Arkadia
3 No mundo dos dragões.
Notas iniciais
Encarei-o pensando que aquilo me dava indicações necessárias e corretas sobre quem era, mas mesmo assim limpei a garganta e fitei a fera que estava bem na minha frente, deitada com sua imensidão corpórea na grama verde, sabendo-se os deuses como ainda não fora vista pelo tamanho exorbitante, muito mais do que eu, talvez maior que uma árvore se de pé em suas duas patas traseiras.
— Isso significa que você é um dragão?
— Exato. – Sua voz ecoou na minha mente como uma sinfonia grossa e impactante, fazendo-me refletir por segundos, minutos sem fim.
— O que é, exatamente, um dragão? – Questionei ainda curiosa, receosa pelo desconhecido.
Nunca, em nenhum momento desde que me lembro, havia escutado sobre eles.
— Para entender, é necessário saber como meu Mundo funciona, como fizemos com que ele funcionasse.
— E como fizeram? – Perguntei afiada, atenta ao perigo constante que era continuar parada ali ao ar livre e, ainda sim, ansiando por mais respostas de perguntas sem fim.
— É uma longa história, humana. – Ele me diz e, então, após um silêncio curto, completa: – Talvez muito complicada para sua mente.
Sorrio sabendo que estava absolutamente certo e, por isso mesmo, levanto-me de onde estava e caminho em sua direção, rodeando-o como uma criança que deseja seu presente e aproveito para observá-lo melhor; as escamas grossas estão por todo o seu corpo, afiadas como uma faca, e, de fato, aquele dragão é enorme ao ponto de que mesmo deitado, precise de três pessoas com a minha altura para se igualar à ele.
Isso me lembrou algo.
— Por que deixou que eles o prendessem? – Indaguei feroz, lembrando-me de como os cinco elfos conseguiram dominá-lo tão rápido e de como, numa urgência, soltou-se deles com um piscar de olhos.
— Tantas perguntas, criança. Já disse: a história é longa, você tem realmente tanto tempo assim para apreciá-la?
Balanço a cabeça dizendo que sim, mas precisamos sair dali o mais rápido possível, ou ao menos em tempo de encontrar algum lugar para nos escondermos.
O que é isso? Estou pensando em nós como se fôssemos uma incrível família, ou como se aquela criatura fosse alguém com quem eu deveria seguir. Não. Balanço a cabeça outra vez e bufo irritada.
— Preciso sair daqui. Você idem. – Anuncio olhando para a parede de rochas que nos separa do bosque das Pedras e paro bem na frente de Onyx, fitando diretamente seus olhos brancos. – Seu corpo é extremamente grande para que fique em céu aberto assim, durante a tarde em quase seu fim.
— Está certa, mas ainda sim, o perigo é mais para você do que para mim.
— Tem certeza? – Rebati. – Não acho que aqueles elfos estejam de brincadeira. E digo isso porque você ainda não os viu em toda sua glória e mágica, criando flechas coloridas com efeitos diferentes, zanzando com as fadas por ai e oh, pegando-lhe! – Resolvo assustá-lo como aviso e o dragão, maldito, ri de mim.
— Viu como desmaiei aquelas criaturas que você chama de elfos? Posso fazer a mesma coisa com um exército deles sem nem ao menos respirar.
Arregalei os olhos, revisando a cena mentalmente e dei um peteleco em minha própria testa, pulando para trás rapidamente com medo que ele me nocauteasse como fizera com os inimigos.
— Como fez aquilo? – Meus olhos brilhavam exigindo que ele não desviasse dessa vez.
— Precisamos sair daqui. – Me lembrou severo. – Suba aqui e se segure, assim ninguém nos verá. – Exige tentando me ajudar. Nos ajudar.
— Subir? Por que eu subiria?
— Porque eu prometo te contar tudo o que desejar.
Sem dizer mais nada, o rabo dele enlaçou minha cintura e colocou-me sobre seu corpo relaxado e eu, tão insegura do que fazia, engatinhei até ficar um pouco próxima do seu pescoço ao qual agarrei com as duas mãos, enlaçando meus braços ali e tentei me sentir confortável. Sua pele era quente e suas escamas, apesar de afiadas, não me machucavam.
Fechei os olhos com força e as asas do dragão fizeram um estrondo quando se abriram e o vento tocou minha face, anunciando o voo que iniciou-se.
Pude sentir o oxigênio me faltando diversas vezes, uma cócega no estômago junto com uma vontade incontrolável de rir, porém, quando inventei de abrir os olhos e vi aquelas minúsculas cores bem abaixo de nós, fechei-os com toda a força do mundo outra vez e deitei a cabeça no tronco do animal, tentando não ter chance de vislumbrar mais nada.
Apesar daquele susto, jamais ousei abri-los outra vez até que a sensação de queda tomou conta do meu coração e o oxigênio voltou a ser normal em meus órgãos e células, anunciando que estávamos voando mais baixo.
Quando Onyx pousou, sua cauda cutucou minhas costas e eu finalmente espiei onde estávamos, provando que aquele animal não era burro.
Havia uma cachoeira bem na nossa frente, suas águas eram cristalinas e cantavam uma música incoerente enquanto observávamos; havia verde por todo lado, árvores, matos, animais em seus ninhos e um céu ainda claro, mesmo que minha tendência fosse achar que em algum momento iria escurecer.
Ali, no centro da cachoeira, bem onde a cortina de água cobria, havia uma caverna com seu interior escondido, mas com o exterior à mostra e isso significava nossa melhor chance.
Onyx, ao invés de galgar para dentro daquele monumento que poderia ser uma pequena cabana de chão duro, sem colchões ou cobertores, fora para a beirada da água corrente vinda da cachoeira e começou a enfiar a boca lá.
Achei que bebia água, achei que adorava beber água até que ele girou a cabeça para mim e mostrou um punhado de peixes que seus dentes pegaram.
Fiz uma careta, torci o nariz e mostrei minha bolsa, indicando silenciosamente que não precisava daquela comida ainda e que era toda dele.
O monstro se satisfez de todas as formas possíveis e quando finalmente sentiu seu estômago pesar, caminhou com as patas dentro d'água para dentro da caverna e eu fiz o mesmo, precisando nadar com bolsa e arco acima da cabeça, não querendo perder nada do que continham ou molhar demais até danificar.
Minhas roupas estão molhadas quando atravesso o véu de água que a queda da cachoeira causa e eu vislumbro os olhos claros do dragão em seu interior, estacionados no canto aconchegante da parede.
Suspiro.
— Precisamos de uma fogueira ou vou morrer de tanto frio já que minhas roupas estão molhadas. – Reclamei e pedi, num gesto, que me esperasse.
Precisei sair de dentro da caverna e retornar à parte verde ao redor da cachoeira para pegar alguns galhos e repeti isto três vezes até que, no interior da caverna, uma pequena e singela montanha de galhos estivesse feita.
Rocei duas pedras, que encontrei no interior, uma na outra tentando fazer uma faísca de fogo quando a boca repleta de dentes daquele animal se abriu e cuspiu uma pequena bolinha de fogo que fora necessária para iniciar o incêndio na minha fogueira.
Sorri.
Ao menos não era de todo mal.
Retirei, naquele momento, minha jaqueta e deixei-a no chão, fazendo o mesmo com as botas e a calça, deixando somente minha blusa branca e demasiada enorme no corpo, sabendo que seu pano secaria mais rápido que todas aquelas coisas desde que eu continuasse próxima ao fogo.
E continuei.
Sentei-me ali, em frente à fogueira, enrolei os braços nos joelhos que elevei até o queixo e me aconcheguei em mim mesma, sem nem ao menos encarar a fera.
— Estou esperando. – Lhe disse rapidamente, deixando claro que não havia esquecido sua promessa em nenhum segundo.
Parte de mim estava tão curiosa quanto um cego que jamais enxergara algo e a outra parte temia que mais informações me enfiassem num enorme problema.
— Sou um dragão de palavra, Caitlin.
Meu nome, de alguma forma, nunca pareceu tão estranho quanto naquele momento e encolhi os ombros, lembrando-me de como a voz da minha mãe era doce e severa ao pronunciá-lo. Dependia tanto do seu humor.
— Cumpra-a. – Sibilei.
— De onde venho, não existe nenhuma raça igual à sua e ninguém reina sobre os outros, sendo todos iguais com diferentes funções, funções tão necessárias e essenciais que jamais, em hipótese alguma, conseguiríamos sobreviver em nosso Mundo sem a ajuda do próximo. Não importa o quão alto, forte ou rápido cada um de nós seja, não importa se um se sobressai, nossa existência é essencial para que o nosso mundo continue em harmonia. – Iniciou ele com sua voz ecoando em minha mente, martelando bem ali, pausando por segundos e ganhando minha atenção, por isso mesmo continuou.
— Meu mundo era feito de trevas, rochas acordadas e adormecidas antes da primeira alma despertar e, até então, inabitável. Ninguém morava ali há milhares de anos e ninguém nunca morou. Se tentaram, nossos historiadores não nos contaram, ou não souberam. Isso, contudo, sempre foi importante para nos mostrar que sem a primeira chama, não existiríamos de forma alguma; nosso mundo vivia em fogo, quente, mas não havia Sol ou Lua, era sempre o mesmo clima e a mesma imagem, até que numa explosão das rochas vulcânicas um dragão acordou do seu sono profundo e engoliu todo o fogo que ardia em nosso mundo. Ele começou limpando as terras e cuspindo aquele fogo no topo do céu, criando nosso Sol e, assim, embora a temperatura fosse quente e sempre, sempre fosse dia em meu Mundo, já não havia fogo queimando tudo e devastando. Então os dragões de fogo vieram, moraram em meu Mundo, fizeram parte dele, regeram-no até o momento que a Mãe Natureza vira que já não podia existir somente fogo e num sopro de ar quente, o primeiro dragão do Ar surgiu trazendo milhares deles em sua rajada de ar expelida pela boca. Os dragões de ar amenizaram a temperatura, criaram brisa, sentaram ao lado dos dragões de fogo nos tronos estrelares e deixaram meu Mundo morno, com uma temperatura digna de ser habitada. As nuvens, então, tornaram-se o lar dos dragões de Ar e quando morriam, era para lá que seus espíritos iam.
Quando o primeiro deles sentiu sede, a terra inteira se abriu e o azul tomou conta; dizem que o primeiro dragão era líquido puro e cuspiu água por todas as aberturas terrestres, criando lagos, mares, oceanos inteiros e matando a sede daqueles que necessitavam, e quando estava tão quente, mas tão quente, eles choravam suas lágrimas enquanto voavam, fazendo chover. Mas meu Mundo, meu Mundo ainda não estava equilibrado como você deve pensar; dragões não vivem só de água, Caitlin, eles precisam de casa, cuidados especiais, algo para chamar de lar. O mundo dos dragões ainda se construía aos poucos e por isso, com um rugido, a terra tremeu e os dragões de terra abriram seus olhos pela primeira vez em anos, criaram casas com suas pisadas, mais montanhas, dividiram meu Mundo em Continentes e os dragões se dividiram em tribos, eles trouxeram algum pequeno equilíbrio já que não era mais quente ou mais úmido, era diferente; os dragões foram divididos e com isso, não havia amontoações e exageros mais. Dizem que os dragões de Terra são os líderes por causa disso, que são fortes, que sabem do que é preciso, mas cá entre nós, eles nunca assumiram nada.
Quando todos esses dragões precisaram de descanso, pois reger o mundo e ainda viver exigia demais, os filhos do gelo surgiram e durante vários e vários dias, mais de trinta, vimos nosso mundo ser gelado, frio, porém nunca sentimos tanto quanto você sentiria pois nossas escamas nos protegiam. Os outros descansaram durante o inverno, congelaram algumas águas, o calor se apagou e somente o Sol continuava. Tudo ainda era dia no meu mundo, sempre era dia. E por isso, em algum momento, os dragões de fogo se cansaram de iluminar para sempre o nosso mundo, precisando renovar as chamas a cada mil anos, ou o Sol se apagaria caso não descansasse também. Os dragões de sombras surgiram nesse momento, aliando-se aos iluminados, como costumávamos chamá-los, e eles afastaram o Sol, urrando escuridão e dividindo nosso dia em manhã e noite. Eles engoliam o Sol e guardavam suas chamas muito bem, deixando o escuro tomar conta e quando era dia, cuspiam de volta. Tudo o que os dragões de fogo deveriam fazer era renovar as chamas quando fosse necessário.
Mas, mesmo assim, não era só isso que o meu Mundo precisava e quando a fome gritou, bateu no estômago, os dragões da colheita surgiram; a terra, primeiro, ficou verde por causa dos matos, as águas foram banhadas de peixes de todos os tipos, árvores frutíferas e arbustos surgiram, flores banharam meu reino e deixaram-no colorido. Os dragões da colheita mataram nossa fome e embelezaram algo que antes era completamente sem vida além da nossa.
Tudo estava perfeito, em grande paz e harmonia, mas o céu ou era claro ou era escuro, nunca brilhava e por isso os dragões d’água pensaram que o céu precisava se iluminar durante suas lágrimas, dar um grande espetáculo de aviso e nós surgimos. Os dragões da tempestade foram feitos de lágrima dos dragões d’água e transformamos suas lágrimas em grandes teatros; voávamos pelo céu rugindo e causando grandes barulhos, acinzentando as nuvens e fazendo-as brilharem, cuspíamos raios e festejávamos. Nunca, nunca aqueles dragões choraram por tristeza, era somente alegria e alegria. E foi assim que meu Mundo fora criado. Foi assim que eu fui criado, e nunca, em nenhum momento, me desentendi com os outros ou fomos escravizados por outros. Cada um tinha sua função em nossa sociedade, cada um era importante da sua maneira e não havia espaço para uma grande desigualdade.''
Quando Onyx terminou de me contar toda sua história, imaginei um Mundo como ele havia narrado e com criaturas idênticas a ele, talvez coloridas por causa do que representavam, voando pelo céu e trabalhando em conjunto, nunca sendo um sem o outro.
As trevas, como ele bem narrara em sua história, precisava da luz que o fogo trazia assim como a água não era nada sem aqueles que trouxeram “vida’’ e chuva não era chuva sem os barulhos dos trovões e raios. Nunca um sem o outro, sem se completar e fazendo o ciclo da vida ser melhor.
Olhei para aquele dragão muda, sem poder pronunciar uma única palavra diante de tanta beleza e vi em seus olhos brancos que ele compreendia o que eu sentia, porque diferente de mim, ele vira aquele mundo desde que nascera e vi, também, o quão difícil podia ser para alguém como ele se adaptar ao meu Mundo.
Onyx, naquele momento, era como um passarinho acostumado a voar e que teve suas asas arrancadas.
— Como você veio parar aqui, então? – Consegui formular após um longo silêncio e completei, em seguida: – Seu lar parece lindo aos meus olhos e, sem sombra de dúvidas, eu jamais o deixaria.
— Às vezes, Caitlin, o destino nos prega peças de um tamanho tão grande que nem mesmo os animais mais gentis e espertos conseguem pensar em como se livrar delas. – É o que me diz e de alguma maneira, faz todo o sentido para mim.
Houve um tempo em que os humanos estavam no controle e viviam, ao seu modo, numa paz que não durava tanto tempo assim; houve guerra, muita guerra, entre minha raça e eu nunca entendi como podiam fazer algo deste tipo quando existiam outras criaturas que poderiam fazer o mesmo conosco.
Dizem que a união faz sempre a força e por isso mesmo minha raça perdeu; não havia união e beleza num humano que matara negros e os escravizara por anos, ou numa humana que matava suas empregadas e se banhava com o sangue destas acreditando que jamais envelheceria, ou, então, num curandeiro que ao invés de curar, matava crianças e velhos e arrancava suas peles para vestir.
Por mais que, de alguma forma, eu deseje que minha raça tenha liberdade e independência, sei que não seríamos tão inteligentes para usá-las com bastante sabedoria. Difícil admitir, mas os humanos são tão egoístas e estúpidos quanto qualquer outra criatura irracional, pois assim como elas, matamos e fazemos tudo o que podemos e não podemos para conseguir algo que queremos.
As guerras são a prova disso.
Nossa queda é a prova disso.
— Não é resposta. O que você me disse não é a resposta que procuro. – Rebato após uma pequena reflexão.
— Acontece que nem mesmo eu sei como saí de lá, porém lhe garanto que não fui o único. Muitos dos sobreviventes escaparam pelo portal sem nem ao menos saber para onde poderiam ir quando eles chegaram durante a noite e massacraram meu povo.
— Eles?
— Orcs. Monstros enormes que nos esperaram dormir e atacaram de surpresa com sua magia negra e suas lâminas. Mataram meu povo e aqueles que abrigamos.
— Haviam outras raças lá, é isso? – Arregalei os olhos vendo o quão tola era por pensar que somente os dragões viviam lá e ele, cansado, girou a cabeça para o outro canto.
— Essa é outra história que não prometi te contar.
— Mas vai prometer. – Digo baixinho sabendo que era capaz de me ouvir e estico o corpo ali, bem pertinho da fogueira, deito a cabeça sobre meu braço e fito o fogo já fraco, quase se apagando.
Quando finalmente adormeço, noto que ele está tão sozinho quanto eu.
Nosso dia começa com os primeiros raios solares que invadem as brechas da cristalina água e assustada, como sempre, abro os olhos de uma única vez para encontrar aquele animal dormindo ao fundo da caverna tão tranquilamente que fora como se o seu coração estivesse menos pesado ao ter me apresentado seu Mundo como acreditava ser. Como lhe era dito.
Aproveitei aquele momento de privacidade para vestir minha calça e jaqueta, seguida das botas surradas que exigiam outra remenda com um couro novo — o que significava um enorme risco já que só conseguia isso com os anões num vilarejo há três dias de caminhada com poucas paradas e isso era sinônimo de perigo, de elfos e magos caminhando por todos os lados — e deslizei com calma para a beirada da caverna, deitando-me no solo desta e inclinando meu tronco para o lado de fora, arriscando molhá-lo somente.
Prendo a respiração antes do meu rosto tocar o véu d’água e, então, afundo-o em sua queda, molhando-o naquele lago que a cachoeira cria e levo meus braços juntos, rezando para que meu corpo não escorregue e acabe caindo lá dentro, molhando a roupa outra vez.
Numa próxima vez, nada de jaqueta.
Espero. Espero. Durante minutos nada acontece e meu oxigênio vai para algum lugar desconhecido, fazendo com que eu volte meu rosto para a superfície e sugue mais ar antes de voltar para baixo d’água. Espero. Espero outra vez e nada. Repito o mesmo processo por mais três vezes até que vislumbro um peixe nadando na minha direção e quando se aproxima demais, abro a boca prendendo-o em meus dentes e engolindo um bocado d’água.
Ao voltar para a superfície, mal deslizo meu corpo para a caverna e cuspo o peixe junto do líquido para o chão no interior da mesma, tossindo um pouco; geralmente eu levaria muito menos tempo do que aquele gasto se eu não estivesse parada e sim nadando na sua profundidade atrás da minha presa como os monstros marinhos.
Avanço na direção do peixe e pego-o pelo seu rabo, puxo minha faca da bolsa — que guardei sem nem ao menos me lembrar quando — e corto sua cabeça fora, garantindo uma morte rápida e nada dolorosa. O processo a seguir é fácil: retiro as escamas que dá, a terra e abro o peixe, retirando seu interior inútil que é baseado nos órgãos e cracas e, então, assobio.
Assobio.
Assobio. Assobio.
O dragão acorda.
— Será que você poderia fritá-lo para nós? – Indaguei com ele ainda sonolento e se situando do local ao qual estávamos.
Prontamente, sem dizer nenhuma palavra em minha mente, seu rabo girou e se enroscou no meu peixe, puxando-o das minhas mãos e quase levando-me junto. A sorte foi que consegui me soltar num tempo tão recorde que mal consigo explicar.
O que acontece em seu rabo é incrível; uma pequena corrente elétrica e visível aos olhos vai do pescoço do dragão até o fim de sua cauda, deixando o peixe extremamente escuro em questão de segundos e aquela mesma corrente volta para o pescoço antes dele esticar o rabo e me devolver o peixe.
Pego o animal morto com as mãos nuas e está pelando de tão quente, por isso mesmo o jogo sobre minha bolsa e sinalizo com o dedão para Onyx.
— Obrigada, você é realmente um dos melhores dragões que conheci em toda a minha vida. – Minto.
— Sou o único.
Dou de ombros não vendo necessidade em continuar com aquilo e mesmo sabendo que jamais será o suficiente para um animal tão grande, roubo um pouco da carne do peixe e jogo o resto na direção de Onyx, vendo-o abrir a boca e girar o pescoço, esticá-lo e devorar tudo de uma vez enquanto eu como o queimado peixe que outrora nadara feliz em sua casa.
Não conversamos mais enquanto minha boca estava cheia e minha mão queimada, porém não tão danificada ao ponto de fazer-me chorar diante dele; lembro-me que quando fui escravizada, ainda não vendida, ajoelharam-me numa cela suja, com os pés acorrentados e mãos idem e, então, com a lâmina de uma flecha, retiraram a ponta superior da minha orelha. A grande razão disso? Além de todos os escravos serem marcados assim, isso mostrava que nós não tínhamos uma orelha tão pontuda quanto a deles e que não estávamos na parte superior da cadeia alimentar ou hereditária.
Em Illiaria, os elfos reinavam e nem mesmo uma quantidade exorbitante de semelhança com os humanos seria capaz de mudar isso.
Tomo a aljava repleta de flechas que foram roubadas anteriormente e coloco-a nas minhas costas, sendo presas lá por uma tira de couro que faz parte da sua composição e o arco, feito de madeira branca, é posto dentro do mesmo abrigo de flechas antes de eu lançar minha bolsa sobre o meu corpo e pegar a faca e deixá-la presa dentro da bota, querendo pegá-los de surpresa numa próxima vez caso tivesse chance.
— Por que você não se livrou deles antes? – Insisto sem encarar Onyx.
— Porque eu sabia que você estava lá. – Respondeu em tom sério como se fosse o óbvio e encarei-o arqueando uma das sobrancelhas, questionando em silêncio o grande ‘’como’’. Não houve respostas, não por um longo minuto e, então, sua voz voltou a se fazer presente. – Ouvi seus passos ao longe, sua respiração assustada, a lâmina da sua faca fazendo barulho.
— E ainda sim não se soltou e correu?
— Não.
— Por quê?
— O destino quis que nos encontrássemos, Caitlin. – Diz naturalmente. – Se tivesse que me fazer alguma ruindade, já teria-a feito, mas eu vi com estes olhos que os céus contemplaram por muito tempo, eu vi você ali, fazendo algo para me ajudar quando podia ficar parada, sem apanhar, sem ser humilhada. Contudo, seu coração não deixou que o fizesse. E eu conheço corações assim.
— Assim como? – Parte de mim odiava soar estúpida visto que não entendia metade das coisas que ele diz e quando entendia era só com muita explicação, com muitas perguntas que eram respondidas.
De alguma forma, embora a vergonha de admitir não saber nada sobre aquela nova criatura me abatesse mais e mais, havia algo crescendo em mim a medida que se abria e me dizia todas as coisas que entendia.
Humanos nessa terra não têm estudo e se os outros seres conheciam aquela raça e tinham livros sobre elas, nós jamais saberíamos assim como sempre seria impossível ler livro, letreiros e tudo mais.
Todo o nosso arsenal de cultura se baseava em histórias contadas através das diversas bocas dos mais antigos e dos próprios místicos em suas conversas soltas, em murmúrios abafados, em momentos de descontração.
— Um coração corajoso. – Respondeu-me Onyx. – Dentro de você existe tanta coragem e esperança em meio à tanto caos e maus tratos que no momento em que me cedeu aquela fruta, soube exatamente de quem se tratava e de como podia ser confiável. Não teve medo de mim quando me olhou e se teve escondeu bem, por isso lhe segui. –Explicou com toda a calma, ciente de que eu demoraria a fixar aquilo em minha mente. – Era um teste e você passou nele, por isso merece minha proteção nesse novo Mundo que agora é o meu lar.
— Não sabe nada do meu Mundo e ainda sim diz que me protegerá? – Levanto um pouquinho a voz por estar abismada com uma criatura que pouco me conhece dizendo que sou digna de sua proteção.
— Você não sabia nada de mim e ainda sim me protegeu.
— Isso foi totalmente diferente.
— Diferente como?
— Não sei, não faço ideia, mas foi diferente sim. – Pontuei irritadiça.
— Tudo bem. – Bufou. – Seja teimosa o quanto quiser, isso não vai mudar o fato de que seu coração está ligado ao meu.
— Hein?
— No meu Mundo, Caitlin, quando uma ninfa salvou a vida de um dragão, eles entraram numa dívida eterna e compartilharam alma, coração, sentimentos, corpo e mente. Nós não sabíamos até a invasão dos Orcs, mas quando um dragão morre, aquele que se ligou à ele também morre, entretanto, se a ninfa morrer, aquele que estava ligado à ela não morreria junto. Continuaria vivo.
Gelei.
Apertei minha boca com a mão direita e lancei os braços para o alto, desejando que eu estivesse errada. Muito errada.
Não fazia ideia do que ninfas significavam, mas se meu precioso cérebro estivesse certo, eu…
— Isso quer dizer que nós estamos ligados? Que se você morrer, Onyx, eu também morro?
— Exatamente. A ligação não é voluntária, o coração de um dragão sabe exatamente o que ele precisa e quem precisa dele e acho que por isso, quando me liguei à você, aprendi a falar sua língua, entrei na sua mente e agora estamos aqui.
— Oh, sinto lhe dizer mas agora estamos com um enorme, enorme problema. – Esbravejei como quem estivesse admitindo a perda de alguma aposta. – Porque eu não faço a menor ideia de como vou esconder um animal com muito mais de cinco metros e mantê-lo bem alimentado para que eu não morra.
— Estamos escondidos agora, não?
— Numa maldita caverna, Onyx! Caverna! E você está deitado, encolhido no fundo escuro, mas não dá para ficarmos aqui, temos que chegar em algum lugar verdadeiramente seguro e eu preciso ir para o vilarejo que fica à três dias daqui.
Sinalizo com o indicador para que ele não diga mais nada e fecho meus olhos, massageando as têmporas.
Deus! Por que eu simplesmente não dei meia volta e fingi que nem vi um maldito animal sendo ameaçado?
Se tudo isso que me dizia era verdade, jamais poderia deixá-lo só numa situação de risco e precisaria arriscar-me muito mais do que ele para continuar viva e, ainda sim, correndo perigo. Entretanto, se em algum momento eu tomasse coragem para adentrar na floresta negra e procurar minha mãe, precisaria da ajuda dele.
Estava num beco sem saída pois não podia testar se eram verdadeiros seus dizeres.
Não havia tempo, vai que ele não estava brincando comigo e uma flecha em seu peito resultasse em minha morte?
— Preciso que fique aqui, certo? Não saia quando estiver de dia, espere anoitecer para buscar comida nesse mesmo lago e dentro de seis dias retornarei. Se você morrer, eu morro, então nem ouse dar um mole desses ou eu juro que te mato.
Fale com o autor