Arkadia

8 Quando o coração bate forte.


Notas iniciais
A gente demora, mas a gente aparece, não é mesmo? E para o desgosto de nossos corações, eis a notícia: o início da jornada de Caitlin está chegando ao seu fim, mas isso não significa que estamos, de fato, no fim. E por causa demora, que eu realmente sei ter sido longa, vamos com algumas surpresas. Ah! Algumas questões ficaram em branco no capitulo anterior, por isso estou tentando clarear o máximo possível, mas sem dar muitas repostas que possam colocar em risco as surpresas mais adiante, então espero que algumas principais questões tenham sido respondidas e se não foram, nos vemos lá embaixo.

— Mamãe.— Murmurei segurando a sua mão de maneira forte enquanto era obrigada a me despedir, em pensamentos, do homem morto.— O que faremos agora? Ele se foi. Ele se foi.

Há uma lágrima silenciosa percorrendo meu rosto naquele momento e tudo o que consigo ver é o corpo açoitado e sem respiração do homem da minha vida, daquele que realmente me ensinara o significado de viver, mesmo que fosse escondida dos olhos cruéis da realeza das raças.

— Não sei, Cait, mas nós não podemos chorar na frente deles, querida. Seu pai não gostaria nenhum pouco disso.— Ela murmura de volta para mim e aperta minha mão, tenta me consolar do seu jeito.

— Ele vai ficar ali para sempre? Isso não é justo.

— A vida nunca fora justa conosco, Caitlin.

—Papai…



Mamãe e eu estávamos dentro da carruagem do nosso dono, acorrentadas nos pés e mãos pois ele só nos libertaria quando precisasse de nós. Os elfos realmente acreditavam que aquele pedaço faltando da orelha era o suficiente para saberem que éramos escravas. Lembro-me que naquela noite, ficamos acordadas até os primeiros raios de Sol, planejando o que deveríamos fazer, o que faríamos.

Já havia se passado duas estações desde que papai se fora. Nós estávamos decididas.

Seguimos conforme todo o plano, fingimos fazer compras normalmente e, então, no caminho de volta para a casa dos senhores, ela começou a gritar de dor. E eu chorei desesperada.

— Socorro. Socorro. — Gritei em desespero.— Alguém ajuda a minha mãe, alguém ajuda a minha mãe.

Quando sua paciência foi cheia às pressas, até a última gota, nosso senhor deu a volta e mamãe o apunhalou com uma adaga que comprara de um anão fedorento e feio. Direto em seu peito. Ele nem mesmo tivera tempo de reagir.

Meus olhos estavam fixos na mulher que eu conhecia tão bem e aquela criança que ela segurava. Era uma versão livre e possivelmente melhorada do nosso verdadeiro retrato de família. Todo o meu estômago se embolou e me senti enjoada, trêmula.

Queria lhe dizer algo, queria me apresentar, mas eu era só uma lembrança assim como ela fora durante um bom tempo. Um tempo incalculável para mim.

Imediatamente, fiquei de costas para aquelas pessoas que me encaravam e fixei meus olhos em Onyx, tentando não deixar que ninguém visse o quão chorosa eu poderia estar. As dores em minhas costelas voltaram e respirar havia se tornado difícil.

— Vá para dentro da caverna, Caitlin.

— Não vou deixar você sozinha com ele, mamãe.

— Isso foi uma ordem, não um pedido.

— Ele vai te machucar, mãe.

— Você não quer voltar para aquela casa, certo?

E, com isso, eu entrei na caverna.. Sentei no íntimo do seu interior e durante toda a noite, naquela maldita Floresta Negra, pude ouvir o choro, os gritos e sentir a aflição de minha mãe.

Sabia porque ela me mandou para dentro e o que não queria que eu visse, porque mães eram protetoras e faziam de tudo pelos seus. Mas ainda sim, fiquei com raiva de mim mesma. Quis que talvez fosse eu no seu lugar.

Era como se estivesse chovendo imagens que eu preferi moldar e criar de outra forma. Imagens que escondi no interior do meu cérebro e mantive presas por muito tempo. Estava sendo pior do que um soco no estômago e fechei minhas mãos em punhos, tentei respirar sob toda pressão e vi meu dragão ter seus olhos dilatados. Onyx podia sentir o que eu estava sentindo no momento.

Onyx podia ver o que eu lembrava e, de alguma forma, me senti humilhada na frente daquele dragão.

— Eu vou com você.— Avisei para a vampira.

Admito que ainda era incapaz de entender uma grande quantidade de coisas, talvez infinitas até, porém minha mente não parava de questionar a quantidade de alegria e esperança postas dentro de um sonho que numa realidade tão infeliz, realizou-se. A que preço, porém? Ao tempo de descobrir que minha família era aquela que agora pertencia aos banidos das terras, a escória da sociedade, tão mais abaixo que minha própria raça.

Deixei meus olhos fitarem a vampira ainda que sem nenhum questionamento e no interior daquela tenda, cruzei meus braços sentindo meu dragão e talvez metade da minha alma do lado de fora. Meu coração se encontrava tão conturbado quanto minha mente e precisei encará-los, encará-la. Ela era a líder, mas ainda sim não parecia ser capaz de qualquer coisa.

Entretanto, dominava outros dragões.

— Quem é você? — Questionei quebrando o silêncio.

— Veridiana.— Dissera unicamente e revirei os olhos.— Sou a líder dessa rebelião.

— Rebelião? Vocês vivem escondidos, com medo do que tem do outro lado e chama isso de rebelião?

— Não, Caitlin, chamamos isso de cuidado. Enquanto estamos aqui dentro, sem causar alguma ameaça, os outros não entram ou sabem sobre nossos planos. Não estragam, não nos perseguem e tampouco tomam consciência dos inúmeros dragões que retornaram para o que era de direito deles, antes de outros como você os caçar, os banir.

— Outros como eu?

— DragonSlayer… Os famosos caçadores. Há quatro gerações atrás, vocês mataram, baniram, exilaram os animais que aqui habitavam. Todos pensavam que estavam mortos, que de fato não existiam, porém a grande explosão no céu os trouxera de volta. Descobrimos, então, que há um mundo cheio deles e que por mais que seu deus os criem diversas e diversas vezes, estão fadados a não sobreviverem a partir do momento em que não encontram a verdadeira conexão. A sua espécie não foi a única consagrada; os dragões trouxeram magia aos homens de uma infinidade que eles tampouco compreendiam e com isto, as raças surgiram e as maldições trouxeram outras mais. Quando desgostosos com o que fizeram a Valkyria, rebelaram-se contra tudo e todos e aqueles que tinham uma conexão com os dragões, revoltaram-se contra eles, tornaram negro seus corações, infiéis ao propósito, e quando sua alma torna-se negra, vazia, dotada de cobiça e impurezas… Seus dragões tornaram-se impuros. Assim foi fácil matar tantos outros, de uma vez só. E no final, mesmo sabendo da morte recebida, mataram os seus. Porque a corrupção existe por todo o tempo e o seres féericos e não féericos estão tão sujeitos a isto quanto vocês, humanos.

— Isso significa que todos sabiam da existência deles, mas ainda era incerto. Isso explica porque os elfos queriam tanto Onyx ao ponto de nos perseguir. Não entendo, contudo, como posso ser aquela que está fadada a matar meu único amigo até então.— Percebi, naquele momento, que Onyx era alguém cuja a mão eu jamais abriria. Ele era alguém para mim, ele tornou-se tão importante nesse par de dias em que ficamos juntos que não poderia deixá-lo ir.

— Ainda que seu coração seja puro, em algum momento irá se tornar negro. Você é aquela que está conectada com ele, você é quem precisava dele quando ele surgiu e de alguma forma, o dragão reconheceu isso em seu coração e quando percebeu, já havia lhe dado parte da sua vida e você idem. A grande questão aqui não é o que você vai se tornar, mas o que você já é. Você é a quinta humana com poderes compartilhados, com uma vida ligada ao único dragão que ousou fazê-lo. E representa, para os outros, uma ameaça que deve ser contida.

— E o que eu represento para vocês?

— A chave para uma vida mais justa.

— Não. Você quer dizer que sou a chave para que todos saiam dessa floresta e se tornem maiores que os féericos, e isso não é vida justa. É criar uma nova injustiça. Um novo legado de escravidão. E eu sei o que é escravidão, por isso não vou participar dessa guerra. Ela não é minha.

— Sua família já faz parte dela, não vê?

— Minha família não fará parte de nada. Demorei a encontrá-los e não vou deixar uma guerra de egos acabar por me fazer perdê-los outra vez.

— Você já perdeu, Caitlin. Sua mãe e sua irmã não conhecem outra vida senão esta. Outra realidade senão esta. E Onyx deve obediência ao seu líder, mesmo que você diga não, ele irá lutar e se você não estiver ao seu lado, esteja ciente de que quando o coração dele parar de bater, o seu também vai. Vocês são mais fortes juntos, resta saber se quer morrer agora ou se deseja fazer algo por todos de Valkyria.

Calei-me.

Todos os riscos foram apontados e de fato, Veridiana estava certa em algo: minha família era mais importante do que muita coisa para mim. Usá-la fora um golpe certeiro, porém ineficaz até que garantiu que Onyx morreria.

Ainda que uma parte minha estivesse negando, eu sabia e ela também: no fim, ela ganhou.

Girei meus calcanhares e empurrei o tecido da tenda, saindo de lá o mais rápido que eu podia em longos passos solitários. Apenas por um momento e apenas por hoje, eu precisava estar só para organizar meus pensamentos.

Notas finais
Para quem ainda não entendeu a implicidade no capitulo anterior e que talvez tenha ficado mais claro aqui: Em nenhum momento a Caitlin sabia que era uma Dragonslayer, ela simplesmente soube que precisava usar o título ao seu favor e o usou, do tipo: estou colocando banca, moral, mandando, em tudo aqui. E eu sei que a próxima pergunta a ficar na mente de vocês é: como o Onyx não sabia que ela era uma deles? Como ela não foi reconhecida? O mundo dos dragões é absolutamente mágico, ele se refaz, ele se recria como citado no capitulo, então é importante sabermos que nosso dragão tem seus motivos ou que ele simplesmente desconhecia. Dito isso, eu não entrarei em mais detalhes embora as dúvidas possam vir surgindo pois quero ir explicando as coisas aos poucos, de acordo com o andar da carruagem. Um beijo e já posso adiantar que temos um outro capitulo? hehe