Arkadia
7 Eu ponho fogo em tudo. Em todos. Não irei hesitar.
Notas iniciais
E então, nós vimos.
Por entre as nuvens negras, de todas as cores escuras que se possa imaginar, dos tamanhos mais variados, lá estavam eles. Dançando, rodeando uns aos outros e fazendo com que trovões ecoassem, com que os raios saíssem de suas bocas e seus rabos e brilhassem.
Lá estavam eles, em escamas e distração. Surgindo das nuvens, voltando para elas e nunca tocando o chão.
Os dragões.
Os dragões que eram iguais ao que eu estava montada e que, de alguma forma, se escondiam sobre a Floresta Negra.
Os dragões. Aqueles que fundaram seu próprio mundo e agora estavam no meu.
— São eles.— Eu murmurei para Onyx, ignorando a presença do Mago que estava atrás de mim e com os braços agarrados em minha cintura.— São seus irmãos.
— Não fui o único.— Ele dissera para mim, em minha mente. E eu apenas acariciei sua nuca escamosa enquanto ele planava, temendo se aproximar.— Estão aqui. Há tempestade, raios e dragões de água. Não estou sozinho.
Queria dizer que ele nunca esteve sozinho, mas o que eu entendia sobre dragões? O que eu realmente sabia sobre suas necessidades e como elas deviam ser supridas? Nada. Não entendia nada, mas eles sim. E, de alguma forma, também me sentia feliz por saber que Onyx não era o único no mundo.
— O que está acontecendo? — Me referia ao modo com o qual se movimentavam.
— Estão chamando os outros, estão me chamando.
De alguma forma, soube que ele deveria ir, que ele precisava segui-los e acabei afagando suas escamas negras como quem estivesse dando uma permissão que não era necessária.
— Vá. Eu irei com você até o fim do mundo se for necessário.— Sussurrei para que Samwell não nos ouvisse; a necessidade que ele sentia, ao meu ver, de compreender nossa ligação era algo do qual eu não estava preparada para deixá-lo se aprofundar, ou encontrar suas respectivas respostas.
Onyx rugiu alto, chamando a atenção daqueles que voavam consideravelmente longe e um pouco perto de nós e eu soube que, naquele momento, encolher o meu corpo era a melhor opção e fora justamente isso que fiz. Me escondi pelo seu pescoço, acreditando que sua cabeça seria o suficiente para me esconder e esconder ao homem cujas mãos estavam em minha cintura.
Vi apenas um grande redemoinho de cores ao nosso redor e meu dragão, aos poucos, saia do meio do redemoinho e se tornava parte do mesmo. Senti que seus pensamentos estavam longe e eu não era capaz de me comunicar com ele. Era como se não existisse ligação alguma entre nós.
Girei o pescoço e fiz um sinal de silêncio para Samwell, exigindo que não houvesse perguntas com meu olhar ríspido.
Onyx voou ao lado dos seus, esqueceu de minha existência por alguns minutos e seguiu a trilha dos dragões que levavam-no para o interior da Floresta Negra.
Então, estavam escondidos aqui durante todo esse tempo? Penso comigo mesma e vejo que há sentido uma vez que nenhuma outra raça ousa entrar nesse território e sabendo que os dragões são fortes, que Onyx é forte, não poderia ter, de forma alguma, algo capaz de feri-los.
A medida que as árvores negras, escuras, os engolem, eu vejo uma luz no fim da jornada e ao observar bem, não creio no que meus olhos são capazes de ver.
Há casas. Pessoas. Há uma vila dos exilados. Há vida.
Meu coração não explode, ele simplesmente se contorce, dói de felicidade, de alegria por uma possibilidade de encontrar minha mãe viva e, então, é destroçado porque sei que não posso me permitir ter grandes esperanças. Eu não posso criar expectativas para depois sofrer por causa delas.
Consigo ouvir, ao longe, risos de crianças e sinto o cheiro de fogo, de uma fogueira queimando em sua última brasa.
— É fantástico.— Samwell murmura para mim.— Ninguém nunca imaginaria que isto é possível dentro dos perigos que a Floresta oferece.
E eu sabia exatamente o porquê de ninguém acreditar nisso. De ninguém imaginar.
Os moradores da vila, bom, eles eram a ameaça que Elfos e Magos queriam conter.
— É tão difícil assim imaginar que nós somos civilizados?— Uma voz grossa gritou extremamente alto e todos pararam o que faziam, inclusive eu. Quando me dei conta, Onyx estava ameaçando pousar há poucos centímetros do chão e havia uma mulher ruiva, da pele negra, nos fitando.
Ela era a segunda pessoa que utilizava peles grossas de animais e um couro apertado, mas que não impossibilitava seu movimento. E era alta, dos lábios grossos, das pupilas vermelhas.
Senti meus pelos ficarem rígidos junto aos músculos. Eu sabia o que ela era, todos sabiam.
— Isso importa?— Questionei um pouco na defensiva assim que Onyx pousou e imediatamente, o mais rápido que pude, deslizei para fora dele.
— Se você nos traz o filho daquele que nos aprisionou aqui, é claro que importa.— Ela respondeu.
— Também trouxe um dragão, se você ainda não conseguiu enxergar.
Gargalhou. A vampira simplesmente gargalhou e eu senti o rabo escamoso de Onyx se por na frente do meu corpo como quem declarava uma proteção. Como se ele contasse para todos ali que eu o pertencia, estava com ele.
Mas ignorei e avancei com alguns passos, aproximando-me de forma ousada na direção daquela que até o nome eu desconhecia.
— Eu estou procurando por alguém.— Anunciei.
— E eu estava procurando por você, DragonSlayer.
Um silêncio absurdo se fizera presente.
— Ela é realmente uma?— Ouvi Onyx perguntar.
— Isso não é algo para ser discutido na frente dele, dragão.— E com um movimento de cabeça, três homens fortes e igualmente negros surgiram, indo em direção a Samwell e de imediato, usaram de correntes de ferro para prendê-lo. O mago nem mesmo resistiu. Deixou que o prendessem com algo que iria proibir o uso de sua magia e, desta forma, fora amarrado ao tronco de uma árvore.
— Não vou discutir nada.— Avisei.— Preciso ver minha mãe antes de qualquer coisa. Preciso saber se ela está viva, se está bem. Não vou para nenhum canto sem vê-la.— Exigi mesmo sabendo que aquilo talvez não fosse possível e, mais uma vez, tudo em mim se arrepiou.
— Sua mãe?— Indagou a vampira.
— Sim. Ela estava grávida de um de vocês, foi trazida para cá. Vim atrás dela e se há algum sentimento de solidariedade em você, não me tire daqui antes que eu a veja. Se disser que não, eu ponho fogo em tudo. Em todos. Não irei hesitar.
— Quem você pensa que é para nos ameaçar, humana?
Respirei fundo. Respirei tão fundo que meu peito doeu.
— Eu sou Caitlin, filha de Yvan e Teresa. A humana que tem uma ligação mágica com um dragão de outro Mundo e, ah, também sou aquela que teve os fios mudando de cor por causa dessa ligação e, segundo você, a quinta DragonSlayer. Então, se você está dizendo que eu não tenho coragem, que eu não tenho a capacidade ou o que quer que seja, experimente me desafiar. E se o fizer, saiba que será só mais uma entre aqueles que realmente duvidaram do que posso fazer, porque Onyx pode até se recusar a matá-los, mas eu não. Nunca.
Estava cansada. Exausta dos outros me dizendo o que eu podia ou não fazer, dos outros achando que me conheciam o suficiente para saberem meus limites. Eu era a única que sabia o que podia fazer e o que não podia. Eu sou a única que sabe.
Desde que meu caminho se encontrou com o de um dragão da Tempestade, minha vida não tem mais sido a mesma; Onyx me testou de todos os jeitos, me renovou de uma maneira que eu não podia compreender até agora. Eu, Caitlin, não estava mais sozinha ou era indefesa ou um alvo fácil. Eu nunca fui um alvo fácil e nunca seria, embora tal palavra seja forte demais. Onyx me mostrou que sou muito mais poderosa do que eu poderia imaginar e unicamente por isso, resolvi que ninguém iria me escravizar, me usar, me dominar.
Nenhum humano. Nenhum vampiro. Nenhum mago. Ninguém. Eu era dona de mim mesma, da minha vida, e ninguém poderia tirar isso de mim.
Fitei a vampira diretamente nos olhos e senti meu estômago quase explodindo de felicidade pelo o que acabei de fazer.
Aqui, neste momento, tirei todas as amarras de mim.
— Mamãe...— Pude ouvir ao longe.— Ela tem o nome da minha irmã.
Virei meu rosto tão rapidamente na direção da voz que a primeira coisa que encontrei fora os fios loiros e rosto levemente enrugado de minha mãe, extremamente pálida, e segui seu corpo até encontrar, do seu lado, a dona da voz.
Minha família. Minha família ainda existia.
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