Arisu
9 Capítulo 9: Haruka
Notas iniciais
Haruka ouviu um som de movimento no quarto, e abriu os olhos um pouco perdido ― passara a noite inteira em claro e só quase ao amanhecer cochilara um pouco.
Arisu estava sentado na cama dele, o olhar um pouco vago, mirando não se sabe o quê. Ao perceber que Haruka havia acordado se recompôs rapidamente.
― Desculpe sempai, eu te acordei? ― Perguntou com educação.
― Não, já estava na hora mesmo... ― Respondeu Haruka checando um relógio em cima da sua escrivaninha.
― Ah é...?
O menino se levantou, deixando a cama de lado, e procurando um espelho para tentar ajeitar o cabelo castanho todo bagunçado. Haruka observava cara movimento dele intrigado, e Arisu tinha plena noção disso.
― Você tá legal? ― Perguntou o mais velho depois de certo tempo.
Arisu sabia exatamente o que Haruka estava pensando. Suspirou baixo e virou-se para o sempai com um enorme sorriso.
― Estou ótimo, não se preocupe! Ahn, obrigada por me deixar passar a noite aqui... E por ontem também...
Ah, como Arisu estava envergonhado. Não conseguia acreditar no que havia feito na noite anterior. Tentava disfarçar toda a vergonha naquele sorriso simpático.
Haruka olhava para ele um pouco desconfiado. Achava que o menino ainda estava triste, só que tentava esconder. Mas Arisu não demonstrou estar chateado. Por fim, também se levantou, e atirou a camisa do pijama de lado para poder se vestir.
― Sempai, preciso passar na minha casa pegar algumas coisas... ― Comentou o menino. Como havia dormido lá sem mais nem menos, estava sem seu material da escola e o uniforme.
― Certo. Vamos tomar café e eu vou com você até lá.
Haruka emprestou uma roupa para o garoto, que ficou um pouco larga e comprida, e os dois saíram do quarto, descendo as escadas em seguida. Chegando ao andar de baixo, uma bela jovem saiu da cozinha e cumprimentou os dois. Arisu arregalou os olhos.
― Bom dia! ― Disse ela com um sorriso e um sotaque estranho.
― Bom dia. ― respondeu Haruka com desinteresse.
― Ahn... ― Resmungou o pequeno confuso, diante da mulher que vira com Haruka na noite anterior.
O mais velho finalmente percebeu a confusão do outro.
― Essa é Berta, uma prima da Alemanha que veio conhecer o país. ― Explicou ele ― Ontem eu estava mostrando uma festa tradicional aqui do Japão para ela.
Ao ouvir isso Arisu corou um pouco, e olhou arrependido para moça.
― Sempai... Sinto muito! ― falou sem jeito.
― Por que isso agora? ― Haruka não entendia.
― Ahn... É que eu... Pensei coisas ruins sobre você! Não devia tê-lo julgado!
― Como é que é? ― O mais velho ainda parecia um pouco confuso. Depois sua expressão foi se abrindo, compreendendo a situação. ― O que foi que pensou sobre mim?
Arisu ficou ainda mais envergonhado com a pergunta.
― Que era um safado pervertido e aproveitador... ― Sussurrou quase inaudívelmente.
― O quê?
― Ah, esquece!
O menino suspirou aborrecido e foi andando a passos largos até a porta.
― Sempai se apresse se não vamos nos atrasar.
― Mas o que foi isso? ― Falou Haruka reclamando, mas com um sorriso divertido no rosto.
Os dois passaram na casa do garoto antes de seguir para a escola. No fim das contas, tinham acordado cedo mesmo, portanto não tiveram muitos problemas com o horário. Chegaram até um pouco adiantados em frente ao portão.
― Eu vou até o clube. ― Avisou Arisu ― O resto do pessoal já deve estar lá, vou dar uma ajuda enquanto a aula não começa.
― As atividades do clube não são só à tarde?
― Não, nós costumamos revezar para regar os jardins de manha, então acho que provavelmente todos já estão sabendo...
― Hum... Ok, vou com você.
― Mas sempai, você não tem que ir também ao seu clube?
― Não, não, só treinamos nos intervalos e depois da aula.
― Ahn...
― Pare de frescura e vamos logo.
Antes que Arisu pudesse responder, Haruka o levou até o clube, conduzindo-o enquanto segurava um de seus braços. O mais velho exibia uma expressão que o pequeno desconhecia, firme e determinada, mas ao mesmo tempo um pouco receosa. Arisu tentava decifrá-la ainda quando finalmente chegou ao clube.
Os outros integrantes já estavam lá. Junko levantou os olhos para ele, percebendo-o primeiro que os outros. Então fez um sinal para o presidente do clube.
― Arisu-kun... ― Falou Kenji com um olhar tristonho.
Novamente, quando Arisu abaixou a cabeça, Haruka achou que ele iria chorar. Mas logo o menino a levantou novamente, mantendo uma expressão controlada.
― O que aconteceu aqui? ― Perguntou sério.
― Não sabemos. ― Junko respondera no lugar do presidente. Encarava Arisu, apoiada numa pá que ela antes estava usando para limpar os canteiros. ― Alguém invadiu a escola durante a noite e destruiu o clube.
― Arrombaram o armário de equipamentos e usaram as pás pra estragar tudo. ― Completou Kenji. ― Ainda não sabemos se foi um aluno ou um vândalo.
Kaede, que estava num outro canteiro, largou a pá que tinha em mãos e sentou no chão caindo no choro. Junko também logo largou a sua pá e correu para o lado da amiga, tentando consolá-la.
― Calma, Ka-chan... Vai ficar tudo bem. ― Falou a garota envolvendo a menina num abraço amoroso. Haruka não conseguiu controlar um pensamento malicioso enquanto observava aquela cena.
― Como alguém pôde fazer isso? ― Falou a menina ainda chorando. ― É... Muita maldade...
Arisu também foi ao lado da menina, e se agachando juntos às duas, falou com uma voz meiga.
― Não se preocupe... Vamos replantar tudo, né?
Kenji se aproximou mais de Haruka, com o rosto sério.
― Tem certeza de que não sabe quem fez isso? ― Perguntou o loiro num tom que só o presidente poderia escutar.
― Não... Mas eu encontrei isso.
Abriu a mão mostrando um chaveiro com uma joaninha cor de rosa, que estava arrebentado, e um pouco sujo de terra.
― Estava caído junto com as pás que usaram. Perguntei para as meninas se era de alguma delas, mas não é de nenhuma.
― Hum... ― Resmungou Haruka enquanto Kenji lhe passava o objeto.
Arisu caminhou para perto dos dois, agora que Kaede parecia mais calma. Quando chegou ao lado do Haruka, reparou no pequeno chaveiro na mão dele.
― Ah, isso é da Rika-san! ― Falou surpreso ― O que você está fazendo com ele?
Haruka arregalou os olhos, exibindo um brilho maldoso que apenas Kenji percebeu.
― Tem certeza disso? ― Perguntou num tom macabro.
― Sim... Eu reparei porque ele é muito bonitinho, e até perguntei pra ela... Ela disse que ganhou da mãe, que trouxe dos Estados Unidos.
― Ah é...? ― A expressão de Haruka estava assustadora.
― Mas por que você está com isso sempai? ― Arisu ainda não desconfiara de nada.
Kenji foi mais rápido.
― Eu encontrei isso hoje cedo na entrada da escola, e estava perguntando se Haruka-san sabia quem era o dono.
Haruka lhe enviou um olhar de aprovação.
― Ah, entendi... Quer que eu devolva? ― Perguntou o menino ― Ela está na minha sala mesmo...
― Não, pode deixar que eu faço isso. ― Respondeu o presidente com um sorriso. ― É melhor você já ir para a sua sala, a prova já vai começar. Depois das aulas nós nos reunimos pra discutir o que fazer.
― Certo... Bom, então vou indo. Até mais Kenji-sempai, Haruka-sempai.
Ele também se despediu das meninas e correu para a sua sala. Kenji virou-se para Haruka, encarando-o seriamente.
― O que está planejando? ― Perguntou num tom acusativo.
― Nada... Só vou ensinar uma certa garota que ela não deve se meter comigo...
O presidente soltou um suspiro.
― Não vou me responsabilizar por isso.
― Nem precisa, não vou envolver você ou qualquer membro do clube. Posso ficar com isso? ― Gesticulou mostrando o chaveiro.
― Claro... ― Kenji deu alguns passos pegando sua mochila. Depois se voltou para Haruka, dessa vez com a expressão um pouco mais branda. ― O Arisu-kun é tão importante assim para você?
― Sim, é. ― Aquele tom só significava uma coisa: determinação.
― Pois bem... Não exagere, viu?
― Claro, claro...
O presidente se despediu e rumou para a sala de aula, deixando Haruka sozinho ― as garotas já haviam ido embora também. A mente do loiro fervilhava com idéias maldosas e vingativas, tanto que ele não conseguia mais disfarçar sua expressão de ódio.
Ela iria pagar.
...
Arisu cumprimentou Rika ao entrar na sala, mas não obteve nenhuma resposta. Porém, inocente do jeito que era, achou que a menina só estava preocupada com as provas e não prestara atenção nele.
Quando a aula finalmente acabou, ele correu para o clube, e Haruka foi até a sala do menino, onde as garotas ainda estavam enrolando e batendo papo.
― Ei! ― Chamou ele por Rika, com uma expressão ameaçadora no rosto.
― O que foi? ― A menina já estava na defensiva.
― Quero conversar. ― Depois olhou para as amiguinhas dela. ― Em particular.
― Estou ocupada. ― Respondeu simplesmente a menina.
― Você vai vir, nem que seja à força.
Ele segurou um dos braços dela, e a menina soltou uma exclamação alta.
― Nós vamos chamar um professor! ― Avisou uma das garotas.
― Podem ir. ― Resmungou Haruka indiferente.
― Espera, eu vou falar com ele... ― Finalmente Rika se pronunciou.
― Ah, assim fica mais fácil. Vamos.
Ele apontou a porta, e a menina ainda teve tempo de lançar um olhar para as amigas, que dizia claramente: “não se metam”.
Os dois foram até outra sala vazia, onde ficavam as impressoras da escola.
― O que é que você quer? ― Falou a menina de modo grosseiro. ― Não tinha me dado um fora na semana anterior?
Haruka tirou o pequeno chaveiro do bolso.
― O que é isso? ― `Perguntou acusando-a.
Rika arregalou um pouco os olhos, e deu um passo para trás. Por fim, engolindo em seco, respondeu:
― Nunca vi isso.
― É mentira.
― Afinal, do que é que está me acusando?!
Haruka a empurrou para a parede, e a prendeu colocando um dos braços no seu caminho. Aproximou o rosto bem devagar, os olhos faiscando para ela.
― Estou te acusando de brincar com o MEU Arisu.
―Me solta!
― Eu te avisei. ― Continuou ele. ― Avisei que não era pra mexer com ele. Agora eu vou transformar sua vida em um inferno.
― Está me ameaçando? Quem você pensa que é?!
Ele a apertou mais ainda contra a parede fria.
― Não banque a boazinha. Eu sei bem que você subornou o professor de matemática para ganhar nota. Também sei que foi você que espalhou os boatos sobre os problemas do casamento da diretora. Sem contar com o incidente com o clube de jardinagem.
Agora a menina estava apavorada e olhava para ele com os olhos arregalados. Seu rosto perdera aquele tom delicado e agora estava disforme numa expressão de medo.
Como aquele homem poderia saber de tudo aquilo... Não, ele não faria isso... Só podia estar blefando...
― Você não tem provas. ― Comentou a menina suando frio.
― Está duvidando? Fique sabendo que não vou medir esforços pra isso.
Haruka já tinha tudo o que precisava. Aparentemente ele não era o único na escola que não gostava da menina. Alguns garotos da sala dela contaram com um sorriso maldoso o que ela havia feito com o professor. A informação dos boatos obtivera com uma “amiga” da garota, durante o intervalo. A menina contou tudo de bom grado em troca do telefone do sempai.
Ele tinha tido tempo durante a noite para pensar em tudo que estava o confundindo. Por fim, achava que havia chegado a uma conclusão. E agora que tinha essa certeza, mais ainda que não deixaria brincarem com o coração de Arisu.
Depois de muito refletir... Não, antes até já considerava o menino alguém precioso. Era verdade que tinha começado tudo aquilo apenas por brincadeira, pois apreciara a aparência dele. Mas, com o passar do tempo, percebera que a personalidade do garoto era tão fascinante quando seus traços incomuns.
E então, obtivera sua resposta. Havia tido muito trabalho, claro, afinal era uma sensação ainda desconhecida. Mas já acabara a sua indecisão. E, portanto, decidido algo, não tinha por que esperar nem mais um instante para tomar providencias.
Começaria tirando ela da vida de Arisu.
A menina tremia. Ele se aproximou mais ainda, os olhos faiscando para ela, amedrontadores.
― Entendeu o que eu quis dizer...? ― Perguntou maldosamente.
Rika não respondeu. No entanto, num movimento brusco, conseguiu se desvencilhar dele, e mais do que rapidamente, disparou para a porta, tentando escapar do seu agressor. Só que, como esperado, Haruka foi mais rápido que ela, e ao cruzar a porta e sair no corredor, ele a agarrou ainda mais bruscamente pelo braço, fazendo a menina soltar uma exclamação de dor.
― Sempai, o que está fazendo?!
Haruka parou no meio de um movimento de puxar novamente a garota para a sala, e olhou para o corredor aparentemente vazio, em busca da voz que gritara. Arisu, que estava lá parado, carregando algumas caixas do clube, olhava para ele horrorizado.
O loiro arregalou os olhos, confuso, e sendo tomado por um calafrio apavorante. O menino não podia descobrir o que estava acontecendo! Não! Ele com certeza ficaria magoado!
Rika, percebendo a indecisão do outro, escapou novamente e correu para o lado de Arisu.
― Arisu-kun, me ajude... Ele começou a ficar violento de repente! ― Sua atuação era tão perfeita que qualquer um mais desconfiado que Arisu acreditaria facilmente.
― Sempai!
O calouro o encarava, procurando uma explicação para aquela atitude inesperada. Apesar de todos os defeitos, Haruka não era uma pessoa ruim, Arisu não conseguia entender o motivo daquele comportamento do amigo.
― Não... Não é o que parece... ― Engasgou-se o loiro, afinal conseguindo falar.
― Então se explique. ― Arisu falou frio.
Ah, aquela piranha. Haruka queria voar no pescoço dela, mas dada a situação, seria impossível. Se tivesse só uma chancezinha...
― Arisu-kun... Me ajude, por favor... ― Suplicou a menina, fazendo a cara da pessoa mais indefesa e inocente do mundo.
― Rika-san, é melhor você ir... ― Falou Arisu gentilmente para ela, o que deixou Haruka furioso. ― Eu vou falar com ele.
― Certo...
A garota se afastou, e quando Arisu tirou os olhos dela, a menina lançou um olhar maldoso e debochado para Haruka. Depois virou-se e tratou de sair de lá rapidamente.
― E então? ― Perguntou Arisu acusando-o. O menino esperava pelo menos uma explicação plausível.
Haruka estava irado com a garota, e num impulso de raiva, respondeu seco:
― Ela merecia.
Isso deixou o menor bravo, porque antes estava confiando no mais velho, mas ele se mostrara insensível e não dera um motivo razoável. Moveu-se irritado, aproximando-se mais de Haruka, já pronto para discutir.
― Por que odeia tanto ela?!
Haruka se deu conta da besteira que falara. Agora Arisu estava furioso com ele.
― Não posso te contar... ― Respondeu tentando evitar magoá-lo.
― Como assim não? Você não disse que éramos amigos?! Eu não vejo motivos para essa sua atitude!
“Ah, droga, droga! Como isso fora acontecer?! O que falar? Droga!” o mais velho encolheu-se, tentando arranjar uma resposta boa.
― Responda!
― É porque eu gosto de você, droga!
Aquilo escapara, sem ele mesmo ter controlado as palavras.
Arisu mudou sua expressão raivosa para uma confusa. Arregalou os olhos tentando entender. Haruka percebeu o que acabara de dizer, e recuou perdido entre arrependimento e medo.
― Sim... Eu gosto... ― Sussurrou dessa vez a confissão.
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