Armageddon - INTERATIVA
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Ao entrar no salão, pude perceber que as enormes paredes cinzas do salão não me eram estranhas. Havia passado por aquele lugar no dia em que eu, minha irmã e minha mãe fomos resgatados. No entanto, não era permitido voltar ali, porque, para isso, era preciso se alistar para o esquadrão ou ganhar uma autorização, mas apenas os oficiais da base podiam ter uma dessas. O salão era a única porta das bases D e E para o planeta, ou o que havia restado dele. Parte do teto e da parede dele se abria para as espaçonaves e pessoas saírem e o ar tóxico invadia todo o local. Esse salão tinha um sistema altamente tecnológico que tornava aquela pequena parcela do ar tóxico, boa novamente. O problema desse método é que ele podia durar horas, dias e até mesmo semanas dependendo do tempo que o pátio ficou aberto. Ele tinha um limite de pessoas para a entrada e de horas para a exposição ao exterior. Os cientistas que cuidavam das condições das bases temiam que aquele ar pudesse corroer as grossas paredes de titânio.
O local estava cheio de pessoas tanto da base D, quanto da E, que tinham suas bases conectadas por esse pátio. Vários oficiais do esquadrão e das bases sinalizavam e encaminhavam os possíveis soldados para uma enorme nave que ainda não havia notado. Só percebi o quanto aquele lugar e minhas lembranças me deixavam distraído, após não ver uma construção tão grande como aquela. Parecia uma espécie de helicóptero. Assustei-me com sua estrutura complexa e seu tamanho descomunal. Estranhei o fato de estarmos indo para uma aeronave, se os primeiros testes eram feitos na própria base. Assumi que aquilo era um rumor ou haviam mudado o método de fazer os testes. Perguntava-me o que mais me surpreenderia em toda essa aventura. Apenas segui os comandos. Caminhei até a nave e esperei em uma das quatro filas para entrar nela. Ela era enorme e provavelmente ainda levaria muito tempo até que eu entrasse.
Por causa do tédio passei a observar as pessoas ao meu redor. As filas estavam divididas por base e por gênero, sendo que a base D entraria pelo lado esquerdo e a E pelo direito. O número de pessoas nas filas da minha base era visivelmente maior, mas isso não significava que haviam poucas pessoas nas filas da E. Pelo contrário, haviam muito mais pessoas do que eu esperava, em ambas as bases. Senti que o meu sonho de entrar no esquadrão ficava cada vez mais distante a cada pessoa que entrava naquelas filas. Mas nem tive tempo para remoer o assunto após observá-los com mais atenção. O físico de grande parte dos jovens que estavam ali, conseguia ser ainda pior que o meu. Um ou outro se destacavam tendo algo que realmente podia ser chamado de músculo, mas a maioria parecia ser subnutrida. Vi alguns jovens doentes, com fraturas e até mesmo aleijados. O que eles queriam ali? Estavam realmente tão desesperados para sair das bases? Se os testes eram realmente tão difíceis quanto diziam, eles não passariam nem um dia no treinamento. E, se passassem, serviriam apenas de comida para os invasores.
Sempre achei que não importava o quanto treinasse, nunca seria bom o bastante. Mas parece que estava errado. Deveria ter deixado de incomodar Tyler e ter dado a ele melhores noites de sono. Comecei a lembrar de tudo o que já tinha passado dentro da base. Com Tyler, minha irmã e minha mãe. A tristeza que sentia por deixá-los quase me fazia querer voltar. Mas pensar que todas as memórias que tinha, podiam ter sido melhores se ainda vivêssemos no mundo sem os invasores, me motivava a continuar.
Acordo de meus pensamentos com uma oficial do esquadrão me chamando. Estava tão distraído que nem percebi que já havia chegado minha vez na fila. Ela pediu meus documentos e colocou meus dados e minha digitais em seu computador. Fui autorizado a subir na nave e instruído a sentar na cadeira 1J-154. Desde a invasão, tudo que o que via, parecia ser números. Pessoas, comida, alojamentos... Mais e mais números, sempre extremos. Sempre excedendo o possível ou passando longe dele.
Subi uma escada de metal que parecia ser bastante velha por estar enferrujada e desgastada. Passei por uma portinha e finalmente entrei na nave. O interior dela parecia com o de um avião internacional. Havia um trio de cadeiras perto das pequenas janelas da nave, um no meio e outro perto de uma parede. Aquela área parecia ser apenas um dos vários compartimentos da nave. Olhei para os lado e li 1Z-200. Comecei a andar para frente e as letras começavam a mudar, em ordem decrescente. Ainda teria que andar muito até meu assento.
Depois de tanto andar, finalmente encontrei meu lugar. Era em um dos trios próximos às janelas, o assento do meio. Me sentei e guardei minha mochila em um compartimento próprio que ficava abaixo das poltronas. Comecei a olhar pela janelinha. De dentro da nave ela parecia ser ainda maior, deixando todos lá em baixo pequenos. Afinal, tudo é perspectiva. A minha ansiedade, que antes era uma pequena distração que tornava meu futuro mais claro e meus dias monótonos menos inacabáveis, agora era um medo. E um medo que era separado de mim por um espaço de tempo minúsculo.
Como o esperado, demoraram algumas horas para todos entrarem na nave e isso só me deixava mais ansioso para finalmente deixar esse lugar. Todos os lugares perto de mim já estavam cheios. Uma voz feminina saiu das caixinhas de som, ensinando a como colocar o cinto, falando o que fazer em caso de emergência e outros avisos. Todos os funcionários que estavam no salão já tinham se abrigado nas bases ou entrado na nave. Tudo já estava preparado.
O teto do salão finalmente começou a abrir, fazendo um grande rangido e as hélices da nave foram ligadas. Apesar de o barulho ser praticamente ensurdecedor, todos estavam empolgados demais por finalmente deixarem as bases, para se preocuparem com isso. Alguns raios de sol já entravam, iluminando o salão e finalmente começamos a voar. Ainda não acreditava que realmente estava deixando minha casa e refúgio para trás. Uma mistura de nervosismo e excitação me faziam olhar fixamente para a janela. Todos na nave se espremiam para poder finalmente ver como o mundo estava. Logo vi a areia amarelada do deserto em que as bases ficavam. Tinha me esquecido completamente de como era esse lugar. O Sol do meio dia esquentava a areia e podia ver ondas de calor saindo do solo. O céu estava azul, sem nenhuma nuvem. Os boatos do aumento da temperatura mundial eram visivelmente verdadeiros. Não pude conter um sorriso, mesmo vendo a situação do planeta. Era simplesmente tão bom ver algo que não fosse uma prisão cinzenta.
Não conseguia tirar meus olhos das janelinhas, assim como todos os outros. Todos estavam fascinados com a paisagem. Pelo menos até agora. Depois de alguns quilômetros, uma neblina começava a surgir. A cada vez que avançávamos, ela ficava ainda mais densa. Parecia um foco de ar tóxico. As ruínas do que parecia ter sido uma cidade um dia, começavam a aparecer. Os prédios estavam caindo, plantas crescendo no meio do concreto, areia sujando as ruas e veículos destruídos. A alegria de todos já havia desaparecido. Nessa área era impossível enxergar o céu e marcas da destruição estavam por todo lugar. Agora todos na nave estavam quietos, alguns pensativos e outros próximos do desespero. Eu queria que Kate conhecesse o mundo como ele era antigamente. Ela nasceu dentro das bases e nunca tinha visto o planeta. Não queria que ela tivesse essa imagem de destruição e caos do que deveria ser nossa casa. Ao pensar nela, lembrei-me da pequena carta que minha mãe fez para mim. Peguei-a dentro do bolso da mochila e a li.
Frustração por não ter me visto, raiva de minha decisão, ódio das autoridades e do trabalho. Orgulho de minha maturidade, apoio imensurável e fé no meu futuro. Naquelas palavras escritas com descuido e pressa, enxergava minha mãe com clareza. O conflito de emoções e a sinceridade que ia muito além do necessário, descreviam e formavam a imagem de minha mãe fielmente. Não derrubei uma lágrima. Não deixei escapar um sorriso. Resolvi parar de pensar nisso, não seria bom sentir falta da minha família. Pelo menos não agora. Em vez disso, adormeci para passar o tempo e não me deixar cair na saudade, mesmo sabendo que era impossível.
✤
Acordei com um rumor e tumulto. Pela janela, vi uma porta que se abria no chão. Era como um círculo, onde suas metades separavam-se, desimpedindo a passagem. A nave começou a descer e entramos em uma grande sala, também de titânio. Com a nave pousada dentro do local, a porta começava a se fechar e o motor era desligado. Luzes foram ligadas e máquinas embutidas nas paredes do local limpavam o ar. Demorou pouco menos de meia hora para esse processo terminar. Alguns oficiais do esquadrão entraram no lugar e as portas da nave foram abertas. Todos começaram a soltar o cinto, pegar as bagagens e sair da nave. E foi exatamente o que eu fiz. Descemos algumas escadas e chegamos ao chão. Quase me desequilibrei ao ficar de pé, após tanto tempo sentado. Quanto tempo passei no ar?
Aqui era bem parecido com o salão das entradas e saídas das bases D e E, porém era muito maior. Outras duas naves já estava pousadas, uma tinha a letra C pintada e a outra B. Várias pessoas saiam das naves e entravam em uma grande porta. Fomos instruídos a fazer o mesmo pelos oficiais do esquadrão. Passei pela porta sendo empurrado pelo grande número de pessoas que tentavam passar de uma vez. Me sentia como gado.
Lá dentro vários jovens se organizavam em filas e todos os que chegavam entravam nelas. Fiz como eles e entrei em uma fila qualquer. Esse lugar era parecido com um enorme ginásio. Na frente das filas tinha um palco onde generais que já estavam a tempo no esquadrão esperavam para todos entrarem. Um homem incrivelmente forte estava no centro. Várias pessoas olhavam para ele por motivos óbvios. A mandíbula e o braço esquerdo dele eram mecânicos. Além disso toda a pele dele próxima das partes mecânicas tinha queimaduras horríveis e algumas cicatrizes. Ele era careca e vestia roupas de exército. Ao seu lado direito, uma mulher que tinha o cabelo raspado e usava uma calça larga de camuflagem e uma blusa branca apertada, olhava para frente com seriedade. Do lado esquerdo havia outro homem. Ele tinha longos cabelos brancos e músculos bem definidos. Ele trajava uma calça de exército e um grande casaco branco, que estava aberto, mostrando o peito e abdômen. Outros soldados do esquadrão estavam mais ao fundo do palco, a maioria em pé e vestidos com roupas do exército, alinhados e com postura, enquanto um ou outro usavam roupas sociais e se sentavam em cadeiras de couro.
Finalmente todos que chegavam das bases estavam nas filas e uma mulher loira vestindo um blazer e uma saia social, ambos pretos, pediu por silêncio usando um microfone. Rosto fino e um pequeno nariz arrebitado. Sua expressão era severa. Tinha uma imagem e presença um tanto marcantes. Todos os oficiais que estavam no palco olhavam-na com bastante respeito.
—Bom noite a todos. Espero que tenham feito uma viagem agradável até aqui. Sou Hillary Cohen, mas vocês devem dirigir-se a mim como Comandante Cohen. — Ela dá uma pausa e anda para o lado, observando todos a sua frente. Olhava-nos de cima a baixo, nos tornando tão inferiores quanto formigas. — Como notaram, sou a maior autoridade deste lugar. Vocês devem a mim obediência máxima e incontestável. Prezamos e exigimos também a disciplina. Se os senhores não responderem às nossas expectativas, não iremos persistir com as suas estadias. Serão convidados a se retirarem. — Olhei para os lados e todos olhavam concentrados para a mulher. — Passarei agora a palavra ao General Oficial de Exército, General Brauner. — O homem que até então era o foco de toda a atenção por sua aparência incomum, deu um passo a frente e recebeu o objeto das mãos da Comandante Cohen.
—Obrigado Comandante. — Disse para a mesma. Realmente estimavam ela. Terei que lembrar de tratá-la por esse termo. Me pergunto o que ela queria dizer com a expulsão se não fôssemos o que esperavam. Nunca alguém retornou às bases depois desse treinamento. — Dispensarei apresentações, já que sabem quem sou. De agora em diante, sou o responsável por supervisionar e selecionar vocês. Cada um de vocês. Olharei se estão obedecendo as regras e normas. É dever de vocês lê-las e decorá-las, assim como segui-las. — A voz dele era bem grave e falava algumas palavras com esforço. Considerando que o homem não tinha a mandíbula, falava muito bem. — Hoje, olho para vocês e vejo apenas crianças inexperientes e desesperadas. Espero vê-los após o final da seleção como verdadeiros soldados. E assim teremos a conclusão, onde os melhores de vocês terão a honra de entrar no Esquadrão. Os outros que não conseguirem, serão expulsos assim como a Comandante Cohen havia dito. Por isso, vocês devem dar tudo o que tem nessa seleção. Destaquem-se. Aqui não há lugar para os fracos. Estamos vivendo em uma guerra. Não temos comida, uniformes ou espaço para os que não são merecedores. — Ao ouvir as palavras duras do General, sinto toda a pressão cair sobre mim. Eu não quero apenas conseguir. Eu tenho que conseguir. — Vocês dormirão em dormitórios com outros seis soldados. Mulheres no Bloco 1, homens no Bloco 2. Irão comer no refeitório, três porções por dia. O mapa de nossa instalação está na parede do refeitório. Sugiro que vão logo dormir. Amanhã será a primeira prova. Estejam preparados. — E assim o homem saí, com a mulher de cabelos raspados e o homem de cabelos brancos atrás dele. Todos os outros oficiais também saem e a multidão começa a se dissipar.
✤
Seguia três garotos até fora daquele galpão. Os três já se conheciam e deviam ter intimidade. Os três conversavam animadamente sobre tudo. Estavam loucos para fazer os testes. Pareciam não terem ouvido nada do que foi falado a minutos atrás. Estavam iludidos por uma ideia de uma aventura divertida.Será que eles não estão nem um pouco nervosos?
Olhei para o caminho por onde íamos. Passávamos por corredores enormes. Havia uma iluminação branca fraca e uma das luzes piscava, incomodando meus olhos. Por ser um pouco alto, conseguia ver dois guardas bem uniformizados e armados direcionando mulheres para a direita e os homens para a esquerda. Os três garotos estavam tão distraídos que seguiam o fluxo feminino. Tentei impedí-los:
—Com licença. Os homens devem ir por aquele lado. — Chamei um deles e todos viraram. Ao perceberem o que quase fizeram, caíram em gargalhadas. Eles não vão levar nada disso a sério?
—Quase fomos pelo lado errado! — Ele diz aos amigos em meio a risadas.
—Até que não seria nada mal ver algumas calcinhas. — Um deles diz olhando as garotas que passavam. Uma delas o olha com uma expressão de nojo. Os outros riem ainda mais.
Eles faziam o barulho deles e eu estava logo atrás, sempre em silêncio. Começamos a passar por algumas portas e podia ver homens já colocando malas em cima de beliches. Seis homens em um quarto só. Como eu irei sobreviver?
—Hey, cara. — O garoto com quem falei virou-se para mim. — Quer vir para o nosso quarto? Você parece gente boa.
—Isso soou tão gay. — Eles riram novamente. Já estava começando a me irritar com tanta infantilidade, mas decidi ignorar. Aceitei a proposta. Eles pelo menos haviam falado comigo.
—Então, qual é o seu nome? De qual base você era?
—Sou Dylan. Dylan O'Neal. Eu era da Base D.- Disse. Eles falaram seus nomes mas eu não fiz questão de escutar. Perguntaria seus nomes em outro momento. Entramos num quarto e coloquei minha mala na cama de cima do beliche que estavam próximo a uma parede.
Não tinha noção do quão cansado estava até deitar no fino colchão. Falo colchão como um elogio porque não parecia fazer diferença entre deitar nele ou diretamente na cama. Mas não me preocupei com isso. Estava tão agradecido por finalmente ter um descanso. Olho para o lado e consigo ver o pequeno grupo se acomodando nos beliches do outro lado do quarto. Pela porta vejo outros dois homens entrarem. Um era magro e aparentava estar exausto. Poderia cair com apenas um sopro. Praticamente jogou-se na cama do meio e não manifestou uma palavra. O outro era alto, talvez um pouco mais que eu. Usava roupas elegantes. Tinha luvas cobrindo as mãos e vestia uma camisa social que era sobreposta por um casaco preto. Ele estava vestido para uma festa ou alguma ocasião especial, não para uma guerra. Sua figura estava totalmente deslocada do nosso contexto atual. Ao perceber que eu o olhava, me deu um pequeno aceno com a cabeça.
—Boa noite. Você se incomodaria se eu ocupasse essa cama? — Ele diz com muita educação, indicando-a.
—Não. Vá em frente. — Digo. Pergunto-me se fui grosso. Não era a intenção. Apenas não estou em condições de ser alguém simpático. Ouvia ele colocar seus pertences no chão e retirar o casaco. Do outro lado, o trio jogava cartas e gritava a cada jogada.
—Vocês três aí! Vocês não querem jogar? Ou pelo menos vocês dois, já que um morreu mesmo. — Ele diz olhando o garoto magro que dormia profundamente. Sei que devia ir até lá, interagir e conseguir amigos. Mas eu não queria. Me levantar dali não parecia uma boa opção. Ainda mais para falar com eles.
—Não, obrigado. — Ouço o rapaz elegante dizer abaixo de mim. — Quem sabe outra hora.
Não digo nada. Apenas me viro e encaro a parede. O barulho deles era grande, mas não maior que meu sono. Precisava dormir. Meu corpo implorava por isso e sabia que amanhã não seria fácil. Como se tivessem me escutado, as luzes foram apagadas. Tanto as do quarto como as do corredor. Tínhamos horário para dormir? Bom, isso eu poderia imaginar. Não me incomodei, ao contrário dos garotos que soltavam algumas exclamações indignadas pela interrupção da partida emocionante. Fechei meus olhos e não demorei muito para adormecer.
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