Arma Química

4 Quarto Capítulo: A dor e a retirada.


Notas iniciais
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. PLÁGIO É CRIME. TODOS DIREITOS RESERVADOS!

No caminho para o vagão C todos observavam o lugar. As mulheres amparavam Luanda e a chamava, em vão.

Haviam poucos corpos no chão, mesmo assim eram pessoas mortas. Ton imaginou que quase ninguém estava usando o metrô naqueles dias, pois eles fecharam por um tempo e muitos tinham receio de usá-los naqueles dias; já que metrô, trem e ônibus são meios fáceis de se contaminar com diversas doenças. Por um período só era possível transitar com carros e alguns ônibus.

A cada passo o cheiro ficava mais forte, cheiro de cadáver. Ton e os que o acompanhavam tiveram que botar a mão tampando a respiração, era insuportável. De repente, ao olhar para dentro de um vagão fechado todos tomaram um susto. Três zumbis batiam nas janelas, loucos para se saciarem de carne fresca. Suas bocas mexendo em resposta da grande vontade de mastigá-los. Suas feições ainda horripilantes fizeram com que o grupo se afastasse.

— Eles estão presos. — Falou Gregório. — Nós isolamos esse vagão, não tem como eles saírem daí.

— Por que ficar perto desse cheiro tão forte? — Ton perguntou.

— Só estamos usando a maior estratégia do exército: camuflagem. — Respondeu Gregório

Luanda parou justamente na direção dos três e vomitou. Aquele cheiro não estava agradando a ninguém, quanto mais uma pessoa ferida. Seu vômito foi só o primeiro sinal, logo ela voltou a si e começou a gemer de dor e chorar descontroladamente. Não se sabe se pelos dedos arrancados à sangue frio ou pela perda de seu filho.

Chegando ao vagão C, haviam cerca de dez pessoas. Uns cinco do exército, era notável pela roupa igual a de Gregório. Homens, Mulheres e crianças como Ton, Michella e sua família. Sujos, machucados e assustados. Muitos perguntavam aos soldados o que estava acontecendo, perguntavam se era um atentado ou coisa parecida. Eles estavam tão perdidos quanto os outros. Ao verem outros chegando ficaram em silêncio.

— Achei esse grupo na entrada do metrô, perto de onde o teto desmoronou. — Disse Gregório.

Todos olhavam o grupo de Ton atentamente.

— Vocês estão bem? Alguém foi mor... — Um jovem soldado de cabelos loiros e olhos esverdeados, deu uma pausa na pergunta que foi logo respondida, assim que olhou para Luanda. — Como aconteceu?

— Meu irmão... Ele virou uma daquelas coisas e arrancou seus de... — Michella gaguejava e algumas palavras eram impossíveis de sair. Seus olhos inundados. Ela estava desesperada. Todos estavam.

— Vocês o mataram, não é? Não podemos correr o risco de deixá-los vivos. Já tem milhares por aí, querendo nos jantar. — O soldado perguntou, fazendo sinal com a mão para um homem que parecia ser o médico ou enfermeiro do grupo.

Raiva agora era possível observar nos olhos de Michella. Ele se referia ao seu irmão como se ninguém se importasse. Como se ele fosse apenas um animal que deveria morrer.

— Você pode escutar o que você falou. Será que ainda há alguma coisa humana dentro de você? Capaz que você nem precise ser mordido, você já é um monstro! — Ela gritou.

Todos mandando ela se controlar. Luanda gemia a cada contato que o médico fazia com sua mão. A reação do soldado também não fora nada agradável.

— Olha aqui, mocinha, eu entendo que esteja apavorada com tudo isso, mas você precisa aceitar os fatos. O seu irmão já não estava mais naquele corpo. Não era ele. E o que estava nele é o que tenta nos matar. Você escolhe se quer viver ou não. Mais eu não vou deixá-los me fazer de prato principal. -ele falou com raiva nos olhos, apertando seu braço pálido. Ele a encarou por um tempo e a jogou nos braços de Ton. — É melhor cuidar da sua namorada esquentadinha.

Quando a soltou começou a verificar o corpo dos membros do novo grupo.

— Eu não queria isso. Não queria que todos morressem e nem que estivéssemos nessa situação. — Falou Michella para Ton, abraçada em seu peito. — Eu não quero ficar com eles, Ton.

— Não acho que tenhamos chances com o desconhecido, num grupo grande e desarmado. — Disse Ton.

O soldado loiro olhava desconfiado para Michella, um olhar de desprezo que a causava desconforto.

— Ela tem sorte, de qualquer maneira. Não vamos precisar amputar. Meu nome é João. — O asiático que seria o médico falou, apertando a mão de Charles. — Parece que ele a mordeu apenas nos dedos e o arrancou com a ferida, basicamente fez o trabalho todo.

— Então isso quer dizer que ela ficará bem? — Eloise perguntou.

— Creio que sim. Eu não sei o que está por trás desse vírus. É uma incógnita para mim, eu lhe dei alguns medicamentos para dor. Mas vou ter que suturar sua mão ou ela pode ficar com hemorragia e ferrar com tudo.

Todos assentiram. Parecia o melhor a se fazer. Luanda olhava para o NADA mais um vez. Quase como o olhar dos zumbis. João, o médico-asiático do grupo falou algumas coisas para ela, mas não esboçava nenhuma reação.

Ele pegou um isqueiro e direcionou o fogo por um tempo numa pequena chapa de ferro, que caberia os três dedos dela. Todos a olhavam e faziam sinal de 'sim' com a cabeça para o médico. Foi então que ele pressionou a chapa contra os dedos de Luanda.

Seus gritos eram capazes de alertar todos os zumbis da cidade. Eram ensurdecedores. Michella colocava as mãos nos ouvidos e chorava, ainda abraçada com Ton. Ele pensava que ela fosse uma menina forte, ela tinha atitude de sobra. Mas isso foi antes. Antes do mundo se tornar isso... Talvez ela e sua família não merecessem isso.

Luanda desmaiou de dor.

Quando ela abriu seus olhos, observara tudo turvo. Só era possível escutar algo como: Acorde. Sim, era "Acorde!" e algo como "Levante!" também. Era sua filha, desesperadamente gritando sua mãe. Quando Luanda conseguiu colocar a mente para funcionar avistou os zumbis em volta do vagão C. Por todas as partes daquele último vagão que estava fechado. Os homens com armas nas mãos e as mulheres trêmulas, temendo aos monstros. O vagão estava tomado por eles e não dava para fugir, por nenhum dos lados.

Gregório havia fechado as portas na cabine do maquinista, ainda havia energia, apesar de tudo. Nos rádios também continuavam funcionando com mensagens gravadas, mandando a população se abrigar em casa, longe das grandes cidades. Transmissões em rádios eram possível de serem feitas, apesar de nenhum ser respondida.

Gregório mandou todos descansarem. Exceto Luanda que já havia desmaiado pela dor. Quando acordaram se depararam com o vagão envolto aos monstros. Grunhindo e batendo no vidro.

"Talvez fossem os gritos de Luanda que chamou toda a atenção" Alguns pensaram.

— Como vamos sair daqui, papai? — Gritou uma menininha morena, com um lacinho vermelho em seus cabelos; que só agora Ton e seu grupo haviam notado.

Seu pai um homem de cabelos compridos, todo tatuado; apenas passou a mão em seus cabelos e pediu para que ela ficasse calma. Ele a pegou no colo e beijou sua testa. Sussurrou algo como "Vai ficar tudo bem" para ela. Aquilo esquentou a garganta de Ton.

— Alguém tem que despistá-los ou então todos morreremos. — Ton sugeriu. -Eu faço isso!

— Não! — Sua mãe tentou dizer, mas ele estava decidido. — Não vou deixar você se arriscar, meu filho, por Deus!

Dias antes, ainda com todo o alvoroço no mundo, sua mãe jamais aceitaria tamanha carnificina. Matar pessoas. Ela ainda estava muito confusa quanto a isso, tudo acontecera rápido demais. Mas ainda assim, eles foram pessoas um dia. Mesmo naquele caos, sua religião prevalecia. Outros até poderiam se arriscar, mas se seu filho se arriscasse ele cometeria o que ela não aceitava.

Mas o que ela ainda não estava entendendo era que: a partir daquele dia, todos teriam sua experiência com a morte. Matando ou morrendo. Afinal, ela agora caminhava pelas ruas.

Grunhidos altos e mais batidas no vidro. Quase o rachando.

Deram para Ton um facão e uma arma ponto quarenta.

— Vamos abrir a janela e conter os que estiverem primeiro, você tem que subir no vagão e levá-los para longe. Você consegue fazer isso? — Gregório perguntou.

Grunhidos e 'não' aclamados por sua mãe, cada vez mais altos.

Michella também não queria, mas alguém deveria fazer aquilo. Ele decidiu seguir com a única chance deles.

— Consigo! — Ele afirmou, mais para si mesmo do que para os outros.

— É assim que se fala, garoto. — Gregório sorriu para Ton, ele parecia ser o único a se divertir naquele novo mundo. — Preparem as armas, homens, nós vamos estourar algumas cabeças de zumbis hoje. — Gregório zombou.