda me deixou suando. Julia parecia não se importar com a eliminação e passou o resto da luta na multidão, flertando.

A luta terminou e restou quatro.

Um cara todo tatuado, um cara meio hipster, eu e claro... Fish.

As luzes se apagaram, e luzes piscando transformaram o bar em uma rave. Pessoas começaram a dançar provocantes na pista. Bebidas foram servidas. Wendell se soltou e achou alguém para dançar.

Eu me sentia em um ambiente diferente e nada familiar. Algumas garotas me olhavam e eu desviava o olhar com cautela. Elas eram atraentes e me faziam sentir borboletas, mas era complicado em tantos níveis que não queria pensar nisso imediatamente.No meio de muito desconforto, som incômodo e desviar de estranhos próximos demais um do outro, a música parou.

Era Fish.

Ele pegou o microfone e apontou direto para meu peito.

"Leo Rocha... amanhã você é meu. Prepare-se para o fracasso iminente." Fish largou o microfone e saiu pisando fundo.

Houve risos e insultos a mim e a Fish dependendo de qual lado você torcia. Logo, a música voltou e todos pareceram se esquecer da ameaça rapidamente.

Eu não conseguia respirar, não conseguia me mover. Saí pelas portas afora, respirando fundo. Um peso no meu peito se enchia. Tudo parecia diminuir. Arranquei a minha camiseta e fiquei só com aquela regata no estacionamento escuro.

Minha respiração foi se acalmando, a sensação de clareza retornou.

Ouvi passos. Me virei e Júlia estava ali me olhando. Não julgando, mas como se já soubesse. Todo o cansaço, as mentiras e não só sobre o torneio me atingiu em cheio.

Sentei no chão apoiando as costas em um carro.

Júlia veio e se sentou ao meu lado. O silêncio era calmo. Melhor do que o caos lá dentro. Fui o primeiro a falar.

"Só queria ajudar. Minha mãe. Precisava do dinheiro, eu..."Parecia uma mentira. As palavras soavam falsas na minha boca. Não pensei, só confessei. "Acho que sempre tive inveja do meu irmão. Queria provar que podia ser tão homem quanto ele."

Júlia assentiu. Seus olhos mostravam delicadeza.

"Olha...?" Ela me fez um gesto, procurando um nome verdadeiro. "Rocha? Você é parente do Leo, mesmo?"

"Sou. Não sei qual é o meu nome. Quer dizer..."

Nunca havia me sentido tão pra baixo na minha vida. Seja lá o que estava fazendo, não ia acabar bem. Me sentia uma fraude.

Júlia pareceu entender o clima.

"Você quer um conselho? De alguém que todo ano está aqui, cercada de hiper masculinidade e testosterona?" Ela disse, beirando ao sarcasmo.

Suprimi um sorriso. Júlia veio perto de mim e disse como se fosse um segredo.

"Não há jeito certo de ser homem. Ou mulher. Aprenda isso e sua vida talvez não fique mais fácil, mas talvez fique mais clara." Ela deu um tampinha no meu joelho.

Olhei para o céu. As estrelas estavam brilhando.

"Você é a primeira pessoa a quem digo isso. Acho que nem eu sabia." No começo, pelo menos.

"Normal. Todo mundo precisa encontrar seu lugar. Sorte sua eu conheço seu irmão melhor do que os outros."

Eu olhei para ela.

"Você vai contar?"

Ela me olhou, ergueu uma sobrancelha.

"Poderia. Não vou, no entanto. Quero ver a cara de todo mundo quando descobrirem que o irmão mais novo do Leo é mais forte que o próprio Leo. Sua família vai pro mural da fama." Ela riu.

Essa foi a primeira vez que me chamaram dessa forma, mas não a última.

Enquanto isso acontecia, Leo Rocha deitava no hospital. Ele estava lá por tempo demais. Doía que ninguém havia ido visitar ele, mas não mais do que o preocupava.

Ele ligou a televisão no jornal local e foi surpreendido com sua própria foto lutando contra Júlia.

Exceto que aquele não era ele.