Arms up!

4 Desfecho Feliz


Hoje seria o último dia. O dia em que eu ganharia a resposta que procurava ou seria humilhado na frente de todos. Coloquei a regata compressora e pus uma camiseta por cima.

Sai até a sala.

Wendell estava pronto, terminando de amarrar seu tênis. Encarei ele inseguro.

"Pronto, querida? Último dia." Ele disse.

Aquilo incomodava. Os pronomes femininos. Não só incomodava, era um desconforto dolorido que me deixava desconcertado ao mesmo tempo. Eu odiava.

"Preciso falar com você. Eu... eu não gosto quando você me chama de 'querida' ou usa nomes assim." Falei e segurei meu ar.

Wendell espanou suas roupas. Me olhou e senti que ele estava olhando de verdade para mim. Ele sorriu.

"Entendo e não farei mais."

A resposta era surpreendente. Eu esperava mais discussão, talvez por conta da minha própria família.

"Também... decidi que..." Era difícil explicar. Eu sabia o que me fazia sentir seguro em mim mesmo. Ao verbalizar isso, não seria só coisa minha. Seria real. "Decidi que vou ser chamado de Xavier. Gosto desse nome, e mesmo tendo nada a ver com...com..."

Comecei a me enrolar na explicação.

Wendell levantou sua mão.

"Queri... quero dizer, Xavier... está tudo bem. Não precisa me explicar nada. Se eu errar algo, é só corrigir. Sua vida ninguém tem direito de controlar." Ele falou. Pegou as chaves na mesa. "Vamos?"

Eu assenti. Me sentia mais calmo do que jamais havia antes, era como se todo o peso que me segurava tivesse saído de cima. Eu podia respirar agora.

Enquanto eu e Wendell íamos para o Mão de Ferro, meus pais andavam pelos corredores do hospital. Eles estavam furiosos. Um com o outro, comigo e por causa disso, iam descontar na única pessoa que podiam.

Leo deitava na cama em angústia. A enfermeira achou a ficha e agora terminava os dados, mas o tempo passava devagar demais.

Meu pai entrou e foi direto a ele. Começou a acusá-lo de fazer lavagem cerebral em mim e corromper meus ideais. Minha mãe esperou na porta, chateada. Meu pai disse que todos iam naquele clube horrível e me impediriam de cometer um erro terrível. Pelo que eu soube, Leo pulou na chance de sair dali e consertar tudo. E mesmo assim, confrontou meus pais. Disse que ele ia sozinho, ele não precisava deles me fazendo sentir mal nem nada.

Meus pais encararam estupefatos enquanto meu irmão saía. Cabeça erguida, braço quase curado e pronto para se redimir.

No clube, a atmosfera era de pura antecipação. O clube voltou a sua decoração normal de madeira, luzes brancas e retratos condecorados. Ao passar pela porta, fui recebido com vaias e elogios. Metade das pessoas ali queriam me ver ganhar e ter Leo Rocha como o vencedor cinco anos em seguida. A outra metade clamava por meu braço em uma tipóia.

Ao chegar, Wendell se afastou e foi se misturar. Eu fiquei em um canto, trocando de uma perna para a outra. Parecia haver mas gente hoje. Alguns tinham câmeras nas mãos.

Júlia se aproximou de mim.

"Tem certeza disso?" Ela perguntou.

Eu não tinha. Mesmo assim ia tentar. Percebi que ela ainda evitava me chamar por qualquer nome comum. Me virei para ela.

"Sabe, nós nunca nos apresentamos de verdade. É Xavier, só pra você saber." Falei.

Ela sorriu divertida.

"Bom te conhecer. Sou Júlia, eu e seu irmão somos bons amigos."

"Porque você luta aqui? Tipo..." Hesitei um pouco. "Você parece que não se importa com os resultados."

Júlia deu de ombros.

"Não muito, mas é divertido fazer os outros se irritarem consigo mesmos porque perderam pra alguém metade do tamanho deles. E as garotas são lindas." Ela suspirou sonhadora.

Devo ter rido um pouco, porque ela me deu uma cotovelada amigável.

"Se cuida, cara. Te vejo após a disputa."

Fiquei ali na minha até Robb subir no palco.

"Último dia, pessoal! Veremos quem irá ganhar hoje! Temos quatro lutadores, e só um prêmio disponível! Por favor, competidores a frente!" Robb parecia animado até demais.

Eu fui a frente com a multidão soltando gritos de incentivo ou o oposto. Fish, o maior competidor e ultra ex-campeão, parecia um dos personagens de As Crônicas de Gelo e Fogo. Gigante, assustador e sanguinário.

O cara hipster tinha barba e cabelo longo, usava suspensórios. E o tatuado tinha tatuagens até na lateral do rosto, e uma cruz abaixo do olho. Em comparação, eu parecia um aluno do ensino médio que parou no lugar errado.

"Muito bem, vamos sortear!" Robb pegou os papéis com o nome a mesa.

Sabia que se eu quisesse vencer, não importava se Fish ia primeiro, ou outro competidor ia. Teria que lutar com ele de um jeito ou outro. Meu irmão foi o único que conseguiu vencê-lo.

Eu não era o Leo.

"Rocha e Fish, mesa um!"

O bar pareceu ir ao delírio. Os gritos animados, o calor de tanta gente me deixavam nauseado. Achei que ia ter outro ataque. Me sentei na mesa um. Fish, na minha frente, era tão alto que eu tinha que levantar a cabeça.

Vi Julia na multidão. Ela parecia preocupada. Wendell não estava à vista.

Enquanto eu me preparava para meu destino, meu irmão entrava no Mão de Ferro. Ninguém pareceu notar.

Dois sinos soaram.

O cotovelo de Fish se apoiou na mesa. Eu apoiei o meu. Apertamos as mãos, eu percebendo a diferença daquele cara contra mim.

Um sino.

O bar pareceu prender a respiração. Fish não me deu nenhuma ajuda e colocou toda sua força contra minha mão. Meu braço se entortou para o lado e eu tive que lutar para não me desequilibrar da cadeira.

Só o esforço para não deixar a mão bater na mesa já era imenso. Eu jamais ganharia dele.

Ouvi algumas exclamações na multidão. Alguém gritava algo. De repente o bar inteiro ficou quieto. O silêncio se penetrou no aposento. E a minha mão bateu na mesa.

Fish urrou feliz e se levantou flexionando o músculo. E aí nós dois vimos o Leo.

"Oh?! Espera..." Robb disse, apontando de mim a Leo.

A última vez que eu tinha vindo ali foi há anos atrás, ninguém lembrava. E aqui estavam os gêmeos se encarando com paciência. Me levante e parei na frente do meu irmão. Atrás de mim, os dois atletas restantes continuavam tentando ganhar com urros e gemidos.

"Quebrei meu braço." Leo disse, mostrando as faixas por baixo da camiseta. "Não ia conseguir competir, por isso pedi a..."

Antes que ele pudesse me expor, Wendell foi a frente. Eu não conseguia dizer nada, porque percebi o que ele fazia. Ele ia levar a culpa.

"Xavier! Seu irmão Xavier...você pediu a seu irmão para te substituir. Certo?"

Os dois tiveram uma conversa silenciosa.

Leo assentiu.

"Isso mesmo. Pedi a meu irmão que lutasse por mim." Ele assentiu.

Me sentia angustiado. Leo parecia chateado, mas ele me chamou de irmão. E eu arruinei tudo. A multidão sussurrou. A injustiça se espalhou como uma chama, e todos começaram a pedir por reparações.

Júlia ficou no fundo, tentando se misturar com a parede.

"Sinto muito, mas não haverá mais lutas. Vocês perderam, não importa qual tenha sido o Rocha que lutou." Robb explicou. Ele parecia desconfortável. O trabalho de apresentador não parecia tão bom agora.

Ninguém discutiu, mas os olhares de ódio falavam o bastante. Leo e eu jamais seríamos bem vindos aqui de novo.

"Vou ter que banir os dois. Sinto muito."

Leo sorriu de canto.

"Obrigado por todas as ótimas memórias. Tenham um bom Torneio. Vamos..." Ele se retirou fazendo sinal pra mim e eu o segui.

Ao sair no ar da noite, Wendell foi buscar o carro. Devia querer dar um tempo para eu e Leo conversarmos. Não o culpava, o clima estava tenso.

Leo se virou pra mim. Esperava que ele me culpasse por termos sido banidos. Gritasse comigo por tudo que eu fiz. Por ter roubado a identidade dele. Ao invés, ele apoiou a mão no meu ombro.

"Sem segredos. Não estou falando do corte de cabelo e do nome, isso você tinha que dizer quando estivesse pronto. Estou dizendo de se passar por outra pessoa, de mentir. Entendeu?"

Eu assenti.

Ouvimos um clamor dentro do bar, e ignoramos.

Leo me puxou pra um abraço. Tudo ia dar certo. No final das contas, isso nunca foi sobre conseguir a grana. Era minha própria missão. Talvez se nós lavássemos carros ou pratos, poderíamos ganhar um extra. Ambos nossos pais eram difíceis, mas meu pai estava em um nível diferente.

Ouvimos passos atrás de nós. Nos separamos e ficamos de cara com Fish.

Leo se colocou na minha frente.

Fish riu.

"Não quero machucar vocês, Rocha. Ganhei o torneio! E quero que fiquem com o dinheiro." Fish ofereceu um maço de notas.

Eu olhei para Leo. Ele parecia tão confuso quanto eu.

"Porque?" Falei.

Fish sorriu. Era uma visão não familiar.

"Sabe que alguns peixes são capazes de mudar de gênero quando quiserem?" Ele confidenciou em voz baixa.

Meus olhos se iluminaram. Leo ainda parecia confuso. Ao olhar Fish, foi como se minha percepção mudasse. Ele tinha um rosto redondo e feminino, o cabelo era masculino como o corpo, as mãos eram delicadas. Era um rato de academia, sim. No entanto, era muito mais que isso.

"Eu tento mudar as coisas aqui dentro, fazer uma diferença. Mas é difícil." Fish suspirou. "Pode levar o dinheiro se me prometer que uma pequena parte irá para alguma organização boa. Um lugar de honestidade."

Eu me aproximei e peguei o maço de notas.Parecia bom demais pra ser verdade.

"Sabe, pequeno Xavier, as pessoas dizem que alguém como eu tem que ser ou isso ou aquilo. Eu discordo. Você tem que ter clareza na mente pra ver que eu posso ser o que eu quiser na minha mente e espírito. O corpo nós podemos fazer nosso. E além do mais..." Ele flexionou os braços. "Como assim não posso ser ambos, com esses braços musculosos e delicados?"

Com um tom humorístico, ele soltou uma risada louca e voltou pra dentro do clube.

Leo me olhou desconcertado.

"O que acaba de acontecer aqui?"

Eu sorri. Passei os dedos pelo dinheiro.

"Nós conseguimos um advogado de divórcio, meu irmão."

Ao voltar pra casa, meus pais estavam quase morrendo de raiva. Falei que ia usar o dinheiro para ajudar a mãe. Os dois estavam em choque, por motivos diferentes.

Meu pai xingou, chutou e tentou avançar em mim. Meu irmão o parou e disse calmo, "se você tocar um dedo no meu irmão, não vou ser só eu com um braço quebrado".

Ele saiu e semanas depois ainda não sabíamos onde ele estava. Minha mãe naquela noite, nos abraçou e mesmo errando os pronomes, disse que me amava. Era um caminho longo.

Nos encontramos com a Júlia e ela estava de mão dadas com sua namorada. Parece que decidiu namorar firme dessa vez. Leo nunca esteve tão orgulhoso. Ao voltar para escola com meu nome social, as pessoas respeitaram minhas roupas confortáveis e escolhas. Os que não o fizeram eram desafiados para uma disputa. Era só olhar nos meus olhos decididos e eles já se desculpavam e sorriam em desconforto.

Leo conseguiu um trabalho na academia local, e sua energia positiva atrai muitos.

E Fish, você pode estar perguntando. Ele voltou ao clube no dia que ganhou e fez um anúncio. Ia sair da cidade e fundar seu próprio clube diverso. Ao invés de focar em masculinidade, ia focar na força que qualquer um pode ter. Foi recebido com aplausos secos. Eu achei uma ideia incrível.

Essa é a minha história. Qual é a sua?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.