Armas da vida

3 Capítulo 3


No outro dia não teríamos aula, para que todos os jovens pudessem arrumar tudo que levariam. Levanto-me com muita tristeza. Olhar para meu quarto e saber que lá meu irmão se matou é péssimo. Coloco uma regata azul escura, uma jeans, tênis e prendo o cabelo em um rabo-de-cavalo bem alto. Vou comer meu café da manhã, meu pai não está em casa e minha mãe está pegando algumas roupas que estavam guardadas. Como um pedaço de torta que minha mãe tinha feito. Sempre gostei das tortas dela. Tomo meu remédio e decido sair um pouco de casa. A rua que eu moro sempre foi pequena e quase ninguém mora lá. Sigo em direção a alguns morros, e depois dos morros tem uma floresta. Podia ficar na floresta das 10h30min A.M à 03h30min P.M. Eram 08h37min A.M, mas já tinha algumas habilidades para passar dos guardas e ficar lá. Subi em uma grande árvore e de lá fui caminhando entre as árvores até o meio da floresta. Lá sempre tinha uns rapazes que ficavam atirando com umas armas de fogo, em um pedaço grosso de madeira. Sempre ficava ali, e só fui descoberta uma vez. Por sempre estar ali, conhecia quase todos os rapazes. Estavam lá: Kyle, Liam, Charles, Neo e um rapaz que eu não sabia o nome. Charles tinha uma boa mira, Neo errava muito, Kyle se quisesse acertava, mas não parecia querer, Liam era praticamente cego, nunca acertava no alvo, e o rapaz tinha uma mira exemplar. Acabei me interessando no rapaz com a boa mira. Charles falou irado:

– Brian está se gabando para quem?

– Não pretendo lhe dizer, se isso lhe interessa.

– Charles não se irrite com o Brian, ele não tem nada entre as orelhas.

– Ei Liam eu tenho sim. Se não notou tenho um nariz, dois olhos...

– Engraçadinho...

Aquela discussão não levaria a nada. Com o tempo sabia como acabar com aquilo. Andei por algumas árvores, em uma pequena distancia e peguei uma pedra que tinha na árvore. Mirei e joguei a pedra em uma árvore. Rapidamente andei para uma árvore perto de onde eles estavam atirando. Só estava o Brian e o Charles lá, os outros foram olhar o que era o barulho, pois poderia ser alguém espionando eles. Brian falava algo para só Charles ouvir. Olhei as horas. 09h13min A.M. Tinha que ir para casa, se não minha mãe se preocuparia. Sabia que não iria conseguir sair de lá naquele momento, então esperei o momento certo. Quando todos voltaram, conversaram um pouco e voltaram a atirar eu decidi voltar para casa. Mas quando eu começo a andar um galho que me apoiei quebra e caio de costas no chão. Ao cair faço um grande barulho. Sei que em poucos segundos eles estariam ali. Levanto-me o mais rápido possível, mesmo me sentindo cansada e me direciono a uma árvore. Não tenho tempo de subir nela então vejo uma grande pedra. Corro em direção à pedra e me escondo atrás dela. Os rapazes rapidamente chegam lá, é para meu azar todos estão lá. Não tenho chances de fazer nada, pois são cinco é eu sou somente uma. Eles logo se espalham a minha procura. Pego um pequeno espelho do meu bolso. Vejo que Brian está se aproximando de onde estou. Consigo ver que em alguns metros de onde estou está as armas deles, onde eles estavam atirando. Se conseguisse correr até lá e pega-las teria como fugir, mas era arriscado de mais. Brian estava cada vez mais perto de mim. Tinha que pensar rápido. Respirei fundo e pensei. Se jogasse uma pedra eles me veriam, se eu corresse me pegavam se ficasse parada me encontrariam. Nenhuma opção. Aquilo me deixava nervosa, pois poderiam me encontrar em qualquer segundo. Respirei fundo novamente. Tinha que olhar por outros ângulos. Vi que alguns metros dali, havia um buraco, ele era fundo e pequeno. Eu com certeza caberia ali, só não sei como sairia de lá. Brian quase estava quase me encontrando. Minha escolha já estava feita. Corri o mais rápido possível e pulei no buraco. O buraco era maior do que eu esperava. Estava esperando que ninguém tivesse me visto. Olhei para cima e vi que Brian, Charles e Kyle estavam olhando para o buraco. Sinto que corei, mas de raiva por ter sido descoberta. Kyle disse:

– Olha o que encontramos na toca do coelho. Alice anda passeando de mais não acham?

– Bem, você sabe que não está seguindo as regras direito não é mocinha?- Brian falava com orgulho.

– Estique os braços para tirarmos você dai.

Eu tinha inteligência que não deveria sair dali. Eu disse:

– Sair e ser morta? Prefiro esse buraco.

– Bem, Liam e Neo não te viram ainda aí, deixe te ajudarmos que será melhor.

– Que tal vocês pegarem terra e cobrir o buraco? Muito melhor do que eu sair daqui...

– Vamos rebelde, Liam e Neo não serão legais com você.

Toco no bolso de trás da calça, um canivete. Estico meu braço esquerdo. Brian me puxa do buraco, e rapidamente corto sua mão com a faca. Ele larga minha mão e corro o mais rápido possível. Ouço passos atrás de mim. Sei que se olhar para trás vou acabar perdendo velocidade. Só vou parar se algo me puxar. Sei que seria idiota ir para casa, e sei para onde devo ir. Estava perto de uma árvore “fácil” de escalar. Tenho mais facilidade andando em árvores, e com certeza me livrarei deles pelas árvores. Quando me aproximo da árvore subo nela o mais rápido possível. Chego a uma altura “segura” e olho para baixo. Vejo que Brian, Liam e Charles se preparam para subir na árvore. Sinto um nó se formar no meu estomago. Passo rapidamente entre os galhos em direção oposta a cidade. Sei que isso parece burrice, mas sentia que sabia bem o que estava fazendo. Consigo ouvir que eles estão se aproximando. Sei que se for pega não será bom. Sigo em um caminho de galhos fracos, que são difíceis de lidar, mas como vivo naquela floresta desde pequena sei muito bem como andar por lá. Ouço um galho quebrar e um barulho estrondoso. Olho para trás em quanto subo mais alto. Liam caiu da arvore. Brian está muito perto de mim, ele pode a qualquer segundo me agarrar. Quando chego a uma parte alta da árvore vou seguindo em frente e descendo, para conseguir chegar a uma parte da floresta que me livraria deles, sem nenhuma duvida. Mas quando estou descendo de um galho para outro, sinto algo segurar minha mão. Perco o equilíbrio e fico pendurada, sendo segurada pela mão. Olho para cima e vejo Brian segurando minha mão com a mão que eu o cortei. Ele me olha com um ar malicioso e diz:

– Nunca vi um coelho escalar algo tão rápido, não acha Charles? – Brian fala ofegante em quanto tenta deixar a respiração mais lenta.

– Sim, e olhe a altura- Olho para baixo e vejo que a queda poderia me fazer ter muitos problemas. Charles continua- Sabe podemos te poupar disso e lhe fazer voltar para casa, à salva, mas você deve concordar com o que iremos fazer e rápido, por que se Liam e Neo chegarem aqui, (que com certeza iria demorar por que eu tinha escolhido uma parte em que as árvores se cruzam nas raízes) não sairá viva daqui. Aceita mesmo não sabendo o que é?

– Bem a coisa mais logica a fazer nessa situação que me encontro é aceitar.

Brian me puxou para o galho que ele estava e me falou baixo só para nós ouvirmos:

– Vamos subir para os galhos mais altos para eles não verem você.

Subimos o mais alto que conseguimos e Brian disse:

– Charles vá lá atrás deles e diga que perdemos a garota de vista.

– Eu não sou maluco de ouvir o Liam e o Neo reclamando.

– É só reclamação, nada de mais.

– Você não pode ir?

– Não, eu sou mais rápido que você, e conheço esta floresta, consigo levar ela para casa dela.

– Tudo bem, mas vamos ouvir pouco Liam e Neo reclamando por semanas.

– Isso é o menor dos nossos problemas.

Charles desceu da árvore. Brian se virou para mim e disse:

– O que você pensa que pode fazer aqui nessa hora?

– Coisas que não lhe interessam.

– Bem já que não me interessa esse assunto eu levo você para o Liam e o Neo.

– Eu me perdi.

– Jura? Perdeu-se e ficou vendo a gente atirando e ainda por cima estava em uma árvore. Nossa, você é muito perdida...

– Me falaram que tem uns rapazes que ficavam atirando com armas de fogo no meio da floresta, e eu fiquei curiosa.

– Quem que falou? Você parecia que já fazia isso a muito tempo.

– Não lembro o nome.

– Sem problemas quando eu te levar na cidade você me mostra.

Engoli seco. Não tenho como mostrar alguém e por toda a culpa na pessoa. Respirei fundo e disse:

– Eu ouvia boatos que tinha uns rapazes que vinham na floresta ficar atirando com armas, e eu nunca vi uma arma e para saber se era verdade eu vim aqui ver.

– Mas você escalou as árvores como se já conhecesse o caminho...

– Não era uma criança quieta.

– Deu para perceber. Como irei tirar você dessa encrenca...

– Tem um caminho subterrâneo que se seguirmos ele dá nos morros.

– Sim tem essa opção, mas se virem você não adianta em nada.

– Foi só você que me viu na árvore?

– Sim, nenhum deles tinha te visto.

– Se nenhum viu antes, não vão ver depois.

– Muito bem seu raciocínio. Vamos, não temos tempo a perder.

Andamos por entre algumas árvores em completo silencio. Ao chegarmos no meio da floresta, Neo e Liam estavam lá. Brian estava do meu lado no topo da árvore. Ele falou para somente eu ouvir:

– Vou lá falar com eles. Não sai daqui, se descobrirem você, você morre e eu vou ter que pagar por isso.

Fiquei indecisa se deveria ir embora, sem ele me ver, mas sabia que não teria chances contra eles. Fiquei sentada esperando pelo Brian. Passei a mão por alguns fios que estavam soltos do meu rabo-de-cavalo. Os fios estavam com cor de terra, que deve ter ficado assim quando entrei no buraco. Pelo menos minha identidade estava a salvo. Depois de um tempo consegui ouvir os tiros a distancia, também ouvi passos. Não sabia se era Brian subindo ou outro rapaz, então me preparei para qualquer caso. Brian subiu e sorriu para mim e disse em um modo descontraído:

– Aqueles garotos que não acreditam na minha palavra... — Ele olhou para meus cabelos- pelo menos cair no buraco ajudou a lhe disfarçar.

Ele riu baixinho e pegou na minha mão e foi me guiando, mesmo eu conhecendo o caminho. Chegamos aos tuneis. Ele disse:

– Eu tenho que voltar para lá, então não posso ir com você. Tome cuidado para não se deparar com nenhuma pessoa pelos tuneis. Saia na primeira saída e vá direto para casa. Não fale com ninguém em nenhuma parte do caminho e nunca conte do que você viu. Espero lhe ver outra vez, mas sem esses problemas.

Assenti com a cabeça e ele se foi. Quando ele saiu dei um sorriso. Me sentia feliz. Segui pelos tuneis. Conseguia ouvir ao longe as pessoas conversando, mesmo as pessoas falando o mais baixo que conseguiam. Tinha um túnel que dava em frente a minha casa. Entrei em casa e fui direto ao banheiro. Queria esquecer tudo àquilo que me ocorreu. Tomei um banho (foi um pouco complicado tirar a terra do cabelo, mas consegui no final), me troquei e queimei as roupas que usei na floresta. Desci para a cozinha e tomei meu remédio. Eram 12h37min P.M. Peguei um sanduíche que tinha na geladeira e subi para meu quarto. Comi o sanduíche e dormir. Acordei de noite com meu pai chegando em casa. Ainda estava muito cansada. Arrumei algumas coisas que ainda não tinha colocado na mochila e fui de volta para a cama. Não sei o motivo, mas fiquei me sentindo como quando eu ficava com meu irmão, mas isso não foi a coisa mais estranha do dia.