Armageddon - INTERATIVA
1 Prólogo
Notas iniciais
Apenas mais alguns passos e eu poderia dizer adeus. Adeus a tudo que vi. A todos que estiveram ao meu lado. A vida como eu a conhecia. Andaria mais um pouco e atravessaria o gigante portão. Algumas pessoas iam para lá também. Depois de tudo que já passei, não poderia ser tão ruim. Obviamente, não acreditava naquilo. Não depois de ver com os meus próprios olhos, toda a crueldade que o mundo pode ter contra você. Principalmente naquele dia.
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Eu tinha apenas oito anos quando tudo aconteceu. Como num dia comum, lá estava eu ao lado do meu pai, saindo de um supermercado onde havíamos feito as compras do mês. Eu carregava uma sacolinha plástica com alguns pães, enquanto meu pai carregava todas as outras. A pé, passávamos pelas ruas olhando as vitrines de cada uma das lojas da classe alta.
—Pai! Pai! Olha! Era disso que eu estava te falando! O novo PSUltimate4! Todos os garotos da minha turma tem um! Você tem que ver os gráficos, pai! É como se você estivesse lá dentro! Sério! Eu estava jogando e levei um tiro, você sente pressão no lugar atingido! Compra um para mim? Por favor! – Eu colocava minhas mãos e nariz no vidro, não conseguindo conter a ansiedade. Meus olhos estavam vidrados no gigante monitor, onde era possível ver um dos jogos disponíveis no aparelho. Meu pai parou ao meu lado e observou-o também.
—Um pouco exagerado, não? – Sem nem mesmo olhá-lo, eu neguei com a cabeça. – Na sua idade também acharia ele um máximo.
—Então o que estamos esperando? Vamos comprá-lo logo! – Meu pai se ajoelhou e virei para vê-lo melhor.
—Filho, escute o que irei lhe dizer. – Ele colocou a mão sobre meu ombro. – Papai gostaria muito de poder dar ele a você. Muito, muito mesmo. Mas eu não posso, ok? Temos que colocar a sua educação e saúde em primeiro lugar, junto da sua futura irmãzinha. Por isso, espere mais um pouquinho. Quem sabe o seu velho não consegue comprar aquele ciborgue ali, hein? – Ele passou a mão por meus cabelos e sorriu, enquanto eu suspirava, inconformado.
—Mas pai...- Eu iria continuar a importuná-lo, se aquela expressão não estivesse em seu rosto. Estava assustado. Seus olhos estavam arregalados, a boca aberta e seu pescoço dobrado, para que pudesse enxergar o céu.
Curioso, também olhei. Quase me desequilibrei com a visão, segurando no meu pai para que não caísse. O céu, que antes estava claro em um tom azul celeste, agora tomava cores arroxeadas e fumaças escuras rodeavam os ares. Num piscar de olhos, um imenso raio atingiu o horizonte. Não sabia exatamente onde, já que cobria meus olhos para protegê-los da claridade. Meu pai me abraçou enquanto o calor da explosão fazia carros, postes e árvores pegarem fogo.
Após a luz ter sumido e minha audição voltar ao normal, meu pai olhou tudo em volta. As pessoas corriam desesperadas e tudo despencava em puro caos. Ele me afastou um pouco, apenas o suficiente para falar comigo.
—Corra rápido para casa, até sua mãe, está ouvindo? O mais rápido possível. Eu vou ir olhar o que aconteceu. Preciso que você cuide delas durante o tempo que eu estiver fora. Posso contar com você, não posso? – Sem sequer saber o que estava acontecendo, assenti. O homem à minha frente beijou minha testa e saiu apressado. – Cuide-se bem. Eu te amo. — Como um verdadeiro herói faria, ele correu pelo meio da confusão, indo descobrir o que era aquilo. Eu abracei a sacola que antes carregava e o choro já era inevitável. Parei de observá-lo e corri até em casa, sem olhar para trás.
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A realidade em que vivo hoje é muito diferente. O raio, que quase não lembro mais, foi a porta de entrada para os invasores. A Terra já não é mais nossa e tudo o que restou está em um estado deplorável. O ar tornou-se tóxico e é nocivo à saúde. Aspirando-o, as vias respiratórias inflamam, fazendo a vítima asfixiar até a morte. Contato com a pele pode causar queimaduras e um câncer dos mais graves.
Por isso, eu, minha mãe, minha irmã e um milhão de outros residentes, temos sorte de estarmos vivos dentro das bases do governo americano. Ao todo são cinco bases: A, B, C, D e E. Eu sou Dylan O'Neal. Um dos sobreviventes. Vivo na base D, lugar que passei a adotar como casa e refúgio.
Esse ano, completei dezesseis anos. Comparado ao garotinho que era, mudei muito. Meus cabelos castanhos cresceram e tornaram-se mais espessos. Os olhos verdes que herdei da minha mãe, já não tinham aquele brilho inocente e infantil. Por tudo que os anos me fizeram passar, amadureci muito antes do que devia. Eu era alto, havia ultrapassado minha mãe há algum tempo, mas era bem magro. Não que fosse minha escolha, a culpa era da insuficiência da comida. Contudo, na medida do possível, eu era saudável. Minha família reduziu-se a minha mãe e minha irmã, já que não sabemos de meu pai desde o dia. Aqui dentro, sou também reconhecido como residente D-L0718. D indicava a minha base, L o meu bloco e 0718 o meu número dentro dele.
A base onde vivo é enorme. Mas para abrigar tanta gente, o tamanho não surpreende. Ela é subterrânea e não tem janelas. O ar é filtrado em instalações antes de chegar até nós. Nela, há milhões de blocos com vários corredores, onde o cinza monótono do titânio se fazia presente nas paredes, teto e chão. Passei metade da minha vida aqui e ainda me perco tentando achar o meu bloco. Pelo teto são espalhadas fracas luzes brancas e as portas são alinhadas, com a numeração presa em si.
Meu lugar favorito nesse imenso labirinto é o refeitório. Ele era o maior espaço dali, porém era cinza também. Menos o teto. Parte dele era feito de vidro. Lá, eu podia ver o Sol ou as estrelas. Podia sentir como se não estivesse preso. Todas as refeições do dia eram feitas ali. Elas eram racionadas e selecionadas de acordo com o seu peso e altura. Cada residente senta na mesa correspondente ao seu bloco, e o meu era o L. Podia até enxergar a minha mãe e irmã há algumas mesas de distância.
Aos treze anos, fui separado delas, dormindo num quarto com um outro residente da mesma idade. Pessoas a partir dessa idade já não eram mais considerados crianças e nem adolescentes. Aqui, existem apenas adultos e crianças. Mesmo com tão pouca idade, somos supostos a tomar nossas próprias decisões e nos virarmos sozinhos. Decidimos também o nosso futuro. Quer dizer, nós optamos pelo o que queremos, mas é necessário ter o perfil adequado para a atividade. Meu colega residente, Tyler, quer continuar a trabalhar na manutenção elétrica ou na patrulha de monitoramento. Era magricelo e pequeno, um aspecto um tanto frágil. Temendo pela sua vida, queria uma profissão fácil que o manteria a salvo.
Eu, diferentemente, me permitia a sonhar um pouco mais alto. Desde sempre, venho cuidando de mim mesmo para que possa entrar no esquadrão. O esquadrão consiste em um grupo de pessoas muito bem preparadas e resistentes para saírem da base e combater os invasores. Para ser um deles, é necessário estar em perfeitas condições. Cuido do meu peso, tento sempre aproveitar o melhor das refeições miseráveis que nos são dadas e testo sempre meus sentidos e reflexos. De noite, fazia exercícios diários para ficar em forma, o que trazia algumas reclamações do meu companheiro de quarto.
Sendo alguém da base D, era muito difícil entrar no esquadrão. As bases eram divididas pela classe das pessoas antes da invasão. Os da base A eram os mais ricos e a maioria não se dava ao luxo de tentar salvar sua raça e mundo. Os que se preocupavam, no entanto, eram de primeira linha. Os da base B e C eram os que mais forneciam soldados para o esquadrão, enquanto os da D e E eram atraídos apenas pela comida oferecida. Mas eu estava decidido a dar duro pela minha família. Os familiares dos soldados eram mandados para um bloco especial na base B, onde podem ter uma vida mais confortável. Por isso almejava tanto uma vaga naquele grupo. Minha mãe não me apoiava de modo algum. Dizia que preferia viver comigo nesse inferno, do que sem mim num lugar de mesquinhos. Todo o perigo que aquele cargo me faria correr era o bastante para deixa-la morta de preocupação. Não que eu estivesse subestimando o esquadrão – sei que a maioria dos que ousam estar lá, tem o mesmo duro destino: a morte. -, apenas estou certo de que é isso que eu quero. Vamos todos morrer algum dia, deixe-me ao menos escolher como farei isso. Posso soar confiante, mas tremo só de pensar em estar frente a frente com um deles.
Porém não é só esse motivo. Não era somente protegê-las. Queria sair dali. Aquele lugar fazia a sanidade de qualquer um se esgotar em míseros segundos. Não suportava mais ficar nesse buraco de metal. Pode até ser um pouco egoísta... Mas quem não é?
É sempre muito difícil conseguir uma vaga. Pouquíssimos conseguem. O recrutamento é sempre descrito como muito pesado. Nela, os generais avaliam todas as suas capacidades mentais e físicas durante uma semana em diversas provas. Resistência, força, intelecto, velocidade, habilidade... Eles tiram tudo de você. Por esse exato motivo, eu continuo tentando me preparar, e nunca parece ser o suficiente.
As condições dentro da base estavam precárias. A comida era muito pouca para tanta gente. De tanto tempo estocada, era normal encontrar um mofo no pão, uma maçã meio apodrecida ou em alguns casos, uma larva. Mas era tudo o que tínhamos. Era o que o nosso dinheiro podia pagar. O meu salário, sendo um faxineiro de meio período, bancava o meu quarto e todas as minhas necessidades, enquanto minha mãe, que continuou com sua profissão antiga de enfermeira, tem que trabalhar integralmente para pagar tudo por ela e minha irmã, que ainda tem sete anos. Ela trabalha muito mais do que era considerado bom para sua idade, e ficava muito sobrecarregada — o que me incentivava ainda mais.
Hoje era o dia em que todos os interessados em virar soldados deveriam ir para o início do recrutamento. Aconteceria primeiro nas próprias bases e se passássemos a primeira fase, iríamos para outro lugar. Estava ao lado do portão em que deveria entrar. A ideia de que aquela poderia ser a última vez que iria vê-los me machucou muito mais do que eu imaginei. Kate, minha irmã, pulou em meus braços. Ela dizia coisas que eu não conseguia entender por conta do choro descontrolado dela. Abracei-a forte e me perdi naquele momento. De repente não queria mais ir. Só queria ficar ali. Por que eu não posso ter uma vida normal? Por que ela não pode ter um irmão chato, um quarto cheio de brinquedos e ir para a escola? Não. Tínhamos que estar condenados a viver esse sofrimento interminável. Contra a minha vontade, coloquei-a no chão. Era hora de voltar a realidade. Tyler abriu um sorriso e socou-me no ombro.
—Acho que agora os infinitos abdominais vão servir para alguma coisa sem ser tirar o sono de alguém, não é mesmo? – Ele riu. Sabia que ele estava tentando escapar do clima triste que nos envolvia. – Se cuida, está bem?
—Pode deixar. – Olho para os lados e estranho. Onde ela está? Percebendo minha expressão, Tyler intervém.
—Cara... Sua mãe não pôde vir. – Ele coça a nuca, desviando um pouco o olhar. – Ela não podia faltar o trabalho. Ela ficou sabendo de última hora. Está arrasada. Pediu-me que trouxesse sua irmã comigo, para que pelo menos ela pudesse se despedir de você. Ela queria que eu te entregasse isso. Sinto muito. – Ele estende a mão que carregava uma pequena carta. Olhei para ela e a peguei. Mal podia acreditar. Não conseguia lembrar, se na última vez que a vi, disse o quanto a amava. Não pude aproveitar um último abraço, nem olhar para seu rosto, gravando cada detalhe. Não poderia nem dizer adeus. Tentando segurar as lágrimas que já insistiam em sair, agachei-me e puxei Kate para mais um abraço.
—Diga a mamãe que eu a amo. E agora eu confio a você a tarefa que papai me deu, ok? Cuide dela. E de você também. Eu te amo. Você sabe disso, não sabe? – Ela assentiu e eu olhei em seus olhos. Ela disse algo desconexo que pareceu um eu te amo também. Olhei em seus olhos e acariciei seu cabelo. – Tenho que ir. – Coloquei a carta na mochila que carregava em um dos ombros e fui. Quando estava atravessando, virei-me e dei um pequeno aceno. Kate agarrava a barra da blusa do Tyler, que devolveu o aceno. E assim passei pelo portão.
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