Arma Química

6 Um Casamento Sangrento


A noiva do metrô.

O dia não poderia ser melhor, nem mais belo. O sol brilhava intensamente, mas o ar era fresco. O céu azul, límpido. O ar exalava flores secas e frutas cítricas. Nada seria comparado àquele dia. O grande e tão esperado momento havia chegado.

Foi num dia semelhante, porém mais quente. No verão de 2011, três anos atrás que Sarah conheceu o menino dos cabelos castanhos e dos olhos que lembravam o Outono. Gabriel. Na praia como de costume, pegando as marés ao pôr do Sol, ele se esbarrou com Sarah e foi nesse momento que eles começaram a acreditar em amor à primeira vista. Fora inexplicável a ligação entre eles, bastou os olhares se cruzarem para terem a certeza de serem feitos um para o outro. E assim, eles diziam para si mesmos, a cada vez que se viam.

Nessa mesma praia estava montado, na direção do que seria o pôr do Sol, à algumas horas, um painel de madeira rodeado por petúnias rosas e arroxeadas. Tochas e fitilhos decoravam o caminho ate a tenda, também toda ornamentada com flores tropicais. Debaixo da tenda um pequeno "altar", com velas, corações, rosas e um livro. No qual seriam escritos seus nomes. No qual marcaria a vida do casal para sempre e que concretizariam o sonho de se casarem.

Família e poucos amigos, estavam para prestigiar o casal. Ao alaranjar do céu e o Sol ao Leste, uma música suave, tocada por sua melhor amiga e seu violino. Aninha, sobrinha do casal, arremessava pétalas vermelhas ao chão arenoso. O vento marítimo parecia acompanhar a orquestra; conspirava na direção das pétalas, de forma que elas parecessem chuvas em cima da noiva; e refrescando o ambiente.

"Dia Perfeito!"

Ou talvez não tão perfeito assim, Aninha estava tossindo muito, e a cada caminhada e arremessada que ela fazia, era um novo pigarrear. Chegou uma hora que sua tosse se tornou interrupta. A friagem, era assim todas as vezes que a pobre criança era exposta a fortes ventos, sua imunidade era baixíssima. Todos pensavam dessa mesma forma, então não era tão estranho.

Gabriel já estava parado, observando seu amor caminhar sozinha por entre as tochas. Era uma cena bonita de se ver, que fora interrompida pela sobrinha que já não suportava tossir mais. Ela largou a cesta de pétalas no chão e agachou-se. Tossindo e tossindo. Levou suas mãos aos lábios, e com a outra mão apertou sua barriga. Sua luva e seu vestido que eram brancos, tinham uma nova cor: vermelho. A garota agora estava tossindo sangue. Com uma dor aguda na barriga, mal conseguia respirar.

Todos rodearam a menina em busca de repostas. Mas ela apenas balbuciou algumas palavras sem sentidos. Seus pulsos, cada vez mais fracos. Então, Gabriel a pegou no colo e pediu para que ligasse para o socorro. Todos ficaram esbaforidos; andando de um lado para o outro.

A irmã de Sarah prostrou-se a chorar, sendo amparada pelos poucos convidados. Ao chão apenas Gabriel, Sarah e a menina.

Caídos na areia úmida, esperando o socorro, foi quando o noivo anunciou que não tinha mais jeito.

A menina morrera.

Agora sim, era o momento de se desesperar. O dia que tinha tudo para ser maravilhoso tomou um rumo contrário. Todos começaram a gritar e a chorar. Sarah remexia sua cabeça em negação, não podia estar acontecendo aquilo. Ao invés de ser um dia maravilhoso, ela acabou perdendo sua amada sobrinha. Gabriel levantou sua cabeça, olhando para o céu e então uma lagrima escorreu. Catástrofe.

"Como uma tosse poderia matar alguém assim tão rápido? Mas também, olhando por outro lado, a tosse poderia ser apenas um sinal do interior de seu pequeno corpo. Algo deveria estar acontecendo que ninguém soubera."

Entretanto, de repente as mãos de Aninha deram sinal, começaram a se mexer. Sua respiração quase não era sentida, mas estava ali. Seus lábios se contraíram e, então, seus olhos se abriram. Mas eles eram... Eram acinzentados, quase da mesma cor pálida que ela estava.

Ela olhou para Gabriel que estava contente em saber que ela vivia, e era apenas um engano seu ter anunciado sua morte. Ele passou as mãos em seu cabelo e foi surpreendido. Ela o mordeu. Com uma força incomutável. Agarrou seu braço e nem com todos tentando ela o soltou.

Sangue fora jorrado para todos os lados. Gabriel gritava com tanta dor.

–Mas que diabo é isso?! Ana, solte-o agora! -Sarah tentou, mas a menina não dava ouvidos. Até que a puxaram e conseguiram tira-la de cima de Gabriel. Mas ela também mordeu o amigo do casal, que havia lhe dado uma chave-de-braço.

–Essa menina está louca? -Todos tentavam falar com ela, mas a única coisa que ela fazia era grunhir e morder.

Pânico total, todos agora estavam gravemente feridos e precisavam de um médico.

–Ela não está louca... Está morta. — Um terceiro amigo da família.

–Então o louco é você. Ela está viva, os mortos não andam. Minha filha, o que está acon... — A mãe da menina foi abraçar a criança, quando recebeu uma mordida feroz no pescoço. -Ahhhhhhh!

Todos gritando e correndo. A menina escolheu a própria mãe para se saciar, começou a comer as partes do crânio de sua mãe. Miolos para fora da cabeça, eram como macarrão para a criança morta-viva. Logo depois fora para a barriga de sua mãe, cruelmente saboreada.

Socorro!

Pare!

Meu Deus, tenha misericórdia!

Todos falavam, mas não se atreviam a interferir.

Dessa vez, Gabriel estava desmaiado. Sarah por cima dele, abraçada ao seu tórax.

–Meu amor, acorde! -Choramingava a jovem noiva

–Venha. Não vê que ele logo se transformar nisso... -A amiga violinista de Sarah tentou puxá-la.

–Não vou a lugar algum sem ele. Ele vai acorda. Vamos meu amor! Por favor! -Ela clamava, sem louvor.

Logo os que haviam sido mordidos começaram a se levantar. Aos céus aviões das forças armadas passavam baixo e rápido, o que faziam os que estavam ali se abaixarem. Logo, se ouviu um estrondo de bombas e mais bombas. Gritos de socorro. Explosões e clarões. Distraída com os barulhos, a noiva não viu Gabriel se levantar, por sorte sua amiga viu e agarrou seu violino com toda força. Um golpe só na cabeça do noivo.

–Nãooooooo! -Gritou Sarah. -Sua maldita! -Ela estava com ódio no coração, afinal sua amiga matara seu grande amor.

Um novo monstro levantou-se e começou a aproximar-se da amiga. Ela poderia gritar, alertar e salvá-la, como a amiga fez por ela. Mas não. Ela foi pega de surpresa com uma mordida no pescoço. Ela se contorcia e gritava. Chorava e pedia por sua vida. Estendeu as mãos para Sarah, mas ela não se moveu. Sarah, apenas olhando aquilo atentamente.

–Obrigada por vir ao meu casamento. -Ela sussurrou com cachoeiras de lagrimas em seu rosto, mas bem ali, também havia um sorriso torto.

Ela observou todo o local e soltou uma gargalhada, tão forte que se agachou no show. Como se alguém tivesse acabado de contar uma piada engraçadíssima. Olhou para o céu e escutou os grunhidos dos monstros próximos.

–Melhor dia da minha vida! MELHOR DIA! Melhor dia... -Suas risadas cessaram. Ela levantou seus olhos, com desprezo no rosto. Raiva, tristeza, magoa acendiam o verde de seu olhar. Miscigenando-se ao pôr do Sol.

Enxugou suas lágrimas, se levantou e começou a correr para bem longe.