Arma Química
3 Terceiro Capítulo: A fuga.
Notas iniciais
Ton saiu em disparada com o carro de sua mãe; enquanto ela, Michella e Caio choravam desesperadamente. Tudo parecia silencioso, um silencio estranho. Daqueles que parecem que algo muito ruim está prestes a acontecer. O carro da família o seguia. Ele ultrapassava sinais vermelhos, passava em ziguezague pelos carros. Buzinas, desviadas, pessoas os amaldiçoando. Mas tudo era ouvido apenas pelo instinto. Tudo estava em câmera lenta. Eles chegaram a uma via em que um trem estava passando, ele teve que parar. E o carro de trás fazia o mesmo. Ton pedia calma, mas era ignorado.
Ele pegou na mão de sua mãe e a olhou diretamente nos olhos.
— Não deixarei nada acontecer com você, mãe. — Ele disse.
— Eu confio em você, filho. — Ela assentiu.
Quando o trem passou em disparada com seu ultimo vagão e eles olharam para frente, prontos para correr de volta para casa foram mais uma vez surpreendidos.
Ao olharem para o céu, puderam ver aviões no horizonte ao longe, jogando algo para explodir tudo pela frente. Bombas ou mísseis, talvez.
— M-E-U D-E-U-S! — Ton falou desacreditado.
Aí está as medidas que o Brasil irá tomar para curar a epidemia no país. Se ficassem ali, certamente morreriam pelas bombas. Mas correr a pé seria arriscado demais.
— Vamos em direção à praia, rápido! — Ton falou agoniado para Charles, que dirigia o outro veículo. Foi a única coisa que pensou, se afastar para a água ou qualquer lugar longe dali.
Era possível escutar pessoas gritando, correndo, ou dizendo: O que isso no céu?! ou Corram!
Ele virou em sentido para a praia e o barulho de bombas sendo arremessadas ao solo eram mais perceptíveis.
Clarões, estouros, gritos..
Tudo em câmera lenta.
O máximo que ele poderia correr, estava fazendo. Mas foram impedidos mais uma vez. Chegaram em uma pista lotada de carros, engarrafamento. Todos estavam loucos para ir até suas casas, salvar ou ao menos ver pela última vez suas famílias, as pessoas que amavam.
— Droga, Droga! Vamos ter que ir correndo. — Ton disse, ordenando todos a saírem do carro.
Mais buzinas e estouros. Gritos de socorro. Pai, Mãe e Meu Deus era facilmente ouvido naquela loucura. É esse o tipo de coisa que se faz nessas situações, não é? Em meio ao chão que tremeluzia. A cidade estava pior do que nos dias de manifestações. Muito pior...
Eles estavam agora tentando aniquilar toda aquela doença que chegou a contaminar os que nunca usaram drogas. Eles queriam matar a todos.
— Vamos, temos que correr, achar um ligar seguro! — Ton gritava.
— Vamos para o metrô! — Aquela era a primeira vez desde a morte do marido que, Luanda, mãe de Michella abriu a boca. Talvez pela vontade de viver. — É nossa única saída e não fica muito longe se corrermos o suficiente.
Ninguém contestou. Na verdade, não havia outra solução. Correram em disparada ao metrô. Eles desviavam de barracas, carros, multidões. Eloisa, a mãe de Ton chegou a tropeçar, mas ele a ajudou. Pularam a roleta, que antes estava ali para pagar a entrada. Desceram as escadas do metrô rapidamente, quando escutaram um estrondo. Primeiro o barulho de um avião e logo, algo explodindo tudo. Metade do lado direto do metrô desmoronou, o que fizeram começar a repensarem na ideia de se abrigarem ali.
Mais explosões eram possíveis de se ouvir. Alguns corpos estavam no chão na parte interna do túnel. O que faziam se assustar ao pisar em algumas cabeças dos defuntos. Poeira rodeava pelo lugar. A única luz que víamos era o clarão das explosões próximas. Acharam um banheiro e decidiram ficar ali até a confusão fora dali cessar.
Silêncio ecoou no banheiro, o único abrigo para eles. Ofegantes e sujos sentaram-se ao chão para descansar. Charles e Ton certificaram de lacrar a porta e achar algo que servisse de arma, acabaram achando uma figa. Para que pudessem ao menos se defender do que estava por vir. As mulheres não aguentaram e acabaram chorando. Caio não havia notado, talvez pela adrenalina, uma ferida mais parecida como um arranhão em sua batata da perna. Mas não deu importância, o cansaço tomou a todos e acabaram dormindo.
O dia raiou de uma forma nada agradável. Um barulho na porta estonteou o cômodo. Algo a empurrava, querendo abri-la. Todos acordaram no susto, apreensivos. Menos Caio, ele estava deitado imóvel.
A porta balançava ainda mais.
Eles não notaram, mas Caio estava pálido demais para uma criança de treze anos saudável.
A porta estremecia, ela era empurrada como se alguém fosse arrombá-la.
— Gente, o que aconteceu com o Caio?! — A mãe dele o abraçava, chamando por seu filho. — Caio! Acorde, meu filho, pelo amor de Deus.
A porta estava com suas dobradiças quase por um tris.
Caio então abriu seus olhos, cinzentos como o do pai, mas não por genética e sim por estar como ele... Caio virou um deles. Suas veias se tornaram grossas de cor roxa e de sua boca, mostrava seus dentes afiados, loucos para devorar alguém.
A porta não parava de se remexer. Algo lá fora também ansiava por alimento. Foi quando Caio alcançou os dedos de sua mãe e o mordeu. Gritos e um único golpe com a figa de metal em sua cabeça. Ele grunhiu. Sangue espirrou para todos os lados do cômodo, ele havia arrancado os dedos de sua mãe. Ela gritava e chorava. Clamava pelo seu filho, chamava por um tal Senhor.
Todos estavam horrorizados. Apavorados. Caio se remexia e grunhia no chão, erguendo seus braços. Sua mãe não sabia o que doía mais: ter seus três dedos arrancados ou eu filho virar uma besta.
Sangue para todos os lados, seu dedo já estava ficando roxo no chão. Charles tirou sua mãe de perto dele, perplexo.
A porta rangia.
Quando Caio levantou pela segunda vez, ninguém fez um só movimento. Ele se aproximava. Luanda conseguiu soltar-se das mãos de Charles e foi de encontro com o filho-monstro para abraçá-lo. Ela estava caminhando de encontro com a morte. A porta então se abriu e bateu com força na parede, dois tiros certeiros diretamente no cérebro de Caio.
— Nããão! — Luanda agarrou o filho. O menino agora não tinha mais nem um resquício de vida.
Um homem de pele negra, cabelos em estilo Black Power, roupas que pareciam ser do exército, armas espalhadas pelo corpo que atirou.
— É melhor vocês saírem daqui, eu com certeza sou a coisa menos perigosa que vocês vão ver daqui em diante. — Ele disse.
Todos estavam paralisados, em choque. Michella, Eloisa e a parente da família Nabeth caíram em prantos. Luanda estava imóvel, com seus olhos arregalados e saindo lágrimas involuntariamente. Seu corpo tremia, ela parecia não estar ali, apenas seu corpo.
— Vocês precisam ir agora! — Ordenou o soldado. — O único que que se moveu foi Ton, levando todos para a porta. Eles tinham mesmo que sair dali, alguém precisava estar em bom estado mental. Lá fora os cadáveres caídos no chão com golpes em suas cabeças. Do que aparentava ser facadas.
Aquele era o homem que disse ser o menos perigoso dali de fora? Pensou Ton.
— Me desculpem, mas eu tinha que ter feito isso. Vamos, estou com um grupo que estava no vagão C do metrô. Nós precisamos sair antes que eles desçam aqui e cuidar desse ferimento antes que ela vire um deles. — Disse o soldado. — Me chamo Gregório, se quiserem permanecer vivos venham comigo.
Assim que disse, ele se afastou em direção ao bloco C, e todos decidiram acompanha-lo. Qual opção eles tinham? Todos olhavam para os corpos no chão. Todos estavam horrorizados.
O homem olhou por cima dos ombros e disse:
— Não se preocupem. Não eram pessoas, na verdade, já tinham se transformado. Como o menino. É o fim dos tempos, meus caros, é agora que devemos temer aos mortos. — Falou o homem que parecia ser "A Coisa" mais perigosa dali.
E assim, caminhou, em sentido à escuridão...
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