Arkadia
4 Uma verdadeira selvagem
Notas iniciais
Três dias para ir. Três dias para voltar.
Comecei minha jornada só, deixando o dragão para trás e tendo tempo suficiente para refletir.
Recebi uma quantidade exorbitante de informação e de uma vez, sem descanso. Estava exausta. Passava tanto tempo sozinha que agora nem mesmo sabia como agir diante de uma companhia, ou se estava tudo bem se cansar em menos de sete ou quatro sóis.
Durante muito tempo acreditei que queria assim até que minha morte estivesse próxima. Acreditei que seria sozinha até o fim e, agora tenho em mente que estou unificada à uma raça que nem ao menos conheço e me sentia… Normal.
Eu não sabia nada de Onyx e nem se estava sendo sincero quando tentou me convencer de que fora expulso do seu mundo, mas meu coração não pulsava ao ponto de escapar pela boca quando estava acompanhada dele. De algum modo, não sentia mais medo.
Se havia uma verdade honesta sobre tudo o que me aconteceu nos últimos dois dias, ela se baseava no fato de que eu nunca o temi enquanto estava ao seu lado.
É com todas essas certezas um pouco incertas que trilho o meu caminho sob o sol quente, ciente de que enquanto o dragão estivesse escondido, eu estaria bem.
Ele só precisava ser mais inteligente do que havia se mostrado até então, assim, caso algum estranho aparecesse, poderia se virar bem sem chamar tanta atenção quanto seu tamanho chamava. Isso. Ficar no interior da caverna era, definitivamente, a melhor coisa que Onyx poderia fazer. Na pior das hipóteses, era só fechar os olhos e fingir ser um pouco da escuridão que a dominava no fundo.
Pela última vez, dou mais uma olhada para trás, checando a trilha que fiz para sair de perto da cachoeira. Em meio as árvores e arbustos, não há nenhum sinal da grandiosa sombra com quem compartilhava meu coração e, então, volto a seguir meu caminho.
Meus passos são precisos, rápidos; embora siga caminhando, sem nem ao menos correr, sei a urgência que tenho em conseguir mais de uma coisa. Se pretendo levar o dragão adiante, seria necessário algo para me segurar nele, botas novas e informações. Esse último item da lista, entretanto, seria o primeiro a ser cobrado. E eu sabia muito bem onde e com quem.
Já são dois dias longe.
Não estou dormindo tanto quanto gostaria, porém sei que a viagem vale tudo isso. Ou ao menos tento me certificar de que está valendo tanto assim por minha liberdade em risco por um mero par de botas e um enorme animal escamoso que depende de mim. Ou eu dependo dele.
Ainda é confuso e por mais que eu tente organizar meus pensamentos da melhor forma possível, tudo gira ao redor da mesma enorme bola de fogo falante: Onyx.
Se existe um deus em seu mundo, ele foi extremamente injusto com aqueles que não eram seus filhos. Onde raios havia justiça em uma morte vinda para somente um dos lados? Nada disso era mútuo.
Passo os fios negros de cabelo que estavam soltos para a frente, jogando-os sobre minha orelha marcada e olho para os lados. Há somente árvores e aquela enorme descida que mais parece uma ladeira coberta de mato, galhos, folhas ressecadas, folhas verdes e afins.
Era necessário descer para chegar ao limite do que era seguro e entrar no território das fadas para chegar ao vilarejo.
Os pequenos seres de luz, que podiam alterar seu tamanho, moravam perto das cidades ou dos vilarejos quando não pertenciam à corte. Isso se dava ao fato de que as fadas são seres da natureza, logo é necessário que elas estejam rodeadas pela natureza, pois assim sua magia continuaria existente.
Eram os mais delicados dos seres e os mais responsáveis, já que apesar de fazerem parte da tríade que reinava, eles não eram abusivos. As fadas sempre foram gentis com aqueles que não abusavam de sua moradia, logo não havia do que reclamar.
Tinham um dever em nossa sociedade também e isso é conhecido desde sempre; são responsáveis pelas estações, existindo as fadas do inverno, verão, outono e primavera. Reinaram ao lado dos humanos por causa disso, sendo na época lideradas por Azula. Hoje reinam ao lado de Shagar, filho de Lugthar.
Todos precisavam delas para reger o mundo. Assim todos sabiam que não importava a guerra existente, as fadas jamais escolheriam um lado.
Me agacho e acabo sentando na beirada daquele exemplar de ladeira verde, esticando as pernas e deixando as mãos apoiadas em cada lado do corpo.
Suspiro.
Minhas pernas estão latejando com o tanto de caminhada que fiz.
Uso as mãos para impulsionar meu corpo e, então, me lanço para a descida.
Os galhos pinicam meu traseiro durante aquela descida e acho que algumas farpas invadiram minha calça, por isso que quando chego ao seu fim, a primeira coisa que faço é espanar minha bunda.
Não adianta em nada.
Suspiro em alto e bom som, relaxando os ombros uma vez que estou de pé e deixo meus olhos passearem pela paisagem antes que eu siga em frente.
Em parte entendia porque Azula protegia tanto toda essa natureza. Ela era linda.
Segui em frente, pondo uma perna na frente da outra e marchando o mais naturalmente possível. Quanto menos suspeita eu começasse a ser, melhor.
À medida que as árvores me engoliam, enxerguei o bosque mais lindo que vi em sete dias completos.
Os arbustos eram floridos com as mais variadas espécies de flores e frutos, tendo o verde das folhas um tom bem claro como se o Sol sempre os tocasse. Havia pedrinhas e pedras grandes decorando a beirada da trilha de terra que começava a uns passos a frente. E as árvores… eram enormes. Copas altas. Algumas casinhas de abelhas estavam em seus galhos e borboletas coloridas voavam desordenadas pelo ar.
Os esquilos corriam em minha frente, escalavam as árvores e mostravam suas casas para os mais atentos. As corujas conversavam escondidas, eu só ouvia o barulho. E os patos estavam em algum lugar, piando alto.
Parei perto de uma macieira.
— Espero que vocês não se importem. – Murmurei baixinho e escalei a árvore, tomando as maçãs verdinhas para mim e meu novo amigo. Entretanto, antes que eu pudesse guardar a terceira maçã, alguma coisa começou a fazer cócegas em minha bochecha e, em seguida, no meu queixo.
— O quê? – Questionei a mim mesma quando as cócegas vieram para a minha orelha.
Levei a mão até lá e abanei de modo que o bichinho pudesse sair.
As cócegas, então, passaram para minha nuca, soando como agulhadas. Eu levo a mão até lá e abano mais um pouco.
— Ai! – Grito quando sinto alguns fios de cabelo serem puxados e resolvo ser mais ágil.
Passo minha mão por aquela área e puft, agarro algo durinho com o indicador. Trago minha mão até a frente e observo aquele pontinho luminoso e marrom.
— Fada?
A resposta que me dá é tão surpreendente quanto eu gostaria; seu brilho aumenta junto com o corpo e, então, quando atinge o tamanho de uma pessoa, seu peso faz com que eu me desequilibre e caia da árvore.
Minhas costas doem quando atinjo o chão, mas choram alto quando a fada cai por cima de mim.
— Você não leu a plaquinha de que ali mora alguém? – Questionou a fada enquanto saía de cima de mim.
Eu a encarei ainda deitada no chão e precisei levar uma mão até o rosto para que o sol não me impedisse de enxergar.
— Mas não tem placa nenhuma. – Disse para a fada naturalmente e forcei meu corpo a se levantar, limpando minha bunda mais uma vez.
— Não? – Ela disse. – Pois agora vai ter. – E irritada, bateu uma mão na outra, fazendo com que a árvore levasse seu nome como se fosse uma placa que indicava algo.
Lili.
— Eu tinha fome. – Rebati como se explicasse tudo.
— Minha árvore teve dor enquanto você retirava seus frutos e eu sou muito, muito sentimental quando se trata dela.
— Sou muito sentimental quando se trata do meu estômago também.
— Pois então procure comida em outra árvore.
— Procurarei.
— Ótimo. – Deu-me as costas e aproveitando que ela já não me observava mais, levantei-me e observei enquanto caminhava.
Sem o sol na minha cara, pude ver que tinha a pele morena e um cabelo curto, repleto de cachos. Sua roupa era feita de folhas secas, desde marrons escuros até os mais claros. E nos pés havia uma botinha verde.
Suas costas continham um belo par de asas parecidas com de borboletas, colorida em amarelo com linhas marrons que faziam desenhos desde as bordas até seu meio.
— Preciso dormir, você sabe um lugar bom? – Gritei para que ela pudesse me ouvir.
— Nenhum lugar é bom para uma humana. – Ela me devolveu.
— Me diz algo que eu não sei.
Lili voa até mim de maneira rápida e para com seus pés sem tocar o chão. Noto, então, que tinha uma coroa de folhas de árvores na cabeça.
— Você está fedendo. – Torceu seu nariz em desaprovação e eu ri. – Fedendo como quem não toma banho há uma estação inteira.
— Não exagera, não faz nem sete dias. Eu acho.
— Pode ficar no bosque, aqui é um território neutro desde que não seja pega, ou faça algo absurdamente ruim à minha família. – Diz simplesmente como se aquilo não fosse tão importante quanto parecia e dá de ombros, visivelmente relaxada. – Há um preço, no entanto.
— Qual?
— As maçãs. Você deixará todas aqui.
Imediatamente eu abro minha bolsa e devolvo o que foi roubado, pondo tudo no chão com tamanha delicadeza, não querendo desrespeitá-la.
— Só isso? – Questionei.
— Deverá sair pela manhã, antes dos raios solares atingirem minha árvore. E você nunca, nunca, nunquinha me viu.
É na árvore dela que me encosto, como bem me aponta depois, e por lá mesmo fico. Ainda há raios solares no céu quando fazemos isso, eles estão se despedindo dos que habitam a terra para que, então, deem lugar às belas estrelas e lua.
Penso em Onyx naquele momento e imagens dele preenchem minha visão como se fosse algum tipo de problema cerebral.
Sei que ainda estou aqui, no bosque das fadas, mas ao mesmo tempo estou lá com ele, vendo-o deitado no interior escuro da caverna e com aqueles olhos brancos bem abertos, expostos para qualquer um.
Não faço ideia do que seja isso, mas ainda sim agradeço por me confortar de alguma maneira e é com aquela imagem que forço meu sono a vir. Quero que ele também faça isso. Precisa estar despreocupado.
E eu não posso continuar pensando que minha vida depende dele.
Acordo antes mesmo do sol dar as caras; ainda está extremamente escuro e a lua continua no céu, não mais tão no topo quanto outrora.
Levanto-me e antes de iniciar alguma caminhada, me certifico de que as flechas ainda estão nas costas junto ao arco.
Inicio, então, minha caminhada.
Já não posso mais perder tempo algum visto que prometi, em segredo, voltar dentro de seis dias e é exatamente isso que pretendo.
Onyx dependia de mim mesmo que sua vida não.
Droga.
Desde quando tenho pensamentos tão assim?
A resposta é clara: desde que atravessei o caminho de um dragão.
Retiro uma flecha da aljava roubada e a encaixo no arco que é retirado na mesma hora.
Meus passos são sorrateiros. Sei que nesse momento preciso tomar muito mais cuidado e parar de brincar, ou pedir abrigo para as fadas. Olhando por esse lado, até parece que sou pouco independente e não sei me virar. Olhando por esse lado, eu realmente me viro pouco.
É uma longa caminhada até o início do vilarejo e suas proximidades, mas sigo até o fim do bosque com louvor e logo posso vislumbrar a estrada de pedra e algumas fumaças voando para as nuvens. Eram das chaminés, das casas de pães e de seus fornos. De longe se sentia o cheiro de algo bom.
Checo mais uma vez para ver se meu cabelo cobre o suficiente de minhas orelhas e encaro o arco. Tenho um plano como todas as outras vezes; se não vissem minhas orelhas e encarassem o arco, estava tudo certo, achariam que eu era um deles e pronto. Fim.
Uma orelha e um pouco de magia era tudo o que nos diferenciava.
Estou pronta. É isso.
Respiro fundo e cada passo agora é decisivo.
Logo vejo as construções surgirem como se fossem a melhor das paisagens que meus olhos podiam enxergar e com elas, as pessoas. Existiam em todos os tamanhos. Eram anões – maiores do que eu– , crianças mais baixas, outras mais altas. Alguns dos que passeavam pelas ruas tinham asas. Outros eram como eu, porém acorrentados, ou trabalhando nas barracas com suas roupas surradas.
Apesar da quantidade demasiada de cores, dos tijolos e das madeiras agirem da melhor forma possível nas casas, nas tendas e nas tabernas também, o que realmente chamava atenção era a variedade de coisas que as tendas vendiam. Existia de tudo ali, de fato. Dentes de vampiros para poções que os magos usavam, vários tipos de coisas para se usar numa flecha, ervas, comida, bastante comida. Mais ervas. Especiarias. Espelhos. Tecidos. Roupas. Tudo.
Feche os olhos e imagine alguma coisa. É. Eles vendem.
E eu os conhecia extremamente bem. Conhecia cada parte daquele vilarejo muito bem.
Quando fui capturada, uma senhora me comprou e fez com que eu cuidasse de tudo, de todas as coisas que tinha dentro de sua casa, dos seus filhos e das suas compras. Claro que sempre estava acompanhada quando saía de sua casa e viajava com outros a procura de tudo o que tinha na sua lista. Seu marido por vezes vinha comigo para cá, passava a noite junto dele no bosque das fadas, amarrada com correntes grudadas na carroça. Era assim. E quando estávamos na cidade, era uma corrente no meu pescoço e a extensão dela enrolada em seus pulsos. Ele era um elfo, não precisava daquilo, mas sua mulher acreditava que era o melhor. Segurança extra, ela dizia, pois raízes e plantas podiam ser cortados facilmente.
Mapeei todos os lugares que eu podia enquanto era usada nas viagens. Comecei a traçar o meu plano dessa maneira, saindo e sendo dócil. Antes poder ver a luz do Sol do que ser uma das mulheres que usavam o corpo para saciar o desejo dos homens, ou que faziam o trabalho pesado junto deles, ou que eram vendidas para os bordéis… É. Isso existia. Havia uma graça oculta em possuir o proibido e nós éramos isso: proibidos.
Nenhuma relação provinda de um humano com um elfo geraria algo decente. E as fadas eram puras demais para cogitar isso. Os anões não, os magos idem.
Os bordéis humanos eram mais do que pura prostituição: uma maneira de procriar com o seu fetiche. Os magos trepavam conosco porque sabiam que a chance de um humano nascer era pequena e que sua raça só não tinha magia até os treze anos. Os anões trepavam porque tinham esperança de aumentar um pouco a altura de sua raça, às vezes conseguiam e outras vezes não, então a criança era órfã se nascia humana. E no bordel a criança continuava até pensarem em vendê-la, pois uma vez filho de algum ser mágico, você passa a ser sua propriedade.
E se você não era féerico nenhum pouco, continuava sendo propriedade deles. Humanos estariam sempre fadados a isso mesmo que estejamos tão acostumados ao ponto de não precisarmos de surras e de humilhações. Ainda sim, é válido lembrar que nos tratavam como bicho.
Tento, ao máximo, não encostar nas pessoas que passam por mim e por quem vou passando. Não por ter nojo. Nojo é algo que realmente não possuo deles pois sei que se a situação fosse contrária, também achariam tudo isso tão injusto quanto eu achava agora. É difícil, mas na minha mente sempre criei dois tipos de situações: as minhas vividas por eles e as deles vividas por mim. E se eles tiraram o reinado dos humanos é porque o modo como viviam não era o de agora.
O poder mudava as pessoas e eu acreditava cegamente que para conhecer alguém verdadeiramente bastava isso: lhe dar algum meio de controle sobre você, sobre sua vida e a vida dos outros, ou sobre algo. O poder consumia e destacava seus piores defeitos. E eram os defeitos que lhe comandavam a partir daquele momento.
A história comprovava isso por si só.
As piores pessoas de quem já ouvimos falar foram aquelas que tiveram uma pequena faísca de poder em mãos e fizeram o que bem entenderam com ela.
Dou breves acenos com a cabeça para os mais gentis e quando vejo que a multidão realmente me engoliu, deslizo entre os corpos para o lado esquerdo, me embrenhando num dos becos com saída e no seu fim, giro para a direita. Ando. Ando. Ando mais um pouco.
Encontro-o.
A construção inteira era feita de madeira e sua porta era um enorme quadrado. Aquilo, contudo, nunca teve nada em seu interior e por isso era seguro ser construído dessa maneira. Não era uma casa. Na realidade, aquele era como um estábulo abandonado e que usavam para vender coisas do submundo.
Essas coisas, contudo, consistiam nas mesmas coisas vendidas lá fora e, é claro, escravos. Os preços eram baixos, por isso ali também nunca ficava vazio.
Deslizei para dentro, dando de cara com mais tendas de madeiras e velharias, algumas extremamente interessantes. As pessoas que trabalhavam por lá eram, de fato, muito mais sujas do que eu; aparentavam poeira demais nas bochechas, manchas negras e o odor do ambiente não era lá dos melhores. Parecia mijo.
Torci o nariz antes de ir para o fundo daquele armazém e quando finalmente cheguei lá, encontrei aquele anão mal humorado com algumas verrugas em seu nariz e o longo cabelo trançado.
Forcei um sorriso.
— Tenho algo a oferecer em troca de teons. – Sibilei rapidamente para ele o mais séria que podia e com gentileza em demasia, retirei a aljava das costas e coloquei sobre a parte lisa da barraca. O arco fora posto em seguida junto da última flecha. – Isso vale cinquenta teons, pelo menos.
O anão analisou todos os pequenos detalhes de todo o combo que lhe mostrei. Suas pequenas mãos se enrolaram em flecha por flecha, analisando as pontas afiadas. Depois fora para o arco, buscando alguma coisa que pudesse abaixar um preço alto.
Aqui o segredo era conseguir pechinchar até o fim.
— Considerando que é algo roubado… Dou trinta teons.
Imediatamente arqueio a sobrancelha.
— Thumos! – Irritada, chamei-o pelo seu nome e tive de segurar a mão para não bater naquela madeira. – Roubado ou não, você vai vender isso por um preço muito mais alto que eu sei. Flechas que os caçadores e guardas de Shagar usam são, honestamente, o maior bem precioso que você terá para vender e eu só as vendo por cinquenta teons.
— Então, não irá vendê-la para mim. – É o que me diz simplesmente e eu tenho certeza de que há algo por trás.
— Mas você sabe que só alguém do seu porte pode lidar muito bem com algo desse tipo. – Murmurei apontando para as coisas roubadas que havia lhe empurrado.
— Trinta teons, Caitlin, ou nada feito.
Droga!
— Trinta e cinco, então, por favor. – Choraminguei. – Preciso de uma bota nova, você sabe como couro é caro junto com qualquer coisa feita desse material. Por favorzinho.
— Trinta teons e uma nova faca, ou nada feito.
Bufei.
Estiquei a mão esperando meu pagamento por aquilo e não falei mais nada.
Thumos, sem pestanejar, guardou primeiro a arma que lhe entreguei e, depois, deu-me aquele punhado de moedas de prata, abaixando-se em seguida para pegar a faca e, quando me entregou, prendi a respiração. Ela era absolutamente diferente da faca simples de caça que eu tinha.
Seu cabo era branco, grosso. E havia uma abertura no meio para que eu pudesse por minha mão ali e segurá-la da melhor forma possível. Sua lâmina era prateada, longa e larga. Medi-a com meu dedo indicador e deu dois dele em largura, três em altura.
Rapidamente, guardo a faca no cós da minha calça e as moedas entram na minha bolsa.
— Foi ótimo fazer negócios contigo.
— Espere, Caitlin. – Thumos me diz num grito e eu paro o passo que estava prestes a dar, girando o corpo em sua direção.
— Esqueci algo? – Pergunto inocentemente.
— Foi você, não foi? A humana que desmaiou cinco elfos e deixou-os desarmados, sem nada. – Finjo que não sei do que ele está falando e faço a careta mais confusa que consigo. – Oh, não se faça de desentendida. Eles vieram há um dia para cá, vasculharam tudo atrás de você e não sei se já foram embora. Tome cuidado.
Por um momento, meu coração dá uma breve palpitada. Não sabia o que ele ganhava tentando me ajudar ou me avisando de uma possível fuga numa chegada tão breve, porém uma voz grossa na minha cabeça gritava que aquilo significava compaixão. Importância.
‘’Cale a boca, Onyx.’’ Resmunguei mentalmente. ‘’Desde quando você fala na minha cabeça quando estamos distantes?’’
‘’Desde que eu disse que estamos ligados um no outro, lembra? Compartilhamos pensamentos, Caitlin.’’ Ele me devolveu. Argh!
Mostro o dedão para o anão, agradecendo o fato de que estava me dando um pouco de ajuda e com o indicador, fiz o gesto de silêncio.
Saí dali o mais rápido que pude, com a cabeça baixa e um único alvo em mente.
O clarão do sol quase me cegou de primeira. Havia acabado de sair do breu imundo que era o submundo para voltar à parte movimentada e colorida da cidade, buscando o sapateiro para dar-lhe um pouco de riqueza.
Quando encontro o sapateiro, a bota que escolho me custa vinte e quatro teons. Ela é feita com a pele de algum animal e seu interior é forrado de pano, o que faz com que seja relativamente barata.
Não uso a bota, guardo ela na minha bolsa, amassada com a sua sola resistente. E com o restante das moedas que me sobraram, compro um pão feito de água e farinha, redondo e grande. Ou relativamente grande. É embrulhado num plástico e vai, de fato, pra bolsa. Um frasquinho de iodo me custa um teon e gasto os últimos três teons são usados em ervas medicinais.
É chorando muito que as consigo.
Consigo o que era uma necessidade e, de quebra, ainda levo comigo alguma coisa para comer em pequenos pedaços por dias. Já estava um pouco cansada das frutas e de como meus dedos eram um ímã para farpas.
Como quem ainda se permite ser uma cidadã, continuo caminhando mais um pouco pela cidade, observando as pessoas que por ali estavam e quando digo pessoas, incluo os escravos nessa lista. Não eram bichos. Não eram dragões. Eram pessoas.
Pessoas sem uma lasca da orelha.
Suspiro um tanto quanto indignada com toda a situação e continuo andando até que mãos fortes agarram o meu braço.
Congelo no lugar.
— Você vem comigo. – Murmurou uma voz rouca extremamente conhecida.
Girei a cabeça lentamente para encará-lo. Era o elfo de pele negra que havia me aprisionado no mesmo dia que conheci Onyx e inventei de ajudá-lo.
— Não! – Gritei e puxei meu braço de volta. Num piscar de olhos, empurrei-o e comecei a correr.
As pessoas que estavam na minha frente eram empurradas com vigor. O vento parecia correr para o lado contrário ao qual eu ia.
Ouvia, ao longe, o elfo gritar ‘’segurem-na’’, ‘’é ela’’, ‘’criminosa’’ e tantas outras coisas. Não sabia ainda se somente ele me perseguia, mas tinha certeza de que não podia continuar correndo tão normalmente como antes.
Aumentei a velocidade das passadas. Respirei pelo nariz. Soltei o ar pela boca.
Meus braços se movimentavam juntos, um depois do outro. Meu estômago doeu um pouco, porém ignorei. Corri.
E continuei correndo como se dependesse disso para viver mais do que dependia de um dragão.
Me joguei sobre uma das tendas, alcançando o chão duro do outro lado e engatinhei até conseguir levantar, continuando a corrida.
Uma coisa dura acertou meu pescoço em algum momento daquela corrida e eu caí para trás, com falta de ar. Quando ergui o olhar, encontrei outro elfo ali, parado. Seu braço chacoalhava no ar indicando que me atingira com aquilo.
Rastejei para trás.
Olhei para os lados.
Ainda era difícil respirar. Minha garganta e sei lá o que mais não cooperava também.
Forcei meus joelhos a cooperarem e meio que caída, me empurrei na direção dele e tombamos os dois para o chão. Não perdi tempo com aquilo, não podia continuar perdendo mais tempo e voltei a correr.
Tentei correr.
Sempre soube que alegria de pobre durava pouco, só não imaginei que seria tão pouco.
Um cipó se enroscou no meu pescoço e me puxou para trás, fazendo-me cair. Continuou me arrastando no chão duro e quente. Vi, naquele momento, que a multidão de pessoas abria espaço pelo caminho ao qual eu tinha de seguir.
Levei minhas duas mãos ao pescoço, bem onde o cipó estava e tentei tirá-lo de qualquer forma. Tentei arrancá-lo da minha pele como se fosse um sanguessuga.
— Achou que ia escapar? – Alguém atrás de mim dissera.
Grunhi.
— Você pode ter me desmaiado aquele dia, mas não acontecerá outra vez. – Avisou e, então, o cipó se soltou do meu pescoço. Ameacei levantar.
Fui chutada nas costas e bati com o queixo no chão, caindo, mais uma vez.
Tomando mais cuidado com o que fazia, girei meu corpo para encarar o dono da voz e sorri ao vê-lo.
Era o elfo de pele negra com os cabelos brancos. Estava acompanhado de mais três, reconheci um deles como sendo aquele que conseguira me derrubar outrora.
— Você tem certeza de que não vai acontecer? – Cuspi jocosamente para ele e, aos poucos, fiquei de pé.
Fechei ambas as mãos em punhos. Inclinei meu corpo e me posicionei pronta para lutar.
— Não sei o seu nome, não sei qual o seu maldito problema em me deixar em paz, em simplesmente aceitar que você perdeu para mim, mas adivinhe? – Berrei atraindo mais atenção. – Nem todos os escravos são pegos sem lutar. Você me quer? Perfeito. Estou aqui. Agora mova sua bunda porque, honestamente, eu irei lutar. E te darei o maior trabalho possível.
Ele ri e todos o acompanham.
É difícil ser levada a sério quando se está no fim da cadeia de riquezas dessas terras, mas insisto. Faço cara feia. A minha melhor careta com os olhos cerrados, porém atentos.
— Que selvagem. – Ouvi um deles dizer e eu sorri, mostrando meus dentes brancos.
— Acho que precisamos dar uma maldita lição nela. – Outro disse.
E foi aí que tudo começou.
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