Arma Química

5 Quinto Capítulo: Despistando os monstros.


Notas iniciais
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. PLÁGIO É CRIME. TODOS DIREITOS RESERVADOS!

Todos ficaram tensos. Desde que o mundo virou de cabeça para baixo eles quase não tiveram tempo para pensar, mas dessa vez Ton teve lembranças. Elas ficavam cada vez mais claras em sua mente, talvez o medo de não sobreviver àqueles monstros canibais. Sua primeira lembrança foi de quando era criança: em seu quintal gramado, brincando de pique pega com seus primos que já não os viam por longa data. Ele era ágil e astuto, sempre desviava de todos, e acabava ganhando a brincadeira sempre. Ele tinha um porte médio, esguio, uma bela facilidade para correr. Aquela lembrança deveria servir de alguma coisa. Logo depois, lembrou do dia em que acompanhou sua mãe nas lojas, a memoria das mulheres brigando por peças de roupa. Talvez os zumbis ainda tenham hábitos acarretados dos vivos. E agora ele seria a peça de roupa, e os zumbis, estariam dispostos a brigarem por ele.

— Mulheres e crianças, vão para o vagão ao lado. Soldados isolem esse vagão. — Gregório falou, e todos assentiram e seguiram o que ele mandou com rapidez. — Preste atenção, menino. Nós não podemos abrir as portas com o sistema do metrô. Então, iremos puxar as alavancas de emergência e você terá pouco tempo para subir no teto. Enquanto isso, vamos tentar partir os crânios dos zumbis mais próximos. Assim você os levará para as escadas, la no final dos vagões. Pode fazer isso?

— Posso! — Ele pensou em sua infância e nas suas habilidades. Ele contava com elas. Esse era o momento em que elas não poderiam o abandonar.

— Tudo bem então. Uma vez que você os distraia, nós iremos para as escadas do início dos vagões, o contrário de você, e entraremos nos tanques que conseguimos trazer até aqui. Você é mais rápido do que eles, venha correndo, ok?

Ton assentiu. Gregório passou todas as coordenadas para os outros homens. Até mesmo o médico e o tatuado estavam armados, prontos para ajudar. Charles e os soldados também. No vagão vizinho e devidamente isolado, as mulheres estavam lá. Michella, Eloise, Luanda e a tia de Michella que mesmo agora Ton não sabia o nome. A menininha do laço vermelho e duas mulheres. Uma jovem loira e uma mulher de meia idade, rechonchuda e com grandes olhos azuis.

Ton olhou para sua mãe e sorriu. Ele estava decidido.

— Primeiro usaremos facas, tenham cuidado! Acertem só na cabeça! No três. Um... Dois... Três!

Sangue espirrava para todos os lados.

EPECH, ARRRRRGH, POT...

As raças sibilavam nos crânios dos zumbis. Seu barulho agonizante desorientou um pouco Ton, mas ao sinal de Gregório, passou por entre ele e outro soldado e saiu janela a fora. Eles o davam cobertura sendo rápido e ceifando os monstros podres. O cheiro chicoteou as narinas de Ton com impacto, o deixando tonto por um segundo. Mas logo voltou a si, tempo era preciosidade naquele momento.

Suas mãos alcançaram a parte superior do vagão e ele puxou seu corpo para cima. Um zumbi agarrou seu pé com força, por um momento pensou que era o fim, mas uma machadada de um soldado pardo e robusto, deu-lhe mais tempo de vida. Se impulsionou para cima e pôs sua perna, — finalmente —, no teto. Um vez lá em cima, tratou de chamar a atenção do imenso bando que rodeava o transporte.

— Ei, seus sacos de carniça, o que acham dessa carne aqui fresquinha, hein? -falou se distanciando, e aumentando gradativamente seus passos. — Eu acho que vocês dariam tudo por um lanchinho agora, não é?

Ele pegou velocidade e começou a correr, os zumbis cambaleando, o acompanharam. Tropeçavam uns nos outros, pedaços de braços e pele ficavam no chão. O cheiro cada vez mais embrulhando o estomago de Ton. Ao correr, ele não prestou atenção na separação dos vagões e prendeu seu pé, caindo logo em seguida.

— Merdaaaa!

— ARGHHH... — Os zumbis grunhiam, e estavam perto demais, seu corpo estava numa posição nada boa, um pouco desequilíbrio seria o fim.

Seu pé estava agarrado e um zumbi chegou a agarrar a sua mão esquerda.

— Me solta, seu filho da... — Ele alcançou sua faca e passou no punho do zumbi. Por sorte ela estava bem afiada.

Ele tentava se soltar, mas de nada adiantava. Cada vez mais zumbis estava o rodeando. Ele fez mais força, mais força, puxa a o pé, mais força e num movimento mal calculado sentiu a dor em seus ossos. Seus olhos reviraram de dor. Enfim conseguiu se soltar, porém quebrou seus pés.

Dor pulsava em seu corpo.

"Droga, Droga!! Um inútil. É o que sou." Pensou. Tentou se levantar, mas não iria conseguir ser rápido, não com um pé quebrado. Mesmo assim se esforçou.

Se eu voltar, eles ainda podem estar saindo de lá. E só vou atrapalhar, droga! Se tentar pular estarei ainda mais ferrado. Que merda!

Os altos grunhidos e cheiro fétido eram capazes de deixá-lo ainda mais furioso. "Não vou morrer. Não por esses monstros." calculou. Então pensou que com todo esse tempo, eles já deveriam ter voltado a salvo para os tanques, bastava ele ser rápido. Ele avistou uma rampa, na direção dos vagões a frente. Era o jeito. Caminhou até ela, um pouco mais rápido do que os zumbis, mas mesmo assim, menos do que ele estava acostumado a caminhar. Ele deu um pulo, e ergueu seu corpo para as escadas. Segurando no corrimão da rampa verde, sabia que era perigoso. Não pensava na dor, apenas em se mover relativamente rápido. Ele precisava sair dali.

Começou a caminhar, em porta que avistou. Passos doloridos. Tentava ao máximo ignorar, foi quando um golpe o acertou na cabeça. Tonteado, ele caiu no chão. Enxergava apenas pontos luminosos na escuridão.

Ele tentava voltar a si. Precisava. Tudo girava, ate parecia que estava bêbado. Ele sabia como era estar bêbado, lembrava das saídas do colégio em que se embebedava de vinho com os amigos, toda sexta-feira. "Bons tempos." Quisera ele acordar na praça atrás da escola, na mesma mesa de xadrez e com as mesmas gargalhadas esquisitas dos amigos da oitava série. Mas não foi isso que viu, quando sua visão se centralizou.

Uma mulher. Que o causou calafrios, ele pensou até que era um zumbi com grande inteligência. Pois o estado em que ela estava era de se assustar. Com uma cadeira de ferro na mão — daquelas de bar, — respirando ofegante. Sua roupa era de... De noiva. Seu vestido rasgado e imundo. Seu vel furado. Hematomas em suas pernas, olhos esbugalhados e sangue por toda a vestimenta.

— Oh meu Deus, eu pensei que você fosse um deles. — extasiada com o próprio feito abaixou a cadeira e ajudou Ton a se levantar. — Você anda como parecido com essas coisas. Me desculpe, me desculpe. Eu não queria... — Ela parecia louca, falando rapidamente.

— Precisamos sair daqui. Vamos rápido. — Ton disse.

— Sair? Esta louco? Sair? — Ela gargalhou alto, assustadoramente. — Você quer ir para o olho do furacão, há vários desses lá fora! Eu vou ficar aqui. Sim! Aqui é mais seguro. — Seus olhos sinistros e arregalados.

Ton se escorou na parede, apertou as vistas e começou a seguir. Ela o seguiu até a porta, tentando o puxar. Quando de repente um barulho veio do corredor mais próximo, quando eles olharam eram centenas deles. Zumbis cambaleando e se aproximando cada vez mais rápido.

— Corre! — Ton alertou.

Eles começaram a correr, mas Ton previa a de ajuda.

— Você os trouxe pra cá, não tinha nenhum deles. Não tinha! -a noiva maluca colocou os braços dele em cima de seus ombros. — Aquela porta está trancada! -ela dizia.

Eles chegaram na porta e cada vez mais rápido os zumbis se aproximavam.

Ton tentava arrombá-la, tentou com a faca e já estava desesperado. Começou a disparar tiros no bando que se aproximava.

Tiros e mais tiros. Eles caminhavam com uma certa velocidade. Alguns acertavam em cheio, outros não. As balas não foram suficiente.

A mulher deu um beijo, sim, um beijo em Ton. E sorriu para ele.

— Corra para o corredor esquerdo. Eu vou ficar. — Ela disse sorridente.

— Eu não posso... — Ton tentou dizer, mas ela tampou sua boca.

— Seu tempo está se esgotando. Vá. Meu marido. — Soltou um sorriso mais uma vez sinistro e louco. Ela acenou para ele e se entregou aos zumbis.

Lá se foi a mulher, entregando sua vida por amor. —Ou pelo menos o que ela acreditava que Ton fosse. — Ela via seu marido ao olhar para ele.

Ton não tinha nenhuma outra opção, ao olhar para o corredor ele avistou uma segunda porta aberta, acima de lances de escadas.

Correu o melhor possível. E os zumbis devorando a carne daquela mulher louca. A que dera a vida para salvá-lo.

Sua mente foi tomada por um novo pensamento enquanto corria e tropeçava em alguns degraus da escada que levava à porta, alguns dos zumbis ignoraram a carne da noiva e corriam atrás de Ton, desordenadamente.

Em sua mente ele só pensava em uma coisa: Aquela mulher não era louca. Louco era ele. Ele que queria viver naquele mundo. Quem em sã consciência gostaria de permanecer vivo naquela situação?

Ele abriu a porta e a luz fez seus olhos arderem.

Dali era possível ver os tanques. Três enormes tanques. Michella acenava para ele.

A porta se fechou.