Armas da vida
12 Capítulo 12
Acordei em um lugar que não sabia aonde era. Senti minhas pernas diferentes. Puxei a coberta um pouco e vi que minhas pernas estavam enfaixadas uns dois palmos acima do joelho. Olhei em volta e vi uma mesa do lado de minha cama. Na mesa continha um vaso para flores que invés de flores tinha um papel dobrado com meu nome nele. Eu tentei me levantar e senti uma mão segurando meu braço direito que estava enfaixado muito apertado. Por um segundo achei que era o Brian que estava lá, mas quando consegui abrir os olhos completamente vi que era o Kyle. Eu disse tonta:
– O que aconteceu?
– Você estava fazendo um exercício e bateu a cabeça.
Eu sabia que era mentira, mas eu mesmo assim disse:
– Por que eu estou toda dolorida, com o rosto estranho e um braço enfaixado?
– Você se machucou feio, mas continua bonita.
Sabia que ele gostava de mim, mas nunca gostei de saber que alguém me achava bonita. Sempre tentei esconder minha beleza como minha mãe me ensinara há anos. Eu tentei sorrir e disse:
– Pode me ajudar a me levantar?
– Você não poderá andar por um tempo.
– Por quê?
– Quando você estava fazendo o exercício machucou as pernas e ficará um tempo sem andar.
– Poderia me trocar?
– Claro, mas vou chamar uma enfermeira para lhe ajudar a trocar de roupa.
Ele saiu e com muito esforço me levantei e manquei em direção à mesa, mesmo ele dizendo que não deveria andar. Coloquei o braço no vaso e puxei o papel. Dobrei ele o menor que consegui e o deixei na minha mão fechada. A enfermeira chegou e perguntou assustada:
– Como você consegui se levantar? A dosagem de relaxantes muscular era muito alta para deixar você de cama por semanas...
Ela se aproximou de mim e segurou o meu braço esquerdo e me guiou até um banheiro. Ela fechou a porta e disse:
– Você pode se sentar nessa cadeira e eu vou lhe ajudar a colocar uma roupa.
Eu me sentei e ela se virou e pegou em um pequeno armário uma blusa, short jeans e um sapato de pano bem simples. Nunca gostei nem de shorts ou bermudas, não gostava de mostrar as pernas mesmo elas estando enfaixadas. Ela me ajudou a vestir toda a roupa e disse:
– Você vai ficar três dias sem fazer nenhum esforço físico e também deve ficar em uma cadeira de rodas por causa de vários ferimentos que não queremos que piorem. Seu braço direito vai ficar bom daqui dois dias. Depois dos dois dias poderá fazer exercícios com o braço e não vai demorar e você já vai poder voltar a andar.
Ela me ajudou a me levantar e me levou até o quarto em que ela me deixou sentada na cama e saiu. Quando ela saiu eu coloquei o papel no meu bolso. Kyle entrou e disse:
– Vem aqui, vou lhe levar até uma cadeira de rodas.
Ele segurou no colo como o rapaz que me ajudou quando o Brian estava quase me matando. Não queria ver o rosto do Brian. Kyle me levou até um lugar em que me colocou meus pés no chão, mas segurava minha cintura não deixando eu colocar peso no chão. Ele pegou uma cadeira com rodas e me ajudou a sentar nela. Ele disse sorrindo:
– Eu vou começar a lhe treinar essa semana.
– Mas o Brian que estava me treinando e os rapazes- Ele tirou o sorriso que tinha no rosto ao ouvir o nome dele.
– Ele vai continuar a treinar os rapazes e vai acompanhar o seu treinamento. Ele esta proibido de treinar você.
Eu deveria estar feliz por ele não poder me machucar, mas eu não queria ter que ver ele. Kyle começou a empurrar a cadeira de rodas e disse:
– Você deveria pegar leve com a luta. Uma garota tão linda, você pode aparentar frágil, mas é o contrario disso. É muito forte.
– Kyle eu não sou forte nem bonita. Eu nem sei quem eu sou...
Ele parou de empurrar e ficou parado na minha frente. Rapidamente protegi meu rosto e me preparei caso tivesse que correr. Ele disse:
– Calma Lucy! Sou só eu, Kyle, não vou lhe fazer nenhum mal.
Eu abaixei o braço e pude relaxar. Ele se ajoelhou e disse:
– Você é uma garota linda e não deve se sentir feia ou fraca. Você conseguiu lutar com o Brian! Ele normalmente precisa ser imobilizado por muitas rapazes e olhe que eles saem bem machucados.
Eu sorri e estiquei os braços em sua direção. Ele me abraçou. Eu queria chorar, mas minha família me ensinou a ser forte. Eu o larguei e disse:
– Que horas são?
Ele me largou e se levantou. Ele disse:
– Hora do almoço.
Ele me levou até o refeitório. Ao chegar na porta ele disse:
– Você consegue levar a cadeira até lá?
Fiz que sim com a cabeça e ele disse:
– Bom tenho que ir.
– Tudo bem.
Ele se virou e se foi. Eu empurrei a porta e com muito esforço consegui empurrar a cadeira para dentro. Jin e Jack estavam sentados em uma mesa conversando e me viram. Jin se levantou e veio correndo em minha direção. Ele parou alguns centímetros de mim e disse alegre:
– Você já está melhor!
– Sim, mas não estou 100%...
Jack se aproximou e eu disse:
– Onde estão a Carol e a Julie?
– Elas ficaram treinando... – Jin parecia que queria que eu não falasse nisso.
Jack parecia muito triste. Eu decidi que iria perguntar algo que tinha certeza que iria me arrepender:
– A Carol terminou com vo...
Jin tapou minha boca com a mão e disse:
– Jack vou ajudar a Lucy a fazer o prato dela.
Ele começou a empurrar a cadeira de rodas e tirou a mão da minha boca e quando chegamos à fila ele disse:
– Lucy você não deveria ter perguntado aquilo!
– Bem se você não notou fiquei um tempo longe de vocês em coma, e eu ainda não consigo estar em dois lugares diferentes! Pode me explicar o que aconteceu?
– O Jack não sabia se amava a Carol e decidiu “ficar” com outras garotas e ver se amava ela mesmo, só que ela descobriu...
– Porque ele fez isso se até agora ele estava apaixonado de mais pela Carol? E como assim “ficar”?
– Não sei... “Ficar” é um termo para quando você beija uma garota, no seu caso garoto, mas não estão namorando. É como ter um relacionamento, mas sem comprometimento.
Ele pegou duas bandejas e me entregou uma. Coloquei algumas coisas nela e ele empurrou a cadeira até uma mesa. Ele começou a comer e disse:
– Você está muito bonita hoje.
Ele era a segunda pessoa que dizia isso e eu sabia que eu não deveria estar bonita. Eu olhei para o meu prato de comida e nele continha: macarrão, carne bovina frita e molho de tomate. Aquilo me dava vontade de vomitar. Eu disse:
– Jin você se importa se eu for para o dormitório agora?
– Você consegue ir sozinha?
– Sim.
Eu sorri e comecei a empurrar a cadeira com as mãos até o dormitório. Ao chegar lá abri a porta e entrei. Eu fechei a porta atrás de mim. Não tinha ninguém lá. Empurrei a cadeira de rodas e com dificuldades cheguei na frente da minha mochila e tirei o papel do bolso. Peguei a bala que estava na mochila e fui até o banheiro. Fechei a porta e tranquei-a e desdobrei o papel. Nela estava escrito:
“ Lucy me desculpe pelo o que eu te fiz. Quando “eles” chegaram e me tiraram de lá eu notei o que tinha feito. Me desculpe! Eu sei que eu lhe machuquei mas eu não queria fazer aquilo. Eu não sei o que deu em mim, mas eu vou tentar ao máximo que não ocorra de novo. Lucy espero que você possa me perdoar, mas tem algo que você precisa fazer para mim: lembra daquela bala que eu achei e te dei? Eu preciso que você a traga para mim na próxima aula. O Kyle vai lhe dar aulas essa semana pois eles acham que eu estou “impossibilitado de lhe dar aulas” mesmo eu sabendo que estou totalmente possibilitado. Eu sei que o que eu fiz é errado, mas eu não queria que aquilo tivesse acontecido, Lucy você tem que confiar em mim mesmo pelo o que eu te fiz. “Eles” nunca vão poder saber de algumas coisas. Amanhã você deve me esperar antes do almoço perto dos dormitórios, mesmo sabendo que você não ira esperar pelo menos tente. Não esqueça de queimar essa carta. Te vejo amanhã, quase ia esquecendo, quando te visitei no hospital, mais cedo, e vi seu rosto... Sei que está todo cortado mas ainda assim te acho linda de mais.
Assinado: Brian ou seu irmão.”
Aquilo era estranho, mas não poderia ficar com aquela carta. Amassei a carta e a coloquei no meu bolso e sai do banheiro e fui em direção a minha mochila e peguei o isqueiro e fui ao banheiro. Peguei o isqueiro e queimei a carta. Eu ainda me lembro quando queimei a carta da minha mãe. Foi à coisa mais difícil que eu tive que fazer. Mas agora que eu sei que meu irmão esta vivo eu posso ainda ter esperança que não perderei minha família ao queimar a carta. Fui ao quarto e por sorte não tinha ninguém lá. Meu corpo doía muito e fiquei pensando no que a enfermeira disse. Era para eu não conseguir me levantar com o relaxante muscular. Eu então lembrei que tinha que ter tomado meu remédio. Eu usei a cadeira de rodas para chegar lá e peguei o remédio na mochila e tomei ele. Eu então decidi sair do quarto e ir para a sala de treinamento. Ao chegar lá eu vi o Brian com o Kyle conversando. Eu queria dar meia volta e ir embora, mas Carol me viu e foi em minha direção. Ela disse alegre:
– Lucy você já esta de volta! Estava com saudades de você.
– Faz quanto tempo estive fora?
Brian se aproximou de mim. Senti um calafrio percorrer o meu corpo e eu comecei a ter falta de ar. Tinha que me acalmar. Ele disse:
– Lucy você está bem?
Eu não estava, mas não queria falar para ele. Meu antigo irmão tinha me ensinado a nunca contar o que estava sentindo. Tentei me acalmar e fingi que ele não tinha falado nada. Gritei:
– Oi Kyle!
Ele se aproximou de mim e disse:
– Lucy você não pode fazer exercícios físicos.
– Mas eu posso fazer com o braço esquerdo.
Ele me olhou com um olhar estranho. Carol já não estava lá. Brian disse:
– Lucy se quiser eu empurro sua cadeira de rodas.
Isso seria a única coisa que eu não iria querer, mas minha boca parecia que não era minha disse sem eu querer:
– Pode ser.
Ele então começou a empurra-la. Eu não estava mais tão confiante perto dele. Agarrei o braço do Kyle e ele viu que eu não estava bem com o Brian perto de mim, mas ele não parecia que iria tira-lo dali. Eu disse tentando deixar minha voz estável:
– Eu consigo andar não preciso disso.
– Consegue? – Kyle parecia impressionado, mas Brian o interrompeu.
– Lucy você não pode andar, terá que ficar nessa cadeira por um tempo.
Aquilo meu deu muita raiva por não poder fazer o que eu queria. Eles chegaram perto da arquibancada e Kyle saiu para pegar alguma coisa. Ele me deixou só com o Brian. Ele se aproximou do meu ouvido e disse:
– Trouxe o que eu lhe pedi?
Eu não respondi e tentei fingir que ele não estava ali, mas tinha medo que ele ficasse bravo e então disse ironicamente:
– Pediu? Quando? – Revirei os olhos segurando a vontade de dar um soco na cara dele.
– Eu sei que você viu o papel no vaso. Eu preciso que antes de ir jantar me espere perto do dormitório.
Eu não aguentei e disse com raiva:
– Como eu posso confiar em você? Depois de você me fazer ir parar no hospital e não poder andar! Não, Brian eu não vou te esperar perto do dormitório e você mesmo sabe que não farei isso.
Tentei tirar a cadeira de rodas dali, mas ele segurava firme. Me levantei e tentei andar mas não tinha equilíbrio e tropeçava para o lado. Meus pés me incomodavam demais. Comecei a cair para o lado e Brian me agarrou antes que eu caísse. Ele disse preocupado:
– Lucy o que deu em você? Por favor, fique acordada.
Eu ouvi passo e ouvi algo pesado cair no chão. Não conseguia sentir minhas pernas, mas eu sabia que elas estavam lá. Kyle disse apavorado:
– Leve ela na emergência antes que ela perca essas pernas!
Senti os braços do Brian passando pela minha costa e pela as minhas pernas, também sinto ele se levantando e correndo comigo nos braços. Tentava sair dos braços dele, mas ele me segurava com força. Eu gritei:
– O que está acontecendo?
Não conseguia sentir minhas pernas. Eu tentei movê-las, mas elas continuavam iguais. Ele disse:
– Você sabe que não foi de proposito. – Ele virou para o lado direito e quase perdeu o equilíbrio, mas retomou-o em quanto corria- Você teve grandes problemas com uma inflamação e com um ossos deslocados. Não queriam te engessar e então decidiram deixar assim sem que você andasse, mas você nunca ouve as pessoas e agora esta com um grande risco de perde a sua perna. VOCÊ PODERIA TER ME OUVIDO! – Ele berrava como se isso fosse me ajudar a melhorar.
– Eu nunca confiaria em quem quase me matou! Como posso ouvir um psicopata?
– Eu não sou um psicopata, por que psicopatas não amam, já eu...
Ele fez uma curva brusca e entrou em uma sala. Na sala tinha umas cadeiras, mas ele abriu uma porta e quando entrou tinha alguns médicos fazendo uma cirurgia e Brian abriu espaço em uma mesa que estava no canto da sala e me colocou em cima dela. Um medico falou bravo:
– Brian estamos no meio de um cirurgia!
– É a Lucy! Ela tentou andar...
O medico rapidamente correu em minha direção e passou a mão na minha perna. Ele então disse:
– Rápido eu quero uma tesoura e metade dos médicos. Raquel você consegue continuar a cirurgia. Eu preciso de anestesia. Andem rápido não temos muito tempo!
Brian segurou minha mão em quanto colocavam uma mascara de oxigênio no meu rosto. Senti uma picada no meu braço que me fazia relaxar, mas eu não queria aquilo. Tentei falar, mas não conseguia. Uma medica que estava do meu lado e disse:
– Doutor ela ainda está acordada.
– Aumentem a dose.
– Mas esta no máximo para o tamanho e o peso dela!
– Não temos tempo. Preciso que aumentem a dose!
Senti outra furada. Eu estava com sono, mas eu não iria dormir. Era difícil, mas eu não dormiria sem saber o que iria acontecer. A mesma medica disse:
– Ela continua acordada!
– Lucy é para seu próprio bem! – Era o meu antigo irmão falando. Eu confiei nele.
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