Arms up!
1 O Novo Campeão
Para mim, meu irmão sempre foi meu maior herói. Ele sempre teve tudo: fama, confiança, amigos e respeito. Nós somos gêmeos, ele nascido biologicamente um homem e eu biologicamente mulher. Sempre nos parecemos um com o outro, pelo menos por fora.
Lembro de que quando eu tinha seis anos, nós cortamos todos os meus cachos loiros por um corte pixie desalinhado e feito com tesoura de cozinha. Nunca havia estado mais feliz. Minha mãe ficou tão furiosa e essa foi a primeira vez em que a vi ralhando o Leo. Meu pai odiou ainda mais.Na escola, Leo sempre sentava com as pessoas populares. Era o garoto que sempre fazia todos rirem, e trazia conversa a mesa. Estudávamos na mesma sala. Ninguém mexia comigo. Não porque se importavam, os bullies se importavam só de proteger seus rostos do punho de meu irmão.Até o dia em que meu irmão se tornou um desapontamento. Veja, em nossa cidade do sul, não havia muito a fazer. Sem litoral. Os únicos clubes tinham música alta, um pesadelo para os introvertidos, e eram sempre fechados cedo demais. Só havia um parque grande, e dois shoppings. Havia um lugar, no entanto, que chamava a atenção. Um bar para todas as idades. "Pessoas de mau caráter", diziam os mais velhos. Ou "esquisitos, meio assustadores" era a opinião dos que ainda estudavam. Leo foi um dia sozinho e retornou estático. Ainda me lembro, devia ter uns treze ou catorze anos. Ele se sentou na beirada da minha cama, rindo."Esse bar... será meu legado, K." Parecia fora de si.Nos próximos dias começou sua dieta. Se alimentou só de carne, passou as manhãs na escola e as tardes na academia. De noite, dormia com dois sacos de gelo nos antebraços.Meus pais foram muito verbais contra aquilo tudo. Gritaram, dissseram que ele "jamais se tornaria um daqueles punks briguentos" e até ameaçaram chuta-lo para fora.Sempre penso em quão determinado Leo foi. Após semanas, sua primeira disputa ia acontecer. Ele me levou junto.Jamais me senti tão deslocado do que naquele lugar. As paredes eram decoradas com homens de regata mostrando os bíceps, ou quadros de lutadores premiados. Mesas quadradas eram espalhadas pelo bar de madeira. Um balcão servia bebidas e um palco mostrava um grande troféu dourado.Enquanto Leo se inscrevia, me sentei. Havia poucos solitários do meu colégio ali, muitos moradores que eu jamais havia me encontrado antes. A característica principal parecia ser um brilho nos olhos, uma audácia. Com ou sem tatuagens, se vestindo de forma escandalosa ou discreta, cabelo raspado ou caindo até a cintura como suas barbas, todos pareciam estarem se desafiando só por estarem aqui.Meu irmão lutou com dois caras, muito mais velhos do que ele. Ganhou dos dois."Não é uma questão de força", havia me explicado, "é habilidade, K."Nos próximos dois dias, nós voltamos lá e meu irmão novato ganhou todas. Até a última noite, quando ele foi anunciado vencedor.O prêmio de dois mil foi uma surpresa. O troféu foi levado para casa.Leo me explicou que havia lutas todo fim de semana, mas o grande Torneio Mão de Aço só acontecia uma vez por ano.Meus pais ainda odiavam ter meu irmão fazendo amizades com "aquela gente" e mesmo assim não se opunham a pegar o dinheiro do prêmio para suas próprias vontades. Os amigos de Leo se distanciaram dele. Eu não voltei ao Mão de Aço por muito tempo, e só ouvia quando meu irmão descrevia os acontecimentos. Nos próximos três anos, agora com dezessete, eu já estava inteirado.O clube havia ganhado uma notícia no jornal. O clube tinha sua primeira mulher lutadora após todos esses anos, e ela chegou na semifinal. O ex melhor lutador do clube havia se aposentado.Eu continuei com meus afazeres, indo à escola e evitando que meus pais me odiassem como faziam com meu irmão. Amava Leo, mas jamais quis ser parte de nada disso. Até Leo quebrar o braço. Recebi o chamado no celular e levei minha bicicleta direto ao estacionamento do hospital. Andei pelos corredores brancos, imaginando a gritaria que meus pais fariam. Estava convencido de que aquele jogo ia terminar mal.Meu irmão deitava na cama hospitalar, com um gesso no braço direito. Seus olhos se iluminaram quando me viu."K! E aí?" Ele sorriu.Minha mãe se virou, as roupas impecáveis. A boca uma linha fina."Seu irmão desastrado caiu de uma árvore enquanto comemorava." Ela falava ríspida.Leo deu de ombros."Parece que não vou competir esse ano." Ele já havia ganhado quatro anos em seguida. Talvez fosse a hora para aquele clube achar um novo campeão."Doeu?" Perguntei, me aproximando e passando o dedo no gesso."Muito. Deu pra ouvir lá na outra rua." Leo parecia achar a situação divertida e embaraçosa ao mesmo tempo. Me peguei pensando no quanto nos parecíamos. Meu cabelo era mais longo, mas o nariz pequeno e o rosto quadrado era o mesmo.Leo era mais confiante, isso o fazia um partido mais atraente. Havia aprendido por experiência própria. "É uma pena que não irá competir esse ano." Laura Rocha disse. Conhecendo minha mãe, havia algo mais a ser dito. "Bem quando eu poderia precisar do dinheiro para um advogado."
Eu e meu irmão nos olhamos. Ele franziu a sobrancelhas."Mãe?"Ela suspirou."Bem, acho que devo lhes dizer: eu e seu pai vamos nos divorciar."A notícia veio de forma esperada, mas ainda parecia surreal. Eles nunca pareceram apaixonados de verdade. Fui até minha mãe, e ela apertou minha mão.Olhei em volta. Sem sinal de nosso pai. Leo notou também. Rangeu os dentes e encostou a cabeça para trás. Deixamos ele ali sobre os cuidados da enfermeira. Nossa casa, de mármore e madeira, luxuosa e imensa parecia só fria agora. No dia seguinte, acordei com minha mãe vendo uma pilha de contas na bancada da cozinha.Tive a impressão de que a firma de bancos do meu pai não ia tão bem quanto ele dizia.Naquele momento, analisei tudo. Leo deitado no hospital: talvez não dizendo o que pensava. Deixando tudo trancado. Minha mãe: tendo que pagar e fornecer para nós dois, sozinha. Meu pai com certeza ia contratar o melhor advogado que pudesse e tentaria tirar tudo dela. Se não por suas próprias razões morais, por vingança sem sentido.Eu não queria ir morar com meu pai. Não queria sair da minha casa. Nesses últimos anos, sempre fiquei de fora do drama. Não escolhia lados e não fazia comentários polêmicos.Era uma pessoa de ideias teóricas, não práticas. Isso tinha que mudar.Peguei minha bicicleta naquela tarde e fui até a casa do Wendell. Ele era um dos meus melhores amigos na escola, e nos dávamos bem justo porque ele também não escolhia lados. Se mantinha na segurança do neutro.A casa era algumas quadras para baixo e mais cômoda e confortável do que a nossa. Bati na porta, e ele a abriu.Wendell era duas cabeças mais alto, tinha pele escura e um cabelo que eu sempre achei lindo, todo cacheado. O começo de uma barba se formava em seu rosto. "Entra, linda." Ele disse e abriu a porta mais.Entrei ignorando o apelido e olhei para as milhares de telas e potes de tinta espalhados pela sala."Projeto de arte?" Perguntei, curioso. A casa parecia vazia."Minha mãe foi vender algumas das telas. Estou só organizando." Ele foi desviando dos potes com cuidado. "Você não veio aqui pra falar de mim. O que tá acontecendo?" Eu não conseguia falar. A ideia era ridícula. Ninguém ia acreditar e eu podia me meter em tantos problemas. Olhei para Wendell, as mãos suadas. Ele observava com curiosidade, sem traços de humor. "Meu irmão quebrou o braço, precisamos de um advogado de divórcio e eu estive pensando... em me passar por ele no Torneio de queda de braço." Falei de uma vez só.Wendell me encarou. Pensei que teria que repetir, mas ele se sentou na poltrona. Esfregou o queixo. Me olhou de cima a baixo."Seus pais estão se divorciando?" Wendell disse.Soltei uma risada. Era mais de nervoso do que nada."Sim. Minha mãe precisa pagar as contas, e meu pai nem apareceu no hospital. Não o vejo desde ontem. Acho que ele fez algo dessa vez, sei lá." "Traiu?""Não sei. Não vou perguntar, mas não acho que meu pai é lá muito leal." Wendell suspirou. Indicou o sofá. Eu me sentei tenso."Alguém sabe do Leo?" Ele perguntou."Ainda não. Vão mantê-lo no hospital por mais alguns dias. Tenho um plano pra tirá-lo do caminho, mas vou precisar de ajuda. E preciso cortar meu cabelo, roupas novas...""E saber como lutar na queda de braço." Wendell levantou a sobrancelha.Sabia que esse seria meu primeiro desafio. Não podia só parecer com meu irmão, tinha que lutar quase tão bem quanto ele. Se quisesse aquele prêmio.A ideia era idiota, mas se funcionasse..."Vai me ajudar?" Perguntei. Ele me olhou e riu. Apertou minha mão."Querida, claro que sim. Pode contar comigo."Alívio me encheu e algo mais. Medo.Começamos a discutir tudo, cada detalhe. Pegamos um papel e anotamos um cronograma de treinamento. Falamos sobre como manter meu irmão no hospital. Demos sugestões de como não deixar meus pais saberem disso até estar terminado.No final, o plano estava começando.
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