Arisu
8 Capítulo 8: Dúvidas
Notas iniciais
Haruka olhou pasmo para o que estava à sua frente.
Os canteiros, sempre tão bem cuidados, agora estavam revirados, cavoucados, cheios de buracos, com as plantinhas verdes arrancadas, picadas, estragadas. Nenhuma sequer tinha escapado da destruição. O clube estava arruinado.
Jazia ao lado de um dos canteiros uma das pás do clube, suja de terra, que aparentemente havia sido usada para exterminar cada pequena forma de vida fotossintetizante do lugar. Então aquilo fora feito por alguém, com a intenção de estragar o lugar.
Arisu estava parado em frente ao canteiro de morangos. A cabeça abaixada e o ambiente escuro impediam Haruka de ver qual expressão ele fazia. O sangue do mais velho ferveu de raiva e preocupação. Quem faria uma coisa dessas?! Com que propósito?!
― Quem foi o... ― Falou ele agressivamente, quase soltando um palavrão alto. Mas foi impedido pelo pequeno, que segurou a barra da sua camisa. ― O que foi?
― Quero ir embora. ― Falou ele com a voz fraca.
― Mas...
― Só me tira daqui.
Haruka não reconhecia aquela frieza na voz do menino. Nunca o ouvira falar assim. A mão do pequeno tremia um pouco, mas ele não parecia chorar. De qualquer modo, era difícil tirar qualquer conclusão naquele ambiente escurecido.
Passou o braço pelo ombro do amigo, e gentilmente o conduziu até a saída da escola, preocupado. Mal continha sua ansiedade para ver o rosto do menino, mas Arisu mantinha a cabeça abaixada, inexpressivo.
Saíram da escola, e o pequeno deixou-se ser guiado por Haruka, sem dizer uma palavra. Caminharam durante um tempo, já estava bem tarde. Haruka não sabia para onde levá-lo. Andou aleatoriamente, esperando uma manifestação por parte do outro, mas sem obter resultados. Até que chegaram num parque infantil.
O lugar estava vazio, como esperado àquela hora. Gangorras e balanços jaziam sem vida, já que não havia crianças lá para se divertirem neles. Num canto, ao lado dos escorregadores, estavam alguns bancos de praças, provavelmente para as mães dos jovenzinhos os vigiarem de perto.
Haruka o levou até um banco, e fez o menino sentar-se. Lá estava um pouco mais claro, conseguia reparar nos traços dele; estava arrasado. Colocando uma mão na cabeça do amigo, perguntou baixo:
― Tudo bem com você...?
E finalmente uma gota salgada escorreu pelo rosto dele, depois de se controlar tanto. Antes que Haruka pudesse reagir de qualquer maneira, Arisu segurou sua mão e o fez sentar-se também, até com um pouco de brutalidade, e se jogou no ombro do mais velho.
― Ei... ― Haruka estava pasmo com a reação do menino.
― Era isso que você queria, não? ― Falou ele com voz de choro. ― Então, não tem do que reclamar! Só precisa fazer como da outra vez, me fazer esquecer tudo... É uma troca de favores, vantagens para os dois, não é?
Aquelas palavras atingiram com força o loiro. Como se tivessem o acertado com um martelo, Haruka sentiu a cabeça girar, zonzo e perdido. Nunca imaginou uma reação dessas do menino.
Devia estar feliz. Sim, era isso que ele sempre queria, buscava, tentava agarrar a todo instante. Mas por que se sentia tão mal? Por causa da reação inesperada? Pelo fato de Arisu estar o usando? Não, outras garotas já haviam ficado com ele pelo mesmo motivo, e ele nunca vira problema. Então por que isso?
Arisu se agarrou mais nele, puxando sua camisa, e tremendo um pouco. Haruka sentia o sangue ferver. Sentimentos rodopiavam, todos sem uma interpretação que fizesse sentido. Moveu suas mãos pela costa do garoto, o puxando com força, sem mais controlar seus impulsos.
Deixou os dedos deslizarem pelo cabelo castanho e macio de Arisu, puxando seu queixo e unindo os lábios. Sentiu o garoto tremer em seus braços, e avançou sedento por mais, movendo sua língua a explorar cada canto da boca do menor.
Arisu gemeu baixo, provocando inconscientemente o mais velho. Haruka o puxava mais ainda, agora para seu colo, pressionando suas bocas num beijo obsessivo, enquanto movia as mãos primeiro para a cintura dele, depois mais para baixo, apalpando tudo o que lhe vinha aos dedos.
Ele não encontrou resistência do menor. Tinha tudo o que queria em suas mãos. Tudo e mais um pouco. Mas a imagem do menino chorando lhe veio à mente, seguida da sensação estranha de quando ele pedira por tudo isso.
Sua adrenalina foi diminuindo, o coração bateu mais forte, dolorido. Sentiu os braços perderem a força, e se afastou devagar. O pequeno se enroscava em seu peito, ainda fungando um pouco. Haruka não sabia por que aquilo o perturbava.
Acariciou o cabelo castanho de Arisu devagar. Por que doía tanto...? Aproximou os rostos novamente, mas dessa vez o beijou delicadamente, ressentido.
Queria ser um pouco egoísta só agora. Queria ir embora, se trancar no quarto, sozinho com seus sentimentos feridos. Mas Arisu precisava dele, então Haruka não podia ceder aos próprios caprichos.
Depois de um tempo, o pequeno acabou por dormir com a cabeça encostada nos ombros de Haruka.
Naquele parque escuro, Haruka tinha muito sobre o que refletir. Ainda não conseguia interpretar corretamente os sentimentos novos que haviam aparecido. Arisu agora estava quieto, e sem ouvir o choro do menino, o loiro se sentia mais calmo, mesmo que só um pouco.
Ah, aquilo o confundia. Como explicar aquela sensação? Como definir? Qual o motivo de seu coração apertar a cada instante que sentia a respiração do companheiro e tocava sua pele clara? Ele tinha muitas dúvidas.
Por fim de levantou, segurando o menino no colo. E suspirando, dirigiu-se à sua casa, que não era muito longe dali.
Já era tarde, precisava de uma desculpa. Vagou calmamente pelas ruas vazias, dando tempo a si mesmo para pensar. Mas ao abrir a porta de casa ainda não tinha chegado a uma conclusão.
A mãe estava na sala de estar, com a televisão ligada.
― Haru-chan, finalmente chegou! Já estava preocupada... ― Ela virou-se para ver o filho ― Ora! O que está fazendo com o Arisu-kun?
― Oi mãe. Nós fomos até um karaokê e ele acabou dormindo... – Haruka já havia pensado na desculpa perfeita, e mentia com naturalidade – Como era perto daqui resolvi trazê-lo... Não tem problema ele passar a noite em casa, não é?
― Claro que não! Quer que eu prepare alguma coisa? ― Falou a mãe acreditando nele.
― Não, obrigado... Vou levar ele no meu quarto, ok?
Quando Haruka subia as escadas, ouviu a voz da mãe novamente.
― Você avisou os pais do Arisu-kun? ― Questionou ela.
― Não... Já vou ligar na casa dele.
Haruka foi até seu quarto, e deitou o menino na cama. Depois, sentando-se no chão e apoiando as costas no colchão, pegou o telefone e discou o número que já sabia de cor.
― Alô? Obaa-san? Aqui é o Haruka.
Ouviu pelo aparelho a resposta da mãe de Arisu.
― Haruka-kun! Boa noite. O Arisu está com você? Ele ainda não voltou pra casa...
― Sim, eu liguei pra isso. Nós fomos a um karaokê, e ele dormiu... ― Repetiu a mesma história. ― Então eu acabei trazendo ele aqui para casa.
― Ah, está explicado. Eu estava mesmo pensando que ele estava demorando...
― Não se importa dele passar a noite aqui, não é?
― Não, tudo bem. Obrigada por me avisar.
Ele se despediu e desligou o telefone com um clique. Então se virou para observar o pequeno que dormia em sua cama.
Mesmo Haruka tendo andado por todo aquele caminho e conversado com a mãe, o menino não acordara. Devia estar exausto... Provavelmente tinha estudado o dia inteiro, Haruka sabia como ele era esforçado.
Estava um pouco curioso. Apesar de Arisu estar ali, deitado, indefeso, Haruka não sentia vontade nenhuma de tocá-lo ou beijá-lo. O que normalmente não aconteceria, claro. Em qualquer outra oportunidade ele aproveitaria a chance sem pensar duas vezes. Pelo menos tinha sido assim até agora.
Moveu seu foco em direção às mãos do outro. Em contraste com a pele macia do rosto, essas eram duras e calejadas. Obviamente, de tanto trabalhar no clube, concluiu Haruka. Ele tocou-as levemente, sentindo com o tato cada curva, linha e forma.
Haruka sabia o quanto o menino trabalhara naquela horta. Sabia o quando ele se esforçara, o quando amava o que fazia. Era um apaixonado. Dedicado, bondoso, habilidoso. Haruka sabia de tudo isso.
Certamente o menino estaria arrasado no dia seguinte. E ele não tinha idéia do que fazer para ajudá-lo. A impotência o atormentava. Espera, estava tentando ajudar alguém? Não era seu hábito. Sentia-se tão estranho...
Suspirou, levantando-se e abrindo o armário, de onde tirou um futon, e o estendeu ao lado da cama. Jogou-se nele em seguida, logo após ter apagados as luzes. E fechou os olhos, com a certeza de que não conseguiria dormir nem um pouco naquela noite.
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